1 em Autoestima/ Relacionamento no dia 21.01.2019

O que perdoar significa em um relacionamento abusivo?

Há duas semanas escrevi um texto aqui para o blog sobre os relacionamentos abusivos. Falei bastante sobre como identificar se você está vivendo esse tipo de relação. Hoje quero aprofundar um pouquinho mais essa nossa conversa. E quero trazer um tema muito importante (e bastante delicado) para quem vive ou já viveu um relacionamento abusivo: o perdão.

Antes de seguirmos, quero pedir que você leia com mente e coração abertos. Existem muitos mitos sobre o perdão, que pretendo desconstruir aqui. Mas também quero deixar claro que você não é, nem nunca será obrigada a nada. Combinado?

Uma coisa que torna o perdão tão desafiador é o fato de acreditarmos que perdoar é esquecer. É praticamente impossível esquecermos as profundas feridas causadas por um relacionamento abusivo. Particularmente, acredito que não devemos esquecê-las. Essas experiências fizeram parte da nossa vida e devemos honrar a nossa jornada, por mais difícil que ela possa ter sido.

Perdoar também não é relevar o que aconteceu.

Muito menos ser conivente com a violência. Ou permanecer se sujeitando a ela. Ou dar permissão à pessoa que nos feriu para continuar fazendo isso. Seja conosco ou com outras pessoas.

Tendemos a acreditar que o outro nunca merecerá o nosso perdão, como se assim ele estivesse sendo punido pelos erros que cometeu. Mas a verdade é que o perdão não é para o outro.

Perdoar é um gesto curativo e de libertação para nós mesmas.

Você já se machucou alguma vez na vida, certo? Já teve uma ferida física que deu uma casquinha, depois cicatrizou e por fim, curou. Correto? E o que acontece quando você tira a casquinha do machucado? A ferida revive. Ela fica aberta, sangra e o processo de cicatrização deve ser reiniciado. E se você tirar a casquinha toda vez que ela começar a se formar? Nunca será possível se curar definitivamente do machucado. Podendo até mesmo haver complicações muito mais graves e dolorosas.

Com as nossas feridas emocionais o processo é exatamente o mesmo. No meu ponto de vista, quando não perdoamos, nunca podemos concluir o processo de cura. Permanecemos eternamente presas à situação que nos causou dor. Revivemos diariamente as situações difíceis, deixando abertas feridas que perpetuam nossa dor ao longo da vida.

O tempo físico passa, mas, emocionalmente, acho que permanecemos presas ao passado. Revivendo continuamente a mesma experiência. Impedindo que nossa vida siga seu fluxo e que novas energias tenham espaço dentro de nós.

Sei que pode parecer um contrassenso. sSi que talvez possa parecer que para perdoar é fundamental reviver o passado e isso sim trará dores desnecessárias. Mas não é bem assim.

Analisar nossos relacionamentos abusivos não é revisitar o passado gratuitamente.

É uma oportunidade de transformar nossos padrões de comportamento, levando-nos a atrair relações amorosas e afetivas mais saudáveis. Não mais dentro do sistema de codependência do qual falei no outro post. Lembrando que, sempre que possível, é aconselhável que esse processo seja acompanhado por profissionais. Pessoas aptas a nos dar o suporte adequado nessa jornada de autoconhecimento.

Quase sempre nós temos um papel que nos prende às relações tóxicas. Ele não é consciente e nem nos transforma em culpados. É importante dizer que nosso intuito aqui não é apontar vítimas ou culpados. Quero mais é fortalecer o senso de autorresponsabilidade, que coloca em nossas mãos a capacidade de reassumir as rédeas de nossas próprias vida, com segurança e autoconfiança. Quando nos damos conta disso, temos a oportunidade de repensar todo nosso processo de desenvolvimento pessoal. E nos colocamos em um lugar de protagonismo e liderança de nós mesmas.

A verdade é que quando descobrimos o que nos fez passar por isso, passamos a poder cuidar da nossa autoestima de perto.

ilustra: Ju Ali

Nos possibilitando uma jornada de autoconhecimento que trabalha nossa autoconfiança, autovalorização e tantas outras percepções equivocadas que costumamos nutrir sobre nós mesmas nas relações tóxicas.

Por outro lado, quando tentamos fechar os olhos para as feridas do passado, elas permanecem abertas dentro de nós. Dessa forma, tenderemos a repetir as situações que tanto queremos evitar. Ou então espelharemos as mágoas e dores, causadas pelas feridas antigas, nas novas relações. Ou, ainda, fechamo-nos completamente para novas experiências, com medo de que aquilo que nos fez sofrer aconteça novamente.

Consegue compreender como perdoar sempre é, e sempre será, sobre nós? A consequência de não perdoar o outro pesa em nós. Em continuar mantendo uma ferida aberta, sendo que a dor que isso causa é nossa!

Perdoar, nesse caso, não é um presente pra parte abusadora. nem mesmo cria espaço pra essa pessoa na sua vida. Perdoar o outro é cicatrizar todas as feridas dentro de nós.

>>>>> Ouça também: Perdoar pra quê, do Mamilos Podcast. <<<<<<

Perdoar não é premiar o passado, é trazer paz. 

Já que estamos falando sobre nós, muitas vezes, a pessoa que mais precisamos perdoar nessa história somos nós mesmas. O autoperdão tem um papel curativo fundamental em nossas vidas. É ele que permitirá que nós nos acolhamos com amor, compreendendo que não temos que nos culpar, nem nos punir pelas histórias de sofrimento em que vivemos. O autoperdão nos faz lembrar de que somos dignas e merecedoras de amor e coisas boas.

Quando conseguimos perdoar, a nós mesmas e aos outros, desatamos o nó energético que nos prende ao passado. Nos abrimos para novas histórias e experiências. Deixamos de ser reféns do que aconteceu e começamos a reescrever uma nova história para nossas vidas, honrando os ensinamentos de Carl Gustav Jung que disse: “Eu não sou o que aconteceu comigo. Eu sou o que escolho me tornar”. Assim, nós nos tornamos capazes de seguir em frente com a leveza, a liberdade emocional e a paz que tanto queremos e merecemos.

Então, se você se sentir preparada e conseguir, deixe ir, cuide de você. Abra-se para as infinitas possibilidades que você pode construir com o seu amor.

Você merece ser feliz. Você merece ser amada. E principalmente, você merece o seu próprio amor. Nossa responsabilidade de melhora é conosco. Não temos o poder de mudar o outro, só ele tem. Podemos nos dar quantas chances quisermos de nos transformarmos e mudarmos nossos padrões. O perdão é não é um prêmio pra quem errou, é um presente para nós mesmas. Perdoar não é fácil, não é obrigatório e nem mesmo simples, mas é libertador.

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1 Comentário

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    Gabi
    21.01.2019 às 15:50

    Obrigada por esse texto. Preciso perdoar alguém. Uma dor que me destruiu e me acompanha por mais de 3 anos. Sempre esperei por uma resposta do outro para conseguir perdoar deixar ir, mas sei que ela nunca virá. Vou ler esse texto umas varias vezes para, finalmente, me desprender disso. Ah! E a arte da Ju, como sempre, está maravilhosa!

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