0 em Autoestima no dia 28.11.2018

Mês da Consciência Negra: Superando o racismo e ocupando os ambientes

Em um dos eventos que estive nesse ano, fora do estado, percebi uma genuína surpresa de algumas pessoas depois que ouviram o meu relato sobre algumas situações de racismo que já passei. Logo após vinha a pergunta: “Mas você não mora em Salvador? Existe isso lá?”.

Bom, não é novidade para quase ninguém que essa cidade é a capital mais negra do país. Soma-se isso ao mito da democracia racial que ainda permeia no inconsciente coletivo brasileiro, e temos esse tipo de questionamento.

Todavia, a realidade é que existe sim racismo em Salvador. Talvez essa cidade seja um dos melhores locais para perceber as estruturações dele. É aqui que as separações econômico-sociais entre brancos e negros ficam evidentes: a classe média e alta é composta predominantemente por brancos e a baixa, por negros.

Pois bem, é agora – depois dessa introdução – que me apresento: Sou Lílian, negra e sempre vivi em ambientes de classe média (ou seja, brancos). E antes de tudo já adianto: não é fácil, não mesmo!

Ser negra de pele escura e crescer em ambientes brancos, especialmente as escolas, é contraditório. Você percebe desde cedo que não é igual aos seus colegas, que suas experiências naquele mesmo ambiente são diferentes. Mas demora um pouco para entender que é a sua negritude o motivo disso. Sabe por quê? Porque não há nenhum interesse, nem vontade de se falar em negritude nesses ambientes! Consegue perceber a ironia (no mínimo) de não se falar em cultura negra em um colégio em Salvador? Pois é!

– Ah, Lílian, a escola não tem como função falar racismo. Escola é para aprender matemática, português e geografia.

Bom, nem entrarei na importância de conhecer minhas origens. Ou qual foi a cor que produziu a riqueza pro país na maior parte de sua história. Vou me deter a exemplificar em como isso me afetou.

Apesar de não falarmos sobre negritude, aprendemos desde cedo que racismo é feio e errado. Mas aprendemos através da figura representada em filmes e novelas: uma pessoa malvada, cruel, que chama de macaco e joga banana. Lamentavelmente ainda existem pessoas que se encaixam nesse estereótipo. Mas provavelmente não será assim que se dará o contato de uma criança negra com o racismo.

Quando não entendia (ainda) que amar minhas tranças era uma forma de resistir

Quando não entendia (ainda) que amar minhas tranças era uma forma de resistir

Acontece através de um bilhete que lhe escolhe como a menina mais feia da turma.  No meu caso, eu e outra menina dividimos esse “troféu”. Não foi coincidência que éramos as únicas negras da turma. Acontece com piadas sobre o seu cabelo ou nariz. Acontece na dúvida sobre sua inteligência e – alguns anos depois – com a hipersexualização do seu corpo.

Ou seja, é um tanto mais sutil do que “apenas” ser chamada de macaca. Mas também é mais profundo, pois mina a nossa auto-imagem e autoestima desde crianças.

>>>>>> Veja também: Eu Sou <<<<<<

Tudo isso são manifestações de racismo. O total desconhecimento sobre a construção e imagem do negro no Brasil faz com que a gente demore pra perceber isso. Eu e muitas meninas demoramos pra entender que ter um cabelo diferente não nos faz pior. Que nossa pele não é difícil para elaborar maquiagens. Ou que não precisamos usar pregador de roupa no nariz para tentar afiná-lo.

Infelizmente nada do que citei acima é exclusivo de meninas que estudaram/ vivem em ambientes brancos, mas isso é: a sina de ser sempre a única. Talvez, seja uma das manifestações mais cruéis do racismo, a de você não se reconhecer em nada ao seu redor, ser diferente de todos e igual a ninguém… Eu, Lílian, cresci sem me reconhecer na minha escola, no meu bairro, no cinema. Nem nos programas infantis. O único lugar que tinha mais pessoas parecidas comigo era na minha família.

A saída relaxante ao cinema, festas ou qualquer outro evento mais luxuoso pode se tornar algo bem desconfortável, intimidador. Como se aquele ambiente não te pertencesse. Onde surge o conflito interno entre “eu mereço e posso estar nesse ambiente” com o “socorro, quero voltar pra casa”. Se você nunca reparou nessa “síndrome do negro único”, faça um teste. Observe quantos negros existem no seu escritório, e desses, quantos estão em posições de comando e quantos estão limpando o chão.

No fim, após respirar fundo e chorar escondida diversas vezes, o “eu mereço e posso estar nesse ambiente” vai vencendo.

Vamos ocupando os lugares que não foram criados para nós. Vamos encontrando outras negras e segurando as mãos umas das outras para derrubarmos as barreiras que foram impostas há séculos. E, o mais especial, vamos cuidando para as que estão vindo atrás de nós tenham um caminho menos doloroso.

>>>>>> Veja também: Eu, negra, na Alemanha <<<<<<

Por isso que hoje não aceitamos mais marcas que não coloquem modelos negras em seus portfólios, ou linhas de maquiagem que “esquecem” de ter tons para nós. Não se trata apenas de uma campanha ou uma base, e sim de abrirmos e ampliarmos os caminhos, de sermos vistas e respeitadas.

Ser a única negra em locais brancos é difícil, ainda que seja em Salvador. Há um preço a se pagar em ser pioneira, mas pagamos e continuamos. E por terem aberto e ampliado os caminhos, agradeço desde minha avó à Oprah Winfrey. De Sueli Carneiro a MC Sophia e tantas outras negras famosas e anônimas que respiraram fundo e ocuparam espaços.

Ubuntu!

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