2 em Comportamento no dia 21.11.2018

Semana da Consciência negra: o seu melhor amigo é uma pessoa boa. Mas é racista.

Começarei a escrever esse texto com algumas informações. O Brasil é o segundo país com a maior população negra do mundo (atrás apenas da Nigéria). No entanto, apenas 12,8% dos negros estão dentro de universidades – sim, depois das cotas.

Por outro lado, 64% da população carcerária é negra. O feminicídio branco, desde a edição da lei que tipifica o crime, diminuiu algumas porcentagens, enquanto o feminicídio negro aumentou (e continua aumentando). Homens negros e jovens são os que mais morrem dentro desse país que chamamos de Brasil (a taxa é de 71%).

Perceberam os números? Apesar deles, perdi a conta (e as estatísticas) de pessoas que dizem: “Fulano é ótima pessoa, marido exemplar, alguém que conheci a minha vida inteira, sabe? Ele não é racista”.

Esse tipo de frase é apenas problemática porque a resposta a ela é muito difícil de se ouvir. As pessoas, em geral, tendem a ver as coisas em apenas dois tons; ou alguém é completamente mau ou bom com todo o coração. É difícil explicar que alguém pode ser gentil com você e, ainda sim, ser um agressor para o outro.

Igualmente difícil é explicar que o racismo é uma agressão.

Outro dia vi uma reportagem de uma mulher gritando obscenidades racistas para um homem negro. Isso, certamente, é racista. Agredir verbal e fisicamente é racismo. Mas não é só isso.

Também é racista aquela novela que não tem um único negro em seu elenco. É racista o olhar desconfiado que um preto recebe sempre que entra em um elevador. A porta que se tranca é racista. As perguntas despretensiosas (e incomuns) são racistas.

O movimento negro nos Estados Unidos passou por muitas fases, líderes e presidentes. O começo da jornada focou (e não poderia ter sido diferente) na identidade. Foi a explosão do movimento black power, caracterizado pela libertação do cabelo black.

A questão aqui é só uma: esse movimento não serviu para dizer aos brancos que nós existíamos – no fundo, no fundo, ele nasceu para mostrar aos pretos que não há nada de errado em ser preto. Para que pudéssemos demarcar nosso espaço entre a branquitude, precisávamos, antes de tudo, nos reconhecer como negritude.

foto: Nicholas Bui

foto: Nicholas Bui

A cultura negra é alvo. Sempre foi.

Não estamos na mira apenas quando você cospe na nossa pele – estamos sendo alvejados cada vez que uma criança negra deixa de brincar com uma boneca preta porque elas não são produzidas. Toda vez que uma adolescente preta deixa de explorar a maquiagem porque não há base específica para o seu tom de pele.

>>>>> Veja também: vamos falar de feminismo interseccional? <<<<<<

Sempre que uma mulher preta é preterida – passa de melhor amiga engraçada para a amiga bonita (para o outro)-, e acaba se tornando a última a beijar, namorar ou casar. Você sabe por que eu estou dizendo tudo isso? Porque o racismo é um tique. Se você abrir o olho, você verá racismo. Em. Todo. O. Lugar.

Na televisão, na rua, na rádio… Até no dicionário. Eu posso sentar e apontar o racismo em tantas coisas quanto você me pedir, e nunca vou acabar. O racismo está no olho de quem vê mas principalmente na cortina de quem não vê. Está lá fora e é tão doloroso, tão pungente, que muitas pessoas preferem parar de notar.

Você sabe por que estou te dizendo tudo isso?

Porque é enervante e absolutamente decepcionante que você não reconheça o racismo naqueles que você ama.

Se você não está disposta a ver, também não estará disposta a ajudar essas pessoas a enxergarem, a adquirirem o tique. Elas vão continuar a reproduzir o que elas têm (o que elas conhecem, racismo) e você vai continuar ignorando as reproduções sob o pretexto da bondade dos corações.

privilegio-branco

O ciclo continuará por conta do seu amor – o mesmo amor que deveria ser transformador, será apenas reprodutor. Reprodutor de racismos. Ei, o racismo não é uma doença. Nadinha.

Se eu fosse tentar definir o racismo em uma metáfora, o chamaria de máscara de proteção. A doença não aparece quando você usa (o racismo). Aparece apenas quando você é pedante o suficiente para dizer que não é (racista), e não veste (o racismo).

Com a máscara, percebemos o problema. Percebendo que o meu melhor amigo branco é racista, eu me informo, o informo, e espalho a solução, que é essencialmente antirracista. Sem a máscara, há mortes. O chão permanece inteiro manchado de preto.

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2 Comentários

  • RESPONDER
    Andréia
    21.11.2018 às 15:26

    Sou de descendência negra e, apesar do texto ser bem legal, nunca senti todo esse preconceito na minha vida. Certas coisas, como as cotas por exemplo, até me incomodam um pouco, porque me fazem sentir menos capaz do que os outros. Sei lá, é uma questão de ponto de vista.

    • RESPONDER
      Rosana
      22.11.2018 às 16:32

      Em relação às cotas, para não sentir-se incapaz é só tentar enxergá-las como um caminho diferente mas não menos legítimo que leva ao mesmo lugar. É bom lembrar que o cotista passa pela mesma avaliação que os outros. A sua avaliação não é mais fácil, ou seja, segue os mesmos critérios; apenas um quantitativo das vagas é reservado para os tais. Sou negra e apesar de ter estudado em uma universidade pública sem ter sido cotista, sou totalmente a favor das cotas. Que venham as cotas e não apenas para as universidades!

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