3 em Sem categoria no dia 23.10.2018

Vamos falar sobre feminismo interseccional?

BOA TARDE, MINHAS CONSAGRADAS. A Carla fez um post querendo saber mais sobre feminismo interseccional lá no grupo do Papo e me chamaram para participar. Passei o banho inteiro pensando na melhor forma de abordar esse tema. A má notícia é que não achei uma melhor forma. A boa notícia é que eu vou falar mesmo assim. E a outra boa notícia é que falei não só lá no grupo, como vou falar aqui no blog também.

Não há uma fórmula, nem uma receita específica para ajudar as parças de movimento. Mas, para ficar didático, eu vou deixar de lado as referências bibliográficas e falar um pouco do que sinto e vejo. Tá bom? Então tá bom.

1) RECONHECER QUE O FEMINISMO É PLURAL E O FEMINISMO INTERSECCIONAL É UMA DE SUAS VERTENTES:

Juro, gente, isso é importantíssimo. O feminismo é um, mas esse um é cheio de vertentes e complexidades (branco, negro, com recorte de classe, de gênero – oi? mas sim- etc). Não reconhecer é uma forma de oprimir. Vou dar um exemplo bem pessoal, minha questão com a vertente radfem (feminismo radical). Demorei muito tempo para entender que não conseguia entender a lógica por trás do radfem simplesmente porque as mulheres que estão nesse movimento negam uma vertente feminista (probleminha de reconhecimento).

MAS AÍ CÊS ME PERGUNTAM: Bruna, oxe, de que forma se dá esse não reconhecimento?

Vou dar dois exemplos à vocês:

A Kefera, branquíssima da silva, fez uma tatuagem com o símbolo do feminismo negro. Depois de ser muito criticada, disse que estava rolando uma FALTA DE EMPATIA, que somos todas mulheres, levantou a placa da sororidade, etc. Peraí, né? Errou no passo NÚMERO UM do “ajude as mana do feminismo negro”: o reconhecimento. O feminismo negro é diferente. Uma branca tatuar o símbolo do movimento negro é, no mínimo, errado. É uma forma de apagar a história da luta que é, essencialmente, distinta.

OUTRO EXEMPLO: canso de ver (canso mesmo) palestras e painéis sobre feminismo. Amo e fico empolgada. Mas nesses painéis vejo homogeneidade onde deveria haver DIFERENÇAS. Vocês veem painéis com brancas, pretas, pobres, cis, trans etc? NÃO. Mulheres brancas sentam e falam sobre feminismo excluindo as outras manas que, sobre certas pautas, têm mais (e exclusiva) legitimidade para falar. Não se posicionar sobre isso (e as vezes, nem pensar sobre) é um tropeço nessa primeira regra.

*to esperando ansiosamento que eu esteja sendo compreensiva pois estou apenas jogando tudo que vem à minha mente de uma vez só*

2) ACEITAR OS PRÓPRIOS PRIVILÉGIOS.

Agora, aqui, o tópico começa a ficar difícil de explicar. JÁ deixo claro que a intenção não é de maneira nenhuma ofender. Juro. Mas eu encontro 2 problemas nessa fase:

O primeiro problema é de aceitação. Tem gente que não sabe e não quer saber que, mesmo sendo mulher, possui privilégios em cima de outras mulheres. Aí deixa de ver os recortes de classe de raça e de gênero. É a galera do “eu posso falar igual, eu também sou mulher”. Sabe o que a gente exige de empatia, lugar de fala, etc, dos homens? Isso existe também entre as mulheres, as mesmas “exigências”. Quem melhor para falar sobre a negritude do que uma negra? Quem melhor para falar sobre a pobreza do que uma pobre?

>>>>>> Veja também: Um recorte nesse dia da consciência negra <<<<<<

O segundo problema é a galera que frequentemente tem grandes revelações – vejo muitas por aí que é: hoje estava andando na rua e percebi q tenho privilégios. Fala isso pra uma negra como se essa grande revelação fosse suficiente.

EXPLICAÇÃO RAPIDA POR FAVOR NINGUÉM SURTAAAA: nós valorizamos a percepção, mas é exaustivo pensar que ainda estamos nessa fase. Deveríamos todas estarmos juntas COMBATENDO o privilégio, mas estamos implorando para que pessoas DESCUBRAM QUE TÊM PRIVILÉGIOS. E não são quaisquer pessoas, são mulheres como nós, que deveriam estar lá por nós. É um desamparo desesperador: o homem quer me matar, a mulher branca fecha os olhos para a minha pele negra. Não é um grande favor a percepção dos próprios privilégios; a rigor, é uma obrigação (moral).

Na dúvida, sim, é um privilégio. Andar na rua com segurança? Sim. Ser escolhida em detrimento de uma mulher negra? Sim, igualmente privilégio. Estar em capa de revista sempre? Sim. Nossa, é privilégio não ter palavras como “denegrir”<essencialmente racista> contra mim? Sim também. Não é uma grande revelação, sério. É cotidiano.

3) DEIXAR O PROTAGONISMO FAZER A SUA MÁGICA:

Gente, a Viola Davis subiu no Emmy e disse absolutamente tudo: a diferença entre nós e os não-nós são as oportunidades. Dá visibilidade. Chama as manas. Inclui elas no espaço que é seu. Abre os seus olhos. Quantos restaurantes, bares, bairros, etc, vc vê majoritariamente branco? Observe. Repare. Só isso, questionar-se, já é um passo gigante. LEVA A MULÉ NEGRA PRA LÁ. METE ELA NO CENTRO E FALA: BRILHA.

Tá vendo aquele emprego ali que tem uma mulher negra ganhando menos que ti? Chama ela e fala “eu quero mudar isso também”. A galera de hollywood fez isso com a própria Viola, e veja onde deus está agora. Segura na mão porque as vezes é isso que a gente precisa.

AH, E ABRE A BOCA E FALA. Eu vejo MUITA (muita mesmo) gente dizer que quer ajudar. Dizer que tem empatia. Dizer, dizer. Mas, pergunte-se; o que eu estou fazendo EFETIVAMENTE? Como eu to ajudando minha mana negra? Eu ouço ela falar? Eu leio artigos? Eu compro a arte dela? Eu consumo isso? Eu valorizo isso? Eu abro a boca para outra mana branca que decidiu reproduzir falas racistas e digo: que errado isso que você tá falando.

DISCLAIMER: Se você não vê racismo em TUDO (repito: T-U-D-O), é bom voltar para o passo 1.

Gostou? Você pode gostar também desses!

3 Comentários

  • RESPONDER
    Mariana Tomazelli
    23.10.2018 às 12:57

    Que foda !! Que maravilhoso !! Bruna, tem muita coisa para analisar ai…. Gosto muito de escutar outras meninas para que eu forme uma opinião, mas tenho horrores do que aprender.

  • RESPONDER
    Maiara Borges
    23.10.2018 às 15:11

    Que texto foda! Parabéns, Bruna! Aprendendo sempre

  • RESPONDER
    Margareth Andrade
    23.10.2018 às 20:43

    Preciso ler mais cem vezes pra absorver td que vc diz! Que aula!

  • Deixe uma resposta