4 em Autoconhecimento/ Autoestima no dia 04.10.2018

Você não é especial. Mas você também não falhou.

Estava vendo umas fotos antigas e lembrei que eu achava que era fashionista até uns anos atrás. Aí o tempo passou e eu descobri que eu sou mais “básica” porque não tenho nem dinheiro e nem coragem de pagar por essas coisas que depois vão matar a gente de vergonha tipo sneaker com salto.
E eu acho muito massa quando mais gente diz que não investe nessas coisas passageiras tipo “dad sneaker” (kkk) porque não tem grana ou prioridade em gastar com supérfluos ainda mais supérfluos mesmo gostando de um supérfulo (sacou?). Até porque é muito legal entender que por trás dessa vida maquiada de Instagram, ainda existem pessoas que ralam muito muito muito pra pagar os boletos antes de pensar em comprar qualquer roupa ou sapato – e o melhor, não têm vergonha disso.
Cadê as manas que curtem moda, se acham estilosas e não conseguem mais ceder a esses “desejos” fashionistas? Que até queriam, mas simplesmente não conseguem.
Esses dias na terapia comentei sobre uma crise que tive esse ano, quando a minha vida deu um 180° muito maluco e eu me vi completamente distante do que eu tinha imaginado pra mim aos 20 e muitos anos. Na sessão, depois de muito pensar e digerir muita coisa, cheguei a 2 conclusões que salvaram meu emocional:

1. A vida não mantém um placar.

Não importa o quanto a gente se esforce, trabalhe… Tudo está bem, até que não está mais, e é desse ciclo que a vida se alimenta. Acontece com pessoas, com dinheiro, trabalho e, na real, com tudo. A diferença é o que a gente faz com o que nos é apresentado;

2. Você não é especial, mas vc também não falhou.

Em Hebraico existe uma expressão (em transliteração e tradução livre) chamada “Chaim be seret”, ou “vida de filme”, que a gente usa pra caracterizar pessoas que acham que estão sempre vivendo em uma película mágica, seja pela personalidade excêntrica e/ou pela ingenuidade e desconexão com a realidade com que levam a vida. E o que eu sinto quando vejo todo mundo tendo tudo e querendo tudo e valorizando mil “tendências must have”, é que o Instagram deixou todo mundo rico e despreocupado. Mas bastam 5 minutinhos conversando com qualquer amiguinho de 25+ anos que tem que batalhar pra pagar as contas, pra entender que tá todo mundo em dívida consigo mesmo, seja financeira ou emocionalmente. E não, não tô achando que tá tudo bem porque nivelei a juventude atual por baixo e vi que não estou na pior das piores, mas porque entendi que a chave da felicidade mora no “tá tudo bem não ter”, “tá tudo bem não ser”. No fim, se a gente tem saúde, comida e um teto… Tá tudo bem no geral. Clichê, mas o resto a gente corre atrás mesmo.

autoconhecimento

Eu fui crescendo em uma geração que acha que merece as coisas, que valoriza exageraamente a imagem – e não me excluo dessa, vai lá no meu Instagram pra ver que eu também flerto com a vida de filme – e que parece que perdeu um certo controle financeiro e emocional das suas vidas, que só pensa e mede tudo em posses e poses. Mas é que a gente escuta coisas como “trabalhe com o que ama e nunca mais terá que trabalhar um dia na sua vida”, ou cresce com esse mito de que empreender e criar startup é a saída para a vida moderna. Até os “sabáticos” que a minha geração tira têm que parecer muito irados e exóticos. Sei lá, vai que “se descobrir” não envolve uma viagem pra Tailândia? Vai que “se descobrir” envolve você trabalhar com uma coisa que nem fede nem cheira só pra pagar as contas enquanto você reflete, pensa e muda de dentro pra fora?
A gente tende a querer ser o nosso trabalho, e os títulos de hoje são bem mais irados que os dos nossos pais: “creative hero”, “customer success genius”  ou coisas do tipo que eu achei em apenas dois minutos de scroll mas vagas do LinkedIn. Nem todo trabalho salva vidas, mas que legal seria se a gente entendesse que dá pra fazer muito mais pelos outros quando ninguém está vendo ou quando as pessoas não ficam maravilhadas pelo seu título profissional. Que legal seria se a gente não tivesse que mostrar ser bem sucedidx e cool, e só buscasse fazer coisas iradas e transformadoras porque elas são iradas e transformadoras. Sei lá, somos filhos do capitalismo, mas isso significa que temos que ser, além de seus prisioneiros, seus capatazes?
Esses dias vi um vídeo com um catador de lixo explicando de forma muito simples pra comunidade que tipo de plástico não valia a pena consumir por ser muito difícil de reciclar, e qual era a melhor forma de fazer a reciclagem em casa. Com erros de português, com a roupa toda suja e claramente encabulado por estar sendo filmado, aquele cara me ensinou MUITO. Sem títulos, sem edição, sem imagem cool. E provavelmente eu jamais teria valorizado o tanto que ele sabe se cruzasse com ele na rua… Mas o moleque de 22 anos que estuda na PUC e fez a monografia sobre isso mas nunca teve que carregar um fardo de lixo nas costas a gente respeita. Eu sei que existe uma diferença aí, mas será que o gap no respeito também tem que ser tão grande?
Tem muita gente se sentindo mal. Tem muita gente perdida. Tem muita gente na luta. Mas tem muita gente se sentindo menos do que os outros fingem ser. Não vamos camuflar ou pintar de cor de rosa a luta diária da gente. Não precisa sair compartilhando print do e-mail do SPC Serasa, mas vamos falar e mostrar mais das nossas vidas reais. Vamos ser menos deslumbrados e mais sinceros. Vamos dividir a carga pra encarar as dificuldades e alegrias juntos. Vamos aceitar que muitos temos privilégios enquanto outros seguem com pouco ou quase nada e que NÃO existe meritocracia sem igualdade. Vamos começar olhando pra dentro e pro lado sem tantas distrações materiais.
Vamos?
É, eu já achei que fosse fashionista, mas hoje prefiro e preciso ser gente comum.

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4 Comentários

  • RESPONDER
    Mariana
    04.10.2018 às 17:24

    A última frase é muito definição do que eu prefiro na vida. Um ótima reflexão.

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    Roberta
    05.10.2018 às 5:36

    Texto simplesmente maravilhoso! Reflete o que acredito que seja “vida adulta.”

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    Andréia
    05.10.2018 às 8:42

    Muito boa reflexão. A sociedade está sendo formada, em grande parcela, por cidadãos narcisistas, onde até um bem que a pessoa faz é mais por status do que por generosidade.

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    Glenda Sturzenecker Pinto
    05.10.2018 às 15:07

    Eu acho maior barato esse papo de auto estima aqui no futi e sinceramente me ajuda muito todos os dias. Não deixo de ler nenhum dia. E quando bate forte eu ainda compartilho com outras pessoas que sei que estão nessa mesma busca. Realmente veio a calhar esse texto, porque estamos nos perdendo cada vez mais. Vivendo num mundo onde mais vale uma good picture, do que você sentir verdadeiramente o momento. Porque pode parecer bobo para os dias hoje em que é tão valorizada a imagem perfeita. Mas as vezes você se entregar ao momento diga respeito só a você mesmo e mais ninguém. Tenho exercitado isso de uns tempos par cá e sinceramente tem me feito muito bem. Não existe vida perfeita. A bad é sempre bad, desde o mais seguido no insta até o invisível cibernético. E o exercício de conectividade agora tem que ser reverso. Temos que nos conectar cada vez mais com nós mesmos. E o mundo externo que espere. O mundo que continue girando sem postarmos uma good picture disso ou daquilo.

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