0 em Autoconhecimento/ Autoestima no dia 11.09.2018

O 11 de setembro e o espírito inquebrável que me inspirou

11 de setembro. Tenho certeza que todo mundo que está lendo lembra dessa data, lembra do que estava fazendo na hora que recebeu a notícia do ataque às torres gêmeas.

Eu lembro. Estava com 15 anos, saindo do colégio e vi um aglomerado de gente em frente ao barbeiro do lado, que até hoje está de pé, por mais que a maior parte de lojas e estabelecimentos ao seu redor tenham se transformado em outras coisas. Bem na televisãozinha de tubo de 29 polegadas que estava ligada dentro do barbeiro, lembro como se fosse ontem da imagem de um avião entrando em uma das torres do World Trade Center, e dos repórteres da Globo com um semblante serio. Não dava para ouvir, nem consegui ver direito, mas sabia que o que estava diante dos meus olhos era algo marcante.

Corri para casa (que era na mesma rua do colegio) a tempo de ver o segundo avião se chocando contra a segunda torre. Dos dois prédios caindo. Todo mundo acompanhava estarrecido, sem entender direito o que estava acontecendo. As imagens em looping passando em todos os canais da televisão.

A vida seguiu, e apesar de eu sempre ter lembrado do atentado quando chega essa data, desde que vim morar aqui em NY ela ficou ainda mais marcante. Da minha sala e do meu quarto eu consigo ver o One World Trade Center, o prédio que foi construído no mesmo lugar das Torres Gêmeas e que até hoje tem serias dificuldades de vender suas salas comerciais. Na verdade, enquanto eu escrevo esse texto, eu olho para frente e o vejo, imponente, angulado e cheio de significados e história. E não consigo parar para pensar que se eu estivesse aqui em 2001, eu teria visto tudo da janela da minha casa.

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Porque a verdade é que até visitar o Museu do 11 de setembro e até mesmo o Museu do Trânsito – que tem uma área inteira dedicada a nos mostrar cada instante e cada tomada de decisão do MTA no dia do atentado, com direito a fotos, vídeos, depoimentos de pessoas que trabalharam no dia e até mesmo aúdios – uma parte de mim preferia acreditar que tudo não passava de um filme. Algo que marcou mas que não aconteceu de fato. Essas duas experiências que eu citei têm um poder de imersão enorme, tanto que é impossível não andar pelas ruas do Financial District ou entrar na Igreja ao lado do WTC e que sobreviveu aos escombros e não imaginar como deve ter sido no fatídico 11 de setembro de 2001. Aeroportos fechados. Todas as linhas de metrô paradas. Nenhuma linha de telefone funcionando. Pessoas andando meio sem rumo pelas pontes, porque andar à pé era a única forma de evacuar a vizinhança. Crianças tiveram que ficar nas escolas porque seus pais não conseguiam chegar para busca-las. Ninguém conseguindo falar com seus entes queridos. Eu não conseguia dimensionar o tamanho do caos até vir morar aqui de fato (apesar de achar que quem visitar o Museu do Trânsito vai conseguir ter essa dimensão).

Mas não só é isso. Nesse dia os moradores ficam mais introspectivos. Os cumprimentos saem menos felizes, os papos casuais são mais curtos, as bandeiras americanas ficam mais presentes, as pessoas relembram nas redes sociais, a televisão e os jornais não nos deixam esquecer o dia de hoje, e dependendo do lugar, rir é até sinal de desrespeito. Não dá para ter uma história dessas na memória e agir como se esse fosse um dia qualquer.

Hoje à noite, se o tempo permitir, conseguirei ver de camarote o Tribute in Light, uma obra de arte onde dois feixes de luz saem do lugar onde eram os prédios e se estendem aos céus por cerca de 6 quilômetros, podendo ser vistas de um raio de 100 quilometros. Praticamente um holograma das Torres Gêmeas. O objetivo é honrar os mortos e celebrar o espírito inquebrável de Nova York. Espirito inquebrável. Até o momento eu não sabia muito bem por quê estava escrevendo esse post, acho que olhar a minha vista me deixa nostálgica e quis aproveitar a data, mas na verdade acabei de achar um outro motivo.

Desde que me mudei desconstruí muitos conceitos românticos que eu tinha da cidade. “Concrete Jungle were dreams were made of, there’s nothing you can’t do” (selva de pedras onde os sonhos são criados, não tem nada que você não possa fazer) me parecia um pouco distante quando olhava no espelho depois de um dia inteiro cuidando de tudo menos de mim. Quando queria aproveitar mais a cidade mas não conseguia. Quando via tantas coisas de trabalho acontecendo no Brasil e eu não podendo participar. Por um momento, inclusive, não queria me permitir sofrer por todas essas expectativas quebradas porque, afinal, estava sofrendo em Nova York. Onde já se viu, não é mesmo? 

Mas não posso negar, a cidade de fato tem um espirito inquebrável, e acho que ela passa um pouco dessa resiliência pra gente. Desde que eu me mudei eu amadureci, eu conheci lados meus que eu nem sabia que tinha, eu cresci. Muitas coisas que um dia eu sonhei em fazer aqui eu ainda não fiz, mas fiz tantas outras que eu nem imaginava, que o saldo é muito positivo no final. Eu ainda estou no meio do caminho da minha reconstrução. Sei que ainda vai demorar, mas eu não estou com pressa. E um dia, quando eu menos esperar, conseguirei criar meu próprio feixe de luz que ilumina tudo ao meu redor.

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