3 em Beleza/ Saúde no dia 25.07.2018

Dr. Bumbum e o perigo eminente dos profissionais de saúde com muitos seguidores nas redes sociais!

Okay, o episódio sobre o Dr. Bumbum não é novidade e você deve estar se perguntando: Meninas, por que falar sobre essa pauta “tão da semana passada”!? Então, apesar dessa história ser uma vasta coleção de absurdos, existe um ponto que pouco foi falado e pra nós é o mais delicado: a credibilidade automática que damos para profissionais – de saúde ou não – que tem centenas de milhares de seguidores na internet.

Nós, que demoramos exatos 7 anos para acumular mais de 130 mil seguidores no instagram, podemos falar com propriedade que crescer organicamente na ferramenta não é uma tarefa fácil, ainda mais quando os 3 C’s são o fio condutor do trabalho na rede social. Pra nós conteúdo é apenas um dos 3 pilares importantes, coesão e credibilidade são os outros dois. Só que para permanecer anos gerando conteúdo sério nas redes com esses 3 pilares dá trabalho, por isso muitos profissionais apelam para os famosos (e proibidos) “antes e depois”, posts sobre mudanças e milagres que não falam de riscos e aos poucos deixam o conteúdo de credibilidade dar lugar a uma série de posts sensacionalistas que visam ludibriar, enganar e seduzir a qualquer custo as mulheres, que, pautadas numa pressão estética absurda, muitas vezes acreditam em qualquer investimento que possa suprir o vazio que a inadequação traz para elas.

Sentiram que esse assunto vai muito além de um médico famoso que operava na cobertura de sua casa sem os documentos corretos, né? O problema é sistêmico, não é um fato isolado e envolve uma série de questões que se complementam. Elas nos levam a crer que vivemos numa sociedade onde parece que vale tudo em nome da beleza, até flexibilizar os riscos que corremos em nome de se sentir bonita aos olhos do mundo, que cobra sim um padrão cada dia mais opressor. Nem mesmo personalidades como Candice Swanepoel e Bruna Marquezine escapam de situações de Body Shamming quando seus corpos são pautas de críticas – destrutivas – nas redes sociais.

Claro que não quero diminuir o peso das discussões sobre procedimentos estéticos feitos por profissionais não qualificados e em ambientes sem nenhuma estrutura voltaram a acontecer, mas isso só acontece porque em busca de um milagre nós parecemos que abrimos mão do senso crítico. Parece que um médico que se autointitula Dr. Bumbum ter 600 mil seguidores no instagram é o suficiente para que mulheres de todo um país busquem esse profissional sem pesquisar seu registro e sem questionar mudanças repentinas de local de consulta ou até mesmo de procedimento.

dr-bumbum

Minha ideia não é tirar o enfoque do absurdo que é um médico sem a devida licença operar em sua cobertura com a paciente tomando espumante, mas ao mesmo tempo acho que precisamos prestar atenção em sutilezas muito mais profundas que envolvem tudo que aconteceu ali. Não vale culpar nenhuma mulher que foi vítima, de forma alguma, mas podemos discutir o quanto questionamos pouco aqueles médicos, nutricionistas, esteticistas e profissionais do meio que têm algum tipo de fama, seja ela nas redes sociais, revistas ou televisão. Não é porque o profissional em questão está na moda que necessariamente ele trata os pacientes com seriedade e não coloca a saúde deles em risco.

Quantas nutricionistas cheias de seguidores não são as primeiras a ensinar comportamentos que são verdadeiros gatilhos para transtornos alimentares? Quantas contas de personal trainer na internet estão aí mostrando rotinas de treinos que não são legais para reproduzir sem a companhia de um profissional, e postando brincadeiras com termos e expressões que remetem à episódios de compensação? Quantos médicos gordofóbicos não estão ai passando dietas restritivas e comportamentos alimentares questionáveis para pessoas com histórico de compulsão?

A verdade é que o caso desse médico é uma hipérbole do que acontece com profissionais que adoecem pessoas diariamente nas redes sociais e consultórios. Só que no caso dele vai mais longe, é mesmo um absurdo extrapolado quando descobrimos que aquele médico não poderia estar fazendo aquele procedimento ali, naquelas circustâncias e ainda por cima cobrando caro por isso. Inclusive, cobrando o equivalente ao preço cobrado por um cirurgião experiente, com registro ativo e que opera em hospitais com toda a estrutura.

Essa não é a primeira vez que explode na mídia casos de pacientes que morreram depois de se envolverem com médicos que não tinham registro na Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, e toda vez que isso acontece, ressurge também toda a discussão sobre a pressão estética absurda que cega as pessoas a ponto de se submeterem a todo tipo de procedimento mesmo sem nenhuma segurança.

Não devemos terceirizar o cuidado com nossa saúde. Podemos ir na nutricionista para aprender a comer melhor, mas precisamos abrir mão da preguiça de pensar e estudar com ela a melhor forma de se alimentar de forma consciente. Podemos ter um profissional de educação física exclusivo para cuidar do nosso treino, mas precisamos fazer todos os movimentos com atenção para desenvolver consciência corporal. Se vamos fazer uma plástica, ou procedimentos dermatológicos, ou até mesmo ir em um médico ocasional, é necessário procurar suas indicações, checar seu registro, tudo que envolve colocar nossa saúde na mão daquele profissional.

Vou além no questionamento, acho que precisamos refletir até que ponto a aparência está acima da saúde? Porque procuramos os profissionais famosos por deixar as pessoas dentro de um padrão de beleza, mas muitas vezes abrimos mão do senso crítico – novamente – sobre a metodologia. Será que aquela é a forma mais séria de me levar a ter o corpo que eu quero? Ou será que é a mais rápida ainda que com toque de leviandades? Até que ponto o resultado rápido é mais importante do que o resultado devagar e consistente, sem maiores riscos a saúde como um todo (físico e mental).

A meu ver casos como esses que mostram o quanto a nossa sociedade está doente. Porque, para essa triste realidade da paciente que faleceu, quantos outras passaram por este mau caráter e ficaram felizes com o resultado, sem nem saber o quanto elas estavam arriscando pelo corpo perfeito? Até que ponto a sensação de incômodo e inadequação com o próprio corpo leva as pacientes a fazerem vista grossa para a forma como o procedimento era feito?

Será que os 600 mil seguidores do Dr. Bumbum conferiram a ele – quase que automaticamente – uma notoriedade? Será que foi colocado acima do bem e do mal? Pela primeira vez vimos um caso cujas pacientes chegaram até este médico pelas redes sociais. A internet tem poder, isso a gente já sabe, mas será que demos poder demais à ela, ao ponto de credibilidade médica ser medida por número de seguidores?

Hoje em dia o instagram e o Facebook muitas vezes são mais efetivos que um cartão de visitas. Levando em conta que muita gente é ignorante quanto às normas de conduta do Conselho Regional de Medicina (que, por exemplo, deixa claro que divulgar antes e depois é antiético e proibido), é fácil ser convencida e seduzida.

Não estou aqui dizendo que todo médico com milhares de seguidores é picareta ou não tem credibilidade, mas é inegável que o aparente sucesso e números nas redes sociais pode mascarar até mesmo certos comportamentos que deveriam ser questionados. 

Até quando vamos pagar um preço alto demais para tentarmos incessantemente parecermos perfeitas? Atendendo a todos os antigos e novos padrões de beleza que nos impõe? Olho tudo isso e sigo batendo na tecla de que todo procedimento pode ser válido, mas deve vir junto de uma reflexão. Algumas mudanças são efetivas e importantes, nos deixam mais confortáveis para viver na sociedade em que fomos criadas, mas mesmo elas podem vir associadas de uma consciência, afinal gosto é construído e a maioria das nossas demandas foram ensinadas, são mais dos outros do que nossas se pararmos pra pensar. Podemos fazer o que quisermos, mas quanto mais refletirmos sobre isso antes vamos descobrir o verdadeiro sentido da palavra liberdade, nos dando conta de que não precisamos atender a todos os padrões de beleza, que podemos gostar da nossa imagem mais próxima da realidade e menos semelhante a de um símbolo de adoração.

Quando mudamos de forma consciente acabamos abrindo mão da mudança pela mudança e deixamos aquele comportamento que reúne uma transformação atrás da outra que nunca nos leva a sensação de estar em paz com nosso corpo que sempre buscamos. Ao nos darmos conta das reais mudanças necessárias nos sentiremos menos pressionadas a fazer todas elas, escolhendo assim em quais realmente queremos investir nosso tempo e dinheiro.

Resolvido o procedimento? Ótimo! Que comece o tempo da pesquisa, porque pelo que podemos ver com as redes sociais, não estamos em tempo de confundir currículo, certificado e experiência com números de seguidores. Podemos segurar firme nos nossos princípios e escolher com calma e responsabilidade o profissional que vai nos tratar. Não temos a cultura de procurar informações, de entrar na internet para checar o registro no CRM. Achamos que é só pegar o número que está na lista do plano de saúde e ligar, ir por indicação de olhos fechados e, agora, também acreditamos na fama da internet e ficamos com vontade de ir naquele médico (ou médica) que fez um suposto milagres em tantas pessoas (porque vai saber se a pessoa que está indicando o médico de olhos fechados também não fez nenhuma loucura para atingir os resultados, ou adulterou fotos para parecer mais perfeita?) . Enquanto a gente não mudar esse nosso comportamento eu acho que as coisas não irão mudar. Precisamos gastar mais tempo estudando e escolhendo quem vai cuidar da nossa saúde, assim como precisamos ser pacientes cuidadosos e responsáveis, então que toda essa conversa que estamos tendo sirva de alerta.

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3 Comentários

  • RESPONDER
    GNB
    26.07.2018 às 11:24

    Olá, meninas. Muito interessante a abordagem e concordo com tudo, porém, fico me perguntando se a vítima tb não tem sua parcela de culpa, exatamente por ter toda a informação disponível e, ainda assim, optar por fazer o procedimento com o médico. Vejam, não estou inocentando o médico. É claro que ele tem culpa (até pq tem conhecimento suficiente para saber que procedimentos assim tem que seguir normas criteriosas da ANVISA…), levanto apenas a questão das responsabilidades. Me compadeço da vítima, é claro tb! Só fico em dúvida sobre o assunto….

  • RESPONDER
    Carolina Benevides
    26.07.2018 às 13:29

    Que post perfeito! Texto muito bem escrito e reflexão super necessária! Parabéns!

  • RESPONDER
    Renata Garcia
    30.07.2018 às 12:34

    ótima reflexão! Temos que ficar muito atentas em quem seguimos e saber filtrar melhor as coisas.

    (só um toque: o correto é perigo “Iminente”). Bjoo

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