4 em Comportamento/ Destaque/ Deu o Que Falar/ Moda no dia 23.07.2018

Será que ainda dá tempo da Victoria’s Secret ter representatividade?

Nesse último mês eu me deparei com duas notícias que me fizeram parar para pensar. A primeira foi uma matéria do Business of Fashion dizendo que a Victoria’s Secret está caminhando para o fim. Não, ela não está falindo, mas levando em conta a queda na venda e o valor de mercado que vem decrescendo, dá a impressão que se a marca de lingeries mais famosa do mundo não fizer nada – e rápido – é provável que uma crise bem grave aconteça.

A segunda notícia foi um video sobre o desfile “anti Victoria’s Secret”, onde duas irmãs chamaram todos os tipos de mulheres para desfilarem em lingeries e asas, imitando as famosas Angels.

Eu lembro quando fazia contagem regressiva para ver os desfiles da VSFS. Gisele Bundchen, Alessandra Ambrósio, Adriana Lima, Izabel Goulart, Isabeli Fontana, Ana Beatriz Barros e Fernanda Tavares, enchendo as brasileiras de orgulho desfilando peças desejo, embaladas pelos maiores artistas da atualidade. Achava incrível ver aquelas mulheres lindas, com cabelos esvoaçantes, corpos esculturais, cheias de autoconfiança e sensualidade desfilando pela passarela e flertando com todas as telespectadoras (até parece que os beijinhos e caras e bocas no final da passarela eram direcionados para homens, convenhamos).

Só que aí algo foi me incomodando. Anos antes de pensar em falar sobre autoestima e ler discussões sobre a importância da representatividade, eu comecei a questionar a pressão que era ocupar lugar de Angel, passei a ver o lado menos glamuroso da moeda. Nem precisa ir muito longe, é só procurar no Google matérias relacionadas às angels que você vai ver notícias de rotinas de beleza, dietas líquidas, jejuns, malhação pesada (mesmo fazendo dietas hiper restritivas) e modelos aparecendo nas passarelas 5 semanas pós parto.

“Ah, Carla, mas é o trabalho delas”. Concordo. Elas vivem para isso e o desfile da VS é o auge na carreira de muitas, o que justificaria cada esforço. Justificaria?? Foi isso que eu passei a me questionar. A marca de lingeries vem impondo o padrão do corpo perfeito há mais de duas décadas e é curioso pensar que a fórmula de sucesso tenha se mantido intacta e inquestionável por tanto tempo.

Você vê fotos do primeiro desfile, lá em 1995, e tirando o styling e o cenário – que não tinham nada da ostentação carnavalesca que vemos de uns tempos pra cá  – o estilo das modelos escolhidas mudou muito pouco. Foi de uns 2 anos para cá que começamos a ver algumas mudanças quando foram incluídas no casting mais mulheres negras, algumas orientais e modelos que desfilaram com seus cabelos naturais. Mas no quesito corpo? É só chegar perto de um VSFS que ainda vemos matérias que exaltam os corpos das Angels e te contam o que comer e como se exercitar para ter um corpo “””””””””””igual”””””””””””””(com muitas aspas mesmo, afinal, mesmo seguindo à risca cada detalhe publicado, ninguém aqui vai ficar com o corpo delas). Algumas modelos ganham apelidos como “The Body” (O Corpo) e “a top da barriga negativa”, como se só uma parte de seus corpos de fato importasse, o auge da objetificação. Não me surpreende que em tempos de discussões sobre padrões de beleza, pessoas se cansando da perfeição e procurando representatividade e marcas que cresceram apostando no nicho da diversidade de corpos, a crise tenha chegado até mesmo em quem parecia inabalável.

vs-show

E aí fico cheia de perguntas que não tenho ideia da resposta, mas vim aqui dividir com vocês. Sabendo que a marca não é das menos inclusivas em sua grade de tamanhos, por quê será que a VS ainda não entrou na discussão de diferentes tipos de corpos? Será que os responsáveis pela marca ainda acreditam que a formula aspiracional e inatingível das mulheres escolhidas para participar do seu seleto time de Angels ainda tem fôlego?

Caso a VS resolva abraçar amanhã a ideia de trazer representatividade para as suas campanhas e desfiles, sei que isso pode passar uma impressão de oportunismo para surfar na onda do momento, um pezinho no desespero, ainda mais depois que seus números em queda foram divulgados. Ao mesmo tempo, fico pensando: se for para ser oportunista, não é melhor mesmo que seja nessa situação de inclusão? Não nego que adoraria presenciar a cena de ver modelos com corpos mais próximos ao meu, ao seu e ao de outras mulheres que eu conheço representando o auge da sensualidade feminina atual. A esperança é a última que morre, então estou aqui, com a pipoca na mão e aguardando as cenas dos próximos capítulos.

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4 Comentários

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    Jéssica M
    24.07.2018 às 7:35

    “Por quê será que a VS ainda não entrou na discussão de diferentes tipos de corpos?”
    Porque esse é o padrão deles, um único tipo. Há anos. E não é por que hoje em dia tudo é sobre ‘cada um tem o corpo que tem e é maravilhoso’, que eles mudariam. Assim como tem marcas que englobam só roupas plus size, ou para gestantes, ou para pessoas com deficiência… essa é a cara da VS, do show, ele é conhecido por ser do jeito que é. E não acho que tenha que mudar. ;)

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      Carla Paredes
      24.07.2018 às 15:55

      Jéssica, então, a minha questão é justamente sobre esse padrão e a discussão que está acontecendo no mundo. Se tudo continuasse maravilhoso, vendas explodindo, hype bombando, valor de mercado maravilhoso, ok, concordo contigo que eles não têm nenhuma obrigação de mudar. Existem milhões de marcas que estão apostando na diversidade e crescendo no mercado justamente por causa disso, existem outros lugares para comprar que não na VS. O único problema é que várias publicações respeitadas na moda já publicaram que a VS está entrando em crise, que o modelo de negócios dele não está dando mais certo. Será que eles não tem que repensar? Ou é melhor deixar a empresa entrar em crises mais graves por não mudar de posicionamento??

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    Carolina Benevides
    24.07.2018 às 15:19

    Ótima a reflexão sobre o assunto! Acho lindo o show da VS, as angels são maravilhosas, mas é sempre importante lembrar que todo tipo de beleza deve ser valorizado!

    • RESPONDER
      Carla Paredes
      24.07.2018 às 15:55

      Pois é :D

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