5 em Autoconhecimento no dia 26.06.2018

Um novo olhar para minha velha janela…

No início do papo sobre autoestima eu não sabia exatamente sobre o que falaríamos no longo prazo. A ideia era seguir o fluxo natural dos temas e ver no que dava. Foi realmente impressionante como tudo fluiu para que eu e Carla déssemos de cara, de forma muito natural e verdadeira, com os pilares do nosso projeto. Descobrimos algo que a gente já sabia lá no fundo: Autoestima não estava ligada a algo que vinha da mudança da aparência, e sim uma consequência de um processo relacionado ao autoconhecimento. Descobrimos a força de se olhar com mais amor e acolhimento.

Descobrimos que muitas vezes condicionamos a felicidade ou a sensação de satisfação às mudanças que virão na nossa vida. Casa nova, corpo novo, emprego novo, relacionamento novo.. Tudo isso pode ser maravilhoso, mas nada disso será solução automática para uma real mudança de percepção da autoestima de ninguém. Isso pode nos ajudar a nos sentir mais confortáveis no mundo em que vivemos, mas crer que essas mudanças são as soluções das nossas faltas externas não passa de uma ilusão. Quantas vezes não terminamos de comprar algo caro e já pensamos na próxima coisa? Quantas viagens sequer passaram e já planejamos a próxima? O mesmo vale pra mudanças no corpo… Nada disso chega preenchendo nossas questões mais profundas, que nos levam de fato a questionar verdadeiramente quem somos no mundo e nossa autoestima.

Condicionar a felicidade a um cenário perfeito do futuro é algo que muita gente faz. Que eu fiz muito e descobri às duras penas que não era preciso viver o amanhã para mudar a forma que eu me via. Uma vez emagreci tudo que havia pra emagrecer e nunca era o suficiente. Adquiri compulsão alimentar, tive uma crise de bulimia e sintomas de disformia, mas nunca era o suficiente. Através da busca de um corpo perfeitamente aprovado, com o qual eu poderia ser feliz, eu adoeci sem enxergar o que eu tinha. Aprendi que isso era uma ilusão quando conquistei tudo que eu mais desejava na lista de “quando eu emagrecesse” no meu maior peso, porque para o que eu desejava, eu não precisava estar mais magra ou mais gorda, eu precisava estar segura de mim, de quem eu era naquele momento. Foi aprendendo a valorizar o reflexo do espelho e utilizando a minha estratégia do olhar amoroso que eu consegui valorizar quem eu era. Primeiro fora, depois dentro e entendi que a mudança de olhar não tinha a ver com beleza, tinha a ver com autoconhecimento e com auto percepção, com tudo que era meu.

Nos enxergar sob um filtro mais amoroso e acolhedor nos permite muito mais do que valorizar o corpo que temos hoje. Na terapia eu vivi um processo lindo de auto valorização, comecei a ver o potencial que eu tinha e ao ajustar isso, consegui fazer com que o mundo visse também. Afinal a gente emana a frequência que a gente vibra. Ajustar a rádio é fundamental para que o mundo perceba o valor que você tem. Com uma nova forma de nos perceber podemos enxergar genuinamente a profissional que realmente somos, ver que damos o melhor que podemos (ou não) em nossos relacionamentos interpessoais e aos poucos, nos ajudar a valorizar quem nós somos como um todo e o que nós temos de concreto e abstrato.

joana-cannabrava-3

Aos poucos mudei como via meu corpo, mudei como me enxergava como mulher na minha sensualidade, mudei a maneira de me ver como profissional e como pessoa. Entendi que tinha muitas coisas incríveis para valorizar e que meus defeitos não eram um nariz ou uma gordura, eram arrogâncias pontuais, padrões de comportamentos viciados e outras coisas bem mais chatas do que uma espinha. Entendi que me conhecer seria entender minhas melhores qualidades e me tornar segura delas, além de enfrentar meus padrões de comportamento que não são legais. Em terapia vim fazendo tudo isso e quando eu notei, estava mudando o olhar que eu tinha e comecei a valorizar o que antes passava batido.

Vou dividir com vocês uma das melhores consequências da mudança de olhar que eu tive. Eu vivo no mesmo quarto há mais de 25 anos, desde 1993. Eu queria o outro quarto porque eu via mais espaço para brincar, mas na época minha mãe não me deixou ficar com ele porque ela tinha certeza que um dia eu precisaria dos armários que ela planejou. Odeio admitir que ela tinha razão e hoje, o que planejamos lá atrás, funciona perfeitamente, é meu espaço no mundo. Eu vivo exatamente no mesmo quarto há muitos anos, com a mesma vista e a mesma janela, mas foi em meados de 2015 que eu consegui mudar a maneira de enxergar o que havia do outro lado do vidro. Nisso comecei a enxergar as mesmas coisas que eu tinha antes com uma perspectiva completamente nova.

Eu sempre fui apaixonada pelo bairro onde nasci, cresci, fui criada e tenho minhas raízes, mas por mais orgulhosa e bairrista que eu fosse, nunca realmente valorizei o que eu tinha. Acho que era uma mistura de tudo, na verdade. Famílias que moravam nas partes mais nobres da cidade e questionavam meu pai por ele viver aqui, meus pais sendo questionados porque eles preferiam viajar ao invés de morar num apartamento mais luxuoso, os amigos do colégio fazendo chacota que meu bairro não tinha praia, talvez até mesmo a minha mãe, que amava ver novas opções de imóveis maiores. Vários motivos bem iditoas, eu sei, mas tudo isso junto passou a mensagem de que não meu apartamento não era bom o bastante, e mesmo sem ouvir isso de forma literal, eu absorvi e criei uma crença inconsciente.

É curioso que aquilo que não me parecia bom o bastante se tornou exatamente no meu maior sonho de consumo. Um dia – bem distante – gostaria de comprar o apartamento dos meus pais (ou no caso a metade do meu irmão).  Tudo isso é muito curioso, já que nunca genuinamente encarei o espaço como a melhor opção. Sempre parecia que um dia íamos pra um lugar melhor, esse dia nunca chegou e eu agradeço a Deus, porque minha família tem tudo que precisa aqui, somada à uma ótima qualidade de vida. Acho que eu via minha própria casa sobre um olhar proveniente de uma bolha, com um julgamento menos amoroso. Parece que a disformia que eu tive com meu corpo, eu tive com meu espaço e as vezes acho que tenho com outros pontos da minha vida, nos quais ainda aplico um olhar rígido.

joana-cannabrava-1

De uns 3 anos pra cá algo se transformou dentro de mim, e meu olhar pra muita coisa minha mudou. Sem dúvida enxergar meu corpo sob esse novo filtro foi o mais importante pra minha saúde, mas tudo foi além de mim, além da minha autoestima pessoal ou profissional. Meu segundo maior ganho (depois de mudar a forma de me enxergar) foi mudar o ponto de vista com relação à minha casa, mais precisamente a minha janela, que nada tem de prêmio de consolação.joana-cannabrava-4

Eu, que sempre achei que gostava da minha janela porque eu podia rezar olhando o céu, descobri que eu tinha muito mais do que isso. Eu tenho uma vista verde de tirar o fôlego que eu sequer sabia. Eu olhava através do vidro aquela cena cotidiana, e não via o que estava ali na minha cara. Sempre nesse universo onde o foco era no outro, no que eu ainda não tinha e na comparação, eu me vi cega. Podia ser sensacional no contexto Brasil, mas no padrão inatingível de perfeição da Joana, não.

joana-cannabrava-2

O mais curioso? No momento que me abri para o mundo para me ver de uma nova forma, pessoas incríveis começaram a me jogar pra cima, e validada pelo reforço positivo externo eu consegui endossar mais e mais meu processo interno. Aconteceu o mesmo com a minha janela. Minha mãe sempre elogiou o verde e eu nunca enxerguei o verde do qual ela falava. Quando enxerguei, mal podia acreditar no privilégio que eu tinha e desvalorizava. As visitas novas começaram a chegar. Pessoas que não eram do Rio, que vinham de amizades feitas por causa do blog, de novos contextos da vida e até mesmo de outros países começaram a falar sobre a linda vista do meu quarto. Parecia que eu ouvia pela primeira vez e, aos poucos, fui tirando os meus véus de ilusão, parando então de distorcer minha visão. Passei então a estimar aquilo que eu sempre tive, só não conseguia valorizar. Aqui nada mudou, só o olhar.

Hoje o que tenho de mais precioso é justamente o que antes não conseguia valorizar.

Gostou? Você pode gostar também desses!

5 Comentários

  • RESPONDER
    Christy
    26.06.2018 às 10:22

    Coisa linda, Joana. Você é mesmo muito inspiradora.

  • RESPONDER
    larissa
    26.06.2018 às 10:38

    Oie! Você mora no parque guinle? :)

  • RESPONDER
    Renata Castro
    26.06.2018 às 11:15

    Seus textos são ótimos, Jô!!

    Como é difícil parar, ou pelo menos reduzir, esse pensamento de “viver de futuro”, néh?! De achar que vai ser feliz quando tiver ou for fazer algo… Se permitir sonhar, mas, ao mesmo tempo, manter a concentração no presente é um grande desafio!

    Ah, a vista do seu quarto é maravilhosa!!

    Bjo

  • RESPONDER
    Janaina
    29.06.2018 às 14:20

    Que coisa mais linda!
    Que texto libertador!
    Quando terminei de ler parecia estar flutuando!
    Não tenho como explicar o que estou sentindo! Fiquei sem palavras, tem coisas demais passando na minha mente…
    ♥️

  • RESPONDER
    Mariana Castela
    01.07.2018 às 15:35

    Esse texto é a coisa mais linda mesmo !
    Realmente não tem felicidade maior do que perceber que somos felizes exatamente com o que temos ! ♥️
    Ainda bem que o Papo tá aqui pra me ajudar todos os dias ! Que seja sempre assim !

  • Deixe uma resposta