0 em Convidadas/ Destaque no dia 05.04.2018

Eu, negra, na Alemanha

Como minha irmã sempre diz, sabíamos desde criança que não éramos brancas, mas não nos foi dito que éramos negras, nem como lidar com o racismo na sociedade. Minha irmã encontrou-se com sua negritude quando assumiu o cabelo e eu quando entrei na faculdade. Mas foi somente quando vim morar na Alemanha em 2013, que ser mulher negra tornou-se identidade assumida por mim e exercitada no meu dia-a-dia.

Em 2013 fui morar num pequeno povoado perto de Berlim. Estive lá por 6 meses e nesse tempo, todos os dias que fui para estação de trem, para me locomover até minha escola de alemão, meu Guten Tag (bom dia) nunca obteve uma resposta. Além disso, diariamente tinha que lidar com os olhares insistentes e nada agradáveis dos moradores locais. Eu podia fingir que não via nada ou agir como uma mulher que estava ali sem dever nada a ninguém. Mas não era simplesmente uma mulher que estava ali, era uma mulher negra. E se uma mulher decidida já assusta, imagina uma negra, não é verdade?

Do meu instagram @nadiahoje: Nenhum ser humano é "ilegal".

Do meu instagram @nadiahoje: Nenhum ser humano é “ilegal”.

Em 2015 retornei à Alemanha, dessa vez para fazer meu doutorado em uma outra cidade. Nessa época já tinha um certo nível de alemão e ficava tentando ler os anúncios, placas e propagandas, a fim de melhorar o aprendizado. Foi quando deparei-me com o aviso que começava com a palavra Schwarzfahren. Deixa eu traduzir: schwarz é negro/preto e fahren – nesse caso, passageiro). O resto do aviso dizia que se o cobrador do ônibus ou qualquer outro transporte público perceber que você não comprou o bilhete, você pode ser multado em 60 euros. 

Eu fiquei espantada como uma instituição estava utilizando a palavra negro como sinônimo de ilegal – e o dicionário dá vários outros sinônimos, todos negativos à palavra negro. Como um país com tradição escrita tão forte utiliza-se de uma palavra racista, sem nenhum pudor? Esse país tanto sabe o peso das palavras que muitas não são sequer pronunciadas pela associação direta ao período nazista alemão.

Já ouvi por aqui que não há negros o bastante na Alemanha, que a Alemanha não tem um histórico colonial e escravocrata, como no Brasil e por isso as pessoas não veem racismo na linguagem cotidiana. Entretanto os negros estão aqui há mais de 400 anos, somos milhões e a Alemanha também teve colônias e negros escravizados na África, nos territórios da atual Namíbia, Camarões, Togo e em algumas partes da Tanzânia e do Quênia.

Sinto que minha negritude chama mais atenção aqui que no Brasil? Sim. Sofro mais preconceito aqui do que no Brasil? Minha resposta é que sofro de igual forma. A diferença é que como sou estrangeira e uso um idioma que não é a minha língua materna é mais difícil confrontar essa situação. Nem sempre tenho as palavras certas para revidar os comentários que escuto. Mas a cada vez que escuto uma expressão ou palavra em que negro é associado à algo negativo, ressonam na minha memória todas as vezes em que eu e outros homens e mulheres negras passaram por situações constrangedoras. Em respeito à toda a minha ancestralidade e aqueles que ainda estão por vir, não consigo ficar calada.

Como mulher, negra e estrangeira, meu corpo tornou-se mais político aqui e por isso faço questão de ocupar os espaços. Sei que quando vou à um restaurante mais caro, típico, há grandes possibilidades de o garçom me ignorar – como já ocorreu. Sei que se vou à sauna, ao teatro ou até mesmo ao cinema não vou encontrar tantos negros e negras. Na universidade, então, não vi nenhuma professora negra ou professor negro até agora. Mas acho muito importante estar nesses lugares, me fazer presente, para que eu não ouça novamente que a “falta de negros na sociedade alemã é justificativa para não problematizar o uso racista da língua.

Dá medo visitar alguns desses lugares? Dá sim. Mas resistência é isso, não é verdade? Sei que dentro da comunidade negra eu tenho alguns privilégios. A situação econômica dos meus pais permitiu que eu fosse pra universidade e que hoje estude o doutorado. Morar em outro país, por escolha pessoal, é também um grande privilégio, mas meus privilégios não me excluem  de um sistema racista que procura invisibilizar a população negra. Por isso é tão importante discutir o feminismo por meio da interseccionalidade.

Junto com a resistência é preciso coragem para lutar por melhores condições de vida e oportunidade. E é até triste ter que explicar isso, mas não estou falando da Alemanha toda nem de todos os alemães. Não estou simplesmente reclamando. Estou reivindicando melhores condições de vida, respeito e oportunidades. Acho que qualquer pessoa tem o direito de escolher onde quer viver e construir suas relações afetivas. Aos meus 32 anos, eu já entendi que estamos todas e todos conectados, dependentes e que viver de forma coletiva e solidária é a melhor saída.

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