0 em Autoestima/ Destaque/ Relacionamento no dia 27.03.2018

#paposobremulheres: De vítima a protagonista

Eu tinha decidido separar. Já tínhamos tentado de tudo. Já tínhamos feito terapia de casal. Já tínhamos nos maltratado bastante, sem contar a falta de objetivos em comum.

Acabar com meu casamento parecia um crime e um opção quase impossível. Eu era a primeira mulher de TODO meu sistema familiar (que é composto de poucas mulheres) a dar esse passo.

Eu tinha muito medo e meu ex marido sabia perfeitamente disso .

Fui a um advogado, que é meu amigo, com a maior culpa do mundo. E daí pra frente o inferno começou.

Foi um recomeço duro. Entrei no apartamento novo com o cachorro e a câmera de fotos, meus livros e um sabão em pó que peguei no armário da cozinha. Ele ligou pra dizer que eu era tão suja que precisava de sabão.

Eu sentei naquele chão vazio e chorei sem saber o que seria da minha vida. Quase 5 anos se passaram desde aquela cena .

Levantei, no sentido literal e figurado. Com todo o esforço que essa história exigiu de mim, claro. Na verdade voei muito mais alto do que podia imaginar.

Doeu, perdi coisas, tive que esperar exatos 843 para conseguir o meu divórcio.

As primeiras violências foram econômicas, mas isso foi mole. Depois foi aguentar o silêncio e uma assinatura que nunca chegou. Alguma reação teria doído menos do que se sentir casada com um fantasma. Nunca pensei que o silêncio pudesse ser extremamente violento.

Meu divórcio foi um dos primeiros da Argentina a serem feitos pela nova lei, que se chama Divórcio Express, onde você não precisa do consentimento do outro.

Não tínhamos filhos e não tínhamos bens pra dividir a não ser um carro.

Meu advogado disse que tinha sido o divórcio sem filhos mais longo e complexo da história que ele já tinha visto. E nesse meio tempo, além do estresse, fui internada às pressas. Uma bactéria tomou conta de mim e destruiu meu ovário e trompa direitos em 20 dias. O médico me perguntou: “você se estressou com alguma coisa? Porque não tenho explicação pro que aconteceu com você, mas sua imunidade tava lá embaixo.”

Se divorciar tem essas várias histórias dentro da história .

Alguns divórcios são mais civilizados e tranquilos, outros têm essas coisas que eu vivi, e ainda tem outros que são mais complexos ainda. Várias pequenas mortes de uma vida que não funcionava mais renascer em uma nova vida, rumo ao desconhecido.

Por muito tempo estive com raiva. Por muito tempo sofri e foi doloroso. Por muito tempo não entendia o outro, e nessa tentativa de entender, julgava sem pena tudo o que “o outro” fazia ou deixava de fazer.

Nunca foi tão fácil fazer papel de coitada, um prato cheio.

Era doentemente cômodo falar pra todos como meu ex era um filho da mãe. Procurei todo tipo de ajuda terapêutica e caí nas constelações familiares de Bert Hellinger.

Não digo que esse método sirva pra todos mas o que comecei a aprender naquele momento era que “quando uma tragédia pessoal chega às nossas vidas, é nosso sistema que está ali pedindo resolução. “

Por algum motivo esse “monstro” que a gente vê na figura do outro nada mais é que nosso próprio lado B não trabalhado e manifestado num espelho. Comecei meus trabalhos pessoais de olhar pra minha própria árvore genealógica, ver que papel eu ocupava dentro do meu sistema.

Não foi passe de mágica , mas aquela fera poderosa e malvada que eu via no outro começou a perder força. Com isso, não quero dizer que todo mundo tem que ser fofinho e amiga dos ex .

Aquele homem que casou comigo por livre e espontânea vontade (e feliz) nunca mais deu as caras na minha vida. Não me dirigiu a palavra nunca mais. Contrariando todos as previsões do “um dia ele vai te procurar”, o tal momento clichê nunca aconteceu. E eu tive que aprender a lidar com as coisas como elas são.

Em primeiro lugar, aprender a ser grata porque eu fiz as melhores escolhas que podia fazer a cada momento, então não existe um “se eu não tivesse escolhido isso…” Em segundo lugar , a olhar pro próprio umbigo e pra própria família com uma olhar de compaixão a todos os envolvidos – incluindo a mim – por termos unidos nossas histórias.

Depois entender que todo esse sofrimento, me tornou uma pessoa mais forte, independente , me fez descobrir minhas potencialidades e meus reais desejos na vida .

A sanação não vem quando aquele outro faz o que você pensa que ele deveria fazer. A cura acontece quando você tem a capacidade de olhar pra sua história e tomar ela do jeito que é, sem querer modificar o que não pode ser modificado.

A história é sua . As coisas aconteceram pra ambos . E daqui pra frente a única coisa que pode te fazer livre desse fato é incluir isso como algo que te pertence e faz parte da sua vida.

Incluir a todos no seu coração não tem a ver com ser Madre Teresa, ser amiga, ligar pra quem não tem relação com você . Incluir o vivido tem a ver com estar em paz de que isso tenha sido um processo pro seu crescimento .

Já não importa o que o outro faz, importa o que você faz com isso.

Anos depois, pude entender , que o outro , que eu via como monstro, também estava ali pensando que o monstro sou eu.

A gente não pode transformar os demais, mas a gente pode sair transformada pra melhor depois de uma situação onde todos somos no mínimo, responsáveis.

Aqui não falamos de culpa, mas sim de responsabilidade. Inclusive quando chega a hora de deixar ir e é preciso se despedir dessa parte da sua vida.

Graças a essa experiência eu sinto hoje que sou protagonista da minha vida e minhas escolhas. E não mudaria uma vírgula de tudo que vivi até hoje porque, graças a isso, me tornei esta mulher que sou.

Não importa o grau de violência em que ocorreu em seu divórcio, o que importa é aprender que o trabalho é sempre conosco, com nós mesmas.

Olhe pra dentro, desperte e aprenda com isso a fazer novas e melhores escolhas. No final da história, tudo isso foi essa coisa mágica que é sua história de vida. Olhe pra ela e para os envolvidos com amor. E seja feliz com isso.

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