4 em Destaque/ Sem categoria no dia 08.03.2018

Papo sobre mulheres: Eu, mulher, mãe de homem

Fiquei pensando muito sobre o que eu poderia escrever para o dia de hoje. Na verdade, dia 08 de março nunca significou grandes coisas para mim. Ok, sempre soube que era Dia da Mulher, mas para mim era apenas um dia que ganhava uma flor aqui, um desconto ali, um chocolatinho acolá, e claro, um dia cheio de propagandas melosas tentando lembrar como ser mulher é incrível, é poderoso, é inspirador, é maravilhoso, como mulheres são importantes, blablabla whiskas sachê.

Nunca dei muita bola até o dia que virei mãe. Mentira, meu primeiro Dia da Mulher pós maternidade, o Arthur tinha apenas 3 meses de idade e eu estava muito dentro daquele período de adaptação/reorganização de papéis para me importar com esse dia ou seu significado. Só que cinco meses depois, em Maio, aconteceu um fato tão grotesco que pela primeira vez me peguei pensando em qual era minha missão como mulher e entendi que uma delas – talvez o papel mais importante que vou desempenhar em toda a minha vida – educar um filho homem.

educacao-filhos

Mas antes disso, vou voltar para o dia que eu descobri o sexo. Preciso contar que nessa época, a única pessoa que afirmou que eu estava gravida de um menino foi meu pai. De resto, todo mundo – inclusive eu – estava certo que eu teria uma menina. Por pelo menos um mês eu alimentei essa ideia e já me imaginava criando uma mulher forte, determinada, que não precisaria depender de nenhum homem para nada. Girl power, essas coisas.
Quando chegou o resultado com 99,9% de certeza que aquela coisinha que estava crescendo dentro de mim era do sexo masculino, eu fiquei sem reação porque eu não tinha ideia de qual seria minha estratégia para educar um filho. E que tudo que eu tinha imaginado para o caso de eu ter uma menina não se encaixava tanto na educação de um ser humano que iria nascer já no topo da cadeia dos privilégios. 

E foi aí que aquele maio de 2016, com a história da menina violada por 33 monstros, me deu um tapa na cara e fez ver que eu tinha, sim, muito o que fazer. Que ser mulher e mãe de um futuro homem era algo muito mais importante do que eu poderia ter imaginado. Não só importante, essencial para que a gente consiga criar um dia a tão sociedade mais justa que tanto sonhamos. Entendi que eu posso tentar usar minha influencia como mãe para criar uma pessoa que não apenas respeita outras mulheres, mas estará disposto a lutar ao lado delas. Que saiba reconhecer atitudes machistas e privilégios que homens têm sobre mulheres – e ajudar a combater essas desigualdades, seja jogando junto, seja apontando erros para outros homens. Sem medo de perder sua masculinidade por isso, sem precisar provar sua masculinidade para ninguém.

Passei a ler mais sobre feminismo, li textão, li textinho, li manifestos (obrigada, Chimamanda), li visões mais radicais e mais liberais e, desde então, tento me manter informada o máximo possível. Aliás, toda informação que eu não busquei durante a gravidez, eu busco agora. Converso com outras mães que também têm filhos homens e procuro saber o que elas fazem, quais são seus planos, suas metodologias, suas leituras. Eu passei a conversar muito com meu marido sobre todas essas questões e, por causa disso, meu repertório foi ficando cada vez mais elaborado e estruturado para que eu pudesse responder certas questões que ele ainda não entendia. Fico feliz que ele tem se interessado pelo tema tanto quanto eu. Mesmo com tanta movimentação positiva, volta e meia me pego apreensiva com o futuro.

São muitas histórias que ouço e leio diariamente de mulheres que são vítimas de homens encantadores, estudados, charmosos, de boa família mas por causa do machismo, se acham no direito de manipular, abusar e ter atitudes egoistas, típicas de quem se acha acima do bem e do mal. Muitos desses homens não tiveram uma criação ruim, muitos têm mães zelosas se perguntando onde erraram, muitos têm mães que acham que criaram filhos perfeitos e nem sabem que eles são vistos como verdadeiros embustes pelo sexo feminino. E eu fico aqui, tentando entender onde eu entro nessa equação e quais atitudes eu posso tomar para educar um homem justo, educado e que tenha empatia pelas pessoas, um homem decente.

Cada ano que passa, meu Dia da Mulher vai ficando mais reflexivo, mais cheio de questões e mais vontade de acertar. Não é fácil ser mulher, tampouco é fácil ser mãe, mas se tem uma coisa positiva, é ter a esperança que a mudança pode surgir da gente na forma que educamos nossos homens. E quem sabe, a gente consegue construir um mundo um pouco mais fácil, igualitário e tranquilo para as mulheres que viverão com nossos filhos?

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4 Comentários

  • RESPONDER
    Marcia
    08.03.2018 às 14:54

    Carla, resolvi isso, na minha cabeça, de forma mais intuitiva. Sendo (ou tentando ser) a mulher que está em pé de igualdade e não se deixa tiranizar, seja na relação com o trabalho, seja na relação com o pai dele, enfim, nas situações em que pode haver alguma tentativa de assimetria na relação de poder. Acredito na força do exemplo. Mas, por incrível que pareça, o esforço que me é mais árduo é tentar me libertar da tirania do meu próprio filho. Armadilhas da vida. Um beijo

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    Juliani de Paula
    08.03.2018 às 22:13

    Cá, o meu filhote faz 7 anos semana que vem, e me derreto em ver ele reproduzindo o que eu ensino.
    Essa semana mesmo ele me contou que uma menina começou da sala dele mudou da aula de balé para aula de judo, e um amigo falou que judo era coisa de menino. Ele me disse, eu expliquei pro amigo que não existe coisa de menino ou de menina, que é só um esporte.
    Deu um orgulho!!

    Não depende só de nós mães criarmos um homem decente, mas acredito que a nossa geração, que se informa, pra criar bons homens, a sociedade em geral nessa revolução em relação aos direitos das mulheres, tem tudo pros nossos meninos se tornarem bons homens!

    Beijos

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    Renata
    09.03.2018 às 9:24

    Parabéns pelo texto incrivel Cá!
    Uma ótima reflexão para as futuras mamães de meninos!

  • RESPONDER
    Aline
    09.03.2018 às 21:20

    Cá, que texto perfeito!! Toda vez que alguem me fala que é facil criar filho homem, eu falo exatamente isso! Não quero criar mais um embuste pro sexo feminino, quero criar alguem parecido com o pai dele, que é gentil e me trata como igual, que sabe que mulher não deve ser tratada diferente por causa da roupa que ela tá usando ou por causa da sua atitude.
    Morro de medo de ter um filho machista. Acho bem mais dificil criar um filho do que uma filha. A não ser que queiram criar só mais um no mundo

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