3 em Comportamento/ maternidade no dia 06.03.2018

A TV morreu – ainda bem?? Acho que sim!

Acho que toda mãe de crianças com mais ou menos 2 anos conhece o que eu chamo de “a hora do terror”. A minha costuma acontecer no final do dia, lá pelas 6, 7 da noite. É aquela hora que já está todo mundo cansado, quase fim do dia, quase hora de botar a criança para dormir mas com jantar pra fazer, comida da escola do dia seguinte para organizar e louças de um dia todo acumuladas na pia – e a pessoinha dá um jeito de achar uma energia extra.

E aí, para gastar essa energia toda, a criança grita, pula, joga coisa pro alto e basicamente ganha um filtro que aponta diretamente para tudo aquilo que ela poderia fazer de errado em um ambiente. Nem sempre os pais conseguem dar conta, mesmo dividindo para conquistar. E foi numa dessas horas que um acidente de proporções catastróficas aconteceu. Um brinquedo jogado em cima da TV em um momento de distração nossa e, quando olhamos para a tela, a constatação: quebrada.

TV novinha, passamos mais tempo sonhando com ela e economizando para um dia comprá-la do que usando-a. Ligamos para o SAC três vezes, meio incrédulos, crente que alguma daquelas pessoas iria nos dizer que a garantia cobria (não cobria, as 3 afirmaram sem dúvidas), ligamos para a autorizada e constatamos que o preço que queriam cobrar para trocar a parte interna danificada era quase o preço de uma nova. Depois de explicar para o Arthur o que ele tinha feito e, bem, tentar educá-lo para que ele entendesse a gravidade da situação que ele causou, sentamos no sofá, derrotados, olhando aquela TV com uma mancha gigante que cobria uns 40% da tela. Parecia que a gente estava em uma situação onde o médico diz que precisamos desligar os aparelhos de alguém muito querido. E desligamos.

Jogamos ela fora com o coração doendo pelos dólares jogados no lixo mas não só por causa disso. Nem precisamos falar em voz alta. Quando olhei para o meu marido, a pergunta que não queria calar era a mesma para nós dois: o que vai ser da gente com uma criança em casa e sem TV?

não mais momentos de calmaria?

não teremos mais momentos de calmaria?

Não sei vocês, mas aqui em casa a televisão quase sempre exercia o papel de uma babá, ou de alguma ajuda para cuidar da criança. Era só ligar nos desenhos que ele pedia para garantir uma horinha de sossego para fazer alguma tarefa doméstica sem sermos atrapalhados. Só que em algum momento ela começou a servir de bengala para que a gente ficasse no sofá, olhando o celular sem fazer nada enquanto o Arthur se encontrava ali, hipnotizado pelas imagens e músicas.

No primeiro dia com aquele espaço em branco no meio da sala, descobrimos que ele até sentiu falta da TV, mas não ficou mais agitado com a falta de desenho. Tampouco pediu Ipad ou celular (coisa que ele finalmente entendeu que não terá acesso em casa). Ao contrário, ele brincou com quase todos os brinquedos do quarto dele, desenhou, ouviu música, dançou, e nós ficamos muito mais presentes. A distribuição das tarefas ficou mais bem dividida entre nós, já que estávamos dependendo apenas de nós mesmos para cuidar do nosso filho, e não mais de um eletrodoméstico. Tivemos mais risadas, mais atenção e, não acho que seja uma coincidência, mas pela primeira vez em meses ele só foi para nossa cama quando já era de manhã. Ah, e eu falei que eu consegui ler no meio da tarde – e não antes de dormir, como eu sempre faço? Pois é, consegui ler pelo menos uns 2 capítulos do meu livro enquanto ele se distraía brincando sozinho. Foi pouco, mas foi uma vitória.

No segundo dia, mais surpresa. Consegui sair no horário certo para levá-lo para escola, fazer tudo com mais calma, não precisei me estressar para tirá-lo da frente da TV nem para sairmos de casa. Não teve gritos com o dedo apontado para a televisão porque ele queria algum desenho específico. Ele até pediu baixinho e educado, mas quando eu lembrei o que aconteceu, já esperando aquele drama típico das crianças de 2 anos que ainda não entendem direito que não é não, ele se resignou e voltou a tomar seu café da manhã quieto. Ele novamente brincou com brinquedos que ele nunca tinha brincado direito. Me fez deixar de preguiça para levá-lo no playroom um pouco antes da hora do terror, assim ele pôde brincar bastante e socializar com outras crianças. Desse jeito ele chegou em casa sem tanta energia assim para gastar jogando coisas para o ar. Brincamos, usamos nosso tempo livre para ficarmos mais com ele do que de olho em telas de TV ou celular. Foi outro dia bom. Que bom.

Hoje chega a TV nova. Não tão bacana quanto o nosso breve sonho de consumo, porque 1) não tínhamos como comprar outra igual 2) não tem condições de ter coisa muito boa que quebra tão fácil com uma criança em casa. E sinceramente, estamos felizes. Não porque ela vai chegar, mas porque no fim das contas, essa experiência serviu para a gente repensar nossa relação com a TV. Ela pode ser um momento de reunião da família, mas não precisa servir de boia salva vidas para ficarmos educando do sofá.

Quando minha amiga fez um texto falando sobre sua decisão de tirar a televisão, eu amei os benefícios que ela disse ter tido, mas achei altamente utópico para a minha realidade. Nunca pensei que fosse experimentar isso na marra e provar que existe, sim, vida após a televisão quebrada.

Não digo que eu não vá usá-la mais para me salvar em momentos nem tão necessários assim, não digo que eu não vou ceder à facilidade de ter um hipnotizador de criança à minha mão, talvez até tenha uma recaída ou outra, mas acho que essa experiência serviu para eu re-equilibrar as coisas aqui em casa. E acho que enquanto a TV estiver funcionando mais para meu alívio do que para o entretenimento dele, eu estarei bem inclinada a deixá-la mais tempo desligada.

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3 Comentários

  • RESPONDER
    Rita Durigan
    06.03.2018 às 20:29

    Esse post me arrepiou do começo ao fim. Só uma coisa a dizer achamos q dependemos mais dela do q de fato dependemos e ela realmente não nos faz tão bem qto pensamos. Muito menos pros nossos filhos. Mas faz parte das nossas vidas, cabe a nós dosarmos isso. ❤️

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    Ana
    07.03.2018 às 11:30

    Aqui a hora do terror é essa mesmo, geralmente fico sozinha em casa essa hora pra dar remédio, lanche, jantar, banho, e ainda eu mesma jantar e me arrumar pra dormir. Não sei como faria sem o tal desenho. Não só pra distrair, mas porque se eu preciso sair pra esquentar a comida dele ou preparar o remédio, NA MESMA HORA ele sobe em sofá, poltrona e fica pulando, nessa já caiu algumas vezes feio… e tô grávida do segundo, não sei como vai ser hahahaha, sem TV nem pensar. Mas ele passa o dia na escola fazendo atividades, acho que esse tempinho vendo tv não devem fazer tão mal assim,

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    Renata Garcia
    07.03.2018 às 15:19

    lembrei de uma situação que não envolve crianças, mas adolescentes e adultos pré-internet, onde a TV fazia esse papel de entretenimento mesmo: chegar em casa, assistir o jornal, novela etc enquanto se janta, mecanicamente. Morávamos eu, meu pai e irmão pré-adolescente quando nossa TV quebrou. Enquanto estava no conserto, passamos a jantar juntos na mesa de jantar (e não no sofà), jogávamos baralho ou algum outro jogo, conversávamos… Foram dias super importantes pra gente enxergar o prazer de estar juntos…

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