0 em #paposobremulheres/ Comportamento no dia 06.03.2018

Papo sobre mulheres: E se você for uma mulher negra…

Estava eu tranquilamente saboreando um café pós almoço quando recebi o convite do Futi para escrever um post para a semana da mulher. Confesso que aceitei no impulso e só depois me dei conta do tamanho do desafio!

O tema é tão amplo e existem tantos olhares possíveis que abordá-lo em um texto curto por si só já me parecia uma missão ousada. Mas como desafio pouco é bobagem, a Jô ainda resolveu complicar um pouquinho e me lançar a seguinte indagação: “Você acha que dá pra falar sobre a questão da mulher do ponto de vista de ser uma mulher negra?”.

Nos minutos seguintes, entre um gole de café e outro, vários balõezinhos começaram a pipocar ao redor da minha cabeça. É claro que um deles veio com a famosa frase da Simone de Beauvoir: “Não se nasce mulher, torna-se mulher.” Mas quais seriam as experiências e sentimentos que o fato de ser mulher me trazem? Essas questões são diferentes por eu ser uma mulher negra? Por que ainda é importante discutirmos isso nos dias de hoje? Como vou escrever sobre algo que me gera mais perguntas que respostas?

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Em meio a esses devaneios eis que surge um personagem importantíssimo: o garçom! Ele se aproximou com a conta e gentilmente entregou para o único homem na mesa. Aquela cena simples, que se já vi se repetir inúmeras vezes, me transportou para uma espécie de universo paralelo.

Mergulhei em uma retrospectiva das minhas vivências envolvendo gênero e raça. Foi fácil identificar que eu tinha memórias de todos os tipos: alegres, tristes, engraçadas, frustrantes. Certamente parte delas foram consequências do quanto já caminhamos positivamente nessas duas questões. Afinal, foi graças à mobilização e atitudes de mulheres que vieram antes que eu posso, por exemplo, escrever e divulgar esse texto. Por outro lado, ainda há muita estrada pra percorrer. Outro dia escutei de uma amiga que: “Se você acha que racismo e machismo não existe, é mais provável tenha nascido branco e homem!” Prefiro nem comentar a frase dela, para não correr o risco de estragá-la.

Voltei desse surto instantâneo de Matrix e o garçom felizmente ainda estava lá para que eu pudesse perguntá-lo: “Por que você deu a conta pra ele?”. Ele sorriu meio constrangido e disse: “Bom, somos orientados dessa forma. É mais educado, né!” Aquele garçom estava realmente decidido a me ajudar. Educação – é aí onde tudo começa! Sei que ele se referia à educação no sentido de etiqueta, mas pra mim soou um pouco mais amplo.

Lembrei-me das famosas brincadeiras de meninos CONTRA meninas e do quanto eu tinha uma certa invejinha dos meninos da minha infância. Na época eu achava que era porque as “brincadeiras de menino” eram mais divertidas e interessantes que as “de menina”. Com o olhar de hoje percebo que o que eu invejava mesmo era a liberdade deles. Podiam brincar de qualquer jeito, se descabelar, se sujar, experimentar o mundo sendo moleques. E os moleques me pareciam tão mais livres que as princesas!

Lá pela adolescência aprendi que tínhamos que esperar ser escolhidas pelos meninos, que meninas tem que amadurecer mais rápido, que mulher solteira é encalhada e homem solteiro é convicto. E se você for uma mulher negra…ah, então, necessariamente precisa ser boa de cama e saber sambar!

Essa hipersexualização dos nossos corpos inclusive é uma das pautas do feminismo negro, um movimento que não só levanta questões vivenciadas mais especificamente por nós – mulheres e negras –  como também nos chama atenção para as interações existentes entre as diferentes formas de opressão: sexismo, racismo, questões sociais, de sexualidade e tantas outras.

Mais tarde, já no mundo do trabalho, aprendi que ser sensível e doce colocava em dúvida a minha competência. Bom, não foi preciso muito tempo pra entender que a liberdade que eu invejava nos meninos que subiam nas árvores não viria de presente numa badeja…eu precisaria conquistá-la!

Escolher esse caminho não é nadar em águas calmas. Buscar formas de me posicionar sem seguir nenhum script e de ocupar os espaços que me interessam mantendo pelo outro o mesmo respeito que estou exigindo dele é um equilíbrio delicado. Confesso que já perdi a mão algumas vezes e me vi, em nome dos meus direitos, tendo comportamentos semelhantes aos que critico.

Mas o melhor disso tudo são as descobertas fascinantes! Aprendi, por exemplo, que me sinto muito melhor em parceria com outras mulheres que competindo com elas, que intuição feminina existe sim e ninguém vai me convencer do contrário, que amo os homens e não me interessa vê-los oprimidos, apenas não pretendo me deixar oprimir.

A essa altura é importante esclarecer que não falo em nome de um grupo de mulheres e muito menos em nome de todas as mulheres negras. Falo à luz da minha história pessoal, das minhas crenças e escolhas.

De todas as categorias que somos pressionadas a nos encaixarmos eu escolhi a  “Não sou obrigada!” Não somos obrigadas a ter que escolher entre ser princesa ou malandra, feminina ou feminista, alienada ou ativista. Até podemos escolher ser alguma delas, se quisermos. Mas também podemos ser todas e muitas outras.

Voltando para o café, o garçom ainda meio sem saber o que dizer, mas em tom bastante cordial emendou: “Mas a senhora gostaria de pagar?” Eu sorri de volta e respondi. “Não. Obrigada!”

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