1 em Convidadas/ Destaque/ Devaneios da Mari/ Relacionamento no dia 19.01.2018

Sobre a arte da troca (e de ser enxergada)

Antes de falar qualquer coisa sobre o assunto que é tema desse post, preciso dizer que cheguei a escrever metade de um texto que eu joguei no lixo depois de uma troca de mensagens com a Ju Ali. Faço questão de contar isso porque vejo por aí tanta gente brigando pra ver quem tem mais razão em discussões que ganhariam muito mais se os envolvidos estivessem dispostos a trocar, mais do que gritar suas opiniões pros quatro cantos e tentar fazer todo mundo as engolir.

Digo isso também porque o assunto sobre o qual resolvi escrever – depois de um período longo sem aparecer por aqui – envolve um tema que precisa ser cada vez mais conversado. E a troca ajuda muito mais a gente a elaborar ideias mais bem formatadas e com sentido do que uma cagação de regra. É também o que eu espero em relação a esse meu texto. Não estou aqui para dizer o que cada um deve ou não fazer, como cada um deve agir, etc. Você mesma é a melhor pessoa para saber o que seu coração diz que é certo e que te faz bem. Mas o negócio é o seguinte… ao meu ver, no meu entendimento, precisamos (homens e mulheres) começar a lidar de um jeito um pouco diferente com os encontros amorosos.

Desde a publicação do artigo no site Babe sobre o encontro entre Aziz Ansari e uma fotógrafa, cujo nome foi protegido, eu só consigo pensar sobre as conversas que realmente deveríamos ter nesse momento, as questões realmente pungentes – para o qual o sensacionalismo da mídia em cima dessa história está nos cegando. Não vou defender Aziz. Na minha opinião ele foi um homem egoista e com uma grande falta de senso de oportunidade – como tantos caras que nós e nossas amigas já ficaram. Mas isso não o torna um predador. Ele é mais um cara que está ali focado em se resolver sem pensar muito em quem está na cama (ou no sofá) com ele. Não pretende machucar a pessoa com quem está, nem deliberadamente impor algo a ela, mas também não está preocupado em tornar aquele momento prazeroso pra ela.

E, a meu ver, é uma grande perda de tempo ficar chamando o cara de monstro, enquanto o problema real não é discutido. Porque o maniqueísmo enfraquece a nossa luta, que é tão importante. Existem 50 tons de relações entre homens e mulheres, entre o santo virginal e o Harvey Weinstein.

A questão sobre a qual proponho que a gente pense mais é: o que precisa mudar nesse começo de relação – ou mesmo que seja uma noite apenas – entre duas pessoas que não se conhecem tão profundamente mas estão na busca do prazer em conjunto? Pra começar, precisa ser de fato um conjunto. A fórmula atual de encontros, a forma como as mulheres heterossexuais em geral (não todas, mas muitas) se colocam, num encontro ou nos encontros iniciais, é de estar constantemente numa posição de avaliação. Quanto mais novas, aliás, mais as mulheres fazem isso. Guardam numa gavetinha no canto da mente certas características pelas quais elas pensam que o cara não vai se atrair por ela, e se vestem da pessoa que elas acham que caras gostam. Em 2018 isso ainda existe. E ainda tem revista (principalmente as voltadas pra adolescentes) que investem em pautas como “o que vestir para o primeiro encontro”, “o que eles gostam na cama”, “eles contam o que realmente pensam quando você…”

Enquanto a mensagem não mudar, homens do mundo todo vão continuar achando nada de mais em, por exemplo, considerar que é melhor te dar uma bebidinha pra ter mais chance com você, depois que você já estiver altinha, ser extremamente insistente para fazer o que ele está afim de fazer na cama até que você diga que topa ou virar pro lado assim que ele se resolver enquanto você não teve prazer algum ainda.

E podem nos chamar de chatas, ou do que quiserem. Mas a culpa disso é sim do machismo que é muito mais entranhado nas mínimas coisas da vida do que a gente pensa. Por mais desconstruído que muito cara seja, se ele não acha que de repente aquilo pode virar uma relação mais duradoura, a maioria deles não vai se preocupar muito. A maioria não vai lembrar que era, de repente, sei lá, talvez meio que interessante, se ele prestasse atenção no ser humano que está ali com ele durante aquela noite, que está na mesma busca por prazer que ele.

Porque, no fim do dia, é sobre isso que estamos falando. É sobre sermos vistas, sermos enxergadas como seres que buscam o prazer naquela relação – tanto quanto o cara. É pra ser uma troca. A mulher não está ali para ser convencida a fazer tudo que o cara planejou pra noite dele.

Não se diminua para deixar outra pessoa confortável. Não se apequene perante uma pessoa que se recusa a crescer.

Não se diminua para deixar outra pessoa confortável. Não se apequene perante uma pessoa que se recusa a crescer. Do insta @recipesforselflove

E na minha opinião, para que nós mulheres consigamos ser mais incisivas nas mensagens que passamos pra eles, sejam mensagens verbais ou não, precisamos primeiro nos enxergar em pé de igualdade com eles. Não, num primeiro encontro você não está ali para ser avaliada e se ele achar que você vale a pena ele vai querer algo com você. Vocês dois estão ali para se conhecerem e curtirem juntos a mesma noite. Essa noite não pode terminar deixando sentimentos tão opostos em cada um.

Se você acha que ser mais você, falar mais suas opiniões, vestir algo mais próximo do que você curte, etc, vai assusta-lo, afasta-lo ou desencoraja-lo a ficar com você é porque vocês não têm mesmo que estar juntos. E esse é um ponto chave no qual a autoestima entra. Porque, no fundo, muitas de nós agimos dessa forma pelo medo que sentimos de acabarmos sozinhas. Pelo medo da rejeição, por querer agradar o outro muito mais do que pensamos em agradar a nós mesmas.

Quem quer que seja o cara, pode ter certeza que não é o último homem do mundo. Qualquer que seja o tópico em comum que te fez achar que ele “valia o esforço” não é um tópico que você não possa ter em comum com outros caras. E por aí vai.

Esse texto está se estendendo, mas faço questão de falar, ainda, que ao colocar tudo que disse acima, não estou tirando do ombro dos caras a responsabilidade por não serem babacas. Mas a grande verdade é que nós – homens e mulheres – que damos o tom sobre como os outros devem nos tratar. Em qualquer situação. Por isso é tão importante que a gente trabalhe a nossa autoestima.

Se você lida com a outra pessoa como se ela estivesse acima de você (seja esteticamente, intelectualmente, profissionalmente ou o que for) a outra pessoa vai captar as suas dicas não verbais involuntárias de que ela está mais apta que você para ditar as regras naquela relação. E isso não é saudável pra ninguém.

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1 Comentário

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    Renata Castro
    19.01.2018 às 13:39

    Amei demais esse texto!!

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