4 em Autoestima/ Beleza/ Cabelo/ Convidadas/ Destaque no dia 21.11.2017

Meu cabelo não é como as pessoas esperam – por Rosana Maia

Minha relação com meu cabelo sempre foi muito confusa, para não dizer engraçada. Sou fruto do casamento entre uma negra e um branco, e aí já começou a esculhambação capilar na minha pessoa.

Sou negra, cabelo originalmente muito fino, ondulado e volumoso – eu sempre tive MUITO cabelo. E preciso mencionar que fui criança nos anos 70, onde não havia produtos no mercado voltados para os cabelos afro. Aliás, nesta época só havia produtos para peles claras, bem claras.Negros não eram reconhecidos pelos fabricantes como publico consumidor de produtos de beleza e afins, mas isso é outro papo.

Como não havia nada para auxiliar na hidratação dos cabelos, ou para ajudar na composição dos cachos, passei praticamente toda a infância de cabelos presos, nos famosos penteados da D. Nicélia que, neste caso, era minha mãe. Eram umas marias-chiquinhas TÃO apertadas que por vezes eu poderia ser confundida com uma japonesa, porque os olhos chegavam a esticar hahahahaah.

Na adolescência, já nos maravilhosos anos 80, o mercado de cabelos descobriu o maior nicho de mercado de todos os tempos – os cabelos afro! Choveu opções de produtos de hidratação e até mesmo para alisar os cabelos com menos agressividade. Surgiram os primeiros salões especializados em cabelos afro e… cadê que alguém arriscava alguma coisa pro meu cabelo?

Dos 10 até meus 17 anos usei o cabelo bem curtinho, tipo nuca batida e deixava um topetinho em cima – me sentia a ousada. Nesta fase, Michael Jackson lançou o penteado tipo mullet e eu me joguei com força porque era perfeito pra mim – batido dos lados, e bem volumoso no alto da cabeça até as costas. Assim mesmo, vibes cacatua. Confesso que devem ter sido momentos difíceis pra minha mãe hahahhaahah.

Depois disso, descobri uns produtos que davam uma “relaxada” na raiz e hidratavam os cabelos. Aliados à outros produtos de definir cachos, tive a maior juba cacheada que você respeita. Era um super cabelon comprido (molhado chegava abaixo da minha bunda) mas que dava o maior trabalho do universo porque os cachos não eram originários do meu cabelo.

Como falei, ele era ondulado, não cacheado. Daí tinha que amassar cabelo com 1093428475427 produtos – pentear não podia jamais, somente molhado e no banho, com um pote de creme do lado. Eu lavava a cabeça TODOS os dias porque eu detestava o cabelo desmilinguido que ficava quando eu acordava. E assim nesta trabalheira, fui vivendo até que engravidei. Durante a gestação aconteceram umas coisas esquisitas com meu cabelo, que murchou. Foi ficando com muitos fios brancos, e os fios brancos eram bemmm diferentes dos fios originais. Com o nascimento da minha filha, tive que optar: ou mantinha o cabelo e todo o trabalho que ele dava ou criava o bebê. E por motivos de força maior, fui ali criar o bebê e cortei o cabelo.

Mal sabia eu que já havia acontecido a mutação capilar. Meu cabelo foi ficando cada vez mais grisalho e cada vez mais lisão de um jeito esquisitão. Não era um cabelo liso bonito, era tipo cabelo alisado, espigado e grosso. Um enorme contraste com os cabelos ondulados, finíssimos e secos originais de fábrica.

Como não seguro cabelos grisalhos, comecei a me jogar nos tonalizantes. Eles são menos agressivos e foi a melhor coisa para esses cabelos novos, que eram bastante frágeis e por tudo caiam.

Procurei um dermatologista porque precisava entender o que havia acontecido e ouvi uma explicação interessante: eu sou uma mistura tipo um leite + achocolatado, daqueles que o chocolate se acumula em alguns pontos do copo. E meu cabelo branco veio me mostrar exatamente isso, que sou uma mistura. Assim sendo, mudou tudo na minha vida e na forma de cuidar do cabelo. Não posso passar produtos em geral com química porque ele cai. Não posso usar tinta de cabelo porque ele cai. Preciso trocar o tonalizante de vez em quando, porque ele cai.
Faço umas escovas destas de Botox, queratina ou qualquer outra menos agressiva e sem formol, duas vezes por ano, pois os cabelos que ainda são originais de fábrica se descontrolam um pouco com a falta de hidratação, e como os cabelos brancos tendem a ser oleosos, não posso usar muitos cremes hidratantes.

Entretanto, o pior disto tudo, nem foi minha autoestima porque sou zero apegada à cabelos – eles crescem novamente, e no meu caso, numa velocidade absurda. O pior disto tudo é o julgamento das pessoas sobre os motivos de eu não “assumir” mais meus cachos, que só eram meus porque eu botava bigudin pra dormir, amassava cabelo, fazia 2984528 rituais pra cachear os cabelos.

Eu sou negra, e como tal, as pessoas esperam que eu tenha cabelos crespos, cacheados ou black, e se uso os cabelos lisos, é porque aliso os cabelos “numa tentativa de me embranquecer” ou sei lá o que elas acham. Precisamos parar de achar que só é negro quem usa cabelo afro/black/crespo/nagô/dread. Nós negros podemos usar tudo o que quisermos usar. E isto é o mais maravilhoso de se nascer uma “black canvas” – vc pode ter a cor/forma que quiser nos seus cabelos e ficar deslumbrante.

Na verdade, eu tento fazer a melhor limonada possível com os limões cabelísticos que vieram pra mim. E eu afirmo à todos, que mesmo que eu alisasse os cabelos, isso não faria de mim menos negra. Como disse a médica, a mistura pode não ter sido tão homogênea, mas tem chocolate pra caramba aqui, viu?!

Gostou? Você pode gostar também desses!

4 Comentários

  • RESPONDER
    Gabriela
    21.11.2017 às 22:52

    Leite com achocolatado é bom demais da conta!

    Essa coisa de misturas e o que se espera de um padrão é muito interessante. Eu tenho a pele muito clara, com os pêlos do corpo loirinhos e o cabelo entre o loiro e o ruivo. Certa vez, uma amiga falando sobre o esteriótipo das mulheres negras, com o cabelo cacheado e os lábios grossos, brinquei que tinha acabado de me descobrir negra, pois tenho essas caracteristicas também!

  • RESPONDER
    Gustavo Marinho
    22.11.2017 às 11:06

    “…simplesmente um luxo…”

  • RESPONDER
    Amanda
    22.11.2017 às 15:06

    Sou negra, tenho raiz do cabelo lisa e comprimento ondulado. As pessoas esperam que eu tenha o cabelo crespo. Sempre perguntam o que eu faço para alisar. hahahaha
    Minha mãe tem o cabelo super liso e o do meu pai é crespo. Tenho uma irmã bem branquinha, com o cabelo crespo. É uma mistura danada kkkk E tá lindo! Desde pequena sempre achei interessante essa mistura =)

  • RESPONDER
    Marianna
    23.11.2017 às 14:07

    Adorei o texto! Também acredito que cada um pode usar o que quiser, o que gosta, o que se sente bem! Comentei sobre isso no post sobre a Kim não ser empoderada. Não podemos achar que TEMOS que fazer algo, seja para seguir o padrão ou para fugir dele. Acredito que cada um tem que agir como se sente bem, independente de como isso é enxergado por quem está de fora.

  • Deixe uma resposta