2 em Autoconhecimento/ Comportamento/ Convidadas/ Mayara Oksman no dia 08.06.2017

Distância e saudade

Distância sempre foi uma palavra conhecida por mim. Eu cresci com meus irmãos morando em outro país. Já adolescente, e com parte dos meus irmãos de volta, minha mãe quis morar por um tempo em outra cidade e eu fiquei em São Paulo por causa do colégio e das amigas. Já na faculdade fiz amigos de várias partes do mundo em um curso de verão nos Estados Unidos. Facebook e Skype sempre ajudaram muito e, não vou negar, pareciam suficientes.

Mas existem quatro diferentes (e ao mesmo tempo similares) situações na minha vida que eu tenho tido dificuldades de lidar: Minha irmã mais velha, duas melhores amigas, minha mãe e meu namorado morando fora.

Minha irmã mais velha nunca quis voltar para o Brasil. Ela casou, teve filhos, criou uma vida. A gente tenta se falar sempre que dá, mas no final a rotina de cada uma sempre atrapalha. Eu não sou para os meus sobrinhos de lá a mesma tia que sou para os sobrinhos daqui. Aqui eu deito no chão, brinco de esconde esconde, aprendo música de seriado da TV Globinho e dou bronca quando pintam o sofá com canetinha. Com meus sobrinhos que moram fora é como se eu simplesmente existisse. Eu consigo manter um “contato” maior com os mais velhos, porque agora eles falam inglês e têm Facebook, Instagram e Whatsapp. Mas já não é igual. Com os mais novos, eu praticamente não tenho contato: eles falam hebraico, então sempre dependo de um dos meus irmãos para traduzir a conversa. Eles não têm rede social para eu fuçar a vida deles e vice-versa.

Eu me culpo. Me culpo por as vezes deixar isso de lado. Por nunca ter aprendido a falar hebraico. Por raramente mandar presentes nos aniversários e fazer uma surpresa. Por, em 28 anos de existência, ter ido uma única vez para Israel. E eu também culpo minha irmã por não ensinar eles a falar português, por não enviar fotos recentes ou simplesmente por viver a vida dela lá, como eu vivo a minha aqui. Confesso que é complicado.

Minha mãe, que depois de ir morar em Brasília por dois anos voltou para casa enquanto eu estava na faculdade, agora foi trabalhar em Manaus. Ela vem final de semana sim, final de semana não, então até que tudo bem. Mas tem dias que eu chego do trabalho e tudo que eu queria era colo. Era contar para ela XYZ. Era pedir conselhos. Confesso que eu não falo muito com ela, “bom dia” e “boa noite” via Whatsapp e é isso. As vezes é como se falar com ela pelo telefone piorasse as coisas. Freud deve ter uma explicação para isso. Eu e ela apenas vamos seguindo. Quando estamos juntas raramente estamos sozinhas, pois além de ter que dividir ela com pai, irmãos e sobrinhos, tenho que dividir ela também com o Oscar, meu cachorro, que aparentemente é um traíra e ama mais a ela do que a mim.

Duas das minhas melhores amigas decidiram morar fora. Uma delas foi há mais de quatro anos e a outra foi há quase um. Essa última vocês conhecem por nome e sobrenome, ela já escreveu por aqui sobre como está sendo a experiência dela ao largar vida e trabalho para morar fora. E não importa há quanto tempo elas estão longe. A saudade não diminui. A falta que elas fazem nunca muda. O Facetime ajuda muito, assim como o Whatsapp. É bom para bater um papo, saber das novidades, contar os baphos, etc. Mas putaqueopariu, não é a mesma coisa. E sim, eu tenho outras amigas, mas uma não substitui a outra, uma não preenche o vazio que a outra causa.

Eu claramente deixei o mais difícil por último. Apesar de querer falar uns quinze parágrafos sobre ele – e sobre nós – eu não quero falar demais a ponto de uma exposição que eu sei que ele não gosta. Ainda estou tentando achar um meio termo, porque como vocês bem sabem eu sou dessas que desata a falar e só para quando cansa. Só digo para vocês que uma das coisas mais difíceis que já fiz é ter alguém que eu amo (de uma maneira completamente diferente das situações acima) morando longe. E não é longe “outra cidade”, é longe “outro país, outro continente, outro fuso horário”. Não existe Facetime que aguente, porque Facetime não vai comigo no cinema ou no restaurante, não senta comigo no sofá e assiste seis horas seguidas de Netflix. A gente tenta fazer o que dá, mas eu sei que algumas coisas a gente só vai ter quando morarmos perto um do outro. Isso me deixa ansiosa e é algo que eu trabalho todos os dias. É um desafio diário e constante.

Em resumo, seja das amigas, da irmã, do namorado ou da mãe, distância é distância, saudade é saudade. Enquanto uma não diminuir, a outra sempre vai aumentar. 

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2 Comentários

  • RESPONDER
    Drê
    08.06.2017 às 16:07

    Quanto amor em um texto tão delicado, assim como você. Saudade é um trem difícil demais, corrói, maltrata e nos faz chorar. O amor é outro trem difícil, porque nos faz cometer loucuras (financeiras, inclusive!) só para sentir por mais alguns segundos aquele cheiro ou olhar por mais alguns minutos naqueles olhos ou se perder por mais algumas horas naqueles braços. Mas sabe o que é mais engraçado? Só o amor é capaz de manter, mesmo que de forma sôfrega, as relações que a saudade parece dizer serem impossíveis. Siga seu coração, margaridinha. Leve sua luz para onde for, mas nunca deixe de amar. Esse é o seu melhor presente para os seus amados (mãe, amigas, namorado) que, como você, sofrem a ausência de alguém tão especial.

    • RESPONDER
      Mayara Oksman
      04.02.2018 às 16:02

      Lendo esse comentário com tanto tempo de atraso, mas recebendo todas as palavras com amor. Obrigada por estar do meu lado todos os dias, obrigada por me dar colo quando eu preciso, por me levantar do buraco quando eu teimo em me enfiar lá. Conte sempre comigo, minha linda. Eu te amo infinito.

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