1 em Autoestima/ Reflexões no dia 29.10.2016

#futitradutor: Estou cansada de não ver mulheres como eu na mídia

Como o outro texto que eu traduzi fez sucesso e algumas meninas vieram falar comigo que a ideia de traduzir alguns textos legais era boa, resolvi continuar procurando conteúdos legais e interessantes para traduzir e trazer a discussão para cá – em português! O texto de hoje é da Danielle Brooks, mais conhecida como Taystee em Orange is the New Black, que escreveu essa matéria para o site Refinery 29.

Voltando para casa depois de um longo dia de trabalho, resolvi checar a caixa de correio do meu novo apartamento. O que eu vi com meus olhinhos? Uma revista de moda (quem quer que tenha morado no meu apartamento antes de mim esqueceu de atualizar seu endereço, então eu continuo recebendo várias revistas de graça. Sorte a minha!). Primeira coisa que eu fiz quando cheguei em casa foi largar minhas bolsas e começar a explorar página por página. Por que eu estava tão animada? Porque Michelle Obama estava na capa desse mês.

Mas assim que fui chegando ao final da revista, fui me sentindo confusa. Meu cérebro ainda em choque e meu coração um pouco pesado. Em toda a edição de 330 páginas, apenas duas mulheres com corpos parecidos com o meu. Menos de 1%. É isso. Na maioria das vezes, mulheres plus size ocupam 2% das imagens na mídia, isso na America, onde 67% das mulheres vestem acima de 42. Isso é diversidade nesse mundo? E eu nem estou falando sobre a falta de diversidade de cores de pele nessa publicação (e como eles acharam que preencheram a cota botando a Michelle na capa – olhos revirando). Eu simplesmente não consigo acreditar que em todas essas 330 páginas só tinha espaço para 2 mulheres plus size.

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Vamos tentar fazer um exercício: Imagine que cada página nessa revista de 330 páginas é um dia que você passa com uma pessoa diferente. Agora imagine que nesse tempo todo – quase um ano – você vê apenas duas mulheres plus size em dois dias diferentes. Melhor ainda, imagine que essas duas pessoas são sua mãe e sua irmã. Você só poderia vê-las duas vezes por ano. Pode parecer bobo, mas essa é a invisibilidade que a indústria da moda dá para 67% – a maioria – das mulheres. Olhando para a mídia (e todas nós olhamos para ela em todos os lugares, desde séries e filmes até clipes de música e propaganda, quer a gente goste ou não), assim é como o mundo se parece. Ler essa revista mandou outra mensagem para o meu cérebro, de que a sociedade não me considera – ou a sua mãe, ou irmã, ou filha, ou até mesmo você – digna de ser vista.

Como eu fui ficando cada vez mais curiosa sobre esse assunto, eu me toquei que todas as editoras-chefe das maiores revistas – Vogue, Elle, Glamour, InStyle – são mulheres. Então vamos entender: todas concordamos sobre salários iguais, não é? A maior parte dessas publicações e seus leitores pode argumentar que mulheres devem receber o mesmo que homens que trabalham nas mesmas áreas. Nos é permitido fazer barulho sobre isso. Mas quando chega na igualdade de representação nessas páginas, ficamos quietas. Nós simplesmente não estamos nos apoiando como deveríamos.

Nós todos sabemos o poder do visual; ele influencia como compramos, o que desejamos e, mais importante, como nos vemos. Quando uma pessoa não se vê refletida em 98% do tempo, isso causa um inegável efeito no seu psicológico. O inverso também acontece. Eu lembro do dia que a Lane Bryant (marca de moda plus size) lançou sua campanha “Não sou anjo”, cheia de imagens de mulheres gordas pela TV, outdoors, até mesmo no metrô. Eu andei com a cabeça um pouco mais erguida, com a postura mais firme e um sorriso mais brilhante. Eu me vi naquelas mulheres. Me deu permissão para me orgulhar do meu corpo. Me lembrou que tem tantas outras mulheres por aí afora com corpos parecidos com o meu. Era uma propaganda, mas para mim significou muito mais. Me deu esperança que outras marcas pudessem seguir esse caminho e serem parte de algo maior.

Existe esse mito doido que mulheres plus size preferem comprar online porque é muito desconfortável comprar em lojas. Mentiras. A primeira razão que muitas mulheres plus size compram online é porque lojas online são as que mais têm roupas da moda do nosso tamanho. Nós temos que comprar virtualmente porque o mundo real parece dizer “não saia da sua casa, nós não queremos te ver, bote sua capa da invisibilidade e faça suas compras pela internet”.

E eu digo: como você ousa? São 67% das mulheres que geraram seus filhos, que são suas filhas, que trabalham para você, ou você trabalha para elas. Elas pertencem a essa sociedade tanto quanto você.

Falando em tendências, são esses designers do mercado de luxo que estão ficando para trás. Por que tantos deles acreditam que perderão seu ar de exclusividade ao serem inclusivos? Christian Siriano tem refutado isso com seu trabalho, juntamente com Michael Costello e Carmen Marc Valvo. Eu  li recentemente uma matéria do Hollywood Reporter que disse que as vendas de marcas de luxo estão descendo em espiral, com uma queda de 48% das vendas de ítens online com preço cheio (nas lojas o buraco é ainda mais dramático). Vamos lá, estilistas. Quanto vocês querem apostar que se começarem a entrar em um novo mercado botando Precious Lee ou Tess Holliday vestindo suas roupas, suas vendas irão aumentar e você será uma marca mais desejada? Se atualizem! Vocês ainda poderão ser consideradas marcas de luxo – só serão melhores.

Tem um valor no dólar plus-size. Em 2014, esse mercado gerou mais de 17.5 bilhões de dólares. Tanto a indústria fashion quanto a mídia estão ignorando esse fato, muito. Nós queremos comprar até cair, ficarmos na moda, nos sentirmos gostosas e sexy. Queremos nos ver em revistas – não como uma cota, mas em capas. Eu desafio especialmente vocês, mulheres líderes: seja uma mulher que apoia todas as mulheres.

Editoras, queremos ser vistas. Estilistas, queremos ser vestidas. Lojas, queremos opções. Mulheres, precisamos fazer isso juntas.

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1 Comentário

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    Aline
    30.10.2016 às 14:04

    Cara, essa é uma discussão cheia de “pontos”, não?! Nunca, durante a adolescência, fui leitora do tipo de conteúdo contido nessas revistas. Até completar uns 20 anos nunca me interessei por isso ou mesmo por blogs de moda/maquiagem e tal. Isso é algo bem recente pra mim. Talvez por isso, por não ter contato com essa falta de diversidade durante a formação da minha personalidade, eu costumava pensar algo tipo “quem se importa com o ‘biotipo/características’ das mulheres que constam ali? É só uma revista”. Eu pensava que o ponto principal deveria ser trabalhar a auto-estima das mulheres para que revistas/televisão não fossem um golpe a mais. Mas agora percebo que está tudo ligado. Que pra uma parcela significativa da população se ver ali é um dos fatores que pode aumentar sua auto-estima e que pra aquela outra parcela da população (a que se encaixa nos padrões da revista) é necessário ver o “diferente”, pra entender que nem é tão diferente assim, é o que vemos na nossa vida real, nas ruas, no trabalho…

    Seria tão bom ver grandes marcas pararem de segregar as pessoas. Pararem com aquela atitude de “olha como somos legais, decidimos fazer uma seção plus size”, como se fosse um favor. Eles estão ali pra prestar um serviço, por que não fazer direito? Atendendo a todos?

    Outra coisa que tenho reparado é que eles mantem a numeração, mas reduzem o tamanho das roupas. Pra muitas marcas um 44 tá equivalendo a um 40 de uns anos atrás. E não vamos nem falar sobre os números maiores. Que muitas vezes são inexistentes. Isso é humilhante demais, eles te dizerem que tu não merece aquela roupa a menos que tu emagreça o suficiente pra caber nelas.

    Ps: a InStyle acabou de mudar de editor-chefe. A nova editora, Laura Brown, parece ser alguém que tem interesse em pessoas comuns (não gosto de usar a expressão “mulheres reais” pq todas somos reais, não? Mesmo a moça que usa 36 e só sai de casa com maquiagem completa e de salto). Tenho esperanças de ver uma revista mais pé no chão.

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