8 em Comportamento/ crônicas no dia 27.04.2016

Crônicas da Jô: não cabe mais?

Era sexta-feira, ela estava se arrumando para sair. O clima estava tão gostoso (graças ao ar condicionado do quarto) que ela nem pensou duas vezes: uma taça de vinho branco do lado e começou o ritual de tirar alguns vestidos do armário. Todos pareciam inicialmente perfeitos para a ocasião, um reencontro de amigas de colégio que se falavam muito pelo celular, mas se encontravam pouco pessoalmente.

Maquiagem terminada, cabelo preso por causa do calor, acessórios escolhidos. Era a vez de voltar aos vestidos, que se encontravam jogados em cima da cama. Enquanto ela foi provando um por um, algo estranho foi acontecendo. O primeiro não servia, o segundo não caiu bem e o terceiro? Já não tinha nada a ver com ela.

Aquele momento perfeito de vinho, boa música e expectativas passou e aqueles vestidos agora mais pareciam pedaços de pano que ela não reconhecia. O tempo tinha voado e ela precisava sair de casa, por isso parou com o drama, vestiu o primeiro clássico atemporal que viu pela frente e foi embora. Ainda bem que sempre tem aquela peça que veste bem, do tipo que é impossível de se desfazer.

Enquanto estava no trânsito a imagem dos vestidos – agora jogados na cadeira – não saía de sua cabeça. O que fazer com eles? Já tinha quase um ano que eles não saíam do quarto, quem dirá de sua casa. Ela sabia que durante esse ano muitas mudanças haviam acontecido, ela também havia mudado e seu estilo acompanhou essa sua nova fase, de forma que muita coisa já não combinava mais. Ao mesmo tempo, pensar em se desfazer dessas peças em específico parecia estranho.

 

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Havia saudade de um tempo em que eles eram uma mistura perfeita. Havia também um apreço antigo, como se a presença física daquelas roupas fosse obrigatória para lembrar dos bons momentos. Mas enquanto ela não chegava no bar, ela foi entendendo que não havia mais a ilusão de que aquelas peças iriam fazer parte de sua vida para sempre. As roupas se mantinham iguais, com as mesmas modelagens, botões e comprimentos, mas ela mudou.

Naquela hora ela se deu conta de que não foram as roupas que pararam de servir, ela que já não fazia sentido dentro delas. A solução era uma só e bem simples: ela precisava se desfazer daquilo tudo, deixar que eles encontrassem novas pessoas para protagonizar novos looks e histórias.

Ela sempre foi muito pontual, tanto que foi a primeira a chegar no bar. Pegou uma mesa, pediu um drink e esperou com certa ansiedade aquelas amigas que não via há tanto tempo. Ela sabia que estava meio ausente do grupo do celular e também desconfiava que estava em outro momento na vida. Tinha começado um trabalho novo dos sonhos, arranjou um namorado que deixou sua auto estima nas nuvens e tinha acabado de voltar de uma viagem que mudou sua vida. Mas aquelas meninas fizeram parte de tantos momentos importantes de sua história que ela não conseguiu recusar o convite. Quem sabe conversando pessoalmente ela não descobriria que as amigas também teriam histórias ótimas para contar e que estavam guardando tudo para o encontro? Quinze minutos depois a primeira chegou, em seguida veio a outra e por fim, a última. Quando todas se sentaram e começaram a conversar, ela aguardou aquela sensação familiar, aquela ideia de que mesmo não se vendo pessoalmente por tanto tempo, nada tinha mudado. Porém a sensação nunca veio.

Já não era a primeira vez que ela se sentia uma “outsider” naquele grupo. Enquanto ela ansiava para contar as coisas boas, as conversas giravam em falar mal de pessoas, de lugares, enfim, de tudo. O que parecia fluido, engraçado e leve, havia ficado pesado. E quando ela tentava mudar de assunto, virava a chacota da mesa. Naquela noite, depois do terceiro drink ela cansou de tentar se justificar e enfrentou o fato de que ela tinha mesmo se tornado uma estranha. O que era para ser confortável estava incômodo. Entre as conversas sempre havia uma indireta, uma armadilha, uma tentativa de saia justa. Por um tempo os drinks ajudaram, ela preferiu fingir que não estava entendendo o que estava acontecendo e seguiu tentando se adequar, seja pelas boas memórias que elas tinham construídos juntas, seja pelos momentos legais ou pela amizade que ela achou que ainda existia.

Enquanto voltava para casa meio decepcionada, ela se lembrou dos vestidos na cadeira. Será que aquela noite tão esquisita só aconteceu porque antes de sair de casa ela percebeu que aquelas roupas que antes eram suas preferidas agora não serviam mais na sua vida? Ou, por incrível que pareça, esse sentimento de não pertencimento podia acontecer com roupas e pessoas?

Quando chegou em casa, ela finalmente percebeu que não eram os vestidos que a angustiavam. Livrar-se deles seria rápido, fácil e ainda gerava um sentimento bom de que outro alguém seria feliz naquelas roupas. A angústia realmente estava relacionada ao encontro com as meninas que um dia foram suas amigas.

Amizade, por definição, envolve se importar com o outro. Amor também. Mesmo assim não há inocência que sustente a ideia de que todas as relações humanas serão eternas. Se um namorado pode passar a não te fazer bem, o mesmo pode acontecer com uma amiga, prima ou companheira de trabalho. A gente muda, nem sempre os outros mudam com a gente.

Enquanto ela tirava sua maquiagem, devaneios e pensamentos borbulhavam na sua cabeça. Ela sempre acreditou que valia a pena lutar pelas pessoas – nesse aspecto os vestidos antigos não podem ser comparados a seres humanos – mas depois dessa noite, ela tinha percebido que de nada adiantava lutar uma guerra perdida por quem já havia desistido dela. Não adiantava insistir onde não havia mais reciprocidade, companheirismo ou boa vontade.

Ninguém é obrigada a usar roupas que não combinem mais com o seu estilo ou tipo de corpo. Ninguém é obrigada a andar com gente que não faz mais questão da sua presença, que não acrescenta mais na sua vida. Nessa hora, ela escolheu o fim e saiu do grupo.

Os vestidos já não eram mais dela, as amigas não passavam de conhecidas e, apesar do sentimento de vazio, estava tudo bem. Ainda existiam muitas outras roupas e pessoas que lhe traziam amor, acolhimento, leveza e alegria, fosse na forma de agir ou através de uma manifestação de estilo.

Assim como com uma calça jeans que não fecha, não dava para continuar forçando a barra com aquilo que não cabia mais.

 

Esse texto pertence a tag de crônicas do blog | Joana Cannabrava
Conforme contamos aqui, a tag de crônicas não tem nenhuma obrigação de refletir histórias verdadeiras, nossas ou recentes. Ela é inspirada em sentimentos reais e muitas vezes floreada com a imaginação.

 

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8 Comentários

  • RESPONDER
    Tamy
    27.04.2016 às 12:33

    Muito bom o texto. Inúmeras vezes já me senti assim, e não sei se é impressão, mas isso acontece com cada vez mais frequência. Não sei se vc aprende a identificar isso mais rápido ou a sua paciência diminui mesmo…. deletei meu facebook e não faço parte de mais nada só por educação. Estou muito mais feliz assim.

    • RESPONDER
      Joana
      27.04.2016 às 13:05

      :)
      Eu estudo muito isso em Jung/sombra, adoro ver pessoas aplicando na vida! Também me esforço.

    • RESPONDER
      Tamy
      27.04.2016 às 15:53

      Bacana! Tem alguma literatura legal para indicar?

  • RESPONDER
    *
    27.04.2016 às 14:14

    Texto sensacional…
    Jô, tenho pra mim q isso vem junto com o amadurecimento, às vezes me sinto mal por me sentir “mais evoluída” que algumas amigas, me sinto mal por nem tentar explicar pq aquelas atitudes não são legais, pq elas deveriam mudar, depois de um tempo, penso que eu deveria ter dito, mas fico num debate achando q elas não entenderiam e rolaria aquele papo “afff q chata… quando foi q vc começou a pensar assim…” e isso me da muita preguiça, por isso acabo nunca falando… Em certas ocasiões me nego a aceitar que não caibo mais nessas amizades, acho triste pensar em uma parte da minha vida sendo deixada para trás, mas em outros casos esse desapego flui e não causam dor ou estranheza, acho que enquanto ainda restar esperança de eu caber nelas, continuarei tentando…. Foi só um desabafo… Amei seu texto, como sempre!

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    Juli
    27.04.2016 às 16:04

    Jô,

    Tô achando que você me conhece, mulher! Como foi possível escrever tão bem sobre meus sentimentos?
    Já me senti tão mal por não “conseguir acompanhar” amigas da infância, da escola…a sensação era que o problema estava em mim. Nada como amadurecer e perceber que muitas vezes é necessário dizer não aos outros e sim para si mesmo.

    Amei o texto. Muito!!

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    Carol
    27.04.2016 às 16:22

    Oi Jô!
    Amei muito seu texto!!! Passei por uma situação dessa esses dias. Depois de muito me esconder, resolvi ter uma conversa franca com uma amiga (ou agora ex amiga). Fiquei meio abalada depois da conversa, afinal passamos por muitos momentos bons, mas como vc mesma disse: “Não adiantava insistir onde não havia mais reciprocidade”. E foi um misto de alivio e leveza ler seu texto. A vida e o tempo transformam a gente, e as pessoas… umas ficam e outras vão…

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    Amanda Gomes
    28.04.2016 às 13:12

    Amei demais o texto!
    Acho que todos nós passamos por um momento desses na vida… Tudo muda, nossas ideias, nosso estilo, nosso corpo é nossa vida. E mudar é tão bom… Às vezes é difícil aceitar que alguns amigos ficam para trás, mas faz parte. O importante é tirarmos lições boas de tudo que passamos (mesmo que seja depois de um tempo de reflexão)

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    Bia Pinheiro
    29.04.2016 às 10:11

    Oi, Jô. Nunca comentei por aqui apesar de sempre ler os posts. Senti que hoje foi necessário porque esse trechinho aqui “(…) não há inocência que sustente a ideia de que todas as relações humanas serão eternas” me fez sentir melhor e a entender o que está acontecendo na minha vida nesse momento. Minha mente não conseguia entender o porquê de amizades lindas simplesmente acabarem por causa do tempo e ver o meu círculo social diminuir muito. Só gostaria de dizer obrigada por ter me ajudado.
    Beijo

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