12 em Comportamento/ crônicas no dia 16.03.2016

Crônicas da Jô: a curta história deles 2

Setembro passou e com a chegada do fim desse mês ela descobriu que havia acordado de um sonho. Os últimos tempos haviam sido vivenciados no olho do furacão e ela não sabia como colocar o mundo em pausa para pensar no que resolver primeiro. Estava tudo fora de ordem e ela não tinha nenhuma vontade instintiva de arrumar. Eu tentava ajudar, mas nem sempre conseguia fazer isso da melhor forma.

Foi assim, no contexto mais confuso de todos, que surgiu aquele cara tão bonito, com um senso de humor sarcástico, os olhos claros cheios de verdade e um ar tão enigmático que a deixou intrigada. Os motivos para aceitar aquele convite para jantar poderiam ser vários, mas no fim a maior curiosidade era a menos óbvia: o que havia nele que a deixava tão nervosa? Tão tensa? Antes de eles se envolverem, aliás, antes de se conhecerem de fato, ele já mexia com aquela menina. Ela tentava me mostrar todos os fatos para ver se eu a ajudava a desvendar esse mistério, mas eu não conseguia. 

Se no último ano ela havia se vestido da versão mais despretensiosa dela mesma para seus encontros, dessa vez foi diferente, para não dizer que foi o oposto. A tensão era tanta que pela primeira vez na vida a vi pedindo um vestido emprestado para um primeiro encontro. Marcou salão, colocou salto alto e quase morreu de nervoso até chegar na porta do restaurante. Parecia que ela sabia, parecia que tinha em mente que aquele cara brilhante ia mudar sua vida num curto espaço de tempo. Parecia que ela previa de forma inconsciente que ia se apaixonar por ele. Ela não fazia ideia da missa a metade, mas ainda assim, sabia de algo.

Um jantar e alguns drinks depois, seu sorriso não saía mais do rosto. A mão dele tinha uma temperatura que se mesclava com a dela e deixava um calor gostoso, o sorriso dele tinha um quê de transparência e, por fim, ele veio cheio de personalidade e se tornou alguém que ela definitivamente queria ver de novo. Ele a tirava da zona de conforto, mas de uma forma interessante que valia a pena arriscar.  Eu, que nem sou dessas, mandei ela se jogar (como se ela precisasse disso!).

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Ela não teve medo. Se jogou de corpo, alma e, por fim, de coração. O prazo de validade era um fantasma presente, era sabido que ele iria embora em um futuro próximo, mas não tinha problema. O sonho de viver grandes histórias a impedia de se questionar ou se paralisar apenas por medo. Para ela, tudo era possível para um amor verdadeiro.

Sem nenhuma pretensão, ele devolveu o entusiasmo pra essa menina. Aos poucos, o simples fato dele existir organizou a vida daquela garota sonhadora e quando ela menos esperava, começou a pensar fora da caixa. Em parte ele a deixava segura, em parte ela ficava nervosa. Ele nunca comprou um presente pra ela mas na prática ele lhe deu o melhor deles. Sem a menor intenção, ele colocou ordem na casa para que assim ela pudesse seguir em frente, sonhando alto e acreditando que era possível realizar qualquer coisa. Ele tirou suas crenças limitantes e eu me vi sendo deixada de lado aos poucos. Tudo bem, não sou ciumenta!

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Demorou um pouco até que as fraquezas deles começassem a aparecer. As conversas duravam horas, os dois não tinham medo de compartilhar segredos. Era uma história própria, única, com um começo que incluiu risadas, taças de vinho, conversas infinitas, sorrisos. Com meio onde apareceram lágrimas, discussões e alguns conflitos. E também um fim, em meio a tantas coisas só deles que era difícil compreender ou acompanhar. Parecia uma loucura que só fazia sentido para aqueles dois. Naquele mundinho, naquele sofá, bebendo uma garrafa de vinho ou tomando alguma cerveja gelada.

Ela se perdia nos abraços dele, mas eles já não eram frequentes. Ela se encontrava no que sentia por ele, mas não entendia o jeito dele. Mesmo em meio a um sentimento mútuo as diferenças não sobreviveriam o passar de uma estação, dos três meses de uma primavera ou um verão. Ela era amor, ele era receio. Ela se jogava, ele tinha medo de altura. Ela parecia uma louca varrida e ele tão sereno e inteligente.

Eu nunca havia ouvido falar nisso! Era como se por um desencontro de maneiras de se expressar aquilo tudo não conseguisse seguir em frente. Ela queria acelerar, ele não podia, não agora, não nesse caminho, nessa jornada. Ela o amou, e foi recíproco. Só tinha um problema: De que adianta o amor se não há mais felicidade? Perguntei a mim mesma, perguntei a ela também.

Tal sentimento é fundamental, mas sozinho ele não segura nenhum relacionamento. Relações precisam fluir naturalmente. Quando isso não acontece, as intervenções trazem a elas um peso, que podem se transformar num fardo e assim os sorrisos podem se tornar lágrimas.

Eu fiz de tudo para convencê-la a desistir. Mesmo ele tendo sido uma das poucas pessoas que a viu sem máscaras, mesmo ele tendo feito tão bem àquela menina. Ela não conseguia sustentar a simples leveza de ser daquela relação. Para ficar com ele, ela precisaria abrir mão de ser ela. Isso eu não poderia deixar ela fazer.  

Doía mais porque por algum tempo ela achou que ele podia ser a tampa da panela dela. Indubitavelmente ele era especial, só que ao meu ver, na vida peças se encaixam como um quebra-cabeça, elas se unem e fazem sentido só pelo fato de se encaixarem. Com eles não era assim. 

Ele precisava de tempo para suas mudanças, ela precisava sentir o que ele não podia demonstrar. O que começou com a naturalidade do vento num lindo dia de primavera terminou com o peso de uma tarde de tempestade de verão. Entre eles dois, ela precisava se escolher. Eu a convenci disso. Seu coração criou armadilhas pra ele, pra ela e até mesmo para mim. Os testes eram muitos, os resultados sempre os mesmos. Coitada, ela queria tanto que fosse diferente, criou tantas condições para me convencer de que eu estava errada, mas por fim – e sem nenhum orgulho disso – eu venci na argumentação.

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Fato é que mesmo com o desfecho oposto a qualquer clichê romântico, ela voltou a acreditar no amor por causa dele. E por isso eu, que me chamo Razão, jamais poderei deixar de ser grata a esse rapaz. Para ela nada adiantaria ter um coração incapaz de amar.

 

Esse texto pertence a tag de crônicas do blog | Joana Cannabrava
Conforme contamos aqui, a tag de crônicas não tem nenhuma obrigação de refletir histórias verdadeiras, nossas ou recentes. Ela é inspirada em sentimentos reais e muitas vezes floreada com a imaginação. 

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12 Comentários

  • RESPONDER
    Juliana
    16.03.2016 às 18:23

    Jô, amei o seu texto! Sempre gostei muito dos seus posts mais reflexivos, sabia que você dava pra coisa, mas essa crônica é muito boa! Parabéns!

  • RESPONDER
    Ana
    16.03.2016 às 20:41

    Lacradora! ❤

  • RESPONDER
    Fany
    16.03.2016 às 22:54

    Jô, vc se superou! Amei essa crônica. Bjks, Fany

  • RESPONDER
    Lola
    17.03.2016 às 8:14

    Eu já passei por isso… Na época ficou um gostinho amargo de quero mais. Mas hoje vejo como esse sopro de esperança foi importante para que eu deixasse de acreditar que eu era fria e não servia pra amar. Excelente texto!

    • RESPONDER
      Joana
      17.03.2016 às 9:57

      Legal ver que cada história tem um papel né?
      Ainda que não seja o óbvio! :)

  • RESPONDER
    Anna Cristina
    19.03.2016 às 11:49

    Lindo texto, que descreve de maneira perfeita o meu atual momento, aos 45 anos de vida =)
    Simplesmente não pare!
    Bjs!

  • RESPONDER
    Juliana
    21.03.2016 às 15:34

    Vontade de te guardar num potinho! <3

    • RESPONDER
      Joana
      21.03.2016 às 22:50

      hahahaha
      não fala isso nem de brincadeira pq eu sou claustrofóbica rs

      <3 <3

  • RESPONDER
    Cristiano
    02.07.2016 às 18:41

    Jô sua lindona, me dá um abraço! Huahusa.

    Beijão! =D

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