1 em Comportamento/ entretenimento no dia 04.03.2016

Filmes da Sil: Zoolander 2 e A Garota Dinamarquesa

Vocês devem estar se perguntando o motivo de eu falar de dois filmes que não poderiam ser mais diferentes um do outro, né? Resolvi juntá-los porque ambos causaram polêmica em situações parecidas.

“Zoolander 2” é uma comédia com alguns momentos muitos inspirados e engraçados que zoam a moda e a indústria fashion de um modo geral. Com aparições como Justin Bieber, Kiefer Sutherland, Susan Boyle, Naomi Campbell, Katy Perry, Sting e Anna Wintour, Vera Wang, Tommy Hilfinger, Valentino, Alexander Wang, Kate Moss, Marc Jacobs em uma cena final única – acho que ri mais que todo o resto da platéia – o resto do filme é cheio de piadas clichês e Ben Stiller com suas “caras e bocas”. Mas até isso se torna piada nos momentos certos.

Em uma dessas cenas surge All, uma pessoa andrógena que irá desfilar junto com Ben e Owen. All tem longos cabelos negros, olhos verdes, pele clara, não tem sobrancelha e é uma figura magra como a maioria das pessoas que desfilam em passarela. Inicialmente eu não reconheci quem era a personalidade por trás de All, até que subiram os créditos e – desculpem estragar a surpresa – eu descobri o que o Erick levou segundos só olhando a foto para notar: All é interpretado por Benedict Cumberbatch! Honestamente, eu achei graça de um ator por quem eu não tinha muita simpatia – hoje eu descobri que 99% da culpa é da sua dupla Watson, Martin Freeman – conseguir quebrar o gelo e a postura para fazer um papel que mostra que ele não se leva tão a sério. Em nenhum momento pensei em nenhuma consequência, afinal, o filme é uma comédia “boba” onde o homem mais bonito do mundo é Ben Stiller, seguido por Owen Wilson.

“A Garota Dinamarquesa” é um filme poético, delicado e com interpretações maravilhosas de Eddie Redmayne e Alicia Vikander. Baseado em um livro que se baseia na história real de Einar e Gertrude Wegener, a produção Hollywoddiana foi criticada por ser muito distante da realidade da verdadeira transformação de Einar em Lili.

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Ao vermos qualquer filme baseado em um livro sabemos que ele terá que se adaptar para melhor integrar ao padrão aúdiovisual e ao mesmo tempo, dará formas e rostos para as personagens que cada leitor imagina de uma certa maneira. E isso muitas vezes nos causa desilusões. Algumas vezes as histórias são tão modificadas que se tornam irreconhecíveis, em outros se tornam tão épicas quanto os livros que lhe originaram. No caso de “A Garota Dinamarquesa”, os livros de ficção se basearam em um livro que é composto de notas, cartas, um diário, enfim sua autobiografia, escrita por Einar/Lili enquanto o seu processo de transformação acontecia. O livro chamado de “Man into Woman” foi publicado em 1933, dois anos após a morte de Lili.

É lógico que Hollywood já trabalhou com materiais menos romantizados para produzir filmes, como no caso de “12 anos de Escravidão”, mas dessa vez optaram por adaptar o roteiro de um livro já existente e que não se propõe a ser a história 100% fiel do casal Wegener. Seu escritor, na verdade, se propôs a contar a história de amor por trás da vida de Lili, o que é visivelmente quando vemos qualquer trailer do filme: AMOR é a palavra chave daquela relação.

Para isso ele transforma a relação de 20 anos em que Einer/Lili e Gertude vivem juntos, em um tempo menor, capaz de gerar mais conflitos mas também de nos tocar mais nas mudanças pelas quais Einer passa. Outra coisa que foi criticada é que Gertude teria/seria lésbica com Lili durante parte desses 20 anos e que ela pintaria quadros e charges de cunho sexual. Alguns chegam a dizer que Gertude se apaixonou por Einer por perceber que ele era efeminado desde o começo. E aí eu me pergunto: focar nessa parte da história não seria diminuir o tudo o Einer passou para virar Lili? Os diagnósticos que nós sabemos que até hoje são feitos de esquizofrenia, o preconceito da sociedade e também achar uma maneira de simplificar o amor de Gertude?

Pois não me importa a orientação* sexual dela, o que importa é que ela apoiou e ficou ao lado de Einer/Lili mesmo nos momentos mais complicados. Essas pessoas se amavam e esse amor podia ou não ser carnal – amor é muito mais complicado do que apenas sexo, DNA ou orientação* sexual.

As últimas reclamações que li simplificam, e na minha opinião, tornam médica demais a história: Einer teria nascido uma pessoa intersexual, ou seja, uma pessoa que nasce com os dois sexos ou com características do outros sexo. No caso dele, se acredita que possa ter nascido com os cromossomas XXY ao invés de XX ou XY, e portanto seria “normal” ele não pertencer ao seu sexo de nascimento.

Mil desculpas, mas quem quer ver um filme passado em 1900 que discute esses argumentos científicos? Não sei se ficaria interessante em algo além de um BOM documentário nos dias de hoje, imagina em um Romance?

E o que “A Garota Dinamarquesa” e “Zoolander 2” tem em comum, que pode ter custado o Oscar de Eddie? Ambos papéis intersexuais foram interpretados por homens que não são intersexuais, causando um pedido de boicote a ambos os filmes. No caso de “Zoolander 2” temos modelos que poderiam interpretar All, mas o filme é uma comédia boba e não acho que Benedict Cumberbatch receberia tanta raiva por um papel que, na minha opinião, não ofende a comunidade inter ou trans, mas é uma critica ao mundo da moda por frequentemente elevar a “Deus” uma pessoa diferente.

Já no caso de “A Garota Dinamarquesa”, acho complexo discutir e reclamar do cuidadoso trabalho que Eddie fez ao criar Lili. Os detalhes nos seus olhares, na maneira como ele mexia a mão, o pescoço, claramente o ator se dedicou a estudar e colocou o seu melhor. Discutir que essa transformação não deveria ser mostrada em tela também é tirar do filme algo extremamente emocional e que faz você se conectar com as dificuldades que Einar/Lili passa. É como assistir uma lagarta virar uma borboleta, é um processo, e muitos precisam desse processo para aceitar a dificuldade dele.

Colocar explicações racionais é tirar a imersão e dar oportunidades para os preconceituosos. “A Garota Dinamarquesa” é um filme que é para abrir algumas mentes e só atores com a sensibilidade de Eddie são capazes disso. É preciso dar espaço para que se escute que o sorriso era igual ao do Stephen Hawkings, mas se é isso que vai fazer com que no fim do dia mais pessoas aceitem as Lilis do mundo, eu estou disposta a ouvir a mesma piada quantas vezes for necessário.

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Beijos enormes!

Sil

* Originalmente “opção sexual”, foi corrigido para “orientação sexual” conforme os comentários abaixo. O termo opção não reflete meu pensamento mas acabou vazando para o texto pois além de estar ansiosa com o texto, o material de pesquisa original que utilizei sobre Lili e Gertude era antigo e utilizava algumas terminologias incorretas. Espero não ter ofendido ninguém com meu lapso! Bjs!

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1 Comentário

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    Bruna
    07.03.2016 às 9:00

    Só me fez ficar com mais vontade de assistir ” A garota dinamarquesa”!

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