6 em Comportamento/ Reflexões/ Relacionamento no dia 19.11.2015

Fotos, máquina do tempo e um carrossel de emoções.

Hoje resolvi compartilhar com vocês um texto meio aleatório que escrevi para mim mesma essa semana. Uma reflexão diferente sobre o amor, sobre viver o hoje e sobre o poder das fotos.

A verdade é que a gente vive refém do vício de fazer fotos vazias diariamente, mas a verdade é que algumas delas podem ser superficiais hoje, mas talvez não sejam encaradas dessa forma no futuro. Talvez os anos tenham o poder de transformá-las em verdadeiras máquinas do tempo.

No mês passado eu estava na casa da minha madrinha quando começamos a falar sobre o dia das crianças que havia acabado de passar. O cenário contava com algumas das pessoas que eu mais gosto no mundo e assim todos estávamos compartilhando opiniões sobre as fotos antigas que haviam sido postadas nas redes sociais.

Minha tia sempre conta pro meu tio sobre os meus posts do instagram, ele me liga para perguntar sobre o que interessa a ele e por aí vai. Por isso, falávamos das fotos que haviam sido publicadas e que ele não tinha visto por causa da sua ausência no facebook ou instagram. Nessa hora, uma amiga querida da família pediu que eu mostrasse para ele uma foto, a que a minha mãe havia postado. Na mesma estávamos eu, minha mãe e meu irmão, os três com sorrisos estranhos, mas felizes numa viagem à Disney.

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Legenda alternativa das crianças: mãe, vamos logo com isso!

Enquanto os assuntos seguiam carinhosamente saudosistas, eu comecei a viajar no tempo e quando vi estava ali, no início do ano de 1997. Em questão de segundos entendi como num estalo o porquê de certa angústia que senti nas minhas duas últimas viagens à Disney. Em ambos os casos eu já era adulta e por mais que estivesse adorando tudo, sentia um vazio muito estranho, sem nome. Uma saudade daquela fase da vida, senti uma falta enlouquecida da minha mãe na versão dos seus 43 anos. Sabe aquela pessoa que faz TUDO pra você se sentir numa atmosfera ainda mais mágica do que a que eles mesmo criam? Essa era minha mãe, mais criança do que qualquer criança de fato.

Enquanto eu viajava pelas minhas memórias vividas, e provavelmente em parte inventadas, algo me chamou de volta pra terra. O tom de voz da tia Cecília, a amiga da família, havia mudado. Ela, uma das melhores amiga da minha madrinha, é uma das pessoas que eu mais gosto nesta vida. Naquela situação, eu interrompi minha viagem imaginária que havia durado apenas algumas frações de minuto e rapidamente eu já estava ali de novo, ouvindo e prestando atenção na voz um pouco mais trêmula, como de quem falava de algo com muita emoção, mas sem chorar.

Quando eu olhei para o celular dela, ela estava me mostrando uma foto, um registro lindo da sua família há muitos anos atrás. Na mesma hora ela contou que ela estava muito feliz no dia em que aquela foto preta e branca foi tirada, na verdade sem nenhuma pretensão de nada ela estava passando uma mensagem muito importante. Sobre aproveitar o que você tem de forma plena, dando importância ao que as vezes parece sem a menor importância.

Naquele segundo eu só consegui pensar o óbvio: por mais doloroso que tenha sido o desfecho da sua história, ela deveria sentir orgulho. Casamentos nem sempre são tão alegres. Enquanto algumas pessoas passam anos vivendo com quem já não gostam, outras nunca se recuperam de um divórcio e poucas são as que o relacionamento vivem de verdade. Ela teve isso, havia vivido bons anos, talvez os melhores anos, perto do grande amor da sua vida.

Pode parecer que estou sendo muito ingênua ou romântica, mas realmente acredito que ela teve muita sorte de ter vivido um amor tão verdadeiro e cheio de felicidade, ainda que o mesmo tenha tido um prazo de validade mais curto do que a gente aqui na terra compreende.

No caso dela, sua história de felicidade plena foi interrompida por uma tragédia que em questão de segundos a deixou nesse mundo com duas crianças. Ela se virou bem, não é à toa que a acho tão incrível, mas naquele dia eu entendi o que ela estava querendo dizer, ainda que com todo cuidado e nas entrelinhas.

Por mais que eu a considere muito abençoada por ter vivido algo tão verdadeiro e profundo em tempos de relações tão efêmeras, ela estava dando um conselho daqueles que a gente precisa parar para ouvir.

Já não me lembro das palavras exatas, já nem me lembro da ordem dos fatos, só me lembro que tinha a ver com viver a vida hoje com consciência, aproveitando cada dia de felicidade (plena ou não), porque no fim não há garantias de que amanhã teremos todos os que amamos do nosso lado e as lembranças, perfeitas ou imperfeitas do hoje, vão ser só o que nos vai restar.

Só existirão fotos, que não mais serão vazias, memórias e expressões nos nossos rostos. Desde esse dia eu tenho tentado agradecer por ter tantas pessoas especiais a minha volta. Algumas relações são mais desafiadoras pra mim, algumas são impossíveis de serem aproveitadas agora, mas aos poucos eu vou entendendo que devo agradecer. Toda vez que tiro fotos com pessoas que eu amo, eu penso nisso. Ou pelo menos quase toda vez. 

Não quero mudar esse fato, gratidão é parte fundamental do estilo de vida que eu quero levar. Esse sentimento pode ser combustível para nos tornarmos melhores, principalmente nos tempos doentes que o nosso mundo anda vivendo.

Que privilégio o meu, ou mesmo o seu, de quem não perdeu alguém muito importante. Que privilégio de quem perdeu, mas deu valor e tem hoje as fotos que levam a esse carrossel de emoções. O que passou, passou, mas o que está por vir só depende de nós.

Por reflexões como essas que aos poucos vou me desapegando da foto pela foto, do vício pelo vício e pensando nos cliques que têm significado, que podem nos levar a fazer essa viagem, ainda que sem sair do lugar.

Beijos

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6 Comentários

  • RESPONDER
    Lyanna
    19.11.2015 às 10:38

    A felicidade é um momento que a foto pode eternizar.
    É uma coisa meio óbvia, mas parece difícil de praticar no dia a dia, principalmente nos dias de hoje de felicidade eterna compartilhada nas redes sociais, ninguém compartilha tristeza ou preocupação, mas ninguém vive 24h ou 365 dias de felicidade. Isso não existe.
    A felicidade é um sentimento efêmero, assim como são todos os outros. Nem a felicidade, nem a tristeza duram para sempre.
    O que nem todos compreendem e aceitam são os momentos e os sentimentos cíclicos da vida. Muitas pessoas se frustram por não terem uma vida perfeita, mas não entendem que ter uma vida perfeita e plena é saber lidar com os trancos da vida. É saber cair e levantar. Curtir uma tristeza e depois a redenção. Superar uma perda e transformá-la em saudade.
    Eu me sinto feliz quando olho para trás e vejo meu caminho e nunca foi fácil, nem será, mas tenho dentro de mim uma vontade imensa de ser feliz e de ser intensa em todos os momentos. Intensa no amor, na dor, no sorriso, no pesar, na chatice, ser intensa até o fim e poder registrar um instante numa foto pra sempre.
    De fato as fotos mais bonitas são as preenchidas de vida.

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    Thalita
    19.11.2015 às 11:56

    Jô, acho que você escreve tão bem, só queria dar um toque, que utilizar a palavra “mesma/mesmo” como substituto de pronome, não é considerado adequado por vários gramáticos. Por exemplo, na frase “Na mesma estávamos eu, minha mãe e meu irmão, os três com sorrisos estranhos, mas felizes numa viagem à Disney”, ficaria melhor se você colocasse “Nela estávamos eu, minha mãe…”. Desculpa comentar isso aqui, mas já reparei que você emprega esse recurso em vários outros textos. Não precisa nem aceitar esse comentário num nesse texto tão bonito. Não sei se vai automático, se for, pode deletar depois! Beijos

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    Ilana
    19.11.2015 às 13:04

    Jo, seu texto me encheu de lágrimas. Já perdi uma tia/mãe e hoje tudo que tenho são os valores repassados, as lembranças vivas na memória e uma caixa gigante de fotos para me recordar o quão amada fui!

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    Ana
    19.11.2015 às 17:14

    Poxa, Jo! Vc tem se superado nos textos! Tô emocionada aqui. Perdi minha mãe no final de agosto, após um longo tempo de convalescença e a lembrança mais forte que tenho dela é que nunca a via reclamando de nada, principalmente das limitações que a doença lhe impunha. O seu texto me faz refletir sobre a gratidão também, a questão de viver o presente, o hoje. Obrigada por compartilhar essas reflexões.

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    Bruna
    20.11.2015 às 10:44

    Poxa…fiquei emocionada!

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    Adrian Carol
    20.11.2015 às 16:37

    Que texto lindo Jô, cheio de emoção e amor!..

    Gratidão é a palavra mais linda que pode existir..

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