26 em Reflexões no dia 12.11.2015

Hoje eu sou a pessoa que antes eu torcia o nariz

Até pouquíssimo tempo atrás, eu era dessas pessoas que reclamavam em silêncio desse povo que vive para ver “pelo em ovo”. Apesar de ler alguns blogs feministas há algum tempo, achava um saco ver na timeline do meu Facebook um pessoal que adorava debater tudo, do anúncio que passava na TV ao comentário aparentemente inofensivo de alguma pessoa famosa. Meu primeiro pensamento era dizer que o mundo está ficando chato, que não dá mais para fazer piada, que o politicamente correto está invadindo o planeta.

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Até que eu mudei, e lembro exatamente o post que me fez mudar. Foi um DQF onde falamos sobre os nudes que vazaram da Jennifer Lawrence e eu concluí o texto falando que quem não queria ter suas fotos vazadas, que não as tirasse. Durante alguns dias, algumas pessoas vieram me chamar a atenção para o problema que tinha nesse meu posicionamento: eu estava culpando a vítima, a pessoa que não estava fazendo nada de errado e que merecia defesa.

Fiquei um tempo sem querer entender esse conceito, já que meu argumento era de que infelizmente não vivemos em um mundo cor de rosa onde as pessoas não divulgam fotos das outras peladas quando têm a oportunidade. Se eu não quero que uma foto minha seja divulgada, eu não vou tirá-la para começo de conversa. É a forma mais segura que eu tenho em mãos para evitar uma exposição que eu não quero ter. Na época, fiquei indignada com tanta “pentelhação” e demorou muito para que eu entendesse que o ponto não era esse. Não estávamos falando de mim, e a minha opinião, nesse caso, estava tirando a liberdade das pessoas que querem tirar fotos peladas – seja para o namorado, para celebrar o corpo, melhorar a auto estima ou qualquer outro motivo – sem serem julgadas por isso. E eu estava julgando baseada apenas no meu argumento como se ele fosse a verdade absoluta, sendo que eu nunca estive nessa posição de ver minha intimidade exposta sem o meu consentimento.

Desde então, parece que uma chavinha virou dentro de mim. Acho inclusive que a consciência de que daqui para frente eu terei um ser humano para educar me fez prestar mais atenção a conceitos como empatia, privilégios, machismo, racismo, feminismo e afins. E sem me dar conta, eu virei a chata problematizadora que eu tanto reclamava, a pessoa que presta atenção para não usar certos termos e que não consegue mais achar graça em qualquer piadinha mal feita. Não foi fácil, afinal, sair do lugar comum que diz que tudo “é só uma piada”, “imagina os Trapalhões no dia de hoje” ou “esse mundo politicamente correto está um saco” siginificou enxergar o próximo, botar o egoísmo de lado, sair da zona de conforto e pensar. Mas olha que maravilha, eu não virei uma pessoa menos feliz ou menos leve por causa disso, juro para vocês!

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Ainda tenho muita coisa para aprender e pensar, erros para corrigir, ideias para debater e preconceitos para quebrar. E sei também que tirando os momentos do DQF ou casos isolados que eu realmente ache que vou ter algo relevante para falar, eu provavelmente vou continuar mantendo minhas opiniões para mim, já que minha personalidade é meio Jaiminho, prefere sempre evitar a fadiga (e ficar discutindo em redes sociais não é nem nunca foi muito a minha praia).

Só sei que estou muito mais feliz de ver que a minha parte para um futuro melhor eu estou me esforçando para fazer. Para mim, um futuro melhor é, sim, um futuro com mais respeito, mais compaixão e menos umbiguismo e se tivermos que passar por uma fase chata para que isso aconteça, eu prefiro ser uma das chatas!

Beijos!

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26 Comentários

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    Gabriela
    12.11.2015 às 21:05

    As pessoas reclamam que o mundo tá chato, que o politicamente correto é um saco, e é tipo “nossa, que chato que eu não posso mais ser preconceituoso e espalhar meu discurso de ódio à vontadeeee, fim dos tempos, onde já se viu ngm poder fazer bullying/ser racista/ser machista em paaaz!!!”. Que bom que tá chato pra essas pessoas. Vai ficar mais chato ainda. Por outro lado, entendo que não é fácil rever nossos posicionamentos. A gente sempre gosta de pensar que é inteligente, cabeça aberta, sem preconceitos… Aí vem alguém e diz que a gente tá todo errado! Nosso primeiro pensamento é sentir raiva da pessoa ao invés de aceitar que “eu posso mesmo estar sendo ignorante, vamo rever isso aí?”. Sei disso pq tbm já fui como vc falou, do tipo que culpa a vítima e acha que piada é só uma piada mesmo, pra que problematizar? Ainda bem que me dispus a mudar e fico muito feliz que muita gente tenha feito o mesmo, e que meninas mais novas já estejam crescendo com uma mentalidade muito menos preconceituosa, mais empoderadas e conscientes. Quem dera eu soubesse disso antes.

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      Carla
      13.11.2015 às 18:22

      É isso, Gabi! Posso estar sendo Pollyana, mas eu tenho muitas esperanças nas gerações que estão vindo por aí!

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    Cristiano
    12.11.2015 às 21:26

    Buenas gurias.

    Quando entramos em reflexões que viram nossas chaves internas e conseguimos filtrar a parte que agrega de verdade para melhor, o sentimento é tão bom =D

    Abraço! =D

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      Carla
      13.11.2015 às 18:23

      Muito, Cris! Beijoos!

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    Gabi
    12.11.2015 às 21:46

    Oi Cá! Amei o post! Também virei a pessoa problematizadora 4 anos atrás e vou te dizer: isso não para nunca! E a melhor parte? nem nossa evolução enquanto pessoas e enquanto mulheres. Hoje tenho muito mais empatia, procuro não ofender mulheres e sim defendê-las e fico realmente muito feliz que o mesmo tenha acontecido com você! Parabéns, viu? É difícil mesmo reconhecermos quando estamos erradas. Beijão!!
    http://gabivasconcellos.com.br/

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      Carla
      13.11.2015 às 18:24

      Que bom que curtiu, Gabi! Eu demorei muito para virar, ainda não sou a maior chata, mas estou no caminho! rs

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    Sil
    12.11.2015 às 22:38

    Amei o texto! Eu volta e tb me pego revendo posições antigas. =)

    Beijão!

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    Marília
    12.11.2015 às 23:56

    Seremos chatas juntas!rs

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    Camilla Gonçalves
    13.11.2015 às 9:56

    Ai que lindo <3
    Estou passando pela mesma mudança. De um ano para cá mudei muito meu pensamento e meus conceitos. Ainda tenho muito o que mudar, mas alguns preconceitos e machismos diários já estão sendo eliminados. É bom evoluirmos e buscarmos um mundo mais igualitário e respeitador. Se somos chatas por isso, seremos chatas então!

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      Carla
      13.11.2015 às 18:26

      Exato, Camilla! :)

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    Caroline®
    13.11.2015 às 10:26

    Essa mudança de pensamento, essa desconstrução, é definitiva. Eu comparo isto a um míope que de repente começa a usar óculos. Vc nunca mais vai ver determinadas situações da mesma maneira, e vai passar a enxergar os erros e defeitos que antes passavam despercebidos. É bem louco, mas é uma evolução absurda.

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      Carla
      13.11.2015 às 18:26

      A comparação é perfeita, Caroline!

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    Thaís
    13.11.2015 às 12:21

    Adorei o texto!
    Sempre me senti feminista, mas de uns tempos para cá que eu realmente acho que incorporei o termo na minha vida.
    Há algumas semanas vi na TV um caso com 2 jogadores brasileiros que estavam sendo acusados de assédio no Canadá durante o Pan Americano de Toronto desse ano. Esses jogadores estão proibidos de entrar no Canadá , queconsidera até um beijo não consentido como assédio. Minha primeira reação foi virar para o meu irmão e falar “Nossa, mas considerar beijo como assédio é um pouco demais, né? Não é para tanto.”, mas aí lembrei das várias vezes que fui à uma micareta ou balada e um cara me puxou e tentou – e algumas vezes conseguiu – me beijar a força e como eu me senti derrotada por não conseguir evitar e ao mesmo tempo pensar que às vezes era melhor deixar o cara beijar mesmo e ir embora para não dar mais confusão. Pensando nesse tipo de situação que já passei, tive um insight e agora concordo com beijo ser considerado como assédio, porque nenhuma mulher deveria ser beijada ou participar de qualquer coisa sem seu consentimento. Vivemos numa sociedade tão louca que começamos a achar normal um cara nos forçar a esse tipo de coisa, porque infelizmente é assim que funciona.
    Eu já estava nesse movimento em prol das mulheres, mas acho que agora estou notando até as pequenas coisas e não apenas concordando como tentando fazer os outros perceberem o quanto a situação de abuso é subestimada pela maioria das pessoas que não passou por isso.
    Também prefiro ser a chata do que me omitir.

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      Carla
      13.11.2015 às 18:31

      Olha, vou ser sincera…eu até me omito algumas vezes. Umas porque se acham sempre certas e debater se torna uma guerra, outras porque estão com certos preconceitos enraizados há tantos e tantos anos que dificilmente vão mudar e outras porque eu prefiro não dificultar o relacionamento.
      Como eu disse, prefiro sempre evitar a fadiga, até porque eu realmente não sou boa de discussões e debates (mesmo sabendo tudo do assunto, eu fico nervosa e me enrolo) e tem certas pessoas que eu sei que não há possibilidade real de mudança. Prefiro ficar na minha quando vejo que não haverá saliva que vai fazer com que ela enxergue a mesma coisa que eu.

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    Carla Lemos
    13.11.2015 às 13:52

    Cah linda <3

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    Roberta
    13.11.2015 às 16:07

    Amei! Tb passei a ser assim! =)

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    luciana
    13.11.2015 às 17:07

    Que legal ler isso, Cá, parabéns! :)

    Bjs

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    Marianna
    13.11.2015 às 18:19

    Pessoas chatas (nesse sentido do seu post) são as melhores!!! Eu também sou bem chata!! Amo pessoas chatas!! Seu filho tem muita sorte de ter uma mãe chata!!! Pessoas chatas tornarão um mundo um lugar melhor!!!

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    Susana
    16.11.2015 às 10:28

    Me identifiquei muito com o texto! parabéns pela mensagem!

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    Lyanna
    16.11.2015 às 12:18

    Eu quase nunca discordo de vcs, mas lembro perfeitamente desse post e a conclusão do texto. Fiquei “meio sem entender” o posicionamento de vcs e fiquei me achando a chata da história. Não comentei nada, embora aqui haja espaço para discussão, não achei que cabia o burburinho. E agora vejo a sua mudança de perspectiva e fico apenas mais fã do que sou.
    Eu me vejo muitas vezes sendo machista ou tendo um pensamento machista, porque essa supremacia da força masculina está muito presente no nosso dia a dia, sobretudo no nordeste machista. Tenho vontade de me bater sempre que me pego pensando como minha avó ou minha mãe ou minhas tias, que foram criadas nessa cultura de que o homem manda e você precisar ser e se comportar como uma “moça de família, mãe e dona de casa primorosa”. Mas é quase inevitável escapar de pensamentos machistas quando somos criadas dentro de uma cultura machista.
    Também abomino ser chata e implicante, mas me causa repulsa ver como as mulheres são machistas com elas próprias, como elas escondem e abafam seus desejos, gostos, opções, apenas para se enquadrar dentro do nosso padrão de cultura da “moça de família, mãe e dona de casa primorosa”.
    Não há tanta notícia quando se vaza foto de homem pelado ou fazendo até outros coisas. Mas a mulher não pode tirar foto nua, usar roupa curta, pintar o cabelo, beber, fumar, ser sexualmente livre, ser simplesmente livre, sem que seja julgada por isso.
    Vide o programa do Jô que entrevistou a Jout Jout e que foi de dar nojo. Me desculpem, mas um babaca subestimando a inteligência de uma mulher que dá voz a tantas outras que são oprimidas em suas vontades, desejos e opções.
    Não sei se me julgo feminista, porque ainda não estudei suficientemente sobre o assunto. Mas uma mulher deve refletir muito antes de julgar ou criticar a conduta livre de outra, sob pena de nem perceber a perpetuação do machismo que ela causa.
    Sorry pelo “post”
    Bjko

    • RESPONDER
      Carla
      16.11.2015 às 16:30

      Ly, só digo uma coisa: queria muito que vc tivesse me alertado e conversado comigo na época! Muita gente que comentou nunca tinha comentado antes, e para quem já está com a guarda alta, fica mais parecendo um ataque “dessa galera chata” do que gente que realmente quer argumentar e tentar provar o ponto. Acho que se eu ouvisse de você talvez eu mudasse de ideia mais rápido! :)

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    Rafa
    16.11.2015 às 16:03

    Cá, estou passando por essa transição também. Sempre me considerei sem preconceitos, aberta ao diferente, mas agora percebo que além disso, é preciso tentar se colocar na pele do outro, e aceitar quando o outro fica incomodado com algum comentário/atitude. As vezes também prefiro evitar a fadiga e não entrar em discussões, principalmente quando percebo que as pessoas só querem reforçar o pensamento, e não trocar ideia mesmo.

  • RESPONDER
    Wal
    17.11.2015 às 12:48

    Ai Cá, eu lembro que li o post e fiquei triste por ver você colocando a culpa na vítima. Mas na época quis evitar a fadiga, sabe? Que bom que você mudou! Dia desses me peguei respondendo o post de algum amigo de um amigo que nunca vi na vida e me irritei profundamente. Ele distorcia o que eu escrevia para fundamentar a opinião dele e “ganhar”, aí parei de falar. Eu gosto de discutir ideias. Curto que me mostrem outros pontos de vista. Hoje em dia percebo que as pessoas só querem “ganhar” e não debater. Arthur terá uma mãe maravilhosa. E mães chatas tem filhos mais bem sucedidos. hahahahaha

    Um beijo!

    • RESPONDER
      Carla
      17.11.2015 às 13:08

      Poxa, justamente as leitoras mais antigas e que eu provavelmente ouviria sem muita teimosia foram as que se omitiram? Não gosto disso não! hahahaha

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    Annina
    17.11.2015 às 14:46

    Carla, eu lembro desse seu post, lembro da polêmica e lembro que não concordei com você tbm. Mas acho que não comentei, isso eu não lembro.
    Mas fiz MUITA questão de comentar nesse aqui.
    Que bacana, que bacana mesmo, esse seu posicionamento. Li o post com um sorriso no rosto.
    Bem-vinda ao mundo das chatas problematizadoras. Um mundo muito mais consciente, pode ter certeza e onde a empatia tem lugar cativo! Com nosso trabalho de formiguinha, vamos longe!
    Um beijo! :)

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