12 em Reflexões/ Sapatos no dia 16.09.2015

Moda: A crise e a crise de identidade

Esse assunto poderia estar no DQF dessa semana, mas achei que ele merecia um post próprio. Não sei se todo mundo ficou sabendo, mas desde segunda feira vários sites e jornais estão noticiando que a Shoestock está fechando as portas e encerrando as atividades.

Fachada da loja da Vila Olimpia, que era um mundo de sapatos, bolsas e acessórios.

Fachada da loja da Vila Olimpia, que era um mundo de sapatos, bolsas e acessórios.

Nas redes sociais, a marca confirma o fechamento do e-commerce juntamente com várias lojas, inclusive a gigantesca da Vila Olímpia, em SP, que era praticamente um ponto turístico na cidade. Segundo eles, a única loja que ficará aberta é a de Moema, mas já ouvi falar de gente que deu de cara na porta em um horário que era para estar funcionando.

Apesar de existir o boato (até então não confirmado) de que o dono está fechando porque está se mudando para a Espanha, onde tem negócios, a grande maioria das pessoas resolveu culpar a crise. Realmente não duvido que a crise tenha influenciado – e muito – essa decisão, mas para mim, o buraco está mais embaixo, em outro tipo de crise que a Dilma não poderia resolver mesmo se quisesse, a de identidade.

Lembro perfeitamente quando conheci a tal loja megalomaníaca da Vila Olímpia. Eu ainda não morava em São Paulo e fui passar uns dias na casa de um casal de amigos que tinham se mudado para cá. Essa minha amiga foi uma super guia turística durante esses dias, e num dos passeios que fizemos, ela fez questão de me levar à loja da Shoestock.

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Quando cheguei lá, fiquei chocada. Era um mundo de sapatos e bolsas! Prateleiras e mais prateleiras de scarpins, sandálias, sapatilhas, tênis….era achar o seu número e se perder na quantidade de opções disponíveis, desde as mais básicas até as últimas tendências. Estávamos em 2009, e pelo menos na minha lembrança, nessa época a febre de seguir os últimos gritos da moda (como bem diz minha vó rs) estava começando a chegar no seu auge. Na verdade, 2009 foi um ano decisivo para mim em termos de moda, talvez por isso essa minha experiência na loja tenha sido tão memorável. Antes disso, eu comprava sapatos e bolsas de acordo com a minha necessidade e ocasião, eu não pensava neles como atualizadores de looks.

Depois de horas experimentando milhares de modelos, acabei levando 3 sapatos. Não vou lembrar preços agora, mas lembro que saí satisfeita em relação a isso. E em relação à qualidade, também achei bem boa. Pelo menos os modelos que eu escolhi duraram anos e só foram embora do meu armário recentemente, em ótimo estado (tirando uma sandália, que o Jack comeu o salto quando era mais novinho rs).

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Quando finalmente vim para São Paulo – uns meses depois dessa experiência na Shoestock – estava crente que iria passar na loja quase todo mês, mas com pós acontecendo, casamento sendo organizado no Rio e trabalho, só voltei lá em 2011. E a marca não era mais a mesma que tinha me encantado em 2009. Claro que nessa época, várias outras marcas resolveram apostar nessa vibe fast shoe fashion e fazer algo inspired não era mais novidade, ou seja, o trunfo que eles tinham em 2009 já não era mais um diferencial. Para piorar, a qualidade estava visivelmente pior e não era raro encontrar alguém reclamando de tiras que se soltavam, solas que descolavam ou sapatos que desintegravam depois de 45 dias (né, Elô? rs).

A cada ano que passava, a impressão que eu tinha é que eles criavam inspireds cada vez menos inspirados enquanto a qualidade ia descendo a ladeira e apesar dos preços terem se mantido mais baixos do que a concorrência, eles não eram mais compatíveis com o produto vendido. Desde então, a marca saiu do meu radar e pelo o que eu tenho falado com amigas, esse movimento não aconteceu só comigo. Na realidade, quando o assunto começou a rolar nos meus grupos do whats, as respostas eram muito parecidas, todas mais ou menos assim: “faz tempo que as coisas da Shoestock não me chamavam mais a atenção”.

A coleção feita em parceria com a Gloria Coelho.

A coleção feita em parceria com a Gloria Coelho.

Sei lá, achei triste, ainda mais sabendo que existia público, existia potencial e até existiam ideias boas para agregar relevância, como a coleção com Costanza Pascolato em 2012 e a parceria com a Heineken na final do Champions League, em que eles fizeram uma liquidação na hora do jogo para que as mulheres que não curtem futebol aproveitassem enquanto os namorados assistiam a partida. Tudo bem que a Heineken forçou no estereótipo das mulheres-consumistas-loucas-por-sapatos e foi acusada de ter feito uma propaganda sexista, mas pelo o que eu (ou melhor, o Google) lembro, as pedras foram mais direcionadas à cerveja do que à sapataria.

Sei que parece que estou chutando cachorro morto, mas esse caso em específico só serve para mostrar que quando a crise de identidade bate, não tem economia – boa ou ruim – que segure a onda.  

Beijos

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12 Comentários

  • RESPONDER
    Ana T
    16.09.2015 às 10:15

    Gosto de vcs porque são sensatas.

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    kammy
    16.09.2015 às 11:39

    tb fiquei triste
    pq tinha mta coisa linda

    bjos
    kammy
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    jo
    16.09.2015 às 13:05

    caramba, nao sabia…. tb descobri a shoestock em 2008/2009 (era um bum), por sinal, muita coisa legal, tinha bolsa, que as pessoas perguntavam da onde é… inclusive minha mae foi uns anos atras e falou que nao tinha achado nada…. enfim, acho que hoje com o bum das lojas fashionistas, como também as lojas que fabricam as inspireds chanel valentino, a concorrencia desse ser dificil, ainda mais em SP, onde as pessoas tem um super poder aquisitivo…. bjs

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    Maki
    16.09.2015 às 13:38

    Cá, concordo com você. Eu, honestamente, era fã da Shostock, as há ANOS eu não pisava lá. E, quando pisava, não saía tão satisfeita assim. Acho que o auge da loja já passou foi tempo e acho que mais do que crise, Dilma e sei lá mais o quê, eu estou vendo uma mudança de movimento de consumo: pessoas mais conscientes e pensando mais em qualidade do que quantidade. Sabe? Fora que os preços não era assim tãããooo diferentes das concorrentes. Sei lá. Não fiquei feliz, claro, aliás, são empregos perdidos, mas também não sei se sentirei falta de uma loja como essa. Acho que esse tempo de fast fashion (seja de roupas ou sapatos) está mudando bastante.

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    Ana Luíza
    17.09.2015 às 1:20

    Engraçado que faz muito muito tempo que não vejo falar da Shoestock, mesmo assim essa notícia me pegou de surpresa. Também vivi essa época do boom e apesar de não ter comprado nada da marca, minha lista de desejos era sempre enoooooorme, até que em algum momento deixou de ser assim. A notícia realmente não me surpreende, mas fico triste porque é uma pena que uma marca que um dia foi tão incrível, não tenha conseguido evoluir ao longo do tempo. Não vai ser a primeira e nem a última a ficar no meio do caminho, mas não deixa de ser uma pena.

    beijo!

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    carol
    17.09.2015 às 15:39

    Não conheci a loja mas ouvi falar bem. Quem frequenta o sul conhece a Datelli, que chegou a ser uma potência no mercado, todas usavam e era até status ter uma bolsa da marca. Porém, há alguns anos a rede começou a definhar, algumas lojas fecharam, atualmente algumas atendem por outros nomes semelhantes. Ainda está presente no mercado mas já não é muito mencionada e não me chama mais a atenção. Enquanto isso outras marcas foram crescendo e ganhando o gosto das consumidoras, como as minhas preferidas Arezzo, Schutz e Carmem Steffens). A Via Uno tbm teve amplo mercado e já fechou as portas. Concordo com vcs, não é só a culpa da crise nem da concorrência chinesa, falta de qualidade e identidade também influenciam.

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    Mariana
    17.09.2015 às 16:42

    Lá vem eu !!

    Então eu sou de Jaú ,Capital o Calçado Feminino, e essa crise de identidade com culpa na economia bateu aqui também. Eu acho que é um reflexo de uma sociedade meio cansada, a cópias, produtos que cobram muito e qualidade duvidosa.

    *incentivos cortados também ajudaram, mas não acho que seja a culpa.

    Eu peguei o boom e fazia moda e já quis trabalhar lá, mas depois foi ficando tão igual a tudo e sim qualidade ruim, nunca mais.

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    Sil
    18.09.2015 às 1:24

    Assim… Espanha não é um país que, até onde eu saiba, tenha a melhor economia também… Então realmente, essa lebre está com cara de gato! E ainda por cima entrar para competir com Zara e El Corte Ingles (Não lembro a grafia, desculpa!), para mim parece um certo tiro no pé, sem trocadilhos!!! Mas isso é só achismo também.

    Acho que isso tudo me soa mais como alguém que quer aprender com as grandes fast fashions do que qq outra coisa… Enfim, vamos ver o que vai acontecer! Honestamente se eu fosse atrás de grana MESMO abria uma loja de sandálias em Miami, risos! Lá já é um paraíso para compras e as gringas amam tanto uma sandália no verão que usam até umas horrendas, que imagina o sucesso se você vender umas bonitas e acessíveis! ;)

    Beijos!

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      Mariana
      18.09.2015 às 10:28

      Sil, só consegui pensar em uma marca com gosto duvidoso e qualidade também que faz muito sucesso aqui e fora e eu tenho alergias na frente da loja.

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    Leticia
    21.09.2015 às 17:53

    Adorei o post Cah, mto Ale Musa Garatoni rsrs
    É o que ela sempre diz, em tempos de crise, você precisa ter excelência. Zero diferencial, mais do mesmo. Lembro eu em 2008 saindo da minha cidade só para passar a tarde na Shoestock!!

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    Karla Alvera
    22.09.2015 às 17:41

    Adorei o post, Ca. Essa questão da falta de identidade também está rolando com as bolsas. O meu marido pediu que eu escolhesse uma bolsa para ele me dar de presente. Foquei nas marcas nacionais e comecei a procurar. Sério, fiquei muito assustada com o que encontrei. TODAS as marcas estão sobrevivendo de inspireds. Além disso, tem a questão da qualidade. Invisto sempre um pouco mais em bolsas, pois quero que elas durem bastante no meu armário. Agora, vamos pensar, quais as marcas brasileiras que estão produzindo bolsas de qualidade e com identidade própria (em qualquer faixa de preço). Se você souber de alguma, por favor, me mostra. Até a Arezzo e a Mr.Cat, que sempre tiveram peças interessantes em couro, agora cobram um absurdo pelo tal do “couro ecológico”. Acabei ficando muito fã da Ado Atelier, marca de BH que trabalha com couro e cobra um preço super justo pelas peças. Mas estou em busca de outras opções.

    Beijos,

    KA

    http://www.trintaepoucos.com

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    Mari
    29.12.2015 às 17:29

    Eu até concordo que há alguns anos a Shoestock tenha entrado numa de lançar sapatos que, embora horrendos para o meu gosto, eram “o grito da moda” (rs). Mas honestamente, o que me agradava nela até o último minuto em que pude comprar lá, independentemente de haver algumas bizarrices fashion, eu sempre encontrava os clássicos ou belas variações deles.

    Scarpins, rasteirinhas, plataformas, botas, tudo de couro de ótima qualidade. Em todo o tempo (sei lá, quase 10 anos?) em que fui cliente, nunca tive algum problema com os sapatos, então a qualidade e o design clássico com preço justo pra mim sempre foram diferenciais. Costumava doá-los depois de mais de 3 anos de uso inteiraços, servindo muito bem pra outra pessoa usar até pra trabalhar.

    Agora que a Shoestock fechou, me sinto órfã. Não conheço em SP outra marca que tenha a mesma relação custo benefício nem a variedade que a Shoestock tinha. Capodarte é gostoso, mas sem sal. Corello é indecente, sapatos duros que já cheguei a trocar no mesmo dia da compra. Arezzo e Schutz pra mim é muito mimimi fashion e só e Carmen Steffens eu acho realmente caro (posso comprar, mas valorizo meu dindim). Minhas últimas compras foram na Regina Rios, que tem os mesmos preços da Shoestock e essa linha mais clássica, porém não tem toda aquela variedade e, por isso mesmo, nunca saí da loja com mais de 2 pares (coisa rara de acontecer quando eu ia à extinta)… Vou lançar a #voltashoestock, rs! ;)

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