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semana de moda

2 em Autoestima/ Destaque/ Moda no dia 19.09.2017

Na dúvida? Vista-se de você mesma

Desde que mudei para cá eu dei uma pausa em alguns aspectos da minha vida de blogueira. Continuo postando com regularidade, presente nas redes sociais, mas algo que eu nem lembrava direito como funcionava era ir a eventos. De moda, mais especificamente.

Aí semana passada, com a NYFW rolando, eu tive não só 1 como 3 compromissos: uma festa, uma palestra e um resee, que é quando a marca expõe as peças do desfile em seu showroom. O único evento que não me deu calafrios na hora de escolher o que eu ia vestir foi a palestra, justamente porque era um ambiente seguro, com gente que eu conhecia e me sentia confortável.

Escolher o que eu ia vestir na festa foi um momento difícil, principalmente depois de tanto tempo sem precisar me preocupar com esse tipo de coisa. O que será que as pessoas vão vestir? Será que se eu for com esse vestido vai ser muito informal? E se eu fizer essa combinação, será que vai ficar demais? Eu vou ter que andar pra caramba com esse salto que certamente vai me machucar até chegar na festa, será que eu vou com ele só para valorizar o look ou escolho outro sapato mais confortável?

Acabei optando por um look meio termo, isso é, metade mais fashion, metade mais confortável. No fim das contas só conseguia pensar que eu não tenho mais necessidade de me vestir para agradar aos outros. Ou melhor, não tenho mais paciência e nem vontade, porque necessidade na verdade eu nunca tive (apesar de eu achar que tinha, que essa era a forma de impressionar as pessoas).

Aí, na quinta feira eu tive um outro compromisso que me deixou um pouco mais chocada com a insegurança que eu ainda trago comigo em relação à moda, adequação e fashion weeks. Mesmo tendo ido à festa com aquele pensamento sobre não precisar agradar os outros. Eu já fui a alguns resees de marcas e todas as vezes eu estava com a minha maquiagem mais caprichada, meu cabelo mais arrumado e alguma roupa alguns níveis acima do meu dia a dia, afinal, era fashion week. Nesse tempo elaborei vários looks que até hoje eu amo, mas alguns outros eu olho hoje em dia e penso como tinham elementos inadequados. Do tipo bota de salto (grosso) em plena neve de fevereiro em Nova York, por exemplo.

Quando a minha amiga, que é PR da Coach, me chamou para ver o resee do desfile, eu nem pensei duas vezes em aceitar. Sempre foi uma das partes das semanas de moda que eu mais amo, mais até do que ver o desfile, porque no resee você consegue ver tudo de perto, os acabamentos, os detalhes…Enfim, eu piro, é quase uma catarse. Mas depois que eu aceitei, bateu a insegurança. Eu só teria umas 3 horas para tomar banho, me arrumar, chegar no escritório da Coach (45 minutos de metrô), ver as peças do desfile e picar minha mula para pegar o Arthur na creche. A nível de comparação, no último resee que eu fui antes de vir morar aqui, eu tinha 3 horas só para me arrumar. rs

Enchi o saco dessa minha amiga: “Mari, como eu vou? Como eu me arrumo pra isso? Eu não tenho como gastar 1 hora só no babyliss e na maquiagem, eu não tenho ideia que roupa usar, o que eu faço?”. Ela me acalmou: “Carla, relaxa, lá é todo mundo desencanado e aí é Nova York, ninguém liga. Não tem essa de ir super fashion se não é você. Vista-se de você mesma que vai estar linda”. Não foi bem essas as palavras que ela usou, mas foi isso que eu entendi.

Terminei meu banho e enquanto secava o cabelo de qualquer jeito e me maquiava o mais rápido que conseguia, fui decidindo minha roupa. Acabei chegando à conclusão que me sentiria segura se fosse com uma camisa branca e uma calça preta, mas com acessórios diferentes. Saí de casa muito feliz comigo, certa de que se encontrasse alguém eu não me sentiria muito por fora. Sim, mesmo com todos os preparativos, obviamente nessa hora o medo do julgamento alheio e da comparação vieram bater na minha porta mais forte do que nunca.

Resultado: saí de casa amando o look, cheguei no escritório da Coach, vi tudo que eu tinha pra ver, fiquei sabendo mais detalhes da coleção, fiz stories, cruzei com pessoas de todos os tipos e fui embora. O tal medo de sentir-me inadequada ou diminuída por não estar por dentro das últimas tendências realmente não fazia sentido, mas só consegui perceber isso depois de encarar a situação de frente.

Enquanto voltava para pegar o Arthur na creche me senti super bem. Estava maquiada mas nem tanto, o cabelo arrumado mas nem tanto, básica mas nem tanto. Vestida de mim mesma e com a certeza que, nas horas de insegurança, ser fiel à seu próprio estilo – seja ele qual for – é sempre a melhor opção. :)

2 em Autoestima/ Convidadas/ Destaque/ Juliana Ali/ Reflexões/ Semanas da Moda no dia 17.03.2017

De camisola na fashion week

Ainda lembro bem da primeira vez que pisei em uma semana de moda. Eu tinha uns doze ou treze anos, era a virada dos anos 80 para os anos 90. Minha mãe trabalhava na Revista Nova na época (que hoje se chama Cosmopolitan) e conseguiu dois convites para que eu e minha irmã fôssemos assistir ao desfile da G (que hoje se chama Gloria Coelho) no Morumbi Fashion (que hoje se chama São Paulo Fashion Week).

Pois é. De lá para cá, passaram-se mais de 25 anos e a revista mudou de nome. A grife mudou de nome. A semana de moda mudou de nome. Só que a única coisa que realmente mudou no mundo da moda foram os nomes. O resto é bem parecido até hoje. Quem manteve o nome nessa história que vou te contar agora fui só eu, que continuo me chamando Juliana mesmo. Ah, mas eu mudei. Mudei muito desde então.

Eu estava empolgadíssima no dia em que fui ver meu primeiro desfile. Pensei muito naquele look que iria usar. Nenhuma das minhas roupas parecia ser digna de um momento tão incrível, que aliás era justamente sobre usar as roupas mais sensacionais, pensava eu na minha cabeça de criança. Então tive uma idéia. Peguei uma camisola de cetim que eu tinha. Ela era branca com bolinhas pretas. Ia até os joelhos, era assim meio soltinha, e tinha um decote combinação (até hoje meu tipo de decote preferido). Coloquei uma camiseta branca por baixo. Nos pés, sapatilhas pretas. E assim fui assistir ao desfile da G. Me achei linda quando olhei no espelho. Me senti um pouco contraventora, como sempre gostei de ser, aquariana que sou. Fui ao meu primeiro fashion week de camisola.

 

Por incrível que pareça, não lembro absolutamente nada sobre o desfile. Nada. Mas lembro que saí de lá com um gostinho estranho na boca. Vi tantas mulheres que me pareceram tão lindas, tão diferentes de mim, tão melhores do que eu. Elas eram enormes, altas, pernas gigantes, pareciam umas Barbies – eu ainda brincava de Barbie. Pareciam mulheres, enquanto eu era uma criança. Mal sabia eu que, na verdade, elas também eram crianças, meninas, talvez três ou quatro anos mais velhas que eu apenas. Me senti inadequada, eu tão baixinha, pequena, tão criança, tão sem maquiagem, com os cabelos cacheados supercompridos caindo de qualquer jeito. Elas tão montadas e maravilhosas e magras e altas.

Tive inveja. Muita inveja.

Mais tarde, já jornalista, fui trabalhar com moda. Passei a maior parte da minha vida indo a todos os SPFW. Duas vezes por ano, lá estava eu, trabalhando que nem doida. Se tinha Fashion Rio, lá estava eu também. E estive em muitas semanas de moda internacionais durante esses anos todos. Sempre, sempre, saí desses lugares com a sensação que a Ju de treze anos teve ali, de camisola: um gosto estranho na boca.

Inveja. Sensação de inadequação. A impressão de que eu nunca conseguiria atingir aquele padrão. E nunca consegui mesmo. Tenho 1,60m de altura. Sempre fui magra, mas padrão de modelo?

Eu queria ser assim, como elas, naquela época. O mundo estava me dizendo que assim que era o lindo! Que assim que as roupas ficariam boas em mim! Me sentia horrível com todas as minhas roupas. Sempre demorei horas e horas pra escolher um look. Porque tava tudo um lixo. Saía com a auto estima em frangalhos de todas as semanas de moda em que estive. Tanto aos 20 anos, quanto aos 30.

E não era só eu, minha amiga. A maioria das mulheres estava se sentindo assim todo esse tempo, mas ninguém dizia isso umas para as outras. Eu mesma não dizia para NINGUÉM. Até as modelos, muitas delas, também estavam se sentindo erradas, gordas (!!) e insuficientemente “perfeitas”.

Minha sorte foi que nunca pirei de verdade, por ter sido criada por uma mãe que passou a vida me dizendo que eu era linda, maravilhosa, essas mães que te botam pra cima desde o dia em que você nasce. Isso faz muita diferença. Conheci pessoas que desenvolveram anorexia, bulimia, tomavam remédios, passavam dias sem comer, ficavam completamente desesperadas tentando ser magras. Que gastavam todo o seu dinheiro suado comprando roupas e acessórios ricos para usar no SPFW, porque afinal tem que ter grife, tem que ter glamour. Tentando ser “lindas” para a semana de moda.

Há um ano, mais ou menos, confesso que peguei bode de tudo isso. Fui percebendo que o mundo foi mudando e a moda foi ficando parada. Enquando “aqui fora” a gente celebra a diversidade, todos os corpos, cores, estilos de vida, jeitos de ser, a moda ainda continua promovendo o padrão branco-loiro-cabelo liso-magro de 1989, quando estive no desfile da G.

Cansei. Pulei fora. Me sinto absolutamente maravilhada com o fato de que não faço a unha e nem compro roupa nova há mais de um ano. Parei de alisar o cabelo. Cortei curtinho. Não uso mais maquiagem, nem salto alto. Não faço regime há quase três anos. Não pretendo fazer mais no futuro, também. Nunca tive a autoestima tão alta. Tenho 40 anos, e me acho o máximo.

Nesse exato momento está acontecendo o SPFW. No último fim de semana meu marido disse, “amor, segunda começa o fashion week, né?”. Respondi: “Sei lá. Começa? Não tô sabendo.”

Enfim, é SPFW, como o Fernando me avisou outro dia, já sei. Estou aqui em casa, e não dentro de uma sala de desfile. Mas estou acompanhando o último SPFW, escrevendo esse texto e de camisola, assim como acompanhei o primeiro. E assim fecha-se um ciclo para a Juliana, a única que não mudou de nome.

5 em Autoestima/ Semanas da Moda no dia 16.03.2017

Não sendo magra na semana de moda

2015 foi o último ano que eu trabalhei com semanas de moda, diria que fechei o clico com chave de ouro quando pudemos cobrir uma parte da Paris Fashion Week. Depois disso ficou difícil acompanhar a correria desses dias com um bebê de poucos meses e uma vida virando ao avesso com a mudança para cá.

Até então eu não tinha sentido falta dessa semana de loucura, mas dessa vez eu comecei a ver as fotos do SPFW e senti uma pontinha de vontade de ver os desfiles, conversar com as amigas e elaborar looks do dia. Para matar um pouco dessa vontade passei a acompanhar os insta stories de quase todo mundo que eu sigo e está na SPFW. Porém um detalhe me chocou, a quantidade de “miiiiiga, ce tá magraaaa(e elogios derivados) que eu ouvi.

Para começo de conversa, depois que a Camilla me alertou com um belíssimo tapa na cara, passei a entender que chamar uma pessoa de magra não deveria ser nem um elogio já que chamar uma pessoa do adjetivo oposto – isso é, gorda – é visto como falta de educação e só perpetua a ideia que um corpo magro é sinônimo de vitória (achei que valia passar para frente esse tapa na cara). Depois dessa passei a ser a problematizadora da frase e tenho evitado usá-la. Mas não foi bem isso que me chocou.

O incômodo aconteceu porque me lembrou de como eu me sentia inadequada com o número que eu vestia nessas semanas de moda, e consequentemente com o meu corpo. Durante o resto do ano eu era a pessoa mais confiante com minhas roupas G e 42, nunca me achei gorda, mas era só chegar essa semana para eu me sentir mais vulnerável do que nunca. 

Eu ousaria dizer que me lembro de ouvir frases sobre essa pressão e desconforto até mesmo de colegas que vestiam 38/40. Na época eu não enxergava a questão, mas hoje reparo que dietas e restrições eram assuntos recorrentes e provavelmente só não ouvi mais porque sempre me cerquei de pessoas que preferiam aproveitar do que se privar de bebidas ou grupos alimentares. Hoje, reavaliando tudo, acho que não era apenas eu que me sentia vulnerável nessa semana, mas como não posso falar por ninguém, vou voltar a falar de mim. 

Por 5 anos consecutivos eu frequentei semanas de moda de SP, do Rio e até mesmo de NY e Paris. Presenciei momentos incríveis, pude trabalhar com marcas fenomenais, fui apresentada e fiquei amiga das pessoas mais maravilhosas, pude conhecer melhor o meu estilo ao entrar em contato com tanta referência. Mas era só começar a ver as araras das assessorias e das marcas parceiras para começar o sentimento de inadequação.

Não é novidade nenhuma que a moda brasileira ainda é muito pautada na magreza e valoriza mais do que nunca o 38. Se for 36, melhor ainda. Na pool party a gente teve a certeza de que nada mudou, já que de todas as marcas que prospectamos, as únicas que não responderam (nem para falar que não iriam participar) e não mostraram muito entusiasmo foram as de moda, todos os outros setores da indústria responderam. Outro dia vi uma dona de marca famosa dizendo que estava comendo muito mas Deus a livrasse de pesar 80kg (se uma dona de marca fala isso, você tem certeza que nunca encontrará roupas acima de 42 lá, né?). Vi gente de dentro da indústria disposta a incluir tamanhos diferentes ser vetada e “obrigada” a escolher modelos convencionais. E tudo isso reflete nas peças que ficam nas assessorias ou nos showrooms das marcas que, por sua vez, são os lugares que nós, blogueiras, temos acesso na hora que precisamos de peças diferentes para complementar os looks. Dito isso, dá para entender a dificuldade que eu, a Jo e provavelmente toda blogueira que usa acima de 40/42 temos toda vez que precisamos nos vestir dependendo das roupas que estão nesses lugares, né?

Por mais que eu sempre tenha conseguido me virar com as possibilidades, por mais que para muita gente eu seja vista como padrão, a verdade é que a maioria das peças mais interessantes quase nunca estavam disponíveis em um tamanho que me vestisse bem. E aí o que você faz quando se vê rodeada de roupas maravilhosas que não cabem em você? Eu digo por mim. Por mais que a minha autoestima e autoconfiança estivessem muito turbinadas a ponto de nunca ter tido a vontade de fazer loucuras para caber nessas roupas, o sentimento de inadequação era inevitável.

Na última semana de moda que participamos em São Paulo, em 2015, eu estava muito esperançosa. Pela primeira vez fomos para o SPFW tendo como patrocinadora uma multimarcas online onde podíamos elaborar looks incríveis porque dificilmente não tinha nosso tamanho. Em um dos dias, inclusive, tivemos o privilégio de irmos de Tory Burch, marca cujo marketing acreditava na gente e no nosso trabalho a ponto de nos vestir no desfile da própria aqui em NY independente do peso (agradecimentos eternos por isso, Bruna <3).  Aliás, as fotos que ilustram esse post são desses dias de glória. Minhas esperanças continuaram crescendo quando recentemente, na última NYFW, chamou atenção o fato de 27 modelos que vestem acima de 42 terem participado da edição.

Por isso, quando vi tanta gente na semana de moda brasileira exaltando a magreza como melhor elogio eu fiquei um pouco triste. Porque me fez ver que enquanto o elogio por aí for esse, toda a inclusão que estamos vendo acontecer na moda por aí afora pode não ganhar força no Brasil.

Pelo que vejo, a impressão que me dá é que muitas marcas parecem apenas fazer campanhas inclusivas para serem viralizadas na internet pelos nichos que reclamam da falta de representatividade. Na hora de escolher modelos diversas, influenciadoras de todos os tipos, de deixar o produto com grade alta no ponto de venda, pronto, não tem. Parece que para a moda o investimento na diversidade é pontual, para inglês ver, pois na hora de misturar todo mundo na semana de moda isso não acontece. 

No fim das contas a saudade da ousadia em fazer looks passou, o saudosismo me deixou e no fim, só consegui pensar que talvez, mesmo tendo mudado o olhar para mim mesma e ficado mais segura em muitos aspectos, a sensação de inadequação voltasse a fazer parte de mim se hoje eu estivesse em uma SPFW. E acho uma pena ver que um setor tão importante para a autoestima e para o autoconhecimento como a moda pode interferir nesse processo de uma maneira quase perversa. Uma pena, porque tinha potencial pra ser muito mais.