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0 em Destaque/ Nova Zelândia/ Trip tips/ Viagem no dia 13.04.2018

As verdades sobre viajar de motorhome na Nova Zelândia

Você possivelmente já ouviu dizer que a Nova Zelândia é um dos melhores lugares do mundo para se andar de motorhome. Eu também. E foi por isso que eu decidi que essa era a oportunidade que eu tinha para me aventurar em uma casa de 4 rodas.

Realmente, o país é muito preparado para viajantes nômades, sejam os que estão de motorhome, campervan (um carro em que a mala vira uma cama) ou barraca de camping. Existem muitos motorcamps privados, acampamentos bem equipados com “vagas” separadas para cada uma das modalidades acima, com acesso a cozinha, banheiro com chuveiro e às vezes até sala com TV. Também há muitos campings públicos, com facilidades de banheiro e cozinha.

Além de ter ótimas estradas, não é preciso carteira especial para dirigir motorhomes na Nova Zelândia. Então não tinha como dar errado né? Mas deu.

Começando do começo, já que eu ia cair na estrada, decidi que queria o motorhome mais completo disponível. Pesquisando, descobri que a Britz era uma das locadoras mais respeitadas do país e tinha um preço mais amigo que as outras empresas do grupo (Maui e Mighty). Partimos então para a escolha da nossa casa motorizada: apesar de sermos só 4 pessoas, eram 6 lugares, com cozinha completa (até forno tinha!), sala e banheiro.

Pegamos nossa belezinha no aeroporto de Queenstown para seguir na direção Norte até Christchurch. Na hora do checkin, cometemos o primeiro erro gravíssimo: acreditando que o seguro do cartão de crédito serviria para o motorhome da mesma forma como serve para o aluguel de carros comuns, declinamos o seguro adicional vendido pela Britz.

Depois da euforia inicial de estar entrando pela primeira vez em uma casa que anda, colocamos as malas no bagageiro e partimos para a estrada. Só que já na hora de sair vimos que a coisa não seria tão simples quanto parecia: o motorhome era GIGANTE, muito largo, e a sensação era de estar dirigindo um caminhão. Eu, como motorista oficial da viagem, tive uma leve crise de pânico ao pensar que teria que me responsabilizar por aquele elefante branco por 6 dias e 5 noites e pela vida de mais 3 pessoinhas que estavam confiando nas minhas habilidades de direção. OBS: vocês estão lembrando que na NZ é mão inglesa né? Ah tá.

Ok, pânico controlado, partimos para o mercado. A verdade é que pensar que poderíamos comprar tudo que a gente quisesse para tomar café da manhã, lanchar e eventualmente jantar, deu um super ânimo. Nós parecíamos crianças vendo o papai noel chegar com os presentes: saímos enfiando tudo quanto era comida e bebida dentro do carrinho e depois descarregamos tudo no motorhome.

Dali partimos em direção a Wanaka, que seria o nosso primeiro destino. No caminho, nos demos conta que já não tínhamos tanta bateria assim no celular e lembramos que a atendente da Britz explicou que as tomadas só funcionavam se o motorhome também estivesse conectado à energia, o que a gente só conseguiria se ficássemos em um motorcamp. Começamos a procurar na internet igual uns loucos um lugar com vaga, sem muito sucesso (já pensou ficar sem bateria no celular? SOCORRO!). Aí partimos para o porta-a-porta: fomos em 3 motorcamps até encontrarmos um com vaga. Nossa senhora do smartphone salvou a gente! Realmente, as instalações eram muito direitinhas, tinha água quente, banheiro limpo e tudo mais. Tomamos um banho, jantamos e dormimos.

O dia seguinte amanheceu muito chuvoso e demos graças a Deus por estarmos em um carro com estrutura. Dirigimos até Blue Pools mas não conseguimos aproveitar muito por causa do mau tempo. Bom, já que nosso frigobar tinha ido com a gente, optamos por ficar ali mesmo jogando conversa fora e tomando uma cerveja (eles né, eu era a motorista, esqueceu?). Depois voltamos para o mesmo motorcamp, onde dormimos a segunda noite.

E foi na volta de Blue Pools que o primeiro desastre aconteceu: minha câmera profissional que estava na mochila em cima da mesa foi arremessada quando fiz uma curva um pouco mais fechada. A verdade é que a parte traseira do motorhome sacudia pra caramba e ninguém tinha imaginado que tudo que estivesse desprotegido iria eventualmente acabar no chão. Depois de ficar desolada por uns minutos com a semi morte da minha máquina que não ligava mais, resolvi abstrair. Paciência.

Guardamos tudo de quebrar debaixo da mesa ou dentro dos armários e seguimos viagem. Até que veio o segundo strike: o frigobar abriu sozinho e uma das garrafas de espumante que estava na porta saiu voando e se espatifou no chão. Como é de se imaginar, o cheiro de álcool impregnou o interior do motorhome e o líquido fez uma lambança no chão. Só aí foi que descobrimos que tinha uma tranca na porta do frigobar, por motivos óbvios. Estaríamos salvos, certo? Claro que não. Algumas horas depois a segunda garrafa, dessa vez de vinho, foi arremessada da mesma forma para fora do raio do frigobar que se destrancou sozinho (eu juro!).

A essa altura, nosso motorhome já tinha virado um chiqueiro. O chão estava grudento e fedia a vinho branco. Mas beleza, vamos seguir viagem.

Os dias que se seguiram foram de relativa paz. Fazíamos a função limpar banheiro, esvaziar depósito de água usada, encher tanque de água limpa e carregar o motorhome na energia diariamente. Uma trabalheira, verdade, mas era parte da experiência.

O combinado era que deveríamos evitar usar o banheiro, quando possível. Era só para emergências. Mesmo assim, ele ficou fedorento, e a salvação era jogar lá dentro um daqueles tabletes que se colocava nos sanitários antigamente, com um cheiro de pinho sol insuportável (mas era menos pior que o cheiro de xixi).

E foi num dia qualquer que sem querer resolvemos lavar a louça sem ter esvaziado o depósito de água, por puro esquecimento. Nem teríamos nos dado conta se não tivéssemos aberto a porta do banheiro e descoberto que o depósito tinha transbordado e tinha uma piscina de água suja no que deveria ser o nosso box (com o bônus de um tênis que tinha ficado esquecido ali dentro boiando). Sabe a visão do inferno? Tipo isso.

Todos os dias optamos por pagar por uma vaga com energia em um motorcamp privado, para termos o mínimo de dignidade para ir ao banheiro e tomar um banho quente direito. Mas teve um dia que não teve jeito: dormimos aos pés do Mt. Cook em uma cidade micra em que a única opção era o camping público sem chuveiro e sem tomadas. Fazer o que? Encaramos.

Foi então que pela primeira vez tentamos tomar banho no tal banheiro, numa tentativa desesperada de tentar fazer valer o fato de estarmos aguentando todo o perrengue de limpar aquilo todo dia sem ter de fato usufruído muito. Resultado? Um fiasco! Não conseguimos fazer a água esquentar por nada nesse mundo e tomamos um banho tcheco muito do mal tomado porque a água estava congelante.

Mas nem tudo foi caótico. De fato, tínhamos uma cozinha americana mara com passa pratos (mais conhecido como janelas), um telhadinho retrátil muito simpático, mesinha e cadeira para colocar do lado de fora. Foi gostoso ter a liberdade de parar em qualquer lugar e montar nosso próprio restaurante (ou bar, como preferir), depois juntar a bagunça e meter o pé na estrada. A sensação de liberdade era enorme e a gente podia dormir onde a gente quisesse (mesmo que na prática a gente quisesse mesmo era dormir em um lugar com tomada e banho quente!).

O que a gente não sabia era que o destino havia separado um grand finale para nós. Foi virando num estacionamento a 2 km/h (sim, dois quilômetros por hora, não foi erro de digitação) que aconteceu o apocalipse: como o motorhome era grande e largo, não vimos uma muretinha baixa de pedra e quando viramos, BUM. Destruímos a lateral em questão de segundos. NÃO É POSSÍVEL!

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A carcaça do nosso motorhome bem detonada

Depois de quase arrancar os cabelos de tanto desespero, resolvi ligar para o seguro, só para descobrir que existia uma cláusula que dizia com todas as letras que veículos da categoria motorhome/trailer não eram cobertos. E quem disse que a gente sabia? Pensei em chorar, pensei em gritar, olhei em volta para ver se podia colocar a culpa em alguém (fiz isso com meu marido, assumo)… mas nada ia resolver.

Já ouviram aquele ditado “o que não tem solução, solucionado está”? Resolvi relaxar de vez. Sim, tinha sido um baita preju e uma missão ter alugado aquele treco, mas no fundo no fundo a gente estava se divertindo e voltaria da viagem com muita história para contar.

Viajar de motorhome foi sair da zona de conforto. Para nós, foi aprender a lidar com frustrações e imprevistos, foi ter que inovar e ter novas idéias do que fazer quando as coisas não saíram como o planejado. Foi aprender a achar graça de coisas como o forno que nunca conseguimos ligar, a água quente que nunca conseguimos usar, o frigobar assassino que cuspiu 2 das nossas garrafas de vinho, e a tão amada câmera profissional que saiu voando e parou de funcionar. No fim, conseguimos achar graça até da lateral da carcaça que ficou em frangalhos espatifada na mureta, por mais louco que isso possa parecer. Conseguimos entender de verdade que às vezes temos problemas que parecem muito grandes, mas não são. E que se você simplesmente levar a vida na esportiva, eles não vão te afetar.  

Se valeu a pena? Demais. Foi uma experiência única que trouxe muitas reflexões bacanas e lembranças que vão ficar para a vida inteira. Se pudesse, faria tudo de novo, sem mudar nem uma vírgula. Afinal, o que é a vida se não um pacote de momentos?

Fiz uma coletânea dos Stories dessa nossa aventura, pra mostrar bem os nossos humores ao longo dos dias. Quer ver? Só clicar aqui embaixo: