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3 em Autoconhecimento/ Autoestima no dia 02.07.2018

Das cicatrizes – visíveis e invisíveis – que a vida faz…

Eu tinha uns 8 anos, mas lembro claramente como se fosse ontem. Recreio do colégio, dia quente e eu vestindo camiseta de uniforme e um shorts comprido (na altura do joelho mais ou menos), foi então que uma menina da mesma idade me disse: “você não usa shorts curto por causa das cicatrizes que tem na perna né?” Eu fiquei bem confusa com a pergunta, e só respondi um tímido “é”.

Até aquele dia, minhas cicatrizes nunca tinham sido uma questão para mim, problema nunca foram, mas questão passou a ser naquele dia. Como já contei aqui, sofri um acidente grave com 4 anos de idade e perdi os dois braços. O processo de recuperação exigiu várias cirurgias, que deixaram marcas em várias partes do meu corpo, mas a mais visível delas é a cicatriz da coxa direita.

Como os braços foram arrancados, o coto que sobrou ficou sem pele, isso exigiu uma cirurgia de enxerto, onde seria retirada uma lâmina de pele de alguma parte do meu corpo para cobrir os lugares que faltaram. A parte escolhida foi a coxa. Me lembro claramente dessa cirurgia também, foi a noite mais cruel no hospital. A coxa doía muito, estava frio e eu não podia me cobrir. Passado o pós-operatório, restaram cicatrizes, e eu entendi que elas mostravam uma ferida muito grande que havia sido curada, e só.

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Eu nunca tive vergonha delas, nem das cicatrizes da coxa, nem da perna, nem do colo, nem do queixo, sempre me orgulhei de contar a história por traz de cada uma delas, pois era a história da batalha que eu venci. Mas naquele dia, o comentário daquela garota me fez refletir…

E faz ainda mais hoje.

Queria ter dito a ela: “Não, eu não uso shorts curto na escola porque minha mãe acha que eu não devo usa-los por uma questão cultural. Eu não tenho problema nenhum em ter cicatrizes, e sempre que eu quero eu uso shorts, saia, vestidos sem me importar se elas vão aparecer ou não”. Aquele dia eu percebi que as pessoas acham normal alguém se privar de usar algo que queira por causa de algo fora do padrão, e que sinais e marcas são coisas que te diferem. Pensei nas pouquíssimas pessoas que me encorajaram a usar roupas sem mangas, sei também que muitas nunca questionaram somente por respeitar minha decisão, mas a  maioria sempre pareceu concordar com o fato de eu não querer mostrar o meu coto do braço, como se isso fosse o certo a fazer.

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Imagino que aquela criança pode ter perguntado à sua mãe em casa por que a menina sem braço da escola só usava shorts comprido, e ela deve ter respondido: “Você não tá vendo que ela tem cicatrizes na perna?”. Essa resposta tornou-se uma verdade em sua cabeça, daquele dia em diante qualquer marca deve ser escondida.

Essa mãe provavelmente respondeu isso porque não vê pessoas com cicatrizes na Tv, a única novela em que viu uma protagonista com uma marca no rosto foi Marissol no sbt, e a mesma vivia triste escondendo a marca com o cabelo sobre o rosto. No mais, cicatrizes são características de vilões, sinais na pele, manchas, e outras coisas mais não são atributos de personagens de destaque. Acontece que, viver deixa marcas, e nós precisamos aprender isso.

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Não estou aqui condenando os procedimentos estéticos que existem para amenizar a aparência de sinais, isso pode fazer parte do seu processo de autoaceitação, se julgar necessário. O problema é acreditar que só isso trará o amor próprio necessário para que você se aceite. 

Como eu consegui me enxergar bela e digna por traz de tantas marcas? Para mim, cicatrizes são sinais de feridas curadas, cada uma delas contam uma história de algo que venci, que curei, e isso para mim chega a ser poético. Se elas existem é porque se fecharam, cicatrizaram. A pergunta da menina lá atrás, nos meus 8 anos de idade também deixou uma cicatriz, essa não é tão visível quanto as outras, mas eu guardo aqui no meu coração, sem mágoas, afinal a ferida causada por sua falta de entendimento, por achar que eu não podia usar uma roupa que mostrasse ainda mais o quanto eu era diferente, também se curou e se tornou uma lição válida por toda a minha vida.

2 em Camilla Estima/ Comportamento/ Saúde no dia 15.05.2018

Poder comer de tudo não quer dizer permissividade na alimentação!

Quando trabalhamos o comportamento alimentar das pessoas, muitas dúvidas aparecem. “Mas eu vou poder comer qualquer coisa?” “ Mas é solto assim?” “Não tem hora pra comer nada?” “Não tem limite?”. Não é nada disso, gente.

A nutrição sempre foi muito baseada no que chamamos de “biológico” – apenas nutrir aquele corpo para o seu funcionamento perfeito. Claro que queremos nutrir as pessoas e nossa missão é essa, mas vai muito além disso. Quando trabalhamos, o comportamento entra em jogo além do que a pessoa come em termos de qualidade e quantidade, mas também a forma como ela come e também as motivações que a pessoa tem para isso. Trabalhando a recuperação dos sinais físicos de fome e saciedade e também dos motivos que levam as pessoas a comerem o que elas comem, chegamos à conclusão de que, muitas das vezes, comemos mais por emoções do que por estarmos com fome de verdade. Já falamos disso anteriormente aqui no Futi, dá uma olhadinha nesse post sobre fome no estômago ou na cabeça.

E como sempre falamos que dietas não funcionam, nós, nutricionistas não precisamos excluir alimentos comuns da vida das pessoas que não estão doentes. Sim, se você aí que está lendo esse texto não tem nenhum diagnóstico tipo diabetes, doenças cardiovasculares, doenças no fígado ou rins, e tantas outras em que há limitação de nutrientes ou grupos de alimentos, você não precisa restringir nada em termos de qualidade da alimentação.

Nós buscamos com nossos pacientes a autonomia alimentar.

Mas o que é isso? A autonomia alimentar faz com que você aprenda a ter consciência nas suas escolhas alimentares, entendendo as motivações, respeitando a fome física, emocional e percebendo a saciedade. A tomada de consciência é o fator determinante nessa equação, não para você cometer exageros na alimentação, mas sim para você compreender melhor como você come e a fazer escolhas equilibradas a partir daí. Levando em conta um propósito, o momento do dia, a motivação e tudo baseado na sua fome.

Dessa forma você toma para si o controle da alimentação com menos base em dietas da moda e mais consciência dos motivos pelos quais você come. A ideia é comer em paz, sem crenças socialmente difundidas, sem julgar o alimento, sem contar as calorias ou se viciar na composição nutricional. A ideia é não pensar em calorias que precisarão ser queimadas depois, é focar numa alimentação equilibrada para você.  E a autonomia é conquistada a partir de um processo.

Os equívocos e confusões começam quando falamos que tudo faz parte da alimentação e que podemos comer todos os tipos de grupos de alimentos. Esse é o pulo do gato para mudarmos nosso processo todo, mas ao mesmo tempo é a informação que mais assusta e causa confusão, por isso quisemos trazer esse post para o blog.

Tudo faz parte da alimentação, mas tudo pode ser feito com moderação, os alimentos combinam com as horas do dia, no caso as refeições. É o que chamamos da refeição com a cara da refeição.

Exemplo: o que seria um café da manhã normal, que os brasileiros comem? Dependendo da região do Brasil – pois nosso país é imenso – em um café da manhã costuma-se comer: café com leite e pão com manteiga, no norte e nordeste temos cuscuz, mandioca, carne seca; podemos incluir uma fruta ou um suco; um iogurte.

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Fonte: Guia alimentar para População Brasileira (2014)

Alguns alimentos não combinam muito essa hora, né? Tipo, arroz e feijão não tem cara de café da manhã, muito menos um brownie, uma bola de sorvete ou um pão de queijo. Que horas poderíamos comer um brownie ou uma bola de sorvete? Ah, combina com uma sobremesa. Show. Um pão de queijo combina com um lanche? Sim.

Continuando na linha de raciocínio, o que combina com um almoço e jantar tradicional brasileiro? A combinação deliciosa e perfeita do arroz com feijão, uma proteína, legumes e verduras cozidos ou uma salada. Uma sobremesa? Por que não! Pode ser um doce ou uma fruta.

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Fonte: Guia alimentar para População Brasileira (2014)

Na mesma lógica que eu disse acima, um misto quente é almoço? Nem tanto. Um salgado é almoço? Tampouco. E jantar pipoca? Também não. Aproximar a alimentação das pessoas a esse modelo as faz entender que tudo cabe na alimentação quando direcionadas à esses momentos do dia. Que sim, posso comer um doce de sobremesa, mas que ele não deve substituir o meu jantar e nem por isso eu devo exagerar nas quantidades.

E qual a diferença disso para a permissividade alimentar? Na permissividade alimentar eu como qualquer coisa em qualquer momento, e o problema que acabo nisso deixando de comer diversos alimentos que fazem parte do meu dia. Se por exemplo eu tomar de café da manhã um pão de queijo e um mate, quantos grupos alimentares que fazem parte dessa refeição eu estou deixando de comer? Deixo de comer frutas, leite ou iogurte, como pouca fibra. Se eu peço delivery todos os dias, o quanto estou me distanciando do jantar brasileiro? O problema não é pedir uma pizza numa 4ª feira à noite e sim a pizza da 4ª feira que sobrou virar o almoço e o jantar de 5ª feira.

No modo operante da permissividade, você acaba comendo “qualquer coisa” e se desconecto dos alimentos, das refeições, da sua fome e da sua saciedade. A refeição fica sem cara de refeição e isso só faz com que venhamos a substituir a restrição por um exagero, e esse extremo também não funciona.

Temos que começar a nos perguntar: por que eu estou me permitindo comer qualquer coisa? Jantar pipoca eu não estou jantando qualquer coisa? A pipoca do cinema é qualquer coisa? Não! Ela tem o seu momento. Se substituímos alimentos e grupos alimentares importantes na rotina não estamos fazendo bom uso do poder comer de tudo, nem estamos tentando entender nosso comportamento alimentar, só estamos usando uma máxima importante para mascarar nossos exageros. Não é preciso cortar nada, mas tudo tem sua hora e lugar, além de sua quantidade. Estamos tão acostumados a terceirizar isso que deixamos de nos conscientizar da nossa responsabilidade.

Essa nova forma de pensar a respeito da nossa alimentação traz à tona algo que as pessoas não estão muito acostumadas e que a dieta atrapalha: você se responsabilizar pelo que vai comer baseado nos direcionamentos que trabalhamos. Por que as pessoas estão pouco se responsabilizando pelo que elas comem ou escolhem comer? Pois estão anos a fio “obedecendo” um papel, que fica grudado na geladeira e que permite ou não de você comer alguma coisa. Se eu só obedeço, eu não tenho a autonomia das minhas escolhas e não tomo decisões a respeito do que vou comer. Aceito e acato quais alimentos são para gerar culpa, por exemplo. Desconsiderando quais deles me dão prazer ou não, consequentemente quando os como perco o controle que a autonomia me ajudaria a ter, tanto sobre o alimento quanto sobre a forma como eu como.

Seguir só um papel não é “empoderamento” alimentar. Pense como isso te aprisiona? Portanto, temos que sair do modo operante de que só obedeço, não penso criticamente no que estou comendo e não conecto isso comigo mesma. Uma vez que a autonomia alimentar é conquistada, tanto a permissividade como as restrições impostas passam a não fazer mais sentido, e você se sente livre para comer de forma equilibrada. Pode até parecer um milagre impossível, mas vemos cada dia mais isso acontecer nos consultórios de especialistas do tema.

As fotos usadas nesse post são exemplos de pratos sugeridos pelo Guia Alimentar para a População Brasileira. Não, não é uma dieta ou cardápio tipo de revista que qualquer pessoa se adapta, temos sempre que trabalhar a individualidade das pessoas. Usei para ilustrar o que chamamos da “refeição com a cara da refeição” com alimentos do nosso dia a dia e cultura alimentar. Para saber mais sobre alimentação saudável, baseada na nossa cultura alimentar, sugiro a leitura do guia. Ele é a recomendação que o Ministério da Saúde desenvolveu para a população comer de forma saudável e ter saúde, baseado em comida de verdade e respeitando nossos laços culturais. Ele é fantástico.

Referências Bibliográficas:

Guia Alimentar para a População Brasileira, 2014.

http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf

0 em Autoestima/ Beleza/ corpo no dia 20.04.2018

É possível amar o corpo? Como blogueiras de moda não foi.

Assistam meu vídeo no canal da Dai, ele fala bastante da transformação do blog, da pressão que sentíamos sendo blogueiras de moda e de como foi o meu processo pessoal com as questões de corpo e alimentação. Quem gosta do #paposobreautoestima vai gostar de ver e se impressionar com coisas que nunca disse antes.

Obrigada por essa oportunidade Dai, amei!

Em tempo, quero contar uma coisa pra vocês: Quando alguém me conta que meu conteúdo fez diferença na sua vida eu fico emocionada. As vezes ouço coisas lindas de gente que viveu coisas incríveis inspiradas pelas minhas mudanças, tem gente que procurou a terapia, buscou estudar, mudou a forma de agir e enxergar o corpo e isso é emocionante.

Hoje vou dividir com vocês o vídeo que eu gravei com a jornalista Daiana Garbin, minha amiga, que fala de transtornos alimentares de uma forma hiper responsável. O que vocês não sabem é o seguinte: minha relação com o corpo estava encaminhada e meus episódios de compulsão semi controlados por conta da terapia, mas eu NAO SONHAVA que era possível viver o que eu tinha vivido e fazer as pazes com a alimentação. Até que num jantar, essa mulher maravilhosa me contou sua história e eu comecei a acreditar. Camilla Estima começou a cuidar de mim e hoje poucas coisas são inegociáveis, meu processo ainda vigente de comer em paz é um deles. Ela tocou minha vida, espero que toque a de centenas de milhares por todo Brasil.

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Eu faço parte do time que teve a vida transformada pelo exemplo que ela deu e recomendo o conteúdo, super responsável do canal, para TODO MUNDO que tem transtorno alimentar ou convive com alguém que tem, ou seja, somando ambos, quase todo mundo do mundo!