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relacionamento abusivo

4 em Autoestima/ Destaque/ Relacionamento no dia 11.11.2017

Sobre um cara nada bacana e sexo de reconciliação

Estava no casamento da minha amiga e começou a tocar um funk que até então era desconhecido para mim. Lembro do exato momento que a rodinha de meninas onde eu me encontrava parou de dançar para comentar a música: “Nossa, que letra abusiva”, disse uma delas. Logo em seguida todas, inclusive eu, concordaram. Mesmo com muitos drinks na cabeça não tinha como ignorar mensagem tão perturbada.

O casamento acabou, a vida seguiu, eu tinha esquecido da música até semana passada, quando estava ouvindo o top 50 Brasil do Spotify e “Cara Bacana” começou a tocar. Eu, que já gosto de um funk, deixei a música rolando e eis que vem a letra:

“Foi difícil, pra você acreditar que eu sou um cara bacana.
E quando a gente briga é que vê que nós se ama.
Então esquece logo isso e vem com tudo aqui pra cama.

Amor
Sou esse cara que você está vendo
Sou problemático
Um pouco ciumento
Mas você sabe que eu sou foda na cama
Por isso que me ama”

confesso que me lembrou um pouco Olivia e Fitz, o casal/não casal mais desajustado da história da TV.

Eu sei que se eu for começar a problematizar letra de funk, eu vou entrar em um poço sem fundo. Como eu não quero isso, vou me ater à criticar apenas no título da canção, que poderia ser tudo menos “cara bacana”. Porque basta ler ou ouvir nem tão atentamente assim para vermos que esse cara é comum – infelizmente tem muitos dele por aí – mas é a antítese de um cara legal. Só que eu também não vim aqui para falar sobre esses caras e sim sobre sexo de reconciliação.

Eu sei que existe a teoria de que esse é o melhor sexo, e não seria diferente já que vemos isso em zilhões de filmes, novelas e seriados todo santo dia. Segundo os roteiristas e diretores, essa é a hora que a paixão, que já estava desgastada depois de tantos desentendimentos, volta a aparecer.

Eu já caí nessa fantasia – Olivia & Fitz em Scandal, Blair & Chuck em Gossip Girl, mais alguém? – e tenho certeza que todas vocês também. Pode ser tudo muito lindo e excitante no telão, mas vamos combinar? Atrás desse movimento de sexo como alternativa de fazer as pazes, pode estar uma motivação não tão boa para começar, como é o caso da música em questão.

Na vida real o nome desse relacionamento que é relatado ali é ABUSIVO. E antes que vocês achem que é só um funk tosco (com uma boa batida, terei que admitir), eu tenho certeza que todo mundo que está lendo conhece pelo menos um caso de amiga, prima, irmã ou mulher próxima que teve ou está tendo um rolo, um namoro ou até mesmo um casamento assim. Desses que vive na corda bamba, cheio de brigas, manipulações, controle excessivo e o sexo é o fio que está segurando uma relação completamente desequilibrada. É muito comum, e muitas vezes é difícil para quem está dentro entender que não é saudável.

NÃO É SAUDÁVEL.

Longe de mim generalizar, sei que vários casais depois que se resolvem na conversa celebram a paz com sexo mas muitas vezes, como na música, não há conversa, apenas um silenciamento. “Esquece logo isso e vem correndo aqui pra cama”. O sexo começa como consequência de algo ruim ou pendente, não como a celebração de um problema resolvido.

Relacionamentos com traços de abuso emocional acontecem de todos os lados, independente de gênero, e muitas vezes costumam acontecer com pessoas de baixa autoestima com relação à algum aspecto da vida. Quanto mais segura a pessoa está de si,mais ela consegue questionar o funcionamento do seu relacionamento e menos ela se torna manipulável em todos os aspectos, inclusive com o sexo.

Diferente do que MC G15 diz, prefiro acreditar que não é na briga, no ciúmes ou no controle que o amor acontece. Não é esquecendo o problema e correndo pra cama que a gente entende a motivação de um casal estar junto verdadeiramente. Sexo é maravilhoso, mas não pode sozinho ser motivo para namorar um cara babaca, que aliás, deveria ser o verdadeiro nome dessa música.

2 em Autoestima/ Convidadas/ Relacionamento no dia 03.05.2017

Não é questão de fraqueza, ou exagero

No dia 11 de abril, rolou um movimento nas redes sociais para falar sobre relacionamentos abusivos. A hashtag #EuViviUmRelacionamentoAbusivo esteve no facebook e no twitter, com relatos de mulheres das quais talvez você nunca tenha ouvido falar, mas provavelmente se identificou por conta da situação compartilhada. Aconteceu comigo. E, como em todas as outras vezes que algo assim surgiu, eu me encolhi e fingi que não fazia parte desse grupo.

ilustração: Harriet Lee-Merrion

Fingi porque escutei minha vida inteira que, como sou toda emoções e sentimentos, geralmente estou aumentando as coisas. Se todo mundo fala, deve ser verdade —abraço isso de um jeito que, em toda situação que vivo, perco um tempo tentando entender se estou aumentando ou se estou apenas sendo realista. Às vezes, essa linha fica meio turva e não consigo, sozinha, distinguir o que é o que.

Fingi que não fazia parte desse grupo porque nunca me deram um tapa ou um soco, nunca deixaram roxos. Já levantaram a mão para mim, sim, no meio de uma discussão acalorada — mas o tapa nunca veio, então não tem problema, não é? Vai ver a mão levantada foi só um reflexo, não quis dizer nada. Vai ver todas as coisas que ele me falou ao longo do tempo que passamos juntos foi uma brincadeira, no máximo estresse por causa do calor do momento. Vai ver estou tornando enorme uma coisa que é pequena. Vai ver é hora de parar.

Mas antes de deixar o assunto de lado mais uma vez, lembrei que uma vez escrevi sobre isso em um grupo de acolhimento feminino. Procurei o grupo, a minha mensagem e reli. Ela foi escrita em 2015, dois anos depois do término. Esperava encontrar frases que comprovassem que nunca tinha sido nada demais, que não foi isso que eu vivi. O que encontrei foi:

“Tava sobrecarregada em um zilhão de aspectos. Ele era um baita aspecto. No tempo que passamos juntos publiquei um livro, tive alguns sucessos profissionais, mas sabe quando nunca é ‘o momento certo’ para a outra pessoa? Uma amiga escritora me aconselhou a aceitar os leitores, para ser simpática e vender, e eu precisei ouvir dele: ‘aceita, espero que seja estuprada por um deles.’, porque ele considerava errado eu estar aceitando leitor no facebook. Chegou um momento que parecia que eu tinha que pedir aprovação dele (não ‘oi, posso fazer isso?’ mas pelo menos ser obrigada a comentar ‘oi, vou fazer isso’ porque se ele falasse ‘não’ era ‘não’ e pronto, era briga.). Em toda briga – toda – eu estava errada.”

E percebi que não aumentei nada. Admiti para mim mesma que todas as vezes que fui para a cama sem querer ir – porque senão eu ouvia que ele teria que achar isso em outra – deixou uma marca. Que todas as vezes que ele falava que eu tinha que ficar com ele, porque ninguém mais no mundo me aturaria, me fizeram crer que isso era real — e quantas, quantas vezes não repeti o discurso dele de que ele tinha mesmo aguentado tanta coisa, então era quase um santo?

Admiti que todas as vezes que o ouvi dizer que, se ele quisesse, ele me trairia e eu jamais ficaria sabendo, me deixou extremamente insegura e desconfiada. Que todas as vezes que ele fazia alguma coisa por mim e depois usava isso como chantagem para eu fazer exatamente o que ele queria, não era uma simples dinâmica de casal. Que ficar me fazendo rodar um shopping o procurando, enquanto ele ria e fazia piada de mim nas redes sociais, falando o quanto era bom apreciar a vingança, não era apenas justiça porque eu demorava para me arrumar.

Admiti que, todas as vezes que ele fingiu que ia pular do 11º andar da faculdade e me deixava tão tensa a ponto de ficar sentada no corredor com um medo surreal que não me permitia sequer me mover, não era uma brincadeira. Admiti que ter me afastado de todos os meus amigos para evitar confusão não foi normal. Assim como não era normal ouvir constantemente que meu peso determinava o quão bonita, desejável ou valorizada eu era ou deveria ser.

Admiti que não fui perfeita com ele e que isso nunca foi justificativa para tudo que ele fez, falou e como me fez sentir menor e desimportante. Que não é normal terminar um relacionamento e se sentir culpada, com nojo de si mesma. Nojo que durou anos.

“O problema é que, depois de tanto desgaste, não consigo confiar em ninguém. Em nenhum homem. Desde 2013, não namoro, não fico, não faço nada. Tenho vontade, mas sabe desespero? Desespero MESMO. Então, eu entro em desespero e desmarco todo e qualquer encontro. […] Só fico me sentindo ridícula. Sempre me pareceu que era meu exagero.”

E admitir tudo isso foi difícil, porque continuo minimizando tudo que aconteceu. Mas também foi o passo que faltava para eu finalmente deixar tudo isso no passado. Foi o ponto final, que eu sequer sabia que precisava, para entender que nada disso me faz mais fraca ou menor, como me falaram uma vez: “você não é quem eu achava que era. Não achei que você fosse o tipo de mulher que aceita esse tipo de relacionamento”.

Pedir ajuda faz parte. Ter isso na história não é vergonhoso. Mas é garantia de que dá para sair dessa e, com o tempo, com ajuda, reaprender a confiar — em si mesma, no outro. Reaprender a se entregar. E, eventualmente, quando você se sentir pronta, apostar as fichas em alguém que valha a pena.