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reflexões

3 em Relacionamento no dia 09.10.2017

Sobre príncipes, reis e eu.

Outro dia me peguei pensando em como as minhas expectativas sobre um relacionamento eram megalomaníacas num passado não tão distante. Mas acho que desde que escrevi meu primeiro texto aqui, eu tenho sido menos exigente. Tenho sido mais aberta para pessoas com as quais eu antes não seria. Desde então acho que abri mão de algumas exigências bizarras na minha listinha imaginária do “cara perfeito”.

Bizarras porque preciso confessar que até cerca de 2015, eu tinha direitinho na minha cabeça o tipo de homem que eu queria que aparecesse na porta da minha casa com um buquê de flores. Alguém que parecesse o Jake Gyllenhaal seria perfeito, nota dez, tá de parabéns (fica aqui o elogio escancarado ao meu crush eterno – sim, eu amo o Leo Dicaprio, mas eu ficaria mesmo é com o Jake). Alguém tipo o Sam Claflin ou o Theo James não cairia nada mal também. Além disso, eu queria inúmeras qualidades. Minhas melhores amigas sabem que muitas vezes eu nem dava uma segunda chance para alguém porque os itens da minha listinha não estavam todos ticados.

E uma das melhores coisas que eu fiz na vida foi ver que todos os itens da lista não precisam estar ticados. Eu vi que eu podia conhecer gente muito legal e interessante sendo um pouco mais aberta, um pouco menos crítica, quem sabe até menos chata.

Eu vi que não preciso do príncipe encantado com todos os itens da minha longa lista (e talvez nem o queira mais). Eu descobri que quando é para ser, vai ser. Descobri que quando encaixa, encaixa por um motivo. Que amor é mais do que o que está em qualquer listinha de qualidades. Que amor é mais profundo que isso. E também mais complicado que isso.

Mais complicado porque eu talvez tenha deixado algo de lado – e agora vejo que não é o certo, independentemente do cara ser o próprio Jake Gyllenhaal: não precisa ser o príncipe encantado e dar check em todos os itens da lista, mas eu mereço alguém que me queira. Alguém que não tenha medo de fazer planos, de se jogar, de arriscar pelo nosso relacionamento.

Sempre pensei no rei da Inglaterra que abdicou do trono porque queria casar com uma americana divorciada. Em um antecessor dele que mudou a religião do país por amor a uma mulher. E não, não quero que ninguém abra mão de um sonho ou de algo como um reinado por mim. Eu só quero que alguém me coloque na luta do dia-a-dia junto. Alguém que lute comigo pelos meus sonhos e pelo meu reinado também. Alguém que esteja no mesmo barco, no mesmo degrau, lado a lado. Tem que ter equilíbrio. Tem que dar, tem que receber, tem que ter troca.

É vivendo – e caindo, infelizmente – que se aprende. Eu não tenho arrependimentos até agora. Eu acho que cresci muito como pessoa, como mulher nos últimos anos (e nos últimos meses, especialmente). Eu tenho mais certeza do que eu quero e do que eu não quero na pessoa que vai estar ao meu lado. E não baseada em uma listinha hipotética que eu fiz aleatoriamente pensando em astros Hollywoodianos, mas baseada na minha história, nos meus aprendizados e no que eu hoje vejo como realmente importante em um relacionamento a dois.

2 em Autoestima/ Comportamento/ Convidadas/ Juliana Ali no dia 06.10.2017

Pertencer – a quem?

Todo ano na escola do Teodoro, acontecem as muito aguardadas “Olimpíadas”, sempre no segundo semestre. Teodoro é meu filho mais velho, nove anos. As Olimpíadas consistem basicamente de duas semanas de jogos envolvendo todos os alunos, do primeiro ano ao ensino médio, divididos em quatro grandes grupos. No final, eles fazem um evento para distribuir as medalhas de ouro, prata, bronze e… sei lá do que é a medalha de quem ficou em último lugar. Nesse evento, os pais são convidados.

Semana passada fui ver Teodoro receber sua medalha (bronze, desta vez, para certa decepção do mesmo, “deboas, filho, o importante é participar, etc clichês motivacionais etc.”). Os alunos e professores se reúnem na quadra, que fica absolutamente lotada de crianças/adolescentes para a tão solene cerimônia, e os pais sentam-se na arquibancada.

Sentei. O professor de educação física fala e fala e fala no microfone. Sem quase me dar conta, suas palavras pararam de entrar aqui. Sumiram. Fiquei observando aquelas criaturas na quadra. De 5 a 18 anos, todas juntas, sentadas no chão, esperando suas medalhas. Os alunos. Tinha de tudo. Alto, baixo, gordo, gordíssimo, magro, magérrimo, preto, branco, cabelo liso, cabelo cacheado, menina de cabelo curto, menino de cabelo comprido, olho arregalado, olho puxado. Todos diferentes, mas todos igualmente suados, bochechas vermelhas do último jogo que acabara de ocorrer, e todos jovens. Muito jovens.

ilustra: @bodiljane

Levei um susto. O que eu estava fazendo na arquibancada? Não é possível que eu seja MÃE dessa gente. Eu sou um deles. Me lembrei de ser um deles como se ainda fosse 1992. Lembro do cheiro da quadra da minha escola. Do professor de educação física que me chamava de “Alimies”, como se meu sobrenome (Juliana Ali Mies) fosse todo grudado, uma palavra só. Lembro da vergonha de ser a mais vermelha de todas depois do jogo. Lembro da sensação de inadequação por nunca acertar a porra do saque de vôlei. Aliás, de nunca acertar nada em esporte nenhum. Teo, deboas, a medalha da mamãe era sempre a de “sei lá do que é a medalha de quem ficou em último lugar”.

Lembro da sensação de inadequação. Ah, meu amor, aqueles alunos, todos diferentes uns dos outros, são todos iguais, por dentro (os adolescentes, pelo menos): nenhum deles se sente lindo. Nenhum deles se sente o máximo. Até os que parecem se sentir, não é mesmo? E, olhando para eles, em 2017, na verdade são todos lindos.

Vi beleza em todos. Nos cabelos que brilham (cabelo de criança brilha sempre, já reparou?). Nos dentinhos brancos que nasceram outro dia mesmo, muitos deles com aparelho, que de alguma maneira ornam maravilhosamente com aqueles sorrisos hormonalmente confusos. Nos corpos algumas vezes já maduros, meninas com cintura fina, bunda grande, peito grande. E nos corpos ainda absolutamente infantis, retinhos, fininhos, das amigas da mesma idade. Todas lindas.

Todas desesperadas para pertencer, para serem iguais. Para serem do jeito certo que tem que ser para serem aceitas. Vi gordinhas ajeitando a camiseta para esconder a barriga, e vi magrinhas fazendo exatamente o mesmo, escondendo a barriga que só elas acham que tem. Todas lindas para mim.

Eu era assim também. Sempre estava barriguda demais, cacheada demais, sem peito demais, feia demais, sem saber jogar vôlei demais, vermelha demais.

O boy não vai me querer, porque eu não sou como a menina mais bonita da escola (loira, lisa, magra, alta, padrão e joga vôlei muito bem, claro), porque tá tudo errado comigo.

Aí voltei. Ah não gente, a vida é longa. Aconteceu coisa pra cacete. É 2017. Não tenho 15 anos MESMO. Me senti repentinamente distante demais das meninas, deu vontade de pegar todas no colo. Não tenho vergonha de mim. Tenho orgulho.

Mas sabe o que mais percebi esse dia, na arquibancada, voltando a assumir meu lugar, o de adulta? Que não foi aos 20 e nem mesmo aos 30 anos que saí da adolescência. Dessa vontade de pertencer. Não. Não é assim tão fácil. Essa vontade de ser como a menina mais bonita da escola – que hoje em dia pode ser substituída pela celebridade fitness do instagram, ou pela blogueira rica e magra, quem sabe? – segue perseguindo as mulheres por anos e anos pós adolescência. E, algumas, seguem assim a vida toda. Esse desejo incontrolável de ser IGUAL. Alisa cabelo, bota peito, tira peito, passa fome, bota boca, sofre na academia, gasta o que não tem com make, com roupa, com creme, com roupa, com bolsa, ufa. Precisa de TANTO, será?

Ou será que o melhor seria sair de uma vez dessa adolescência invejosa (a inveja que habita em mim saúda a inveja que habita em você, mana, porque inveja não é palavrão, mora em nós, bora conviver, e a gratidão é o antídoto) e aceitar que somos adultas, lindas nas nossas diferenças, lindas no nosso não-pertencimento?

E, talvez, assim, FINALMENTE, pertencer a nós mesmas. Ganhar a medalha de ouro da liberdade. 

0 em Comportamento/ Destaque/ maternidade no dia 11.09.2017

Com criança o timing é outro

A cada nova experiência eu tenho a confirmação que a maternidade é realmente um passo gigantesco para o autoconhecimento. Não que seja a única forma de se deparar com suas qualidades e defeitos de forma muito visceral (a Jô é a prova viva disso), mas é algo que invariavelmente vai acontecer depois que se tem filhos, até com quem é tipo eu, que nunca se interessou por assuntos relacionados antes.

A mais nova descoberta que eu fiz sobre mim é que nem sempre eu consigo entender o timing com criança, e aí vou com uma expectativa de passeio sem filhos (ou com filhos muito comportados) e quando a realidade bate, me gera frustrações gigantescas.

Esse fim de semana, por exemplo, fomos no MoMI para a exposição do Jim Henson, criador dos Muppets e da Vila Sésamo. Pelo tema a gente imagina que é o tipo de programa perfeito para crianças, né? E até é, mas para crianças um pouco maiores, talvez. Porque com o Arthur foi o caos.

 Eu sei que na foto não parece, mas ele não parou quieto, andava de um lado para o outro, queria pegar em todas as placas e em todos os botões, para o desespero dos seguranças que tentavam fazer com que eu controlasse a minha criança. Ele gritava quando via um boneco (isso era fofo) e gritava quando a gente pegava ele no colo para levar para outro canto (isso não era fofo). Em um dado momento aquilo tudo foi muito para ele e o bichinho desandou a chorar e eu me vi tendo que sair da exposição para não atrapalhar mais as pessoas.

Enquanto eu acalmava ele lá embaixo, longe de tudo e de todos, eu me peguei com a garganta engasgada, quase um choro preso por mil motivos. Fiquei chateada de verdade porque a exposição, que em teoria era para ele curtir, foi o caos. Fiquei mais triste do que deveria por ter me incomodado com os seguranças chamando a nossa atenção. Era o trabalho deles, eu não devia levar para o pessoal, mas levei.

Também fiquei frustrada porque no fim eu só vi bonecos e tentei entreter o Arthur com eles – o que claramente não deu certo. Não consegui acompanhar as legendas que explicavam seu trabalho, não consegui ver os sketches que mostravam a evolução da criação dos personagens, não consegui ver os vídeos, não consegui prestar atenção nos detalhes.

Eu sempre acreditei na teoria que “a criança tem que se adaptar à nossa rotina, não o contrário”. Sempre bati no peito cheia de orgulho ao dizer que levamos o Arthur para tudo que é canto (ainda mais aqui em NY, onde muitas vezes se nós quisermos sair para jantar sozinhos teremos que desembolsar o mesmo – ou mais, dependendo de quanto dura o jantar – do que gastamos para comer). Claro que sempre com sensatez, respeitando as necessidades do seu filho e também os horários e o clima do lugar. Bom senso é tudo nessa vida.

Eu não conseguiria ser essa pessoa que prefere não ir para restaurantes, museus ou qualquer outro ambiente que aceite crianças mas que não é exatamente pensado para elas. Só que enquanto eu tinha que engolir essa frustração friamente, por um momento eu me vi dando razão a essas pessoas. Se bobear era melhor eu aceitar que é uma fase, que daqui a um ano ou menos o Arthur já vai entender melhor seus limites e vamos poder curtir juntos. Saí do museu meio resignada, eu diria.

Até que umas duas horas depois, durante o almoço, paramos para ver os vídeos que fizemos dele na exposição. Um era ele apontando os vídeos que o retroprojetor projetava na parede branca, muito feliz, dava pra ver nos seus olhos como ele estava fascinado com aquela interação. O outro era eu com um fantoche na mão e ele interagindo com o boneco, maravilhado. Fazia “bate aqui”, dava tchau e quando eu abria a boca do fantoche e fingia morder seu dedo ele caía na gargalhada. O último era ele construindo um muppet, e foi a minha vez de ficar maravilhada. Enquanto a gente botava dois olhos, um nariz e um acessório na cabeça, ele fez um muppet com o rosto cheio de olhos e um nariz na barriga. Nós, adultos, vamos realmente perdendo a nossa imaginação, né? O boneco era roxo, nada a ver com seres humanos, porque precisava ter dois olhos, um nariz e uma boca? Certo estava ele. rs

No fim das contas, a frustração passou e a ideia de que ele não tinha aproveitado também. Ele aproveitou muito, da maneira dele, a gente que não deveria ter esperado uma maturidade que ele ainda não tem.

Eu continuo acreditando que a criança tem que se adaptar à nossa rotina, mas depois dessa experiência concluí que a gente também deveria usar certas situações para nos adaptarmos com o que a criança quer. E dessa forma a gente vai achando o equilíbrio. :)