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reflexões

4 em Autoconhecimento/ Destaque/ maternidade no dia 16.10.2017

“Eu não sei lidar com crianças, como serei mãe?”

Esse é o tipo de questionamento que eu já ouvia muito antes de pensar em ter filhos. Quando chegava uma hora onde a conversa da roda tomava rumos sobre filhos e maternidade, se não era outra mulher fazendo essa pergunta, provavelmente era eu que fazia.

Sempre tive medo de pegar recém nascidos, nunca soube o que fazer quando uma criança começava a chorar, não sou boa de inventar brincadeiras, muito menos histórias, nunca sei o que falar para as mais velhas, de 5 anos pra cima, por exemplo. E o que mudou nessa habilidade depois que eu tive filho?

só para vocês entenderem, eu levo tanto jeito com crianças que eu só tenho essa foto, quando o Arthur estava com um pouco mais de 1 ano…

De coisa boa, eu diria que perdi o medo de que poderia deixar meu filho cair, ou não entender por quê ele tava chorando. Entendam bem, eu não perdi o medo de deixar crianças caírem, eu só perdi o medo com ele. E quanto ao choro, eu não virei uma especialista em tipos de prantos, só desvendava o quê era o quê por causa da rotina e por causa da tentativa e erro. Aprendi umas brincadeiras e umas musiquinhas, hoje tenho algum repertório porque sei cantar praticamente todas as músicas infantis (e não é porque eu decorei para ser mãe, é porque eu acabei absorvendo de tanto ouvir), sei o que é Patrulha Canina, Homem Aranha, Masha e o Urso e Princesa Sofia, mas minha conversa não passa de “você gosta de Patrulha Canina? Qual seu personagem preferido? Poxa, ele é um cachorro, que legal, né” Depois disso, grilos.

Aprendi que a partir de 1 ano e meio a maioria das crianças que eu convivo não têm paciência pra tatibitati e adoram quando a gente fala com elas sem aquela vozinha infantil. Tirando isso? Continuo a mesma pessoa sem jeito.

…e essa, que eu tava rindo, mas era de nervoso.

Mês passado fui pegar o bebê de 2 meses de uma amiga e não sabia mais como pegar sem que eu ficasse toda travada e em posições estranhas e incômodas só para não deixar o bebê desconfortável. Quando ele começou a chorar, confesso que bateu o mesmo desespero que eu sentia quando nem pensava em ter um filho. Poxa, eu sabia que a gente ia esquecendo as fases de bebê, mas não tinha ideia que seria tão rápido!

Fim de semana passado fui na festa do filho do meu primo e tinha uma área para as crianças brincarem. Arthur cismou com uma menina muito fofa, e toda hora ele ia para onde ela estava só para dar um abraço. Como ele não podia ficar sozinho lá, fui atrás, e quando me vi estava iniciando uma conversa com uma menina de 6 anos porque ela estava sendo um amor com ele. A conversa foi mais ou menos assim, sendo que ela puxou assunto (porque eu, naturalmente, nem sabia por onde começar):

– “Quantos anos ele tem?
– 1 ano e 9 meses.
– Eu tenho um irmão de 2 meses, eu adoro crianças.
– To vendo, você leva jeito! Qual seu nome?
– Giulia.
– E quantos anos você tem?
– 6.
– Ahh, que legal.” – mais grilos.

Ou seja, deu para ver que Giulia tem muito mais destreza para puxar papo com estranhos no alto de seus 6 anos do que eu com 31, né? Eu tenho problemas em iniciar conversas com adultos desconhecidos, imagina se não teria com menores de idade.

Não é preciso ter vocação para recreadora de festa, professora de maternal ou apresentadora de programa infantil para ter um filho. Aliás, a maternidade seria muito mais fácil se a maior dificuldade fosse saber ou não lidar com crianças. 

A coisa legal é que conviver com crianças pode ser cansativo, mas deixa a vida bem mais leve. Muitas vezes para iniciar um papo vale brincar junto, de massinha, de colorir, de pula pula. Vale ser um pouco boba e deixar as vergonhas que vamos adquirindo depois de adultas de lado. Diria que é menos sobre “levar jeito” e mais sobre “se deixar levar”.

2 em Relacionamento no dia 09.10.2017

Sobre príncipes, reis e eu.

Outro dia me peguei pensando em como as minhas expectativas sobre um relacionamento eram megalomaníacas num passado não tão distante. Mas acho que desde que escrevi meu primeiro texto aqui, eu tenho sido menos exigente. Tenho sido mais aberta para pessoas com as quais eu antes não seria. Desde então acho que abri mão de algumas exigências bizarras na minha listinha imaginária do “cara perfeito”.

Bizarras porque preciso confessar que até cerca de 2015, eu tinha direitinho na minha cabeça o tipo de homem que eu queria que aparecesse na porta da minha casa com um buquê de flores. Alguém que parecesse o Jake Gyllenhaal seria perfeito, nota dez, tá de parabéns (fica aqui o elogio escancarado ao meu crush eterno – sim, eu amo o Leo Dicaprio, mas eu ficaria mesmo é com o Jake). Alguém tipo o Sam Claflin ou o Theo James não cairia nada mal também. Além disso, eu queria inúmeras qualidades. Minhas melhores amigas sabem que muitas vezes eu nem dava uma segunda chance para alguém porque os itens da minha listinha não estavam todos ticados.

E uma das melhores coisas que eu fiz na vida foi ver que todos os itens da lista não precisam estar ticados. Eu vi que eu podia conhecer gente muito legal e interessante sendo um pouco mais aberta, um pouco menos crítica, quem sabe até menos chata.

Eu vi que não preciso do príncipe encantado com todos os itens da minha longa lista (e talvez nem o queira mais). Eu descobri que quando é para ser, vai ser. Descobri que quando encaixa, encaixa por um motivo. Que amor é mais do que o que está em qualquer listinha de qualidades. Que amor é mais profundo que isso. E também mais complicado que isso.

Mais complicado porque eu talvez tenha deixado algo de lado – e agora vejo que não é o certo, independentemente do cara ser o próprio Jake Gyllenhaal: não precisa ser o príncipe encantado e dar check em todos os itens da lista, mas eu mereço alguém que me queira. Alguém que não tenha medo de fazer planos, de se jogar, de arriscar pelo nosso relacionamento.

Sempre pensei no rei da Inglaterra que abdicou do trono porque queria casar com uma americana divorciada. Em um antecessor dele que mudou a religião do país por amor a uma mulher. E não, não quero que ninguém abra mão de um sonho ou de algo como um reinado por mim. Eu só quero que alguém me coloque na luta do dia-a-dia junto. Alguém que lute comigo pelos meus sonhos e pelo meu reinado também. Alguém que esteja no mesmo barco, no mesmo degrau, lado a lado. Tem que ter equilíbrio. Tem que dar, tem que receber, tem que ter troca.

É vivendo – e caindo, infelizmente – que se aprende. Eu não tenho arrependimentos até agora. Eu acho que cresci muito como pessoa, como mulher nos últimos anos (e nos últimos meses, especialmente). Eu tenho mais certeza do que eu quero e do que eu não quero na pessoa que vai estar ao meu lado. E não baseada em uma listinha hipotética que eu fiz aleatoriamente pensando em astros Hollywoodianos, mas baseada na minha história, nos meus aprendizados e no que eu hoje vejo como realmente importante em um relacionamento a dois.

2 em Autoestima/ Comportamento/ Convidadas/ Juliana Ali no dia 06.10.2017

Pertencer – a quem?

Todo ano na escola do Teodoro, acontecem as muito aguardadas “Olimpíadas”, sempre no segundo semestre. Teodoro é meu filho mais velho, nove anos. As Olimpíadas consistem basicamente de duas semanas de jogos envolvendo todos os alunos, do primeiro ano ao ensino médio, divididos em quatro grandes grupos. No final, eles fazem um evento para distribuir as medalhas de ouro, prata, bronze e… sei lá do que é a medalha de quem ficou em último lugar. Nesse evento, os pais são convidados.

Semana passada fui ver Teodoro receber sua medalha (bronze, desta vez, para certa decepção do mesmo, “deboas, filho, o importante é participar, etc clichês motivacionais etc.”). Os alunos e professores se reúnem na quadra, que fica absolutamente lotada de crianças/adolescentes para a tão solene cerimônia, e os pais sentam-se na arquibancada.

Sentei. O professor de educação física fala e fala e fala no microfone. Sem quase me dar conta, suas palavras pararam de entrar aqui. Sumiram. Fiquei observando aquelas criaturas na quadra. De 5 a 18 anos, todas juntas, sentadas no chão, esperando suas medalhas. Os alunos. Tinha de tudo. Alto, baixo, gordo, gordíssimo, magro, magérrimo, preto, branco, cabelo liso, cabelo cacheado, menina de cabelo curto, menino de cabelo comprido, olho arregalado, olho puxado. Todos diferentes, mas todos igualmente suados, bochechas vermelhas do último jogo que acabara de ocorrer, e todos jovens. Muito jovens.

ilustra: @bodiljane

Levei um susto. O que eu estava fazendo na arquibancada? Não é possível que eu seja MÃE dessa gente. Eu sou um deles. Me lembrei de ser um deles como se ainda fosse 1992. Lembro do cheiro da quadra da minha escola. Do professor de educação física que me chamava de “Alimies”, como se meu sobrenome (Juliana Ali Mies) fosse todo grudado, uma palavra só. Lembro da vergonha de ser a mais vermelha de todas depois do jogo. Lembro da sensação de inadequação por nunca acertar a porra do saque de vôlei. Aliás, de nunca acertar nada em esporte nenhum. Teo, deboas, a medalha da mamãe era sempre a de “sei lá do que é a medalha de quem ficou em último lugar”.

Lembro da sensação de inadequação. Ah, meu amor, aqueles alunos, todos diferentes uns dos outros, são todos iguais, por dentro (os adolescentes, pelo menos): nenhum deles se sente lindo. Nenhum deles se sente o máximo. Até os que parecem se sentir, não é mesmo? E, olhando para eles, em 2017, na verdade são todos lindos.

Vi beleza em todos. Nos cabelos que brilham (cabelo de criança brilha sempre, já reparou?). Nos dentinhos brancos que nasceram outro dia mesmo, muitos deles com aparelho, que de alguma maneira ornam maravilhosamente com aqueles sorrisos hormonalmente confusos. Nos corpos algumas vezes já maduros, meninas com cintura fina, bunda grande, peito grande. E nos corpos ainda absolutamente infantis, retinhos, fininhos, das amigas da mesma idade. Todas lindas.

Todas desesperadas para pertencer, para serem iguais. Para serem do jeito certo que tem que ser para serem aceitas. Vi gordinhas ajeitando a camiseta para esconder a barriga, e vi magrinhas fazendo exatamente o mesmo, escondendo a barriga que só elas acham que tem. Todas lindas para mim.

Eu era assim também. Sempre estava barriguda demais, cacheada demais, sem peito demais, feia demais, sem saber jogar vôlei demais, vermelha demais.

O boy não vai me querer, porque eu não sou como a menina mais bonita da escola (loira, lisa, magra, alta, padrão e joga vôlei muito bem, claro), porque tá tudo errado comigo.

Aí voltei. Ah não gente, a vida é longa. Aconteceu coisa pra cacete. É 2017. Não tenho 15 anos MESMO. Me senti repentinamente distante demais das meninas, deu vontade de pegar todas no colo. Não tenho vergonha de mim. Tenho orgulho.

Mas sabe o que mais percebi esse dia, na arquibancada, voltando a assumir meu lugar, o de adulta? Que não foi aos 20 e nem mesmo aos 30 anos que saí da adolescência. Dessa vontade de pertencer. Não. Não é assim tão fácil. Essa vontade de ser como a menina mais bonita da escola – que hoje em dia pode ser substituída pela celebridade fitness do instagram, ou pela blogueira rica e magra, quem sabe? – segue perseguindo as mulheres por anos e anos pós adolescência. E, algumas, seguem assim a vida toda. Esse desejo incontrolável de ser IGUAL. Alisa cabelo, bota peito, tira peito, passa fome, bota boca, sofre na academia, gasta o que não tem com make, com roupa, com creme, com roupa, com bolsa, ufa. Precisa de TANTO, será?

Ou será que o melhor seria sair de uma vez dessa adolescência invejosa (a inveja que habita em mim saúda a inveja que habita em você, mana, porque inveja não é palavrão, mora em nós, bora conviver, e a gratidão é o antídoto) e aceitar que somos adultas, lindas nas nossas diferenças, lindas no nosso não-pertencimento?

E, talvez, assim, FINALMENTE, pertencer a nós mesmas. Ganhar a medalha de ouro da liberdade.