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reflexões

11 em Autoconhecimento/ Comportamento no dia 18.04.2018

Há pouco tomei consciência do meu privilégio branco. Você conhece o seu?

Quanto mais eu converso com as pessoas, mais eu vejo dois extremos: pessoas preocupadas com a representatividade da mulher negra no combate ao racismo e pessoas que acham que não existe “tanto” racismo no Brasil, que isso tudo tá um pouco exagerado. Claro, sem falar na turma que é racista de forma consciente e assumida, mas essa galera graças a Deus não está no meu convívio diário, hoje isso seria um problema pra mim. 

Nessa situação me peguei numa crise. Como fazer um post para ajudar a turma que não tem consciência do privilégio branco a entender os problemas de preconceito racial que enfrentamos na sociedade? Esse não é um post para roubar o lugar de fala de ninguém, esse é um post meu, de branca pra branca, pra gente falar sobre os motivos pelos quais eu, que ainda estou engatinhando no assunto, acho que são fundamentais para propor uma desconstrução que nos ajude a enxergar a importância dessa luta por representatividade que as mulheres negras estão fazendo.

A nossa cultura é nova se comparada ao resto do mundo, ela também é viva e por isso acredito sim que devemos buscar entender os motivos pelos quais devemos retirar expressões e conceitos racistas da nossa rotina.

Joana, como você entendeu que você tinha esse privilégio branco?

No dia em que li um comentário numa foto de Maraisa Fidelis, do blog Beleza Interior. Questionaram a Mara se a bolsa Gucci dela era original. Pode parecer idiota ou elitista pra você, mas pra mim não foi. Eu, naquele dia, enxerguei que em anos de blog nunca haviam feito tal pergunta pra mim. Nunca questionaram uma bolsa minha ou da Carla, que assim como as da Mara, são originais. Nunca tivemos que dar satisfação sobre isso para ninguém.

maraisa-fidelis

Quando fui indignada falar com Maraisa, ela me disse outra coisa que pesou: “Joana, já te perguntaram se você fez faculdade?” Nunca! Pronto, quando eu vi Mara já estava enfiada na minha vida e na minha casa, fazendo a família inteira repensar. Explicou pra minha mãe que o termo mulata não era bacana, afinal vem da história em que negros tinham seu preço equiparado ao das mulas no mercado da escravidão. Depois explicou com cuidado que o uso da palavra denegrir é complicado porque significa rebaixar essa pessoa a um negro, como se fosse uma raça inferior. Mudar não é simples, mas estamos aqui pra aprender, não é mesmo?

Uma vez uma amiga que trabalhou numa grande revista me contou que poucas capas eram de mulheres negras porque elas vendem menos. Nossa, mas como que a gente aumenta a representatividade pra fazer vender mais e ajustar esses padrões excludentes de beleza, então? Bancando a ideia. Graças à desconstrução diária que estamos vivendo, as revistas estão começando a semear essa plantinha, mas precisa de mais. Mais representatividade. Nosso papel? É comprar a revista, endossar, dar lugar de fala.

@taisdeverdade posta muitas capas de mulheres negras! Sempre!

@taisdeverdade posta muitas capas de mulheres negras! Sempre!

Uma vez um amigo me disse que não achava a mulher negra bonita, por questão de gosto, não por racismo. Eu apenas estranhava esse argumento, afinal, como vou discutir com uma pessoa sobre sua preferência, algo tão pessoal? Até entender que até o nosso gosto, algo que acreditamos ser genuinamente nosso e sem interferências externas, é reflexo da nossa cultura e do que somos ensinados. O padrão de beleza está mudando e nós estamos lutando para isso, mas não podemos esquecer que por muitos anos ele foi totalmente eurocêntrico, pessoas loiras, magras e do olho claro. No Brasil isso é um pouco mais flexível, mas ainda falamos de mulheres brancas e magras, e que muitas vezes pintam o cabelo. Infelizmente acredito que não é questão de gosto quando esse é o público de maior rejeição dos aplicativos de encontro NO MUNDO, segundo uma palestra recente do SXSW. As mulheres negras são as com menos crushs ou matches e isso não é uma coincidência. É questão de pré conceito, de conceito tão enraizado que a gente sequer enxerga de forma verdadeira. Seria questão de gosto se todas as belezas tivessem o mesmo peso, o que não é verdade.

Só que só piora. No #picnicdopapo em Salvador, algo de cortar o coração aconteceu. Na cidade mais negra fora da África, as quase 60 mulheres que foram, me contaram por horas sobre como usam o cabelo como forma de empoderamento, como o feminismo tem ajudado, mas algo que foi repetido diversas vezes acabou comigo. Nunca, em nenhuma outra cidade, eu ouvi relatos de estupro e abuso sexual nessa dinâmica, e todas elas eram negras. Pode soar coincidência, mulheres brancas também são estupradas, mas antes de me chamar de exagerada, procure as estatísticas. Ou melhor, nem procure, eu vou te dar uma delas. O Dossiê Mulher 2015, do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, aponta que 56,8% das vítimas dos estupros registrados no Estado em 2014 eram negrasE 62,2% dos homicídios de mulheres vitimaram pretas (19,3%) e pardas (42,9%). Naquele dia eu descobri que por ser branca tenho menos chance de sofrer um estupro ou uma violência.

Outro momento que me marcou foi o assassinato de Marielle Franco. Quanto vale a vida de uma mulher negra? Nem mesmo uma advertência. Enquanto Marcelo Freixo, que está no maior patamar do privilégio, já sofreu inúmeras ameaças de morte, Marielle foi morta sem nem ter chance de se proteger. Não vou entrar em lados políticos porque extremos não me representam, no entanto independente disso, a vida de Marielle importou pra mim. 46.000 pessoas votaram nela para que ela as representasse. Num país onde as mulheres ocupam 14% do espaço na política, sendo que 4% desses 14 são mulheres negras.

Ilustraçao Camila Rosa

Ilustraçao Camila Rosa

Nesse post, o que eu quero é dizer que não precisamos ter vergonha de enxergarmos atitudes racistas que já tivemos, ou que ainda temos e deixamos passar por ser algo tão enraizado na nossa cultura. Precisamos é ter vergonha de não querer mudar de opinião, de não querer enxergar nossos privilégios e o que podemos fazer com ele. Precisamos mostrar que quando mulheres negras falam sobre questões que parecem improváveis para mulheres brancas, isso não é vitimismo. Precisamos sempre questionar os motivos de pessoas brancas receberem mais empatia quando falam sobre racismo. E lembrar sempre que não existe racismo ao contrário ou racismo reverso, mesmo que você tenha sofrido bullying por ser branco como a neve. É diferente, isso não diminuiu suas chances. Não importa o quanto você ache desagradável ser questionada sobre os seus privilégios, lembre-se disso. Pode ter desconforto, mas não tem preconceito.

Insta da Maraisa Fidelis : @ blzinterior

Insta da Maraisa Fidelis : @ blzinterior

Pra mim muitas coisas precisam acontecer, mas a representatividade é um caminho que eu tenho visto começar aos poucos mudar o mundo. Mulheres negras PRECISAM se enxergar como representadas, não to aqui nem falando isso com a ideia de apenas aumentar o padrão de beleza não. A coisa é tão séria que esse me parece um problema muito menor, precisamos fazer isso para que as nossas vidas e importâncias tenham o mesmo peso, porque infelizmente hoje no alto do meu privilégio de ser branca, nascida numa família de classe média e comunicadora/ ouvinte, eu acho que estamos muito distantes disso.

Texto Glamour Brasil, vale a pena!

Cabelo crespo: será que é mesmo sua opinião ou questão de gosto? por Maraisa Fidelis.

Também no blog:

Leia também esse texto da Ca aqui no blog sobre o seriado CARA GENTE BRANCA.

Livros que todas nós podemos ler:

Na minha pele: livro do qual Carla falou aqui, do Lazaro Ramos. 

Lugar de fala: de uma das pessoas que mais gostamos de acompanhar pra aprender, a Djamila Ribeiro.

Vídeos que eu acho fundamentais que a gente assista:

Um vídeo sobre isso, com a palavra a sensacional Djamila Ribeiro.

Achei esse video da Mari Xavier uma aula do racismo que não vemos, por isso trouxe ele pra cá! Acredito que todo mundo deveria ver.

 

1 em #paposobremulheres/ Autoconhecimento/ Comportamento no dia 14.03.2018

Papo sobre mulheres: a eterna sensação de fraude e a síndrome do impostor no universo feminino

Se algumas dessas frases ou sentimentos já passaram pela sua cabeça, temos muito mais em comum do que você pode imaginar: “Um dia todos vão descobrir que não sou isso tudo que pensam que eu sou…”, “O que que eu estou fazendo aqui no meio dessa gente tão inteligente! Eu não sei nada.”, “Sinceramente, não sei como cheguei até aqui, foi pura sorte!”, “Dessa vez vão me desmascarar, tô perdida!” e “Eu sou uma fraude!!!”

Durante anos esses pensamentos em conjunto com emoções de medo, insegurança e ansiedade pairavam na minha cabeça cada vez que eu conquistava algo como um novo emprego, uma promoção ou algo que me destacasse. Aliado à uma baixa estima que invadia outras áreas da minha vida, esses pensamentos estavam enraizados na minha vida profissional. Comecei a trabalhar muito cedo, e sempre atribuía meu sucesso a sorte (como passar para uma faculdade de direito federal) ou à minha simpatia. Por ser uma pessoa extrovertida, sempre me relacionei bem com as pessoas e acreditava que não era minha competência e minha inteligência que me fez crescer de uma secretária à me tornar gerente de RH de uma grande multinacional, mas sim a minha capacidade de agradar e me relacionar com as pessoas. Quando eu olhava para trás ou lia meu currículo, revisitando minhas conquistas, racionalmente conseguia vê-las, mas no meu coração sempre achava que não era boa o suficiente e que a qualquer momento todos ao meu redor descobririam isso.

Em 2013, fiz uma formação em coaching para acrescentar em minha liderança e foi quando descobri nessa profissão um chamado, um propósito. Então quando eu decidi tocar minha carreira de coach, aí mesmo que a porca apertou. Porque todos os meus medos de julgamento, de não aceitação e principalmente o medo do sucesso se escancararam. Sim, minhas caras, muito maior que o medo de fracassar, o medo de ser bem sucedida era o que mais me paralisava. Porque quanto mais bem sucedida eu era, maior a inadequação e essa sensação de fraude se estabelecia, maior a pressão de ter que dar certo, e também maior o medo de ser “descoberta”. Então já que eu não queria isso tudo, o que fazia? Me sabotava, protelava. Começava a adiar projetos, a buscar parcerias erradas, a gastar dinheiro de maneira equivocada, ou seja, fazia de tudo para dar errado.

Como coach de carreira, estavam ali na minha frente, em muitas sessões, clientes que me relatavam o que vivenciavam, e era exatamente como eu me sentia também. Clientes incríveis, cheias de potencial, com um histórico impecável, batalhadoras, mas que não se achavam o bastante, se achavam verdadeiras fraudes e não merecedoras de suas conquistas. E foi a partir dai, em tentar entender o que acontecia com elas (e de tabela comigo) que descobri o nome desse conjunto de pensamentos e emoções que faziam as minhas clientes e eu, se sabotarem profissionalmente: a Síndrome do Impostor.

ilustra: Jenny Chang

ilustra: Jenny Chang

Em 1970, as pesquisadoras Pauline Clance e Suzanne Imes apresentaram o termo “fenômeno impostor” para descrever o comportamento que observaram em alguns de seus alunos. Parecia que, apesar de suas melhores notas e conquistas, eles se recusaram a tomar posse de seu sucesso. E essa tendência não se limitava aos estudantes de pós-graduação. Muitas pessoas se sentem como fraudes – como não são dignas de seu sucesso, não importa quantos troféus, certificados ou elogios tenham recebido. Eles diminuem o significado de suas realizações e os atribui à sorte ou a outras forças fora de seu controle, em vez de seu próprio esforço, dedicação e inteligência. Para pessoas com síndrome de impostor, seu maior medo é que as pessoas logo descobrirão que são fraudes e não são tão habilidosas, inteligentes ou competentes quanto a sua própria realização.

Muitas pessoas famosas já confessaram sofrer dessa síndrome, e de acordo com a escritora Valerie Young, ela é muito mais comum em mulheres, por alguns motivos que vai desde o julgamento das mulheres em uma sociedade machista, aos estereótipos psicológicos e emocionais que marcam nosso gênero. A atriz Kate Winslet já confessou que às vezes acordava pela manhã antes de sair para uma filmagem e achava que não conseguiria, que era uma fraude. Assim como Natalie Portman, Emma Watson, Jody Foster, Lady GagaLupita Nyongo disse que depois que ganhou o Oscar, isso deixou as coisas ainda piores do que eram antes. E essa lista se estende à profissionais incríveis em todas as áreas, não só artistas. Sheryl Sandberg, COO do Facebook, relatou em seu livro que toda vez que era chamada em sala de aula, tinha certeza de que estava prestes a se envergonhar. Toda vez que fazia um teste, tinha certeza de que tinha ido mal. E toda vez que não se envergonhava – ou mesmo se superava – ela acreditava que tinha enganado a todos novamente. Que um dia, em breve, a verdade viria à tona.

Na medida em que eu ia pesquisando sobre o assunto, me identificava com cada relato e ia ficando claro que eu realmente sofria dessa síndrome e que muitas das minhas clientes também. Mas beleza, e agora? O que fazer com isso?  Entender qual era o “monstro” por trás de todos esses sentimentos foi importante para entender como vencê-lo. E foram nesses mesmos relatos que encontrei a força para me superar. Pois essas mulheres eram maravilhosas e haviam feito coisas incríveis, apesar da síndrome. Elas não se deixaram paralisar. Eu deveria atacar então a fonte de onde brotava tanta insegurança que se revelava através de um perfeccionismo sufocante: minha autoestima. Foi um mergulho muito profundo e bem dolorido em resgatar eventos no qual eu ainda não havia me perdoado, e que eram gatilhos para me sentir insuficiente. Foi necessário também perdoar pessoas que, intencionalmente ou não, contribuíram para instalar no meu intimo a minha desvalorização.

De acordo com Valerie Young, essa Síndrome nunca vai embora e confesso que por enquanto, acredito nela. Escrever esse textoàa convite da Joana foi um desafio. “Será que vão gostar? Será que está bom o suficiente? E se não gostarem? Quem sou eu no meio de tantas mulheres muito mais inteligentes para falar sobre isso? E se descobrirem que, na verdade, eu não sei é nada? Agora sim vão descobrir que sou uma fraude” foram pensamentos que permearam minha cabeça antes, durante e depois de enfrentar esse desafio. Eu chamo esses pensamentos de “trituradores”, pois eles são capazes mesmo de acabar com sonhos e o amor próprio. Mas sabe o que mudou, na Bel de antes e na de agora? Que assim como as mulheres incríveis que eu citei nesse texto, eu agi, eu escrevi, apesar de todos os pensamentos. Eu superei minha auto sabotagem. E nesse caminho, me tratei com muito respeito e compaixão. Não neguei os pensamentos, mas o rebatia em cada frase, cada parágrafo escrito. 

Pode ser que eu carregue essa síndrome comigo pro resto da minha vida, mas a medida que me supero, eu calo essa voz interna. E na medida em que eu a calo, eu dou voz a coisas muito mais lindas e poderosas que habitam em mim. Pois eu mereço isso. E assim como eu, você também. Se convença disso, mesmo que no inicio soe como uma mentira. Mergulhe fundo no seu autoconhecimento, busque apoio se necessário, mas não desista dos seus sonhos por causa dessa sensação de fraude.

Nesse mês das Mulheres, peço para que se liberte dessa crença que você não é o suficiente. Seja um agente de superação, por você e por todas as mulheres que te cercam. Pois como disse Marianne Williamson “Nosso maior medo não é o de sermos incapazes. Nosso maior medo é descobrir que somos muito mais poderosos do que pensamos…Quanto mais livres formos, mais livres tornamos aqueles que nos cercam”.

3 em #paposobremulheres/ Autoconhecimento/ Comportamento no dia 08.03.2018

Papo sobre mulheres: Esquece, você não é bonita e vai ter que compensar no resto….

Eu devia ter uns 15 anos quando disse pra mim: esquece, você não é bonita e vai ter que compensar no resto. Analisando friamente, compensar foi o verbo que regeu a casa da beleza no céu da minha vida durante muitos anos, eu diria mais de uma década. Esse processo era inconsciente, eu não sabia que tinha me dado a tarefa de ser a mais legal das pessoas como medida de compensação de uma suposta ausência de beleza.

Você vai ter que ganhar no carisma! Era isso que eu repetia pra mim como um mantra, mas no fundo nem eu mesma acreditava que eu iria conseguir equilibrar a balança e de fato “vencer” a beleza com o carisma. Conteúdo e inteligência eram minhas armas, agradeço até hoje por ter desenvolvido bem essas habilidades, mas no fundo eu ouvia com pesar a musica sucesso da boy band do momento enquanto sofria apaixonada pelo cara que acabou virando um dos meus melhores amigos, óbvio!

Já que eu não conseguia ser magra, dona de um cabelo bonito (leia-se, liso e sedoso, como nos comerciais de tv) ou mesmo perfeita (dentro dos padrões estéticos socialmente esperados), de uma maneira geral, precisava fazer muita força para merecer o cargo que me restava: o meu papel seria o de melhor amiga, aquela que acompanhava a protagonista e não precisava viver suas próprias aventuras amorosas e desventuras em série. 

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registros de uma adolescência como outra qualquer

Na época eu entendia cada turma do colégio como uma peça de teatro, cheias de personagens enigmáticos, reviravoltas e confusões. Nessa obra os dramas duravam muitos meses, os personagens não mudavam e os papéis de protagonismo iam se alternando conforme a relevância do adolescente mais rebelde ou das confusões amorosas do casal mais comentado da sala. Se eu estava na ilusória galerinha popular do meu ano, eu precisava merecer aquele lugar e, pra isso, ainda que com a ausência de protagonismo, eu precisava de muita simpatia para compensar a falta de atributos físicos que me contemplassem com o rótulo ilusório que dizia: essa menina é parte das garotas bonitas.

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registros de uma adolescência como outra qualquer (2).

Beleza não põe mesa, diziam alguns. Não sei onde viviam essas pessoas, pois naquela fase quem não atendia ao padrão de beleza adolescente um tanto desengonçado do ensino médio, não fazia ideia de como era difícil abraçar a persona da menina mais legal de todas. Fazia falta um pouquinho de beleza que fosse. Não foi fácil ser adolescente, pior ainda foi ter que quebrar, já na vida adulta, esse filtro de ilusão que não me permitia olhar com amor para meu corpo, meu reflexo.

joana

17 anos e duas meninas normais numa foto… Pelo menos é o que enxergo hoje.

Eu não precisava compensar nada. Eu só precisava ser eu mesma, reconhecer meu valor e desenvolver estima por mim. Me vi incrível, inteligente, competente e bonita pela primeira vez aos 28 anos, resultado de uma longa jornada de reconexão comigo. Isso tudo sempre esteve lá, meu olhar só estava contaminado demais pra enxergar.

Só que essa história não é só minha e justamente por isso precisamos falar sobre tudo que constrói esse padrão de beleza que segrega, aprisiona, não diversifica, limita e adoece. Porque a beleza não é o melhor atributo de uma mulher, nem de longe! No entanto, eu acredito que ela pode ser encontrada de alguma forma, em quem quiser buscá-la.

Só que a gente não cria esses pensamentos sozinhos. A escola ajuda, mas é em casa que esse jogo começa. Quando a gente é jovem a gente acompanha os dramas dos nossos familiares e acreditamos que devemos ter as mesmas preocupações que os nossos pais. Uma mãe que sinaliza insatisfação com o próprio corpo em tempo integral pode acabar repassando este padrão de comportamento para a filha, sugestionando e contaminando suas referências. Um pai que comenta, incansavelmente, o peso da criança pode gerar um conflito, jamais imaginado. Uma família que não se alimenta de forma equilibrada e tem uma relação de amor e ódio com a comida pode, inconscientemente, passar adiante uma relação cheia de culpa com a alimentação. Colocar a criança no contexto da pressão estética é mais simples do que ensinar a escovar os dentes sozinho. Antes mesmo de entrarmos na escola da vida, podemos já ter sido bem doutrinados (ainda que através do exemplo) na escola da insatisfação. É muito fácil se tornar uma menina com questões de imagem se a pressão por ser bonita começar em casa e ao invés do reforço positivo, muitos pais acabam pressionando por sacrifícios na busca por uma beleza difícil de manter.

É muito fácil não ver beleza quando todas as referências que se apresentam faz com que a jovem se sinta massacrada com um padrão inatingível, seja em casa, na escola ou nas redes sociais. Muitos pagam muito caro para chegar nesse patamar do que julgam ser belo e quando alcançam o objetivo almejado, continuam a vivenciar o mesmo vazio, sentindo-se imperfeitos e focando no que ainda acreditam que precisa ser mudado. O foco fica preso fora, mas a solução está dentro.

A pressão por beleza causa confusão. Nos esquecemos que o que realmente importa está dentro de nós, e é no processo de autoconhecimento que o despertar da verdadeira essência chegará, trazendo um novo olhar, pra dentro e para fora, sem compensações, de modo que o indivíduo possa se enxergar como um todo, com inteligência singular, comportamento próprio e aparência única. Porque quando ajustamos o olhar, vemos o significado da beleza se multiplicar.

É muito fácil fugir do papel de protagonista da sua própria vida, ainda mais quando nos ensinam a ser uma mulher que precisa abraçar tantos papéis para , mas as vezes o mais importante é deixar as máscaras caírem para começarmos a nos interpretar de verdade, como realmente somos, sem precisar compensar nada.