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psicologia

0 em Destaque/ Saúde no dia 10.10.2018

O peso da psicofobia – por quê tanta gente prefere esconder ou ignorar sua saúde mental?

Todo setembro temos o “setembro amarelo”, campanha de prevenção do suicídio. A ideia é trazer à sociedade a discussão sobre um problema real, crescente e grave. Nas redes sociais vemos pessoas muito bem intencionadas disponibilizando seu “inbox”, seu ouvido ou seu ombro amigo caso alguém esteja passando por problemas de sofrimento psíquico e precise de ajuda. É um belo fenômeno. Mas e na vida real, será que é assim que acontece?

Pela minha vivência profissional, garanto que não. A busca por atendimento psiquiátrico ou psicológico quase sempre ocorre depois de um grande debate interno, muita resistência e como último recurso. Amigos médicos me falam que ao sugerirem uma psicoterapia ou encaminhamento ao psiquiatra, escutam de seus pacientes que eles não são malucos e que terapia é coisa de gente desocupada – psicofobia. De forma alarmante, observo portadores de transtornos mentais equivocadamente diagnosticados e tratados por outros especialistas ou profissionais não capacitados. Assim, os quadros evoluem e acumulam prejuízos que poderiam ser facilmente evitados  com uma intervenção precoce e qualificada em saúde mental.

ilustra: ambivalently yours tradução: não é porque não podem ver que isso se torna menos real

ilustra: ambivalently yours
tradução: não é porque não podem ver que isso se torna menos real

Não entrando no mérito de falhas na formação profissional para um adequado reconhecimento e manejo dos transtornos psiquiátricos, me questiono sobre quanto o estigma social interfere nesse trajeto e na criação da psicofobia. Grande parte do meu trabalho consiste em mostrar ao indivíduo que busca ajuda que os seus sintomas decorrem de um problema de saúde, e não de: falta de vergonha na cara, fraqueza, falta de contato com Deus, falta de “porrada” na infância, preguiça, falta de problema de verdade, falta de sexo, excesso de tempo livre, frescura ou alguma das outras causas que certamente já foram aventadas por conhecidos – frequentemente os mais amados e importantes – ou pelo senso comum.

Escondem que fazem tratamento psiquiátrico, pedem que eu não identifique minha especialidade em atestados para apresentar no trabalho, dizem que tem medo de contar a seu cônjuge que estão usando medicação “para a cabeça”, costumeiramente dizem só se sentir à vontade para desabafar com os profissionais que os acompanham e sentem-se profundamente envergonhados por “terem chegado a esse ponto” – questões que não são o cotidiano de nenhuma outra especialidade médica. Vivem assim uma dor solitária e sufocante, em contraste com o cárater agregador de vários outros processos de adoecimento.

O preconceito também aparece de forma bem disseminada na linguagem. Não é raro se usar termos diagnósticos como xingamento óbvio (faço questão de não redigir os exemplos neste texto) ou mesmo em tom de brincadeira (quem nunca viu um meme com “abstrai e finge demência” ?). Ainda mais: quando se banalizam situações graves – como por exemplo, dizer que a pessoa que gosta da casa organizada tem TOC, quem acorda um pouco mais mal humorado e depois fica tranquilo é bipolar… – e se propõem soluções fúteis, desde “vai arrumar uma coisa pra fazer” até “comprar sapatos é o único antidepressivo que uma mulher precisa”. Por causa dessas coisas, todo um grupo nada pequeno de pessoas tem seu sofrimento menosprezado e suas dores abafadas. Reforça-se assim a marginalização e exclusão contra as quais diversos movimentos tanto lutam há décadas, além de atrasar a busca por tratamento ou mesmo um pedido menos desesperado por socorro. Aqueles que tem energia de apontar esses aspectos ouvem que estão de mimimi politicamente correto, que o mundo está muito chato hoje em dia e outras frases do tipo.

Não é surpresa constatar que vivemos numa sociedade preconceituosa. Conceitos que deveriam ser básicos como respeito ao próximo e compaixão precisam ser trabalhados, ensinados e incentivados à exaustão. Em pleno século 21 ainda precisamos discutir questões como igualdade de gênero, homofobia, racismo. E cada vez mais precisamos discutir a psicofobia. Para incluir, para promover a dignidade e, urgentemente, para salvar vidas.

4 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Saúde no dia 08.05.2018

Seja seu auto suporte

Quando nascemos dependemos integralmente dos cuidados do outro. É o outro que vai ler (nem sempre corretamente) as minhas necessidades e tentar (ou não) atende-las. Nosso cérebro possui a capacidade de se transformar durante toda a vida, é o que chamamos de plasticidade neuronal, mas definitivamente os primeiros anos, justamente esses nos quais somos 100% dependentes, são o período crítico do desenvolvimento neurológico. O crescimento visível da nossa cabeça não é a toa: nosso cérebro está realmente crescendo. Em massa, em matérias, em estruturas.

Ele vai crescendo se adaptando ao meio. Vamos compreendendo o mundo, entendendo o que devemos fazer para sobreviver, que é o grande impulso de todas as espécies: sobreviver para reproduzir. E o que vamos aprendendo? Que dependemos do outro. E esse outro é livre, separado da gente, independente. Por que, então, esse outro nos atura e cuida de nós?

Porque nos ama.

Passamos, então, a desenvolver estratégias para sermos amados, aceitos e cuidados. É como se, percebendo que dependemos do cuidado alheio, instalássemos um software “convencer o outro de que eu tenho valor e fazê-lo cuidar de mim”. Existe um vídeo que mostra uma pesquisa realizada para investigar a reação dos bebês quando a mãe para de interagir amorosamente e só fica com uma “cara de paisagem”.

Já tão pequenos eles sentem o medo de não serem apreciados. Já é possível ver o funcionamento do software do qual falei acima.

Acontece, porém, que nós não dependemos dos cuidados alheios para sempre. Claro que, por sermos animais gregários, sempre vamos precisar de vínculos, de afetos, de relações. Mas a aprovação incondicional, a nutrição da sensação de valor próprio, o alimento da auto estima, o suprimento das próprias necessidades, tudo isso, ao longo da vida, vai passando a ser responsabilidade NOSSA, e de mais ninguém.

Nós precisamos migrar da necessidade de ter um outro nos dizendo de que precisamos a cada momento para a necessidade de identificar nossas próprias sensações e sentimentos para descobrir qual é a nossa necessidade genuína. Precisamos desenvolver recursos para não mais aguardar passivamente que o outro nos dê o que desejamos dele, e sim mobilizar nossas energias na direção de obter por nós mesmos aquilo que desejamos. Obviamente não estou dizendo que isso é fácil, só estou expondo a direção na qual é saudável que caminhemos.

É a partir do momento em que acolhemos nossos sentimentos, que acolhemos nossa carência, que aceitamos nossa condição humana de desamparo e nos damos conta de que podemos, sim, contar com a ajuda de outras pessoas para superar momentos difíceis, mas que nossa maior responsabilidade nessa vida é aprender a dar conta de cuidar de nós mesmos, que começamos a caminhar para uma vida mais autêntica. Para uma vida com angústia, sim, mas com a angústia necessária, inerente à existência, da qual não se pode fugir, e não a angústia infrutífera e sofrida que nos toma quando nos sentimos como bebês impotentes que não podem fazer nada além de sofrer enquanto esperam que alguém perceba e atenda suas necessidades.

Precisamos atualizar nosso cérebro com softwares mais modernos, que aproveitem toda a capacidade do nosso organismo maduro. Migrar do hétero suporte para o auto suporte. E o primeiro passo para começar a caminhada nessa direção é aceitar que É UM PROCESSO. A pressa e a cobrança para transformar seu cérebro de um dia pro outro são o caminho mais rápido para NÃO CONSEGUIR transformá-lo. É necessário aprender a acolher suas angústias para dar um passo de cada vez.