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1 em Autoestima/ Destaque/ Deu o Que Falar no dia 19.03.2018

A roupa de gorda na novela reforça o estereótipo equivocado de que a felicidade só vem quando emagrecemos

O ano era 2001, eu tinha 15 anos e esse mundo de blog, youtube, textão no Facebook e perfis no instagram não existia. Fui assistir a um filme chamado “O amor é cego”, onde Jack Black se apaixonava pela Gwyneth Paltrow, mas ele era o único que via ela como Gwyneth Paltrow. O resto do mundo a via como uma mulher gorda. E a trama do filme era basicamente essa, todo mundo sacaneando ele por estar com uma mulher gorda, ela extremamente insegura e achando que tinha ganhado na loteria por ter conseguido um cara e ele sem entender como uma mulher linda (porque era magra, claro) estava dando bola para ele.

Lembro que na época, por mais nova que eu fosse e por mais que esse tipo de assunto sobre corpo e autoestima não fosse muito falado, aquilo não desceu. As pessoas ao redor riam e eu só conseguia pensar o que tinha de engraçado naquele argumento. Esse filme foi emblemático para mim, tanto que eu lembro dele até hoje. Acho que foi uma das primeiras vezes que eu percebi como o mundo era especialmente cruel com mulheres gordas.

e esse vídeo da Alexandra Gurgel merece ser visto.

Agora a gente pula para 2018, mais especificamente semana passada, quando começou a rolar a notícia que uma atriz global magra iria interpretar uma personagem gorda com problemas de autoestima. Para viver esse papel, ela não precisou engordar, ela só precisou vestir uma roupa de gorda. E apesar dos argumentos serem completamente diferentes, eu só consegui pensar no filme da Gwyneth Paltrow. E não pude deixar de pensar que eu devo estar vivendo em um mundo paralelo, só pode. Como se mulheres magras não tivessem problema de autoestima, fossem todas felizes e bem resolvidas. Como se emagrecer solucionasse todos os problemas de autoestima de uma mulher gorda. Doces ilusões que são assim enfiadas na cabeça das mulheres, que ficam tentando emagrecer cada vez mais para ver se tal felicidade chega. Não é assim, não é tão simples. 

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Desde que comecei o processo de deixar de seguir perfis que não estavam me acrescentando para dar o meu follow para mulheres que pregam o amor próprio independente do peso na balança – isso é, que não estimulam cuspir o pão do café da manhã ou dizem que um pedaço de chocolate é obra do demônio – eu comecei a viver em um mundo onde é normal mulher gorda se amar e ser muito amada de volta. Onde ter curvas, dobras ou uma barriga que não é trincada não é motivo para ter autoestima baixa. Mulheres que se amam, se cuidam (porque ter autoestima não é sinônimo de se largar ou deixar de prestar atenção na saúde) mas não estão dispostas a loucuras ou viver a beira de um transtorno alimentar para vestir 36 ou 38. Mulheres que entenderam que condicionar felicidade ao emagrecimento é uma roubada que nunca tem fim. Um ciclo vicioso muito perigoso. 

É por isso que dá um nó na garganta ver que na mesma época que a hashtag do #paposobreautoestima tem 5.200 publicações no instagram, a massa ainda resume autoestima à imagem e peso. Ainda associa que a autoestima chega quando nos mudamos para pertencer ao padrão. De novo, não é por aí, não é tão simples.

Quando a gente vê que ainda existe o estereótipo da mulher gorda sem autoestima e que aparentemente vai resolver toda a vida depois que emagrecer, a gente lembra que o caminho a seguir ainda é grande. Não quero falar pelas gordas e sei que existem milhares de outras questões nessa problemática de vestir uma pessoa magra com o “fat suit” (aliás, amei que essa entrevista também lembrou o filme que eu citei acima) ou de não chamar uma atriz realmente gorda para o papel, tampouco quero reforçar o óbvio de como o padrão corporal da época retratada está equivocado, então vou falar pela minha experiência como receptora dessa mensagem que afeta TODAS as mulheres, independente do número na balança.

Desde que começamos o #paposobreautoestima, passamos a colecionar histórias de mulheres que dizem que o momento que elas atingiram o peso mais baixo da vida delas, foi justamente o momento que elas estavam mais infelizes, inseguras e que nunca se sentiam satisfeitas com o peso. Algumas inclusive adquiriram transtornos alimentares.  A Jô passou por isso.

Isso não quer dizer que se você resolver emagrecer hoje você vai ser infeliz quando atingir seu objetivo, mas é bem provável que a sua vida feliz e realizada não aconteça se você iniciar um processo de emagrecimento tendo isso como objetivo principal e a única ferramenta para solucionar todos os seus problemas. Ter esse estereótipo reforçado em uma novela com audiência respeitável só ajuda a perpetuar essa mensagem que já adoeceu – e continua adoecendo – tanta gente.

Outro ponto complicado é a ideia de que a única beleza realmente aceitável é a magra. Esse ponto adoece, desestabiliza e alimenta a sensação de inadequação da maioria das mulheres, que já se acha feia. Porque até mesmo a mulher que muita gente considera padrão inatingível tem outro padrão ainda mais inatingível pra ela. 

Isso é um desserviço pra todas.

Não tenho ideia o que vai acontecer depois de tanta repercussão negativa, mas seria bem interessante se os roteiristas da novela resolvessem ouvir o movimento de body positivity e, quem sabe, criar uma personagem que não precise ficar magra para viver uma grande trama, ter grandes resultados no amor, no trabalho e na vida. A escolha da atriz já aconteceu, já foi divulgada, não sei se existe muito que possamos fazer para mudar isso.

Mas dá para mudar a ideia de que uma mulher não precisa emagrecer pra conquistar algo que já está dentro dela. Ela pode querer perder peso, mas isso será a única consequência do emagrecimento. Emagrecer não resolve a inteligência emocional, não traz o amor em 3 dias, não previne a depressão e tampouco soluciona nossas questões internas. O autoconhecimento e autoestima fazem muito disso pela gente e pra isso… Bom, pra isso só precisamos nos conhecer e desconstruir essas crenças cheias de estereótipos que nos foram – e continuam sendo – ensinadas, seja no filme, na novela ou em casa. 

4 em Autoestima/ Destaque/ Deu o Que Falar no dia 12.02.2018

A discussão sobre os peitos da Bruna Marquezine não poderia ter vindo em uma hora melhor

Estava aqui acompanhando meu Carnaval à distância e resolvi dar uma desabafada de leve aqui com vocês. Na verdade, só queria que alguém me dissesse que discussão que se criou em cima dos peitos da Bruna Marquezine é mentira {nota para quem (felizmente) não acompanhou: segundo a galera que acha que a internet é lugar para falar tudo que ninguém falaria frente a frente à pessoa criticada, eles estão caídos, piores do que de pessoas com 60 anos ou de mães que já amamentaram 6 filhos. Ah sim, e é um absurdo o fato dela ser rica e poder pagar silicone e estar desfilando com esse tipo de peito por aí.}

Os peitos da discórdia são esses, foto vinda diretamente do instagram da atriz @brumarquezine:

bruna-marquezine

O mais engraçado é que ao ver esse top, eu só lembrei das fantasias da Rihanna no Carnaval de Barbados. Caídos? Onde? Jura que teve gente que parou suas festas (ou seu descanso) para reparar nisso??? Mas não é sobre isso que eu queria falar.

Sei lá se esse texto está saindo cuspido desse jeito porque peitos são assuntos sensíveis para mim, provavelmente Bruna Marquezine não está nem aí para a discussão que seus seios desencadearam, mas eu sei o estrago, a frustração e a sensação de inadequação que gera ao ver alguém como ela ser alvo desse tipo de ataque. Não vamos cair nessa.

Eu sei que essa história de padrão é cruel, nós falamos disso e lemos sobre isso quase todos os dias. Só que olhem como a crueldade atinge níveis estratosféricos ao vermos que até mesmo uma mulher jovem, magra, famosa e dentro de todos os padrões possíveis tem partes do seu corpo avaliado, debatido e julgado. Pior ainda, julgado majoritariamente por outras mulheres. É triste em diversas maneiras.

É triste comparar um peito que está sendo chamado de feio com o peito de uma mãe. Vou repetir que o peito da Bruna Marquezine pode ser descrito de diversas maneiras, feio não é uma delas. Só que vou comentar sobre um dos comentários mais repetidos por aí: “nem uma mãe que alimenta X filhos tem um peito assim”. Não me assustaria se um dia saísse uma pesquisa que comprovasse a relação entre a falta de vontade de amamentar com o medo dos seios ficarem flácidos e feios. Nem acho que esse é O motivo, mas que é um dos motivos, tenho certeza.

É triste porque, na defesa dos peitos naturais e caídos, o que eu mais vi foi gente diminuindo as mulheres que optaram por silicone. “Tudo peito falso, siliconado, de plástico, duro”. Pera lá. Lembram do último post sobre não se ver livre de uma prisão e entrar em outra? Isso também tem a ver. As mulheres podem querer ter peitos “”””perfeitos”””” (com muitas aspas porque, apesar de ter silicone, eu não acho que peito de silicone é melhor ou mais perfeito do que um peito natural), mas elas não PRECISAM.

Aliás, falando em silicone, é triste porque tenho certeza que se ela botasse silicone receberia uma enxurrada de críticas, seria taxada de superficial e seu amor próprio seria posto em xeque. Porque nada nunca está suficiente bom, porque o padrão é mutável justamente para que a satisfação nunca chegue e a gente sempre ache que ainda não está perto da perfeição (e que perfeição seria essa, não é mesmo?).

Só que não vou ser pessimista, ainda estamos no meio do Carnaval. Acho engraçado – irônico demais, inclusive – que esse embate virtual esteja acontecendo justamente no Carnaval em que todas as minhas amigas e conhecidas estão todas unidas em um grande bloco de mulheres livres, leves, soltas e com os mais diferentes tipos de corpos, curtindo bloquinhos de maiôs, bodies, biquinis, pastiês e se cobrindo mais com glitter, paetês, maquiagens elaboradas e adornos de cabeça do que de roupa propriamente dita. Desconstruir o padrão de perfeição é fundamental, então, acho que no fim das contas, o timing dessa discussão foi perfeito.

0 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Comportamento/ Destaque/ Deu o Que Falar/ maternidade no dia 05.02.2018

A gravidez de Kylie Jenner e uma lição de maturidade na maternidade

Sabem como eu fiquei sabendo que a Kylie Jenner finalmente apareceu para dar fim ao mistério do seu sumiço de meses e revelar que, de fato, ela estava grávida? Por causa de um comentário que uma leitora fez no meu insta, lembrando de um texto que eu fiz há alguns meses sobre os boatos que estavam surgindo em torno da Kylie.

Eu não vejo o reality das Kardashians, eu não sigo a vida da família, mas claro, as vezes me deparo com alguma matéria que sai sobre o clã e clico, porque não sou imune à elas. Apesar de não ser fã, elas me fascinam pela habilidade de conseguirem transformar a vida de tanta gente (afinal, estamos falando de pelo menos 8 pessoas – e com certeza estou esquecendo alguém e ignorando as crianças) em um espetáculo midiático.

Nesses meses de Kylie desaparecida das redes sociais, eu fiquei curiosa. Não quis acreditar nas teorias da conspiração de que ela poderia ser a barriga de aluguel de Kim e fiquei bem incomodada com todas as suposições que ela deveria estar odiando o corpo, a gravidez, como vocês leram no outro post. Afinal, só por esse motivo ela poderia estar mantendo distância da mídia, não?

kylie-jenner

 

Só vamos lembrar que a mesma mídia que ela preferiu se manter distante foi a responsável pelas capas mais crueis que eu já vi com uma grávida. “Pesadelo das grávidas – Kim engordou 20 quilos (e ainda faltam mais 4 meses para parir”, “Kim ignora hábitos saudáveis e come bolo, sorvete e massa”, “Largada aos 90 quilos – Devastada pelo pé na bunda que levou de Kanye, Kim acha conforto na comida”. E isso porque eu só estou falando das capas de revista e deixando de lado a quantidade blogs de fofocas e comentários recebidos nas redes sociais.

Ou seja, acho que realmente existiam motivos mais graves para ela ter decidido manter distância da mídia do que estar odiando seu corpo ou sua gravidez, não é mesmo?

Quando finalmente vi o vídeo que ela fez, acho que eu fiquei tão feliz quanto as fãs que mais acompanham a vida de Kylie. A maturidade de ter decidido fugir dos holofotes apesar da família que ela faz parte me deixou impressionada, mas a forma delicada que ela anunciou sua filha ao mundo, não deixando espaço para questionamentos sobre ódio a qualquer coisa e focando apenas no amor, me deixou emocionada de verdade.

Provavelmente ter visto a experiência de suas irmãs e o constante julgamento que elas estavam expostas a ajudou a tomar tal decisão, mas nem sempre podemos esperar esse tipo de consciência de alguém, ainda mais de uma mulher que mal saiu da adolescência. Mais difícil ainda esperar isso de uma pessoa que passou a maior parte de sua existência dividindo cada respiro que dava.

Mas maternidade é isso. É deixar as estruturas balançarem e respeitar-se acima de tudo, afinal, mãe feliz é criança feliz também. Pelo jeito Kylie parece ter entendido isso bem mais cedo que muita gente, inclusive eu.