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DQF

5 em Deu o Que Falar no dia 08.09.2016

Somos todas gordas?

Como vocês sabem, a gente deu uma parada no DQF. Primeiro porque eu não estou mais conseguindo me organizar para deixar o post pronto toda segunda feira. Acho que dá para perceber aqui que estou tentando fazer post sempre, mas as vezes dou uma falhada. Normal para quem teve a rotina totalmente modificada, né? :) Segundo porque muitas vezes os assuntos que abordávamos toda segunda feira tinham acontecido há quase uma semana e quando postávamos, já tinham virado notícia velha. Mas ontem surgiu um assunto que me fez morrer de vontade de ressuscitar essa coluna aqui.

Ontem foi divulgada a campanha da C&A promovendo seus jeans querendo passar a ideia de que com eles você pode expressar toda a sua individualidade e identidade. Vendo as outras peças da campanha eu achei a ideia no geral bem interessante e de acordo com aquele papo que vem sendo tão discutido sobre a representação da diversidade. 

O único problema é que uma das peças tem uma modelo plus size com os dizeres: “sou gorda & sou sexy”. Só que a modelo é alta, curvilínea e veste 44/46, ou seja, tá longe de ser gorda e passar pelas dificuldades e preconceitos que uma gorda sofre. Como cereja do bolo muitas consumidoras reclamaram que a C&A também não vende roupas acima de 48, ou seja, gorda mesmo não tem nem como se sentir sexy com as peças da marca porque elas simplesmente não cabem nessas mulheres. Como a Ju Romano bem apontou, faltou inclusão e sobrou reafirmação de que uma gorda aceitável e sensual não é realmente gorda. O tiro no pé maior é que não afetou apenas quem veste 48 para cima.

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Vejam bem, eu visto 42 e não tenho como objetivo de vida fazer loucuras para caber num 38. Sou bem resolvida na hora de pedir G e até mesmo GG nas lojas, quero mais é que a peça fique boa no meu corpo, independente do número da etiqueta. Mas me incomodei porque sei que se um dia eu pular para o 44, eu poderei até me achar acima do peso, mas eu não vou ser gorda. Eu não vou ter dificuldade de passar em certos lugares, as pessoas não vão me olhar torto porque estou comendo, eu não vou ter tanta dificuldade de achar roupas legais em uma ida ao shopping.

Não, gente. O mundo não tá chato, as pessoas não estão vendo pelo em ovo, ninguém está exagerando ao reclamar disso. São mensagens como essa de que uma mulher que veste 44 ou 46 é gorda que precisam ser desconstruídas, caso contrário continuaremos na ditadura da magreza que agora vai continuar tentando nos convencer que quem usa 42 está acima do peso e quem veste 48 virou obesa mórbida. Como se a gente já não estivesse cansada de ouvir que você só é magra mesmo quando usar uma calça 36, no máximo 38. Ou seja, essa imagem nada mais é que o velho discurso com uma roupagem supostamente inclusiva. Somos todas gordas? Não, somos todas lindas, independente do número do nosso manequim.

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7 em Comportamento/ Deu o Que Falar no dia 24.08.2016

O dia que o padrão de beleza eclipsou as Paralímpiadas

Recentemente escrevi aqui para o blog sobre o julgamento instantâneo que todos nós fazemos a respeito das pessoas apenas pela sua aparência. E agora, estarrecida e sem saber o que pensar da campanha de extremo mau gosto da Revista Vogue para apoiar os atletas paralímpicos, me veio esse insight.

Foto postada primeiramente no instagram da revista Vogue com a legenda: #SomosTodosParalímpicos: para atrair visibilidade aos Jogos Paralímpicos e ressaltar a relevância dos paratletas brasileiros no panorama do esporte nacional, @cleopires_oficial e Paulo Vilhena (@vilhenap) aceitaram o convite para serem embaixadores do Comitê Paralímpico Brasileiro e estrelam a campanha Somos Todos Paralímpicos.

Foto postada primeiramente no instagram da revista Vogue com a legenda: #SomosTodosParalímpicos: para atrair visibilidade aos Jogos Paralímpicos e ressaltar a relevância dos paratletas brasileiros no panorama do esporte nacional, @cleopires_oficial e Paulo Vilhena (@vilhenap) aceitaram o convite para serem embaixadores do Comitê Paralímpico Brasileiro e estrelam a campanha Somos Todos Paralímpicos.

Vou reforçar o coro do ÓBVIO, isso é, que os atletas paralímpicos deveriam ter sido as verdadeiras estrelas da campanha e não pessoas famosas sem nenhum tipo de deficiência.

Mas esse é mais um caso que preferem vender a imagem de alguém e não aquilo que a pessoa conquistou. Por que colocar a Cleo Pires e o Paulo Vilhena? Sim, eles são embaixadores das Paralimpíadas, o Comitê Olímpico apoiou a escolha dos dois atores para dar visibilidade aos jogos Paralímpicos e ambos estão ali para darem destaque à causa. Mas as fotos divulgadas são de pessoas famosas conhecidas que servem como modelo a inúmeras campanhas publicitárias que nos convencem de que temos que ser parecidos com eles – o básico padrão de beleza dos tempos atuais, não importa se o Photoshop tirou um braço ou colocou uma prótese. 

A outra imagem, em que Cleo Pires está em cima do atleta Renato Leite, é até mais bem resolvida, mas mais uma vez vemos o padrão de beleza sendo o mote quando não deveria. Cleo, linda e uma verdadeira sex symbol, achou que uma boa forma de chamar atenção para as Paralimpíadas era aparecer toda sexy em cima do atleta com a justificativa de que “quando você sensualiza uma história você também a empodera” e também porque “superação é sexy”. Será que não dava para fazer um ensaio fashion com paratletas sem precisar usar o artifício da famosa sensual?

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Atleta não é pra ser bonito e ter um corpo perfeito (apesar de sabermos que o físico adquirido nada mais é do que uma consequência dos seus treinos e da sua rotina), ele é um profissional que ama seu esporte e dá seu sangue e suor por anos a fio em busca do seu reconhecimento máximo, que é a medalha. Uma pessoa que quer ser reconhecida por suas conquistas, prêmios, tempos atingidos nas provas, títulos. No caso das Paralimpíadas, além de tudo isso, ainda temos as incríveis histórias de superação dessas pessoas.

Por que será que os dois foram escolhidos para serem os rostos dessa campanha? Simplesmente por serem os embaixadores? Por serem famosos? Ou foi o padrão de beleza imposto que definiu que eles são mais comerciais, por mais que não representem a história dos atletas? Vale pensar.

Chega de valorização de imagem, chega de Photoshop (que além de emagrecer ou embranquecer pessoas, agora também tira membros para tentar ilustrar um discurso mal pensado) e vamos prestigiar e nos emocionar com essas pessoas? Esses atletas passam por dificuldades não só em questões de acessibilidade mas também em relação a patrocínios, representatividade e agora, até mesmo visibilidade justamente por quem deveria estar botando-os como protagonistas.

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1 em Deu o Que Falar/ Reflexões no dia 08.08.2016

DQF: Parece que o jogo virou, não é mesmo?

Acompanhar as Olimpíadas, justamente a que está acontecendo no seu país, à distância não é das melhores experiências, preciso admitir. Não estou conseguindo acompanhar todos os jogos que o Brasil está competindo porque, obviamente, a NBC está priorizando os jogos e as notícias dos Estados Unidos e ter que assistir as partidas sendo narradas em inglês (nunca pensei que fosse dizer isso, mas saudades, Galvão) é triste.

Por outro lado, está sendo lindo acompanhar as Olimpíadas pela internet! Minhas timelines do Facebook, do Twitter e até mesmo do Instagram estão lotadas de vídeos, textões, impressões e alegria, uma coisa maravilhosa de se ver. E pelo o que eu estou acompanhando, as mulheres estão DO-MI-NAN-DO.

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Feministas compartilham, mulheres que preferem dizer que não são feministas (conheço várias, viu) compartilham, homens compartilham. Pessoas que eu nem imaginava que curtiam esportes estão compartilhando. As nossas atletas estão sendo motivo de orgulho coletivo e com razão. O pouco que eu pude ver me mostrou meninas e times com muita garra, muita determinação, muita paixão pelo esporte e espírito de equipe tão nítido que dá para sentir através da tela da TV.

A seleção feminina de futebol é o maior exemplo disso, tanto que está sendo tão comentada e elogiada. Se ganharem ou perderem, se levarem alguma medalha ou sairem de mãos abanando, não importa mais porque elas cativaram todo mundo!  No último jogo, Marta, a camisa 10 do time feminino, foi ovacionada pelos torcedores com um grito de guerra que dizia que ela era melhor que Neymar.

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Eu odeio comparações e não curto muito a ideia de que a seleção feminina provavelmente só está recebendo toda essa atenção porque a seleção masculina não nos dá nada além de desgosto desde o fatídico 7 a 1, mas fazer o quê? Fazer o quê se os homens não parecem ser um time? Fazer o quê se eles não passam a sensação de jogar com amor à camisa? Fazer o quê se eles parecem preferir se resguardar para seus times gringos que lhes pagam milhões? Fazer o quê se nessas Olimpíadas eles estão jogando contra times como Iraque e Africa do Sul e ainda não conseguiram fazer um gol? A oportunidade surgiu, elas têm mais é que aproveitar toda essa visibilidade mesmo e já que a comparação entre os dois camisas 10 começou, vamos comparar de verdade?

Porque se formos comparar Marta e Neymar, é chocante perceber a discrepância entre homens e mulheres nos esportes. É indecente até. Alguns exemplos de comparações em números? Vamos lá, pelo o que eu pesquisei para fazer esse post, fiquei sabendo que enquanto Marta estava jogando no Santos, o salário de Neymar era de R$1 milhão quando o orçamento do time feminino todo era de R$1,5 milhão. Marta é a atleta mais bem paga entre as atletas e consegue ganhar o equivalente a R$1,2 milhão por ano entre patrocínio, publicidade e salário. Enquanto isso, Neymar é o 21o. atleta mais bem pago no mundo e ganha mais ou menos 119 milhões de reais por ano. Isso porque Marta tem 5 bolas de ouro e Neymar nenhuma.

Todas as imagens são da página Empedre Duas Mulheres

Todas as imagens são da página Empodere Duas Mulheres

 

Sinceramente, com os sem comparações, eu quero é mais ver as mulheres arrasando nas Olimpíadas! Quero mais é que a seleção feminina de futebol continue honrando a fama do Brasil como país do futebol. Quero mais é que elas chamem muita atenção para que marcas entendam que vale a pena patrocinar times femininos (aliás, adoraria que, tirando futebol masculino, todos os nossos outros atletas chamassem atenção para os patrocínios, já que é praticamente a única forma deles conseguirem manter sua rotina de treinos, mas isso é outro assunto). Quero mais é que levantem mesmo a questão de diferença salarial.

E, se não for pedir muito, também seria ótimo se a partir dessas Olimpíadas, a gente entendesse de uma vez por todas que jogar/fazer/dirigir/agir/qualquer outro verbo como mulher é um baita de um elogio. Não é tanto, mas já é um ótimo começo. :)

Beijos

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