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6 em Autoestima/ Destaque/ Deu o Que Falar no dia 28.07.2017

A Rihanna engordou. E a gente com isso?

Essa semana só se falou em uma coisa: o peso da Rihanna. Por causa das pre estreias de Valerian, filme que ela está participando, a cantora apareceu em alguns tapetes vermelhos pela Europa, e qual não foi a minha surpresa ao me deparar com milhões de comentários ofensivos sobre ela estar gorda.

E se você imagina que estou falando de revistas e portais de notícia, é aí que a surpresa fica maior ainda. Quase não cruzei com aquelas famosas matérias que deveriam noticiar um acontecimento mas metem o corpo das celebridades (mulheres apenas, claro) no meio da notícia. Claro que vocês sabem do que eu estou falando, afinal quem nunca cruzou com um link cujo título parecia com esse?

Pois é, dessa vez eu mal vi isso. Nos perfis do Instagram de várias revistas e perfis de fofoca vi posts noticiando apenas que ela vestia estilista X e estava ali para a pré estreia de seu filme e ponto final. E tudo estaria lindo se não fossem os comentários. Me desiludi muito e por um momento até entendi porque tanto veículos se mostram resistentes a incluírem mulheres de todos os tipos físicos em suas publicações. Afinal, como se encorajar quando aparece esse tipo de comentário em uma publicação?

99% dos comentários que eu li nesse naipe foram de…MULHERES. E aí vocês me respondam: como uma revista consegue quebrar o padrão se teoricamente seus seguidores – e supostos consumidores – fazem comentários como esses?

Se formos ver os comentários nas fotos que a cantora postou, que supostamente deveriam ser de fãs dela ou admiradores de seu trabalho, mais um choque. A premiere que ela estava divulgando? Ninguém estava nem aí. Até quem deveria estar elogiando, estava chamando-a de “gorda mas continua rainha” ou então “parabéns, hot mama, com esses peitos e essa cara redonda, certeza que está grávida!”.

Nessas horas eu me desanimo e penso como parece que nós, com nosso #paposobreautoestima e continuamente falando sobre a aceitação e a celebração de todos os corpos, perdendo nossos medos de postarmos fotos de biquini ou com gordurinhas aparecendo e recebendo tanto feedback positivo e encorajador de volta, estamos vivendo numa bolha.

É triste ver que a gente luta tanto para um padrão ser quebrado, mas a ditadura da magreza ainda está tão enraizada que é só uma celebridade conhecida por ter um corpo magro sair um pouquinho desse padrão (e um pouquinho mesmo, porque pra mim Rihanna continua sendo magra), que é recebida com comentários como esses que eu postei acima e tem seu trabalho eclipsado pelo número – que ninguém sabe qual é, acho válido lembrar – na balança.

Rihanna vai continuar sendo uma ótima cantora e um verdadeiro mulherão da porra independente do seu peso, então por quê dar tanto valor à isso? Enquanto isso continuar gerando polêmica ou pauta, enquanto comentários como esses que eu botei aqui continuarem acontecendo, ainda veremos mulheres com todos os tipos de corpos se achando inadequadas. E onde isso tudo vai nos levar? À eterna insatisfação.

E eu termino esse texto com a conclusão mais direta e bem colocada que eu li sobre o assunto até agora, feita pela Miriam Bottan (quem não segue, comece agora, @mbottan).

7 em Autoestima/ Comportamento/ Deu o Que Falar no dia 22.06.2017

Legítimo ou oportunista, o movimento que a Anitta tem feito pode ser revolucionário

De semana passada para cá, uma notícia vem sendo muito compartilhada e comentada: as bailarinas da Anitta. Mais especificamente, as bailarinas gordas da Anitta. Não lembro de ter dado tanta polêmica no ano passado, quando ela se apresentou com 10 dançarinas plus size no palco do Criança Esperança, mas agora deu e eu resolvi falar um pouquinho sobre isso, relembrando os momentos do meu saudoso DQF.

Porque parte da polêmica é baseada em um argumento: “isso é oportunismo puro porque a Anitta mesmo tem pavor de engordar, vive fazendo plásticas, dietas malucas, ela quer pregar a autoestima e autoaceitação mas ela mesmo não tem nenhuma”. E esse tipo de argumento me revolta tanto, mas tanto, que resolvi aproveitar esse espaço para fazer textão.

De fato, quem acompanha a artista em suas redes sociais consegue perceber em poucos stories como ela se justifica pelo que come, pelo peso, pela academia, pela roupa marcando, pela dieta, pela coach que ela arrumou para definir seu corpo. Acho que a única coisa que eu diria que aparenta ser bem resolvida nela é sua relação com as plásticas, ela assume que gosta dos resultados, que se prefere com a boca maior, com o nariz mais afinado – e quem somos nós para dizer o que uma pessoa pode ou não gostar em si mesma, né?

Só que, ao contrário de quem está criticando, eu não consigo bater o martelo e afirmar que essa relação que ela aparenta ter com o próprio corpo é sinal de que ela não tem amor próprio. Aliás, pelo o que eu vejo, diria que ela nada mais é que uma grande vítima do padrão, que pega especialmente pesado com ela.

Imaginem só os feitos da Anitta, que saiu de uma comunidade carioca e com 24 anos administra sua própria carreira, é um sucesso nacional que arrasta multidões por onde passa e está trilhando uma carreira internacional que tem tudo para dar certo. Não tem um ano que ela lançou sua primeira música voltada para esse mercado e desde então lançou singles com Iggy Azalea, Maluma, Major Lazer, foi a única brasileira a se apresentar no Jimmy Fallon e já está em 15o. lugar na lista dos artistas mais populares do mundo pela Billboard. O impossível não parece tão impossível assim para ela, não é mesmo?

Porém, é só entrar em qualquer portal de fofoca que a maior parte das notícias relacionadas à cantora têm a ver com seu corpo e até mesmo quando a matéria não é sobre ele, algumas linhas são dedicadas para dizer se ela está magra, com quilinhos a mais, celulites ou com a boca mais preenchida. “…e a cantora usou um look que valorizou sua ótima forma física” aparece quase junto de “Anitta usou roupa no show que fez pular gordurinhas e mostrou celulite”, isso quando não nos deparamos com manchetes caça cliques como “veja aqui as mudanças que Anitta fez no seu rosto”.

Se para nós, meras mortais, que não somos tão cobradas assim já é difícil não se deixar seduzir pelo padrão, imaginem então uma pessoa que está dentro de uma indústria que mesmo com feitos impressionantes, prefere sempre fiscalizar seu corpo, na sua aparência e nas suas mudanças físicas? É avassalador.

Não sei vocês, mas eu só consigo ver benefícios na inclusão de dançarinas com todos os tipos físicos. Não importa se ela está abraçando a causa apenas para virar notícia, o importante é que está virando notícia. Vou além, acho super importante que ela queira quebrar esse padrão que é tão cruel com ela, ajudando o mercado e a outras mulheres.

Tudo bem que ainda tem muita estrada pela frente, mas olhem esses comentários que são facílimos de achar em qualquer post compartilhado sobre o assunto e me contem se a legitimidade desse ato realmente importa no fim das contas:

Por anos a gordofobia apareceu disfarçada de preocupação pela saúde alheia e o estereótipo da pessoa gorda e preguiçosa que não gosta de se exercitar sempre foi socialmente aceito. Quer maneira melhor de quebrar esses paradigmas do que jogar os holofotes para essas dançarinas? Ao meu ver, a discussão sobre ser oportunismo ou não é irrelevante quando está envolvendo tantos conceitos importantes como representatividade e inclusão.

E eu espero de verdade que esse movimento influencie em algum momento a própria Anitta, para que um dia ela consiga sentir a liberdade de não ter que ceder às pressões e expectativas que a mídia e as pessoas esperam dela, para que ela jamais tenha que se justificar de novo por ser a mulher incrível que ela é.

O que vocês acham sobre esse assunto?

5 em Comportamento/ Destaque/ feminismo/ Juliana Ali no dia 10.04.2017

José Mayer, o BBB e nós vamos em frente

José Mayer. Galã. Ator famoso. Bonito – sim, até hoje, cheio de charme. Um dos grandes tesouros das novelas da Globo. Sempre gostei do Zé Mayer. Assisto as novelas dele desde criancinha, que carisma, que graça, que simpatia, que delicinha. Descobre-se que assediou sistematicamente uma figurinista da emissora, com toda a cara de pau e falta de cuidado de quem entende que isso não tem nada demais, nem traz nenhuma consequência negativa.

Marcos. Galã. Médico. Bonito, jovem, todo mundo achava que ia ganhar o BBB 17. Eu achava. Gostei dele de cara. Primeira semana eu já tava: Ai que doutor mais fofo, ganha o BBB. Adoro BBB, vejo todos. Essa semana puxou o cabelo da menina. Agarrou o braço da menina. Gritou na cara da menina com o rosto grudado, dedo na cara, várias vezes. Deitou em cima dela, para a menina não conseguir escapar da “conversa”. O que mais faz, com qualquer mulher que se aproxima, é lançar os famosos mansplaining* e gaslighting**. Marcos, com a mesma cara de pau e falta de cuidado do José Mayer, já que está o tempo todo ciente de que milhões de pessoas estão vendo o que faz.

Coincidentemente, essas duas histórias foram se desenhando ao mesmo tempo. Interessante cada desfecho. E dizem muito sobre o que está acontecendo no mundo de hoje, na atualidade, em relação às mulheres, em relação à sociedade e em relação aos próprios homens.

Veja que temos aqui um homem de uma geração que certamente foi criada com valores extremamente machistas, e outro que deveria fazer parte de uma geração mais esclarecida, mais desconstruída. Será mesmo? Ambos entendem como tão natural o assédio e a violência, que nem se importam de escondê-los. Não se importam de serem vistos. Não sentiram medo ao tomarem essas atitudes. Medo de que? Tantas vezes esse comportamento foi visto por eles, por todo mundo, e daí? O que aconteceu? Pois é.

Só que no fim das contas, José Mayer se viu obrigado a escrever uma carta de desculpas, para tentar dar uma consertada no seu filme queimado (sem trocadilho). O barulho foi um pouco grande demais pra ele ter se saído com uma simples piadinha idiota, como tentou fazer no começo.

Há pouquíssimos anos, isso jamais teria acontecido. Prova disso é o caso Luana Piovani/Dado Dolabella. O boy bateu na CARA dela, imobilizou o braço da camareira que tentou intervir e menos de um ano depois estava milionário por ter ganhado o reality A Fazenda. E nem escreveu carta nem nada. Pelo contrário, na época se defendeu das maneiras mais sem sentido. Isso foi em 2008.

Avance nove anos e o Zé Mayer não vai perder o emprego, não vai perder a carreira – ainda não chegamos a esse ponto de maravilhosidade – mas ele não ganha A Fazenda esse ano, te garanto. E foi cortado da novela. Andamos um pouquinho.

Já Dr. (Hyde) Marcos, agressor de mulher, muito provavelmente vai para a final do Big Brother. Como eu disse, avançamos, mas nem tanto. Geral achou “deboas” ele amassar a Emilly toda. Nada. Demais. Mas não é bem assim.

O moço vai sair da casa e a coisa não vai ser fácil para ele não, e você sabe disso. Viva a Internet! As redes sociais são sim, uma revolução. Elas obrigaram José Mayer a escrever carta, obrigaram a Globo (que tava doida pra fechar essa caixa de Pandora) a se posicionar em favor da figurinista, e agora vão obrigar Dr. Marcos a repensar o que aprontou lá dentro da casa. É pouco, mas é mais do que conseguiu a pobre Luana Piovani.

E tem mais: noto que todo esse barulho mexe com os homens. Notei isso nos homens da minha vida. Enquanto os mais ignorantes ficam naquele eterno papo de “mimimi” e “feminista odeia homem”, alguns param para pensar. Alguns se analisam, e outros, pelo menos, calam a boca por pura vergonha, mesmo que por dentro continuem os mesmos. E isso, também, é um movimento positivo, ainda que pequeno. É um começo.

Por isso, sigo aqui. Insisto. Falo mesmo. Escrevo. Explico. Pra quem quiser ler/ouvir. Temos um longo caminho, mas vamos nele. Não é fácil, e é lento. Mas é como diz sempre minha mãe, de 73 anos: “Ah, filha, se você visse como era horrível no meu tempo. Você tem sorte.”

Quero, um dia, dizer isso para a minha filha também. E quero ter sido responsável pela mudança que virá para a geração dela, de alguma maneira.

E você?

Com amor, Ju.

*mansplaining: quando um homem fica todo o tempo interrompendo uma mulher e tentando explicar/ensinar algo a ela de uma maneira infantilizadora, como se ela não entendesse ou fosse burra.

**gaslighting: abuso psicológico onde o homem bombardeia a mulher com um eterno discurso, distorce os fatos a seu favor a tal ponto que a mulher se confunde, e no final tem a impressão que a culpa é sempre dela. Aquele cara que sempre chama as mulheres de “loucas”.