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paternidade

0 em Autoestima/ Comportamento/ Destaque no dia 10.08.2018

Não seja pai de redes sociais

Esse fim de semana Dia dos Pais e eu fiquei na dúvida se fazia um post sobre isso. Cerca de 96% do nosso público aqui no blog é feminino, então minha primeira ideia foi fazer um post de maternidade. Mas aí parei para pensar e achei que nesse dia eu poderia mudar de estratégia, falar um pouquinho com os maridos, namorados ou ex de tantas mulheres que leem o que escrevemos. Então pensei no fenômeno dos pais de redes sociais.

Sei que o sentido desse apelido é bem pejorativo – geralmente pai de instagram ou pai de Facebook é o nome dado para aqueles pais que fazem o mínimo da obrigação deles na vida real, mas nas redes sociais eles parecem o maior exemplo de paternidade da face da Terra. Mas não fiquem chateados ou ofendidos, por favor. Aliás, acredito que se você leu até aqui e está pensando em continuar a ler, com certeza você está mais para um genuíno paizão do que um pai de rede social. O intuito desse post não é cagar regra (longe disso!), é apenas conversar alguns dos assuntos sobre estrutura familiar que estão sendo debatidos há tempos e que muitas vezes os pais não querem saber.

Não acho que é só por falta de vontade, sabe? Acho perfeitamente compreensível que homens se interessem menos pelo assunto paternidade do que mulheres sobre maternidade, por exemplo. Nossa geração ainda sofre com resquícios da imagem do homem provedor e chefe da família, que não tem grandes papéis na educação dos filhos. E esse é um lugar tão confortável de se estar que, muitas vezes, vemos homens super bacanas se acomodarem nele.

Mas acho que está mais do que na hora de nós, mulheres e homens, conversarmos sobre esse assunto e dar um jeito de rever o papel do pai na família, não acham? Por isso, reuni algumas opiniões que venho colecionando em conversas com amigas e mães por aí, para a gente iniciar esse papo.

1 – Participe ativamente ainda na gravidez

Uma das coisas que eu mais ouço por aí é que a mãe se percebe mãe ainda na gravidez, enquanto o pai só percebe que realmente virou pai quando a criança nasce. É normal que a conexão aconteça mais rápido entre as mães, afinal, o motivo é fisiológico. É a mãe que muda seu estilo de vida, seu corpo, seu guarda roupas. É a mãe que sente os movimentos e os chutes. É a mãe que sente os desconfortos e as dores. Durante 9 meses a mãe é lembrada constantemente de que tudo está mudando, enquanto o pai só recebe os parabéns. Mas isso não quer dizer que o pai não possa participar ativamente dessa fase.

Compareça às consultas, interaja com a barriga, leia sobre o assunto, participe no enxoval e na decoração, converse com outros pais sobre paternidade, se interesse em conversar com sua mulher, ouça suas ideias sobre parto, amamentação e outros processos em que o pai não é obrigatoriamente necessário, mas que poderia ser muito útil. Fazer-se presente para a mãe na gravidez é uma ótima forma de entrar no mundo da paternidade. 

2 – Ajudar não é suficiente, faça parte dos processos

“Caramba, hein, que sorte a sua! Ele é um paizão, olha só, trocando fralda!”. Acho que toda mãe já ouviu essa frase – e morreu de raiva porque naquele mesmo dia já trocou 1 milhão de fraldas e não recebeu um mísero elogio por causa disso. O pior? Geralmente essa frase vem de outras mulheres! A ideia de que a responsabilidade dos cuidados é mais da mãe do que do pai, além de machista (sim, mulher também pode reproduzir discurso machista), deixa o pai completamente de escanteio, atuando ali como um mero coadjuvante na estrutura familiar, que só aparece quando é solicitado.

Vamos parar de perpetuar essa ideia, né? Da próxima vez que receber um elogio desses, seja o primeiro a apontar que não fez mais do que a sua obrigação. Eu hein, o pai que não sabe se virar no mínimo com a própria cria que deveria ser motivo de surpresa!

3 – Aliás, faça parte dos processos, sem que ninguém precise pedir

Acho que uma das maiores reclamações que eu vejo por aí é justamente do tamanho da carga mental que mulheres carregam quando percebem que além do serviço doméstico, elas precisam delegar aos maridos as tarefas que precisam ser feitas para o bom andamento da casa e cuidados com os filhos. A hashtag #porramaridos e a famosa tirinha do “Era Só Pedir” exemplificam muito bem isso.

Essa reclamação começa quando o casal passa a morar junto mas se intensifica quando os filhos chegam, justamente porque o número de coisas a fazer aumenta exponencialmente. 

Poderia dar essa dica em algum post sobre relacionamentos, afinal, se tem algo que desgasta uma relação é essa rotina, mas a verdade é que ela também funciona para quem quer ser um bom pai publicamente ou da porta pra dentro. Estamos carecas de saber que filhos aprendem muito mais pelo exemplo do que pela conversa (ou pela bronca). E viver em uma estrutura familiar onde cada um sabe suas responsabilidades para o bom andamento da casa, sem que um lado fique sobrecarregado, é um dos melhores aprendizados que você pode passar.

ilustra: Snezhana Soosh

ilustra: Snezhana Soosh

4 – Seja a pessoa que você quer que seus filhos se tornem

Ainda falando sobre educar pelo exemplo, esse é um ponto que eu vejo muitas mulheres se preocupando sozinhas. A verdade é que a medida que nossos filhos vão crescendo, a gente vai se dando conta de comportamentos muitos errados que fazemos. Criança não tem filtro, e são muito espertas, de modo que elas entendem muitos atos que fazemos crente que elas não estão se dando conta.

Como falar que mentir é errado se ela vê você contando uma mentirinha para outra pessoa? Como dizer que falar palavrão é feio se da sua boca saem 312892010 palavras de baixo calão por minuto? Como brigar quando a criança joga algo no chão se no minuto seguinte você está jogando o controle da televisão em qualquer lugar do sofá? E quando você vê, percebe que são pequenos hábitos tão automáticos do nosso dia a dia, que temos que ficar sempre alertas para não sermos o mau exemplo. 

E mais uma vez, vejo muito mais mães preocupadas em mudar seu comportamento para servir de exemplo aos seus filhos do que pais. Ficar sempre alerta é muito cansativo, é praticamente uma tarefa extra no rol de milhões de coisas a se fazer que já temos no dia a dia. Homens preferem brigar ou ignorar esse contexto, mantendo uma incoerência na cabeça da criança e, de quebra, dando mais trabalho para a mãe, que vai ter que ficar explicando por quê o pai faz X e ela não pode fazer o mesmo. Mudar é difícil, eu sei, mas o papel do pai também deveria ser questionar seu próprio comportamento. 

5 – Seus filhos não são você

Essa frase pode parecer óbvia, mas não é. O que mais vemos por aí são pessoas pressionadas e infelizes por atenderem demandas de pais que não conseguem entender que botaram indivíduos com personalidade e vontade próprias no mundo. Filhos não são nossa extensão, e é cruel demais a gente depositar neles expectativas e desejos que são exclusivamente nossos.

E sei que em muitos momentos pais ficam tristes pelas decisões que seus filhos tomam porque sabem que aquele caminho é muito mais difícil e tortuoso de seguir. Ou porque não foi o que planejaram para o futuro deles. Mais uma vez, essa é uma opção única e exclusivamente dos filhos, e cabe aos pais serem o porto seguro quando tudo ficar complicado demais. 

E sim, eu sei que essa é uma questão que também acontece com as mães (principalmente quando se tem uma filha), a diferença é que hoje eu vejo muitas mulheres se interessando em saber como contornar essa situação do que homens.

ilustra: Snezhana Soosh

ilustra: Snezhana Soosh

6 – Dedique-se verdadeiramente aos seus filhos

Eu sei que a vida anda corrida, estressada, e que o sonho é dormir até tarde o fim de semana inteira ou passar o dia vendo Netflix. Sei que a tentação de dar o Ipad/celular ou deixar as crianças grudadas o dia todo na televisão enquanto você só está ali, sendo um corpo presente, é enorme – e não se enganem, já fiz isso algumas vezes. Só que nada substitui a presença física e genuína, a conversa olhando no olho, demonstrando interesse e dedicação plena.

Acho que o melhor presente que pais (e mães, mas hoje não to falando com elas) podem dar a seus filhos é o seu tempo. Não tem nada que edifique mais a relação pai-filho do que um tempo a sós, sem a presença do resto da família. Você pode se surpreender com essas horinhas.

Como eu disse, a última coisa que eu quero aqui é cagar regra. Quero mais é que todo mundo pense no que pode fazer para ser ainda melhor, porque é isso que vai fazer com que a gente crie indivíduos cada vez mais bem resolvidos e seguros de si. Feliz Dia dos Pais. <3