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papo sobre autoestima

1 em Camilla Estima/ Destaque/ Saúde no dia 11.06.2018

Anorexia nervosa e o risco de normalizarmos a magreza exagerada

Era uma vez uma menina que cresceu ouvindo comentários sobre o seu corpo. Comentários que a faziam se sentir inadequada, não pertencente àquele meio social, e isso começou a lhe incomodar. Esse incômodo se transformou em palavras duras consigo mesma. E o que ela sentia? Tristeza, frustração, raiva e assim ficou o sentimento por esse corpo. E o que ela começou a fazer? Mudá-lo, a qualquer custo. Começou então a primeira dieta, que pareceu ser fácil na medida do possível, obtendo resultados rápidos. “Que ótimo”, ela pensou, “isso funciona”. Ninguém a questionou, visto que dieta é uma coisa normal a se fazer. Todo mundo faz, não é mesmo? Mas ela era magra. “E daí? Deu uma engordadinha, tem que emagrecer” pois afinal magras também fazem dieta. Junto com a dieta ela começou a conhecer mais os alimentos, suas propriedades e em especial uma delas: a quantidade de calorias. Já que ela começou a dominar esse assunto, contar calorias virou uma coisa do seu dia a dia. E também a retirar alimentos que as pessoas comiam normalmente, pois as calorias a incomodavam.

Passado um tempo – e a dieta não funcionava mais como antes – isso começou a incomodar. “Já sei, vou malhar”, pensou ela. Começou a fazer uma, duas, três aulas seguidas na academia, voltou a emagrecer novamente e os elogios a respeito da sua perda de peso começaram a aparecer. E ai ela se engajou mais e mais na dieta e nos treinos. Começou a se recusar a comer alguns alimentos, tanto em casa quanto em algumas situações sociais, mas isso nunca era feito muito abertamente. Com o aumento da perda de peso, comentários como “Nossa, como ela é dedicada”, “Viu, tendo força de vontade a gente sempre consegue” eram frequentes e a estimulavam ainda mais. Acontece que aquilo não estava sendo suficiente, pois sempre que se via no espelho ela continuava odiando a imagem refletida.

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Não conseguia ver e muito menos sentir a perda de peso que tanto a elogiavam, então resolveu pegar mais firme na dieta e ir mais de uma vez por dia na academia. As pessoas começaram a reparar de diferentes formas: “você agora está magra demais” (e não achava que era uma crítica, apesar de se olhar no espelho e continuar insatisfeita), “está com cara de doente” (como doente se ela estava começando a chegar aonde queria?), “o que você fez para emagrecer?” (isso a estimulava ainda mais a continuar). Eis que um dia ela cai na academia, fraca e sem energia. Levou um susto mas não contou pra ninguém da família. “Foi uma queda de pressão”, imaginou. Só que outro dia desmaiou em casa e a família começou a se preocupar. Quanto mais diziam que ela tinha que parar de emagrecer, que estava magra demais ou que estava ficando doente, menos isso importava para ela. Desde que ela se sentisse magra – o que não era o que ela sentia ao se olhar no espelho. E assim ela ficou doente. Em um processo silencioso e solitário mas aos olhos do mundo ela era bem sucedida pois era magra e ainda estava conseguindo emagrecer mais.

Essa história é uma ficção. Essa menina não existe, mas tudo que eu contei é verdadeiro, pois juntei fatos que ouvimos diariamente em relatos de pessoas que nos mostram como transtornos alimentares se iniciam. E eles se iniciam de uma forma abrupta? Muitas das vezes não, como relatei acima. Pode ser a história que você viu começar em alguém? Sim, pode. E as coisas que falam para ela, são absurdas? Não, não são, principalmente dentro do contexto desse mundo maluco que vivemos onde uma menina magra estar de dieta super restritiva ou malhando loucamente é considerado normal. Além do mais, mostra que muitas vezes os transtornos alimentares são doenças silenciosas ao olhar do outro, ou seja, você pode estar convivendo com alguém que tem e você nem sabe, e pior, ainda a está estimulando a ficar mais doente. Por isso sempre falamos para não comentar sobre o corpo ou o peso dos outros pois você não sabe quem está ouvindo aquela informação.

No caso da anorexia nervosa ela começa a ficar aparente aos olhares das pessoas por causa da magreza evidente, mas mesmo assim nem sempre as pessoas se assustam com isso pois exatamente essa magreza é cultuada hoje em dia e dificilmente questionada.

“Ah, mas deixa ela ser magra”, comentam. Será? Será que isso já não é um alerta pra nos darmos conta? Não estou dizendo que todo mundo é anoréxico ou que toda mulher magra que está de dieta tem transtornos alimentares,  mas um olhar mais atento e de empatia com essas pessoas nós temos que ter.

Sabe por que pessoas magras que possam estar doentes não são questionadas pela sua magreza? Por que elas se encaixam em um padrão e por isso não precisam dar satisfação do seu corpo a ninguém, pois ela não incomoda.

Agora que a historinha já foi contada, vamos falar sobre o quadro de Anorexia Nervosa. Ela é um transtorno psiquiátrico que afeta o comportamento alimentar das pessoas e ele é diagnosticado por um psiquiatra. Profissionais de nutrição, psicologia e outras especialidades de saúde entram na equipe de tratamento parar auxiliar. O diagnóstico é feito com base em critérios, como o da Associação Americana de Psiquiatria (DSM V, 2013) que estão listados abaixo. Os comentários entre parênteses e em maiúsculo são explicações minhas para ficar menos técnico:

  1. Restrição à ingestão energética em comparação às recomendações (OU SEJA, A PESSOA COME MENOS ENERGIA DO QUE LHE É RECOMENDADO), levando a um peso corporal baixo em relação à idade, sexo, trajetória de desenvolvimento e saúde física (UM PESO ABAIXO DO QUE É ADEQUADO PARA ELA). Peso significativamente baixo é definido por peso mais baixo do que o minimamente normal e, para crianças e adolescentes, menos do que o mínimo esperado (NUMA CLASSIFICAÇÃO COMO O ÍNDICE DE MASSA CORPORAL, POR EXEMPLO, A PESSOA ESTÁ ABAIXO DO VALOR MÍNIMO ACEITÁVEL).
  1. Medo intenso de ganhar peso ou de se tornar gordo (MEDO INTENSO NÃO É UMA PREOCUPAÇÃO QUALQUER COM O PESO) ou comportamento persistente que vá interferir no ganho de peso (CONTINUA COM PRÁTICAS PARA PERDA DE PESO OU EVITAR GANHÁ-LO), mesmo que tenha um peso significativamente baixo (MESMO QUE O PESO JÁ ESTEJA BAIXO A PESSOA CONTINUA COM MEDO DE GANHAR PESO E PROSSEGUE COM ESSES COMPORTAMENTOS PARA PERDE-LO OU EVITAR GANHA-LO)
  1. Perturbação na forma como vivencia o peso e forma corporal (PERTURBAÇÃO SOBRE A FORMA COMO SE VÊ, OU SEJA, PERTURBAÇÃO NÃO É UM INCÔMODO QUALQUER), com influência indevida na auto-avaliação do peso e forma corporal (OU SEJA, UMA AUTOAVALIAÇÃO INDEVIDA DO CORPO QUE TEM/ESTÁ NO MOMENTO), ou falha no reconhecimento da seriedade de seu peso atual (NÃO RECONHECE QUE PODE ESTAR PASSANDO POR ALGO GRAVE E MUITO SÉRIO)

O DSM V ainda classifica a Anorexia Nervosa de duas formas:

Tipo Restritivo: Durante 3 meses o indivíduo não realiza episódios de compulsão alimentar ou comportamentos compensatórios. Esse subtipo descreve a forma onde a perda de peso é resultado de dieta, jejuns e/ou exercícios físicos intensos.

Tipo purgativo/compulsão alimentar: Durante 3 meses, o indíviduo realiza episódios recorrentes de episódios de compulsão alimentar ou comportamentos compensatórios. (OU SEJA, ANORÉXICA TAMBÉM PODE INDUZIR VÔMITOS, USAR LAXANTES OU DIURÉTICOS!!! ISSO NÃO É COMPORTAMENTO EXCLUSIVO DE BULÍMICA)

A pessoa deve preencher todas essas categorias para ter o diagnóstico. E cuidado, não é para a gente sair se diagnosticando por aí e nem diagnosticando os outros. Por que achei importante colocar isso? Para as pessoas entenderem que é uma doença real, muito grave, de caráter psiquiátrico. Não é um comportamento passageiro, ou uma frescura “ah, mas ela não come porque não quer”, “ah, é uma fase, já já passa”, “ah, come logo e deixa de frescura”. É muito maior do que isso. Por isso temos que ter empatia por essas meninas. Na verdade temos que ter empatia por todas as meninas, né, de qualquer corpo que seja. Mas isso é história para um outro texto :)

Voltando à nossa historinha do começo do texto, vamos pontuar algumas questões dela e também discutir junto aos critérios diagnósticos? E levantar alguns erros que as pessoas cometem muitas vezes sem nem perceber:

  1. Mudar o corpo a qualquer custo – quando há essa ideia, algo de errado está acontecendo, pois será que essa mudança a qualquer custo vai efetivamente custar quanto a você? E à sua saúde física e mental?
  2. Começou a fazer a primeira dieta mesmo sendo magra – item 2 dos critérios diagnósticos “comportamento persistente que vá interferir no ganho de peso”.
  3. A recusa em comer alguns alimentos, grupos alimentares ou em situações sociais é um grande alerta pois mostra que a pessoa provavelmente tem medo daquele alimento ou não tem confiança em come-lo. Isso pode não ser anorexia nervosa, mas denota um comportamento alimentar transtornado.
  4. “Nas magras fazem dietas”. Eu fico me perguntando, por que ninguém questiona quando uma menina magra continua insistindo em fazer dietas. Magras não devem fazer dietas pois se elas estão insatisfeitas nesse corpo que já se encaixaria no tal do padrão, por quê a busca por magreza continua?
  5. Contar calorias – esse hábito nunca é saudável! Em nenhuma circunstância que seja. Quem tem que saber o valor calórico que você come é o profissional de nutrição que te acompanha (e se ele começar a lhe infernizar com isso, se ligue). Por que não é saudável? Pois começa a se tornar uma prática obsessiva, que não leva em conta o valor nutricional dos alimentos. É uma busca por números, assim como a do peso da balança ou do manequim da roupa.Originalmente por definição não é, mas está virando….
  6. Usar exercícios físicos em excesso para compensar ou ajudar na alimentação – é uma prática purgativa quando usada em excesso, quando atrapalha a sua vida social ou quando vem acompanhada daquela sensação de que nunca está suficiente.
  7. Os elogios pela magreza – elogiar magreza poder ser um baita problema pois se essa pessoa realmente tem um problema alimentar, seu elogio só estará reforçando esses comportamentos inadequados que ela faz para chegar a esse corpo. Sem contar que “estar magra” não é elogio, elogio é “você está linda”, “você está radiante” etc.

Moral de toda essa história: estamos vivendo em um mundo cultuado por um corpo extremamente magro, que pode estar custando não só a saúde física das pessoas, mas também a mental. Mundo esse que acha que comentar que alguém emagreceu é um elogio e que ela ganhou peso é um fracasso. Como sempre digo, enquanto nós vivermos num mundo que valoriza as pessoas pelo corpo e não pelo que elas são, a desconstrução vai demorar mais ainda pra acontecer.

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E o que podemos fazer da nossa parte como amiga, mãe ou pessoa próxima?

Evite comentários tipo: “Amiga, vi essa dieta, vamos fazer?” / “Filha, acho bom começar uma dieta pois você tá engordando” / “Amor, deu uma engordadinha heim, você já não está mais com o corpo de quando te conheci”/ “Se você emagrecer vai render melhor nos treinos” – dietas restritivas costumam ser o primeiro gatilho para o desenvolvimento de um transtorno alimentar.

Não dê apelidos a ninguém que levem em consideração a forma física da outra pessoa. Comentários como esses e também “apelidos inocentes” são gatilhos para a pessoa se sentir insatisfeita com seu corpo, inadequada e muitas vezes começar estratégias nada saudáveis para modificar esse corpo que ela sentiu ser julgado.

Anorexia Nervosa não é frescura, modismo e muito menos estilo de vida.

E para você, que possa estar passando por algum processo como esse, procure ajuda especializada. É um caminho que pode assustar mas totalmente viável. Grande beijo <3

0 em Autoestima/ Destaque no dia 28.03.2018

Lá no #paposobreautoestima

Nossa hashtag do #paposobreautoestima lá no instagram já conta com mais de 5.500 publicações. Como tem muita história legal sendo compartilhada por lá, resolvemos trazer de vez em quando algumas delas para o blog, que tal? :)

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“Um Corpo é um corpo, né?!” Isso aí, um corpo é só um corpo, independente do formato e do tamanho dele. Bora se amar mais do jeito que somos e parar de tentar entrar num padrão inatingível de beleza! ❤️ – via @cindereladementira

“Essa é minha cara quando escuto “Coitada, ela se largou, engordou muito né?”
“Por que você não emagrece? Tem um rosto tão bonito…”
“É muito fácil emagrecer, é só fechar a boca e fazer exercícios!”
“Ela é bonita, mas tá gordinha né?”
“O peito tá caído, não acha que deve colocar um silicone?”
“E essas ruguinhas? Não vai usar um creme pra melhorar isso não?”
“E essas manchas no rosto? Tem que fazer um clareamento…”
.
Ninguém tem o direito de opinar sobre sua aparência, assim como não tem o direito de opinar sobre sua vida. A não ser que você peça, mas mesmo assim, tome cuidado com as pessoas que dizem o que pensam sem se preocupar se vão te magoar. Isso não é sinceridade, é egoísmo. .
Sim, nós somos ensinadas desde pequenas a nos compararmos para dizer que estamos melhores do que a Fulana. Também nos ensinaram a nos odiar dizendo que isso era “se cuidar”. Mas nós podemos mudar isso, vamos fazer uma revolução e nos amar como somos? ❤”- via @rafamussi_

“Quando eu olho no espelho
Tô gostando do que eu vejo
Tô gostando mais, e mais, e mais
E mais, e mais de mim
Mais bonita, mais contente
Eu mudei completamente. {espelho do navio precisando de uma limpadinha rsrs }” – via @thaubarbosaa

“Olhar pra si de forma amorosa, curtir a caminhada e não esperar para ser feliz só quando chegar, isso é #paposobreautoestima ❤️” – via @cacheiaaqui

“[alerta textão] “Vê se te enxerga”, eles disseram, e eu levei a sério. Então resolvi me olhar com mais cuidado, com atenção. Sem pressa de me esconder, sabe?
Sem correr pra murchar a barriga, ou espichar a calça pra tapar os culotes. Sem subir os seios pra ficarem suficientemente atraentes em um decote.
Resolvi me olhar sem medo das olheiras, sem antes colocar corretivos nas marcas das espinhas que se foram. Resolvi respeitar as memórias da minha pele. E enxerguei beleza em todas elas! Deixaram de ser defeitos e se tornaram história. A minha história!
Não vou ser hipócrita e dizer que foi da noite pro dia que a perspectiva mudou. Mas precisei decidir me enxergar. Foi uma decisão de amor por mim, mas antes de tudo: compreensão.

Decisão de não apenas olhar pra mim, mas de me enxergar de verdade. De me demorar em mim, sabe? De contar as pintinhas do meu braço, ao invés das celulites da perna. De tirar uma hora do dia pra hidratar meu corpo inteiro ouvindo minha playlist favorita. Espalhar hidratante e ir dizendo a mim mesma que cada partezinha ali merece uma atenção especial.
Então, menina. Talvez você já tenha ouvido isso como um insulto, mas agora queria dizer como uma palavra de encorajamento: Vê se te enxerga!” – @suhemerick

 

0 em #paposobremulheres/ Comportamento/ Mayara Oksman no dia 13.03.2018

Papo sobre mulheres: às mulheres que me reergueram

Tentei pensar em um texto mais focado, em passar uma mensagem legal, em tentar colocar em palavras como eu amo ser mulher mesmo nos momentos mais difíceis. Falei com as amigas, tentei entender por que a gente se junta e o assunto tende a ser sempre o mesmo, me perguntei de novo por que nós mulheres passamos por perrengues tão parecidos (e bom, acho que já falei num texto anterior, mas a resposta é porque temos peitos, bunda e vagina, ok? Ok!). Tentei ler mais sobre essas duas últimas questões para trazer algo mais educativo para vocês hoje, mas acho que vai rolar um #fail porque eu sou dessas que não consegue planejar o que vai falar mesmo, não adianta. Todos os meus textos pro Futi são meio assim: eu decido falar sobre alguma coisa e em 15 minutos tá lá pronto. Chamo isso de vomit word e fãs de Mean Girls bem que entenderão.

Então, apesar de querer fazer algo mais especial esse mês, tive um bloqueio, não consegui. Por isso sentei na frente do computador agora e decidi vir falar com vocês sem muita pretensão, sem saber muito sobre o que… só falar.

Esse mês tem nosso dia. Esse mês tem meu dia. Faço 29 anos no final de março. E bom, acho que na real o que eu queria compartilhar com vocês é o que eu vivi, vivo e viverei sendo mulher e o que eu pretendo mudar sendo mulher.

Ia dizer que meu aprendizado como mulher mesmo não começou desde que eu nasci, mas poxa, que erro. Porque desde que eu me conheço por gente sou menina do laço, menina de rosa, menina princesa, menina que sonhava em casar com o príncipe encantado. E olha que isso não veio muito de mamãe não, viu. Acho que veio mais da família como um todo, da sociedade, dos filmes, das novelas, das músicas, dos meninos. Sempre me perguntavam quantos filhos eu queria ter quando crescesse. Ou quais as qualidades em um homem eu procurava. Acho que só fui me tocar disso tudo e em como isso me incomodava em 2014, 2015. O ápice mesmo foi em 2015, na época em que eu escrevi o “Ser solteira não é defeito” aqui para o Futi. Foi quando eu pensei putaqueopariu, sério mesmo que o importante na vida é arranjar macho? Eu fico no pause enquanto eu não achar alguém para chamar de meu?

Gente, foi uma revolução na minha vida, de verdade. Foi quando eu comecei a aprender sobre feminismo, foi quando eu comecei a falar sobre feminismo para outras pessoas. Foi quando eu me senti empoderada, foi quando eu vi que tudo bem ser xyz, tudo bem querer ser o contrário do que estão mandando eu ser. Aos 26 anos eu me vi livre pela primeira vez. Eu escrevi uns textos aqui pro Futi que olha, fiquei bem orgulhosa, vou dizer. E muito do que escrevi foram apenas desabafos sobre coisas que estavam entaladas há muito, muito tempo na minha garganta. 

Aí veio 2016 e 2017. Veio muito do que falei aqui nos últimos textos. Veio meu primeiro amor, veio alegria, veio saudade, veio decepção, veio dor e também abuso. A ficha de que era abuso demorou para cair e quando caiu, eu fiquei em choque. Eu, linda, inteligente, toda espertona falando sobre feminismo… como assim eu fui manipulada? Oi? Vocês tão de brincadeira com a minha cara, né? Como eu fui cair nisso? Migas, deixa eu contar uma coisa. Acontece. Acontece comigo, aconteceu com algumas muitas amigas. Acontece com atrizes de cinema, com esportistas, com políticas, com grandes executivas, com princesas de verdade. E o motivo? Somos todas mulheres, simples assim.

Mais fortes juntas | ilustra: Sundae Studios

Mais fortes juntas | ilustra: Sundae Studios

Mas só estou falando disso porque adivinhem quem me ajudou a sair do buraco? Dou uma chance para vocês. Sim, mulheres. Mamãe, irmãs, amigas de longa data, amigas novas, colegas de trabalho, desconhecidas, terapeuta. Meu pai, meu irmão, meus amigos, nenhum deles entende. Tentaram ajudar de alguma forma, mas nenhum deles passou por isso. Nenhum deles sabe o que é ser mulher. Nenhum deles tem os ouvidos de uma mulher. Nenhum deles compartilha comigo, com a gente, o que é ser mulher.

Se eu pretendo mudar isso? Fazer com que eles calcem nossos sapatos? Não, isso é impossível. Sentir nossas dores só nós sentimos, nem médico ajuda a fazer passar! Nós sentimos, como e porque somos mulheres. E olha, acho que a gente pode falar mais sobre isso, sem papas na língua. Acho que a gente pode tentar fazer eles entenderem que nós só passamos por algumas coisas por causa deles. Porque assim, se eu tenho medo de usar uma saia mais curta na rua, não é por medo das mulheres. Se eu tomo cuidado quando ando por uma rua escura, não é por medo das mulheres. Então acho que a gente tem que ter paciência e ensinar. Compartilhar com eles também. Tentar educar e reeducar quantas vezes forem necessárias.

E acho mais! Acho que precisamos sempre estender a mão quando uma mulher precisar, sem julgamentos. Acho que precisamos entender, ouvir, dar colo e ombro. Porque né, pior do que receber comentários machistas de homem é receber esses comentários de mulheres. Saibam amar a si mesmas, saibam amar as próximas, as que vocês conhecem, as que vocês não conhecem. Saibam entender, ouvir, compreender, ter compaixão, paciência. O mundo é lindão e fica ainda melhor com nós, juntas, nele.