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nutrição baseada no comportamento

1 em Camilla Estima/ Destaque/ Saúde no dia 11.06.2018

Anorexia nervosa e o risco de normalizarmos a magreza exagerada

Era uma vez uma menina que cresceu ouvindo comentários sobre o seu corpo. Comentários que a faziam se sentir inadequada, não pertencente àquele meio social, e isso começou a lhe incomodar. Esse incômodo se transformou em palavras duras consigo mesma. E o que ela sentia? Tristeza, frustração, raiva e assim ficou o sentimento por esse corpo. E o que ela começou a fazer? Mudá-lo, a qualquer custo. Começou então a primeira dieta, que pareceu ser fácil na medida do possível, obtendo resultados rápidos. “Que ótimo”, ela pensou, “isso funciona”. Ninguém a questionou, visto que dieta é uma coisa normal a se fazer. Todo mundo faz, não é mesmo? Mas ela era magra. “E daí? Deu uma engordadinha, tem que emagrecer” pois afinal magras também fazem dieta. Junto com a dieta ela começou a conhecer mais os alimentos, suas propriedades e em especial uma delas: a quantidade de calorias. Já que ela começou a dominar esse assunto, contar calorias virou uma coisa do seu dia a dia. E também a retirar alimentos que as pessoas comiam normalmente, pois as calorias a incomodavam.

Passado um tempo – e a dieta não funcionava mais como antes – isso começou a incomodar. “Já sei, vou malhar”, pensou ela. Começou a fazer uma, duas, três aulas seguidas na academia, voltou a emagrecer novamente e os elogios a respeito da sua perda de peso começaram a aparecer. E ai ela se engajou mais e mais na dieta e nos treinos. Começou a se recusar a comer alguns alimentos, tanto em casa quanto em algumas situações sociais, mas isso nunca era feito muito abertamente. Com o aumento da perda de peso, comentários como “Nossa, como ela é dedicada”, “Viu, tendo força de vontade a gente sempre consegue” eram frequentes e a estimulavam ainda mais. Acontece que aquilo não estava sendo suficiente, pois sempre que se via no espelho ela continuava odiando a imagem refletida.

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Não conseguia ver e muito menos sentir a perda de peso que tanto a elogiavam, então resolveu pegar mais firme na dieta e ir mais de uma vez por dia na academia. As pessoas começaram a reparar de diferentes formas: “você agora está magra demais” (e não achava que era uma crítica, apesar de se olhar no espelho e continuar insatisfeita), “está com cara de doente” (como doente se ela estava começando a chegar aonde queria?), “o que você fez para emagrecer?” (isso a estimulava ainda mais a continuar). Eis que um dia ela cai na academia, fraca e sem energia. Levou um susto mas não contou pra ninguém da família. “Foi uma queda de pressão”, imaginou. Só que outro dia desmaiou em casa e a família começou a se preocupar. Quanto mais diziam que ela tinha que parar de emagrecer, que estava magra demais ou que estava ficando doente, menos isso importava para ela. Desde que ela se sentisse magra – o que não era o que ela sentia ao se olhar no espelho. E assim ela ficou doente. Em um processo silencioso e solitário mas aos olhos do mundo ela era bem sucedida pois era magra e ainda estava conseguindo emagrecer mais.

Essa história é uma ficção. Essa menina não existe, mas tudo que eu contei é verdadeiro, pois juntei fatos que ouvimos diariamente em relatos de pessoas que nos mostram como transtornos alimentares se iniciam. E eles se iniciam de uma forma abrupta? Muitas das vezes não, como relatei acima. Pode ser a história que você viu começar em alguém? Sim, pode. E as coisas que falam para ela, são absurdas? Não, não são, principalmente dentro do contexto desse mundo maluco que vivemos onde uma menina magra estar de dieta super restritiva ou malhando loucamente é considerado normal. Além do mais, mostra que muitas vezes os transtornos alimentares são doenças silenciosas ao olhar do outro, ou seja, você pode estar convivendo com alguém que tem e você nem sabe, e pior, ainda a está estimulando a ficar mais doente. Por isso sempre falamos para não comentar sobre o corpo ou o peso dos outros pois você não sabe quem está ouvindo aquela informação.

No caso da anorexia nervosa ela começa a ficar aparente aos olhares das pessoas por causa da magreza evidente, mas mesmo assim nem sempre as pessoas se assustam com isso pois exatamente essa magreza é cultuada hoje em dia e dificilmente questionada.

“Ah, mas deixa ela ser magra”, comentam. Será? Será que isso já não é um alerta pra nos darmos conta? Não estou dizendo que todo mundo é anoréxico ou que toda mulher magra que está de dieta tem transtornos alimentares,  mas um olhar mais atento e de empatia com essas pessoas nós temos que ter.

Sabe por que pessoas magras que possam estar doentes não são questionadas pela sua magreza? Por que elas se encaixam em um padrão e por isso não precisam dar satisfação do seu corpo a ninguém, pois ela não incomoda.

Agora que a historinha já foi contada, vamos falar sobre o quadro de Anorexia Nervosa. Ela é um transtorno psiquiátrico que afeta o comportamento alimentar das pessoas e ele é diagnosticado por um psiquiatra. Profissionais de nutrição, psicologia e outras especialidades de saúde entram na equipe de tratamento parar auxiliar. O diagnóstico é feito com base em critérios, como o da Associação Americana de Psiquiatria (DSM V, 2013) que estão listados abaixo. Os comentários entre parênteses e em maiúsculo são explicações minhas para ficar menos técnico:

  1. Restrição à ingestão energética em comparação às recomendações (OU SEJA, A PESSOA COME MENOS ENERGIA DO QUE LHE É RECOMENDADO), levando a um peso corporal baixo em relação à idade, sexo, trajetória de desenvolvimento e saúde física (UM PESO ABAIXO DO QUE É ADEQUADO PARA ELA). Peso significativamente baixo é definido por peso mais baixo do que o minimamente normal e, para crianças e adolescentes, menos do que o mínimo esperado (NUMA CLASSIFICAÇÃO COMO O ÍNDICE DE MASSA CORPORAL, POR EXEMPLO, A PESSOA ESTÁ ABAIXO DO VALOR MÍNIMO ACEITÁVEL).
  1. Medo intenso de ganhar peso ou de se tornar gordo (MEDO INTENSO NÃO É UMA PREOCUPAÇÃO QUALQUER COM O PESO) ou comportamento persistente que vá interferir no ganho de peso (CONTINUA COM PRÁTICAS PARA PERDA DE PESO OU EVITAR GANHÁ-LO), mesmo que tenha um peso significativamente baixo (MESMO QUE O PESO JÁ ESTEJA BAIXO A PESSOA CONTINUA COM MEDO DE GANHAR PESO E PROSSEGUE COM ESSES COMPORTAMENTOS PARA PERDE-LO OU EVITAR GANHA-LO)
  1. Perturbação na forma como vivencia o peso e forma corporal (PERTURBAÇÃO SOBRE A FORMA COMO SE VÊ, OU SEJA, PERTURBAÇÃO NÃO É UM INCÔMODO QUALQUER), com influência indevida na auto-avaliação do peso e forma corporal (OU SEJA, UMA AUTOAVALIAÇÃO INDEVIDA DO CORPO QUE TEM/ESTÁ NO MOMENTO), ou falha no reconhecimento da seriedade de seu peso atual (NÃO RECONHECE QUE PODE ESTAR PASSANDO POR ALGO GRAVE E MUITO SÉRIO)

O DSM V ainda classifica a Anorexia Nervosa de duas formas:

Tipo Restritivo: Durante 3 meses o indivíduo não realiza episódios de compulsão alimentar ou comportamentos compensatórios. Esse subtipo descreve a forma onde a perda de peso é resultado de dieta, jejuns e/ou exercícios físicos intensos.

Tipo purgativo/compulsão alimentar: Durante 3 meses, o indíviduo realiza episódios recorrentes de episódios de compulsão alimentar ou comportamentos compensatórios. (OU SEJA, ANORÉXICA TAMBÉM PODE INDUZIR VÔMITOS, USAR LAXANTES OU DIURÉTICOS!!! ISSO NÃO É COMPORTAMENTO EXCLUSIVO DE BULÍMICA)

A pessoa deve preencher todas essas categorias para ter o diagnóstico. E cuidado, não é para a gente sair se diagnosticando por aí e nem diagnosticando os outros. Por que achei importante colocar isso? Para as pessoas entenderem que é uma doença real, muito grave, de caráter psiquiátrico. Não é um comportamento passageiro, ou uma frescura “ah, mas ela não come porque não quer”, “ah, é uma fase, já já passa”, “ah, come logo e deixa de frescura”. É muito maior do que isso. Por isso temos que ter empatia por essas meninas. Na verdade temos que ter empatia por todas as meninas, né, de qualquer corpo que seja. Mas isso é história para um outro texto :)

Voltando à nossa historinha do começo do texto, vamos pontuar algumas questões dela e também discutir junto aos critérios diagnósticos? E levantar alguns erros que as pessoas cometem muitas vezes sem nem perceber:

  1. Mudar o corpo a qualquer custo – quando há essa ideia, algo de errado está acontecendo, pois será que essa mudança a qualquer custo vai efetivamente custar quanto a você? E à sua saúde física e mental?
  2. Começou a fazer a primeira dieta mesmo sendo magra – item 2 dos critérios diagnósticos “comportamento persistente que vá interferir no ganho de peso”.
  3. A recusa em comer alguns alimentos, grupos alimentares ou em situações sociais é um grande alerta pois mostra que a pessoa provavelmente tem medo daquele alimento ou não tem confiança em come-lo. Isso pode não ser anorexia nervosa, mas denota um comportamento alimentar transtornado.
  4. “Nas magras fazem dietas”. Eu fico me perguntando, por que ninguém questiona quando uma menina magra continua insistindo em fazer dietas. Magras não devem fazer dietas pois se elas estão insatisfeitas nesse corpo que já se encaixaria no tal do padrão, por quê a busca por magreza continua?
  5. Contar calorias – esse hábito nunca é saudável! Em nenhuma circunstância que seja. Quem tem que saber o valor calórico que você come é o profissional de nutrição que te acompanha (e se ele começar a lhe infernizar com isso, se ligue). Por que não é saudável? Pois começa a se tornar uma prática obsessiva, que não leva em conta o valor nutricional dos alimentos. É uma busca por números, assim como a do peso da balança ou do manequim da roupa.Originalmente por definição não é, mas está virando….
  6. Usar exercícios físicos em excesso para compensar ou ajudar na alimentação – é uma prática purgativa quando usada em excesso, quando atrapalha a sua vida social ou quando vem acompanhada daquela sensação de que nunca está suficiente.
  7. Os elogios pela magreza – elogiar magreza poder ser um baita problema pois se essa pessoa realmente tem um problema alimentar, seu elogio só estará reforçando esses comportamentos inadequados que ela faz para chegar a esse corpo. Sem contar que “estar magra” não é elogio, elogio é “você está linda”, “você está radiante” etc.

Moral de toda essa história: estamos vivendo em um mundo cultuado por um corpo extremamente magro, que pode estar custando não só a saúde física das pessoas, mas também a mental. Mundo esse que acha que comentar que alguém emagreceu é um elogio e que ela ganhou peso é um fracasso. Como sempre digo, enquanto nós vivermos num mundo que valoriza as pessoas pelo corpo e não pelo que elas são, a desconstrução vai demorar mais ainda pra acontecer.

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E o que podemos fazer da nossa parte como amiga, mãe ou pessoa próxima?

Evite comentários tipo: “Amiga, vi essa dieta, vamos fazer?” / “Filha, acho bom começar uma dieta pois você tá engordando” / “Amor, deu uma engordadinha heim, você já não está mais com o corpo de quando te conheci”/ “Se você emagrecer vai render melhor nos treinos” – dietas restritivas costumam ser o primeiro gatilho para o desenvolvimento de um transtorno alimentar.

Não dê apelidos a ninguém que levem em consideração a forma física da outra pessoa. Comentários como esses e também “apelidos inocentes” são gatilhos para a pessoa se sentir insatisfeita com seu corpo, inadequada e muitas vezes começar estratégias nada saudáveis para modificar esse corpo que ela sentiu ser julgado.

Anorexia Nervosa não é frescura, modismo e muito menos estilo de vida.

E para você, que possa estar passando por algum processo como esse, procure ajuda especializada. É um caminho que pode assustar mas totalmente viável. Grande beijo <3

2 em Camilla Estima/ Comportamento/ Saúde no dia 15.05.2018

Poder comer de tudo não quer dizer permissividade na alimentação!

Quando trabalhamos o comportamento alimentar das pessoas, muitas dúvidas aparecem. “Mas eu vou poder comer qualquer coisa?” “ Mas é solto assim?” “Não tem hora pra comer nada?” “Não tem limite?”. Não é nada disso, gente.

A nutrição sempre foi muito baseada no que chamamos de “biológico” – apenas nutrir aquele corpo para o seu funcionamento perfeito. Claro que queremos nutrir as pessoas e nossa missão é essa, mas vai muito além disso. Quando trabalhamos, o comportamento entra em jogo além do que a pessoa come em termos de qualidade e quantidade, mas também a forma como ela come e também as motivações que a pessoa tem para isso. Trabalhando a recuperação dos sinais físicos de fome e saciedade e também dos motivos que levam as pessoas a comerem o que elas comem, chegamos à conclusão de que, muitas das vezes, comemos mais por emoções do que por estarmos com fome de verdade. Já falamos disso anteriormente aqui no Futi, dá uma olhadinha nesse post sobre fome no estômago ou na cabeça.

E como sempre falamos que dietas não funcionam, nós, nutricionistas não precisamos excluir alimentos comuns da vida das pessoas que não estão doentes. Sim, se você aí que está lendo esse texto não tem nenhum diagnóstico tipo diabetes, doenças cardiovasculares, doenças no fígado ou rins, e tantas outras em que há limitação de nutrientes ou grupos de alimentos, você não precisa restringir nada em termos de qualidade da alimentação.

Nós buscamos com nossos pacientes a autonomia alimentar.

Mas o que é isso? A autonomia alimentar faz com que você aprenda a ter consciência nas suas escolhas alimentares, entendendo as motivações, respeitando a fome física, emocional e percebendo a saciedade. A tomada de consciência é o fator determinante nessa equação, não para você cometer exageros na alimentação, mas sim para você compreender melhor como você come e a fazer escolhas equilibradas a partir daí. Levando em conta um propósito, o momento do dia, a motivação e tudo baseado na sua fome.

Dessa forma você toma para si o controle da alimentação com menos base em dietas da moda e mais consciência dos motivos pelos quais você come. A ideia é comer em paz, sem crenças socialmente difundidas, sem julgar o alimento, sem contar as calorias ou se viciar na composição nutricional. A ideia é não pensar em calorias que precisarão ser queimadas depois, é focar numa alimentação equilibrada para você.  E a autonomia é conquistada a partir de um processo.

Os equívocos e confusões começam quando falamos que tudo faz parte da alimentação e que podemos comer todos os tipos de grupos de alimentos. Esse é o pulo do gato para mudarmos nosso processo todo, mas ao mesmo tempo é a informação que mais assusta e causa confusão, por isso quisemos trazer esse post para o blog.

Tudo faz parte da alimentação, mas tudo pode ser feito com moderação, os alimentos combinam com as horas do dia, no caso as refeições. É o que chamamos da refeição com a cara da refeição.

Exemplo: o que seria um café da manhã normal, que os brasileiros comem? Dependendo da região do Brasil – pois nosso país é imenso – em um café da manhã costuma-se comer: café com leite e pão com manteiga, no norte e nordeste temos cuscuz, mandioca, carne seca; podemos incluir uma fruta ou um suco; um iogurte.

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Fonte: Guia alimentar para População Brasileira (2014)

Alguns alimentos não combinam muito essa hora, né? Tipo, arroz e feijão não tem cara de café da manhã, muito menos um brownie, uma bola de sorvete ou um pão de queijo. Que horas poderíamos comer um brownie ou uma bola de sorvete? Ah, combina com uma sobremesa. Show. Um pão de queijo combina com um lanche? Sim.

Continuando na linha de raciocínio, o que combina com um almoço e jantar tradicional brasileiro? A combinação deliciosa e perfeita do arroz com feijão, uma proteína, legumes e verduras cozidos ou uma salada. Uma sobremesa? Por que não! Pode ser um doce ou uma fruta.

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Fonte: Guia alimentar para População Brasileira (2014)

Na mesma lógica que eu disse acima, um misto quente é almoço? Nem tanto. Um salgado é almoço? Tampouco. E jantar pipoca? Também não. Aproximar a alimentação das pessoas a esse modelo as faz entender que tudo cabe na alimentação quando direcionadas à esses momentos do dia. Que sim, posso comer um doce de sobremesa, mas que ele não deve substituir o meu jantar e nem por isso eu devo exagerar nas quantidades.

E qual a diferença disso para a permissividade alimentar? Na permissividade alimentar eu como qualquer coisa em qualquer momento, e o problema que acabo nisso deixando de comer diversos alimentos que fazem parte do meu dia. Se por exemplo eu tomar de café da manhã um pão de queijo e um mate, quantos grupos alimentares que fazem parte dessa refeição eu estou deixando de comer? Deixo de comer frutas, leite ou iogurte, como pouca fibra. Se eu peço delivery todos os dias, o quanto estou me distanciando do jantar brasileiro? O problema não é pedir uma pizza numa 4ª feira à noite e sim a pizza da 4ª feira que sobrou virar o almoço e o jantar de 5ª feira.

No modo operante da permissividade, você acaba comendo “qualquer coisa” e se desconecto dos alimentos, das refeições, da sua fome e da sua saciedade. A refeição fica sem cara de refeição e isso só faz com que venhamos a substituir a restrição por um exagero, e esse extremo também não funciona.

Temos que começar a nos perguntar: por que eu estou me permitindo comer qualquer coisa? Jantar pipoca eu não estou jantando qualquer coisa? A pipoca do cinema é qualquer coisa? Não! Ela tem o seu momento. Se substituímos alimentos e grupos alimentares importantes na rotina não estamos fazendo bom uso do poder comer de tudo, nem estamos tentando entender nosso comportamento alimentar, só estamos usando uma máxima importante para mascarar nossos exageros. Não é preciso cortar nada, mas tudo tem sua hora e lugar, além de sua quantidade. Estamos tão acostumados a terceirizar isso que deixamos de nos conscientizar da nossa responsabilidade.

Essa nova forma de pensar a respeito da nossa alimentação traz à tona algo que as pessoas não estão muito acostumadas e que a dieta atrapalha: você se responsabilizar pelo que vai comer baseado nos direcionamentos que trabalhamos. Por que as pessoas estão pouco se responsabilizando pelo que elas comem ou escolhem comer? Pois estão anos a fio “obedecendo” um papel, que fica grudado na geladeira e que permite ou não de você comer alguma coisa. Se eu só obedeço, eu não tenho a autonomia das minhas escolhas e não tomo decisões a respeito do que vou comer. Aceito e acato quais alimentos são para gerar culpa, por exemplo. Desconsiderando quais deles me dão prazer ou não, consequentemente quando os como perco o controle que a autonomia me ajudaria a ter, tanto sobre o alimento quanto sobre a forma como eu como.

Seguir só um papel não é “empoderamento” alimentar. Pense como isso te aprisiona? Portanto, temos que sair do modo operante de que só obedeço, não penso criticamente no que estou comendo e não conecto isso comigo mesma. Uma vez que a autonomia alimentar é conquistada, tanto a permissividade como as restrições impostas passam a não fazer mais sentido, e você se sente livre para comer de forma equilibrada. Pode até parecer um milagre impossível, mas vemos cada dia mais isso acontecer nos consultórios de especialistas do tema.

As fotos usadas nesse post são exemplos de pratos sugeridos pelo Guia Alimentar para a População Brasileira. Não, não é uma dieta ou cardápio tipo de revista que qualquer pessoa se adapta, temos sempre que trabalhar a individualidade das pessoas. Usei para ilustrar o que chamamos da “refeição com a cara da refeição” com alimentos do nosso dia a dia e cultura alimentar. Para saber mais sobre alimentação saudável, baseada na nossa cultura alimentar, sugiro a leitura do guia. Ele é a recomendação que o Ministério da Saúde desenvolveu para a população comer de forma saudável e ter saúde, baseado em comida de verdade e respeitando nossos laços culturais. Ele é fantástico.

Referências Bibliográficas:

Guia Alimentar para a População Brasileira, 2014.

http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf

2 em Autoestima/ Camilla Estima/ Comportamento/ Destaque/ Saúde no dia 22.03.2018

E a gente achava que eram só as blogueiras fitness

Há pouco mais de um ano escrevi para o Futi sobre a influência das blogueiras fitness no comportamento alimentar das mulheres. Havia um nicho nessa história: mulheres de diferentes carreiras que passaram a compartilhar nas suas redes sociais os seus treinos, sua alimentação, seus suplementos, tratamentos estéticos e receitas para atingir esse conceito de “corpo perfeito” vendido como algo sustentável, saudável e inofensivo. A verdade é que não era bem assim.

Seus corpos viraram sonho de consumo e um novo padrão de beleza foi criado nas redes sociais. Descobri pouco tempo depois, no meu próprio consultório, que o preço a se pagar por se deixar influenciar por elas ia muito além dos altos custos de consultas, remédios e comidas fit. O que era vendido como “bom e saudável” muitas vezes desorganizava todo o comportamento alimentar de quem tentava replicar o modelo por si só, sem falar na eterna busca de um corpo difícil de manter em uma vida equilibrada sem muitos sacrifícios. A insatisfação se tornou um sentimento comum para os viciados em Instagram.

Aquele comportamento nocivo era um problema? Sim, mas era um nicho! De “musa fitness” pra pessoas interessadas em levar esse estilo de vida, ainda que inconsciente dos riscos. Quem não se sentia pertencente ao “meio fitness” provavelmente nem seguia essas pessoas ou não prestava tanta atenção.

Há pouco mais de um ano criei a minha conta profissional no Instagram e todo um novo mundo apareceu pra mim. Comecei a seguir alguns perfis de mulheres cheias de seguidores com as mais variadas profissões: blogueira, cantora, atriz, empresárias, herdeiras, fenômenos do youtube….nenhuma blogueira fitness. E o que elas têm  comum? Compartilham diversas facetas de suas vidas nas postagens do feed ou nos stories. Até ai tudo bem. Falam super bem de produtos de beleza, moda, do seu estilo de vida, viagem de férias, semanas de moda, e por aí vai.

O que estava me parecendo divertido, curioso, no máximo um pouco ostentatório em alguns momentos, aos poucos foi se mostrando tão potencialmente perigoso quanto o nicho das musas fitness. Seguidoras e pacientes começaram a me encaminhar posts e stories DIARIAMENTE perguntando do perigo de alguns posts inofensivos dessas influenciadoras.

Nenhuma delas blogueira fitness, nenhuma delas profissional da área de saúde. Se ficasse nisso estaria tudo certo, seriam apenas mais algumas mulheres famosas, ou as chamadas “influenciadoras digitais” exaltando o corpo magro, difícil de ser mantido por mulheres em uma rotina mais convencional ou que não podem ter todo o acompanhamento profissional que elas têm, mas infelizmente não vamos parar por aqui. O problema começa quando elas começam a falar de sua alimentação, comentam todo e qualquer ganho de peso (ainda que imperceptível para quem as segue), pedem desculpas para a nutricionista por simplesmente terem sentido prazer ao comer, dividem uma relação conturbada com a comida ou então avisam que vão ter que encarar seu personal trainer para compensar o que comeram.

Algumas das postagens que recebi:

1) “Tá pago”, umas dizem após o treino na academia. Só que exercício não é boleto e compensar comida com alimentação é um mecanismo arriscado. Exercício físico é, sim, uma forma de estimular o corpo a gastar energia, talvez a excedente, e promover perda de peso. Mas exercício físico não serve só para isso! É uma forma de adquirir consciência corporal, bem estar, descarregar energia, trabalhar emoções.

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2) Hoje temos atrizes que passam da marca do milhões de seguidores que se justificam por TUDO que comem no stories, praticamente pedindo desculpa para o personal trainer. Normalmente os alimentos que povoam a lista do “não pode” são um milk-shake no fim de semana ou um hamburguer depois de uma rotina puxada de gravações. Esse é um gatilho importante para demonização da comida, pra todo mundo ver, ou melhor, para uma porcentagem nem tão pequena assim do mundo

3) Tem atriz adolescente com mais de 13 milhões de seguidores que passou a fazer dieta para perda de peso acompanhada de ex participante de reality show que nem nutricionista é. Qual o problema disso? A adolescência é uma fase de inúmeras mudanças corporais, acompanhada por insatisfação corporal que leva tantas meninas para o início da prática de dietas. Salvo raras exceções, dieta restritiva não é indicada a adolescentes que queiram perder peso, e sim para a modificação dos hábitos alimentares de forma saudável. A partir do momento que uma adolescente famosa mostra-se insatisfeita e começa a falar sobre dieta restritiva abertamente, mesmo tendo um corpo que já era considerado bonito e dentro do padrão por suas seguidoras, existe a chance de gerar um gatilho de insatisfação corporal em meninas que deveriam estar se preocupando apenas em comer de forma saudável, nunca em associar comida à sacrifícios. 

4) Muitas influenciadoras dividem suas porções de alimentos congelados que chegam em suas casas – acompanhada de um código de desconto para o seguidor, claro – o que demoniza ainda mais o ato de cozinhar ou desenvolver habilidades culinárias. Para algumas pessoas isso pode parecer besteira, mas me entristece ver o tanto que o hábito de cozinhar é exaltado como sendo uma perda de tempo, sendo que é uma das estratégias mais certeiras para quem deseja conquistar uma alimentação realmente saudável, comendo comida de verdade.

5) E a profusão de snacks “saudáveis” sem gluten e lactose que se tornaram modismos absolutos? Pessoas que não precisam excluir todos esses grupos alimentares começam a fazer isso indiscriminadamente. Será que TODAS que excluíram esses itens de sua dieta são intolerantes ou celíacas real? Isso acaba gerando um gatilho para restrição alimentar infundada. Esse é mais um dos modismos perigosos que elimina da alimentação das pessoas pelo menos 3 grupos alimentares que fazem parte de uma alimentação de fato saudável.

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6) A coisa fica mais complicada ainda, porque ao mesmo tempo que a despensa dessas moças é lotada de alimentos “saudáveis”, elas se pegam recebendo caixas e mais caixas de comidas calóricas também. E o que elas dizem sobre eles? “Gordice”, “vai gordinha”, “baleia”, “isso é um crime premeditado”, “coisa do capeta”, entre outras piadinhas que ou demonizam (nesse caso, literalmente) ou são inundadas de termos gordofóbicos. Nessa hora podemos pensar como seguidoras gordas ou aquelas que estão na luta para comer essas coisas sem culpa se sentem. Elas estão sendo bombardeadas com assuntos que não estão relacionados com batom ou jaqueta, é saúde!

7) No meio dessa incongruência toda parece que elas precisam se justificar para suas nutricionistas ou personal trainers sobre a rotina alimentar, sempre falando em castigo e compensação. Seja em Paris ou em São Paulo, frequentemente tem uma desculpa ou justificativa para o profissional de saúde que as acompanham. “@fulano vai ver meu stories e me castigar amanhã no treino”, “@drafulana, 2ª feira eu volto pro foco”. E aí vemos vários profissionais atuando também como fiscal do paciente, e a prestação de contas sobre o que se come e de como isso deverá ser compensado depois gera mais e mais ansiedade e sentimento de culpa. 

8) Isso que eu ainda não falei de quem compartilha dieta liquida pela manhã para devorar uma panela inteira de brigadeiro à noite. Ou seja, discurso de restrição que leva à compulsão, carregado de culpa. Já recebi tantas mensagens me alertando sobre esse tipo de prática entre influenciadoras que perdi a conta. E onde está a vida saudável aí? Esse tipo de comportamento é tudo, menos saudável.

E sabe o que é mais triste? Descobrir que a grande maioria dessas meninas sempre teve um corpo relativamente dentro do padrão, mas em algum momento sofreu body shaming (seja dos seus próprios seguidores ou de algum instagram feito para gongar famosos) e mudou radicalmente o discurso, e o corpo.

Será que o mercado criou uma demanda para essas moças emagrecerem e, dessa forma, estamparem capas de revistas, comerciais de TV e usarem as roupas dos acervos de produção de moda? Pelo que ouço de histórias dos bastidores no Futi, acredito que muitas mulheres optaram por começar dietas altamente restritivas para trabalhar com mais clientes e marcas, que escolhiam as mais magras e mais dentro do padrão de beleza. Muitas vezes as influenciadoras digitais são usadas como modelos…mas elas não deveriam estar ali por serem quem elas são?


Será que são os seguidores que as pressionam sobre seus corpos faz com que elas se sintam na necessidade de se restringir? São pedidos de vídeos para conhecer as dietas, a série da malhação e parece que o milagre do corpo é o comentário mais pedido. A insatisfação é tanta que todo mundo só foca nisso? 

Será que as pessoas estão tão desconectadas de si que elas querem o corpo do outro? Lembro que uma vez uma delas postou seu plano alimentar no stories e no dia seguinte comentou ter ficado impressionada pois mais de 10 mil pessoas deram prints. 10 mil pessoas que não iriam procurar profissionais pra um plano personalizado pro seu caso!

Acho que essas perguntas podem nem ter resposta mas o que vejo são moças lindas, em seus diferentes corpos, tendo que se justificar continuamente! Se justificar porque saiu da dieta, ou porque comeu salada; porque não malhou hoje, ou porque malhou pesado. Hoje muitas se encontram em uma relação paradoxal com a comida e de quem é a culpa? Dela ou de todo mundo que exigiu um dia um corpo perfeito dela? Nada anula a irresponsabilidade, mas tem muito mais fatores envolvidos nesse ciclo onde mulheres que trabalham com a imagem PRECISAM chegar a tal ponto. E quando chegam, conquistam uma audiência que só está li porque quer saber qual o “milagre” para conquistar o corpo da influenciadora.

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No fim, acho que devemos parar pra pensar sobre nosso papel nisso tudo. Por quê o cliente de moda ou a revista precisou que a blogueira ficasse mais magra? Por quê vende mais? Por quê quando uma mulher conquista algo incrível, focamos na beleza ou na magreza na hora de comentar a foto? Será que nós não temos parte nesse processo de oprimir quem nos oprime?

Ainda que não venhamos a concluir nada, independente de quem vem primeiro – o ovo ou a galinha – precisamos ir contra o sistema e lembrar que essas rotinas inofensivas estão diariamente ensinando uma relação pouco saudável com o corpo e a comida, muitas vezes com exemplos clássicos que estão em todos os livros sobre transtornos alimentares. Com sinais de risco para anorexia nervosa, bulimia, compulsão e outras doenças psiquiátricas que se alastram como praga pelos nossos consultórios, escondidas em muita insatisfação e inadequação!

Parece que a influenciadora não tem a mínima ideia do risco do que está acontecendo, assim como as seguidoras também não. Então a melhor forma para continuar consumindo todo esse conteúdo que chega para a gente nas redes sociais é saber filtrar, ter um olhar crítico nas mensagens que estão sendo passadas, entender quais perfis têm mais pontos positivos do que negativos e quais são aqueles que nos geram algum tipo de insatisfação e se perguntar: vale continuar seguindo ou não?