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4 em Autoestima/ Destaque/ Saúde no dia 30.12.2017

Preocupação com a saúde vs. Gordofobia

Aproveitando a popularidade da hashtag #Gordofobianãoépiada e por finalmente termos conseguido alavancar a discussão sobre o preconceito diário sofrido por pessoas gordas, creio que precisamos falar daquela prima próxima da piada de gordo…a preocupação com a saúde.

Alexandra Gurgel, mais conhecida como Alexandrismos, em seu vídeo que começou a hashtag #GordofobiaNãoÉPiada

Não precisamos de muito esforço mental para saber que rir das pessoas é errado e que ser gordo não tem nada de engraçado (a não ser que você esteja realmente com muita vontade de desrespeitar as pessoas). Mas para muitos, ser gordo é sinônimo de não ser saudável e esta ideia é bastante difícil de desconstruir.

Sempre que são publicados conteúdos que defendem uma perspectiva mais positiva sobre o corpo, o amor próprio e a autoaceitação, aparece alguém para soltar o emblemático: “Não é questão de estética, mas sim de saúde!”

Creia: quando um corpo gordo é rechaçado, ridicularizado ou combatido, não existe promoção de saúde.

Se você é uma das pessoas que acredita que ser gordo simplesmente não é saudável e pode contribuir para a negligência das pessoas em relação ao próprio corpo… Fique por aqui e vamos refletir juntos.

1) Ser gordo não significa necessariamente estar doente

Talvez você esteja pensando “mas a obesidade é considerada doença pela OMS e tem até CID (classificação internacional de doenças)!”.

Sim. A obesidade é oficialmente considerada uma doença pela OMS desde 2013. Mas nem por isso deixa de ser algo muito discutível.

Para que uma pessoa seja considerada “obesa”, deve ser feito um cálculo para encontrar um número que chamamos de Índice de Massa Corporal (IMC). Muitas pessoas conhecem a conta: peso dividido pela altura ao quadrado. Ou seja, quilo por metro quadrado. O pessoal da engenharia faz cálculos parecidos para carregamentos de tijolos. Nós, da área da saúde, usamos com pessoas.

O IMC “aceitável” está entre 18,5 e 24,9999 (décimos contam, acredite). Tudo o que for desviante para mais ou para menos precisa ser corrigido porque (como a própria palavra diz) não é normal, pois não se encaixa na norma.

Sou nutricionista e faço atendimento clínico quase todas as tardes. Já conversei com várias pessoas, com as mais diversas histórias de vida. O fato isolado da pessoa ser gorda ou magra segundo o IMC, para mim, não é decisivo para concluir coisa alguma porque:

  • O IMC não mostra a composição corporal (distribuição de gordura e músculo)
  • O IMC não mostra o valor da glicemia.
  • O IMC não reflete função renal, hepática, nem tireoidiana.
  • O IMC não diz nada sobre o colesterol sérico.
  • O IMC não demonstra a saúde cardiovascular.
  • O IMC não serve para rotundamente nada.

Classificar um indivíduo como “doente” só porque o corpo dele é grande (é literalmente assim que funciona) é uma coisa totalmente sem sentido.

Acompanho pessoas obesas (pelo IMC) que não têm problema de saúde nenhum. Alimentam-se muito bem, são fisicamente ativas e têm mais resistência física do que muito magro por aí.

Diabetes é uma doença. Hipercolesterolemia é uma doença. Esteatose hepática é uma doença. Hipertireoidismo é uma doença. Hipertensão arterial é uma doença. Ser gordo não é uma doença – é uma característica física.

Não está convencido?

Pense um pouco mais sobre isso.

Existem sete bilhões de pessoas no mundo e você realmente acha que absolutamente todos os gordos do planeta estão doentes pelo simples fato de que são gordos?

Isso é uma crença delirante que tem mais relação com controle social do que com saúde.

2) Ser magro não é necessariamente estar saudável

Outro ponto importante: magreza não é sinônimo de saúde.

Existem pessoas magras que têm um corpo esbelto e definido, aquele teoricamente desejado por todos. Isso quer dizer que a pessoa está dentro do que a sociedade definiu como desejável… mas não quer necessariamente dizer que ela é saudável.

@almeidanara

@almeidanara, quem não conhece a sua história, vale dar uma olhada no perfil

Um exemplo recente disso é a blogueira Nara Almeida, que tem 23 anos e está lutando contra um câncer no estômago. Nara é constantemente elogiada pelos seguidores, que pedem dicas de dieta para chegar no “corpo dos sonhos”. O segredo? Quimioterapia e alimentação via sonda (dieta líquida).

Muitas pessoas fazem loucuras em nome da magreza, isso não é segredo para ninguém. Mulheres acreditam que o abuso de laxantes e diuréticos, dietas restritivas ou mesmo provocar vômitos são práticas comuns na busca de uma bela silhueta.

Muitos influenciadores digitais ensinam “truques” controversos ao público e deixam sempre muito claro que o que está realmente em jogo são coisas como “bumbum na nuca” ou “barriga negativa”.

E da mesma maneira que existe gente que faz de tudo para não engordar, existe uma multidão de magros que não fazem nada. Normalmente as pessoas pensam que todo magro é um “gordo em potencial” que só não engorda porque “se cuida”.

Isso não é verdade.

A maioria das pessoas não é magra por trabalho de “manutenção”, mas sim porque são assim por genética e por constituição.

Quem não conhece aquela pessoa magrinha, que não engorda nem por decreto, mas se alimenta à base de frituras, abusa das drogas lícitas e é 100% sedentária?

Não se engane: ser magro não significa ter uma vida saudável.

4) Saúde vai muito além de peso/medidas

Muita gente tem na cabeça que ser gordo é ruim e ser magro é bom. Mas conforme já foi dito, a questão da obesidade ser doença é algo muito discutível.

Precisamos ter uma visão mais integrativa do que verdadeiramente significa ter saúde. Ter uma vida saudável vai muito além de correr no parque e comer verduras. Saúde emocional importa. Saúde mental também importa.

Existe um estigma muito grande em torno do corpo gordo e a sociedade relaciona a obesidade com defeitos morais (gordo é preguiçoso, indisciplinado, negligente, guloso, sem autocontrole etc. etc.) – passar por estigma e discriminação ao longo da vida é um fator desencadeador de ansiedade, depressão, baixa autoestima e transtornos alimentares.

A televisão, os médicos, os nutricionistas e o governo dizem às pessoas gordas que elas devem buscar todos os recursos possíveis para deixarem de ser gordas (porque isso “não é saudável”). A mensagem é clara: emagreça ou morra tentando.

As pessoas não se darão por satisfeitas enquanto o gordo não deixar de ser gordo. Se ele deprimir, se ferir, se mutilar e/ou sofrer efeitos colaterais tentando emagrecer não importa porque o corpo dele é errado e precisa se enquadrar dentro do “aceitável”.

É paradoxal e triste, mas a sociedade massacra o gordo saudável e aplaude o gordo que emagreceu sofrendo e adoeceu no processo. Como já afirmei: isso não é sobre saúde. É sobre controle social.

As pessoas pensam em peso e medidas como os principais determinantes da saúde humana, mas o que verdadeiramente conta são os hábitos de vida.

Alimentação desregrada, alcoolismo, tabagismo e sedentarismo são os quatro principais fatores de risco para o desenvolvimento de doenças crônicas que MAGROS TAMBÉM PODEM TER.

Quer saber se uma pessoa tem saúde? Não pergunte sobre o peso. Pergunte sobre os hábitos de vida.

3) Todas as pessoas merecem viver com dignidade

Suponha por um momento que aquela gorda de biquíni que fez você se sentir incomodado realmente tenha várias doenças crônicas.

Suponha que aquela modelo plus-size realmente tenha diabetes e colesterol alto, exatamente como você supôs.

Por que raios isso significa que ela não pode usar biquíni, ir à praia, postar fotos, se divertir, usar roupas bonitas e aproveitar a vida como qualquer outra pessoa?

Nem todas as pessoas gordas estão doentes, mas SE estiverem, isso não é razão para se envergonhar, nem se esconder. Repulsa do corpo e baixa autoestima são coisas que não ajudam ninguém. Com nada.

Não faz o menor sentido acreditar que censurar gordas felizes ajuda alguém a ter saúde. É só preconceito, mesmo.

5) Ninguém reclama da influência da Top Model

Já que eu mencionei modelos gordas, vamos falar de modelos magras.

Não é segredo para ninguém que modelos têm uma vida dificílima. Todo mundo sabe que os contratantes e as agências cobram para que sejam muito magras, não importam os meios. Elas estão sempre abaixo do IMC “aceitável”. O corpo da Top Model desvia da “norma” assim como o corpo da pessoa obesa.

Mas quando a Top Model cruza a passarela todos dizem “Que linda! Que maravilhosa! É o corpo dos meus sonhos!”

Muitas mulheres que sonham em ter o corpo de uma celebridade fitness ou de uma Angel da Victoria’s Secret, não estão se importando nem um pouco sobre o que a OMS tem a dizer sobre isso.

Basta a gente publicar a foto de uma gorda que aparecem os paladinos da saúde pública que têm as estatísticas do aumento exponencial da obesidade na ponta da língua (“é uma doença! Não é questão de estética!”)

Anorexia nervosa também é uma doença… Mas dessa doença ninguém fala. Ninguém lembra das estatísticas. Ninguém se preocupa com a influência negativa das celebridades magras sobre as nossas crianças. Ninguém tenta derrubar fotos da Candice Swanepoel.

Tess Holiday é um mau exemplo para a população feminina que não pode deixar de “se cuidar”, mas São Paulo Fashion Week é o máximo.

Novamente: isso não tem nada a ver com saúde. Tem a ver com não gostar de gordos.

6) Emagrecimento é um negócio bilionário

Você já refletiu sobre o quanto é lucrativo dizer às pessoas que o corpo delas precisa ser mudado? Você já refletiu sobre o faturamento da indústria farmacêutica em cima de medicamentos para emagrecer? Ou sobre a quantidade de dinheiro envolvida no mercado da cirurgia bariátrica?

Estamos falando de muito dinheiro, pode acreditar.

giphy

Estamos imersos na cultura da dieta. E para continuar rendendo muito dinheiro, esta indústria depende diretamente do insucesso dos métodos. Nesta entrevista para o programa “Todas Juntas” falei justamente sobre isso.

Pessoas satisfeitas não são lucrativas. Pessoas felizes não são lucrativas. Pessoas em paz com a própria vida não são lucrativas. A insatisfação é a alma de todos os negócios. E existe muita gente capitalizando em cima do seu corpo e fazendo você acreditar em milhões de regras sobre como as coisas “devem” ser.

Claro que vai parecer que as pessoas que rompem com o sistema são as frustradas, as “mimizentas”, as fracassadas porque não foram competentes na tarefa de serem magras. Nós estamos lidando com um discurso muito bem construído elaborado por pessoas muito habilidosas na arte de vender valores.

“Saúde” como bem de consumo e como conquista pessoal é um conceito altamente rentável. Mas não tem nada a ver com saúde de verdade.

7) Quem ama cuida!

O principal argumento do pessoal anti-bodypositive é o alerta contra o autoabandono. Segundo eles, a pessoa que se aceitar irá automaticamente “se abandonar” e deixar de se comprometer com qualquer tarefa de autocuidado porque irão adotar um pensamento conformista.

Isso não é verdade.

A aceitação é um dos pilares do meu tratamento e até hoje eu não vi nenhuma pessoa se afundar na negligência após ter descoberto o amor próprio.

Simplesmente porque é uma coisa que não faz o menor sentido. Porque quem ama, cuida.

Por causa de valores ocidentais pautados na disciplina e na produtividade, crescemos acreditando que quanto mais nós não aceitarmos uma determinada realidade, maiores serão as chances de mudá-la. Muitas mulheres insatisfeitas com o próprio corpo acreditam que a aversão é o caminho para encontrar felicidade. Quando mais a gente se odiar, mais perto estaremos do corpo que desejamos – é uma crença doida, mas muita gente vive em função dela.

Mas aceitação não é conformismo.

Insatisfação, vergonha, repúdio, nojo, negação e inconformidade não ajudam ninguém a conquistar objetivo nenhum. Os sentimentos negativos só fazem a pessoa se sentir pior e a baixa autoestima pode, inclusive, evoluir para problemas mais graves como a depressão.

Talvez você seja uma dessas pessoas que passam a vida odiando o próprio corpo. Pergunte-se: isso já ajudou de alguma forma? Fez com que você se sentisse melhor? Fez com que você adotasse práticas de vida saudáveis?

Aceitação não é abandonar o barco. É ter sabedoria. É saber escolher nossas batalhas. Muitas vezes a melhor opção é parar de dar murro em ponta de faca – e isso não é se entregar, mas sim aprender a fazer o melhor com as variáveis que temos.

Bodypositive é sobre encerrar a guerra contra si mesmo. É aceitar o que é impossível mudar e abraçar corajosamente o possível. De maneira alguma é algo que possa prejudicar a saúde de alguém.

O que verdadeiramente importa é defender práticas de vida saudáveis e seguras. Todas as pessoas podem buscar uma vida melhor – e isso não tem nada a ver com magreza.