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5 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Convidadas/ Destaque no dia 17.07.2017

Morar no exterior: a jornada de adaptação

Quem vê de fora só enxerga o lado glamuroso de morar no exterior. “Ai que chique”. “Meu sonho”. “Que sortuda”.

Sim, morar fora é incrível e eu recomendo pra todo mundo! Seja por um mês, durante as férias ou mesmo por um tempo maior. É um aprendizado infinito e um crescimento que acontece de forma acelerada – e que possivelmente fosse demorar bem mais se você não topasse essa aventura. Sim, porque mais uma vez, sair dela, a tal zona de conforto, é uma grande aventura.

Mas preciso dizer que não é tudo tão simples assim. Nem todos os dias são bons, os desafios são grandes e a tal adaptação pode demorar mais que o planejado. Isso sem contar na saudade, que será seu sobrenome a partir do dia que você embarcar para essa nova fase.

Eu já morei fora algumas vezes. A primeira com 18 anos, quando fui pra Barcelona e contei aqui todo o processo de auto-conhecimento e a descoberta da minha maior paixão: viajar. Mas nessa mesma viagem fui também pra Paris estudar francês e adivinhem? Não me adaptei e voltei pra Barcelona. Depois fui fazer um curso de verão nos Estados Unidos e foram semanas inesquecíveis. A adaptação foi bem mais fácil porque eu já tinha ido pra Europa sozinha. Aí uns anos depois resolvi voltar para Barcelona para um mestrado. Dessa vez a adaptação foi bem mais complicada… a passagem era só de ida mas acabei não fazendo o curso e uns meses depois resolvi desistir e voltar pra casa. E aí quando decidi vir pra Londres o pensamento era “já passei por isso antes, vou tirar de letra”. E adivinhem? Quebrei a cara.

Para começo de conversa, todas as vezes que eu fui embora, eu tinha um quarto me esperando quase que intacto. Dessa vez, como estava indo morar com meu namorado, a única coisa que minha mãe pediu foi que eu não deixasse nada no meu quarto – ela não queria ter a sensação de que eu iria voltar. Eu sei que se acontecer qualquer coisa ou se eu simplesmente quiser ou precisar: eu sempre terei a casa dos meus pais. Mas dessa vez eu sabia que seria diferente e que era um passo importante sair de casa oficialmente. Já voltei pra visitar e é claro que poucos lugares no mundo são tão meus como aquela casa.

O que eu não imaginava era que eu precisaria reconstruir toda minha vida do zero: desde onde comprar um prego até reencontrar minha personalidade em outra cultura.

Pode parecer meio bobo, mas se você sempre morou no mesmo lugar – ou só fez intercâmbios relativamente curtos – você nem pensa muito quando precisa comprar coisas do dia a dia tipo um prego. Mas e aqui na cidade nova? Onde vende pregos? Em que sessão do supermercado eu encontro superbonder? Ah! Preciso de papel celofane – onde encontro?

Isso sem contar com entender como funciona o transporte público, o sistema de saúde, o banco, as contas. E pão? Hmm vontade de comer um pão na chapa. Esquece, não existe padaria aqui como no Brasil. E um suco de fruta batido na hora? Ah tem uma lojinha de sucos bacana – é só pegar um metrô e um ônibus. E depilação? Unha? Cabelo? Ah cada coisa é num lugar diferente. Credo! Tudo isso pra fazer a unha? Obrigada mas vou fazer em casa. Onde amola alicate? Como fala água oxigenada em inglês? E amido de milho? E verruga?

Isso tudo é desafiador e aos poucos você vai aprendendo a se virar. Mas simplesmente tudo que você sabia as respostas e não perdia nem meio minuto para resolver, agora pode virar uma missão. Tem que reaprender, quase como uma criança.

Isso sem contar com redescobrir e reconstruir quem você é, fazer amigos e manter contato com o Brasil. É uma longa jornada para esse processo de adaptação de morar no exterior: para uns demora um pouquinho e para outros um montão. Tudo bem, cada um tem seu tempo!

Se eu puder compartilhar 3 dicas que aprendi sobre esse meu processo são:

1. Aceite que você vai ter problemas de comunicação (pela língua e pela cultura) – e tudo bem, tenha paciência com você mesma! Ainda que você conheça bem o país e fale a língua sempre vai ter alguma questão de comunicação: seja uma piada mal entendida, uma palavra que você não conhece, uma expressão que você não entendeu. Com o passar do tempo (prometo!) você vai quebrar essas barreiras de linguagem e entender através dela melhor a cultura local.

2. Crie uma rotina e não fique em casa: se você ainda não começou seu curso ou se ainda não encontrou seu trabalho, não importa qual seja sua situação. Saia de casa constantemente, dê uma volta no parque todos os dias, seja local em algum café, matricule-se (e vá) numa academia, qualquer coisa – crie hábitos que te tirem de casa para ver gente e viver. Ficar em casa de pijama vendo netflix não vai te ajudar.

3. Faça amigos! Toda e qualquer amizade é bem vinda nesse processo: o meu primeiro amigo foi o moço da lavanderia que eu ia 1x por semana – um fofo! Converse com as pessoas, puxe papo, procure brasileiros e os convide para tomar um café, faça amizade no bar, no café, no metrô! É muito importante estabelecer uma rede de contatos no seu novo lar. Se forem locais vão te ajudar com a nova cultura. E se forem estrangeiros como você poderão te ajudar com dicas de adaptação e dividir com você as angústias e conquistas!

A partir do momento que você aceitar que está em fase de adaptação tudo fica mais fácil e você começa a se permitir mais fazer escolhas que vão te ajudar nessa jornada!

Boa sorte!

2 em Comportamento/ Experiência/ Futi em NYC no dia 04.05.2017

Minha Nova York desromantizada

Sabe quando você chega em uma cidade e se imagina morando ali? Eu sempre gostei de conhecer um lugar novo enxergando pela ótica de um morador. Será que essas ruas tão gostosas de passear são legais no dia a dia? Será que esse restaurante que todos os turistas indicam também é queridinho de locais? Será que aquele cenário de filme continua inspirando quem passa por ele toda semana há não sei quantos anos?

Se tem uma cidade do mundo que eu romantizava, sempre foi Nova York. Todo filme ou série que eu via e era ambientalizada aqui, eu suspirava. Imagina morar nesse apartamento super aconchegante (isso quando eu tinha uns 15 anos e não tinha a mínima noção que os apês de NY são famosos por serem caixas de sapato)?? Imagina morar nesse prédio com escada na frente, tipo o da Carrie? Imagina passar o Natal com aquele clima de Milagre na Rua 34 com Escrito nas Estrelas? Imagina ter a 5a. av do lado da sua casa? E todas as lojas mais maravilhosas? E os museus? E as exposições que chegam todas? E o baile do MET? E cruzar com artistas de Hollywood na rua? Imagina, imagina, imagina??

Acho que essa empolgação toda explica o motivo da gente ter aceitado embarcar nessa aventura rumo à cidade número 1 dos meus sonhos, né? E foi já nos preparativos que a minha desromantização começou a acontecer.

Foto pela minha amiga Aninha <3

Pra começar, prédio da Carrie? Esquece. Com criança as escadas não ajudam – e não é comum ter elevador nesses prédios. E ai a dica de ouro de uma amiga: pega prédio com estrutura, que tenha academia para você ir de fato e brinquedoteca pra entreter a criança no inverno. Mas aí, Carla, é melhor esquecer Manhattan. Esse tipo de prédio costuma ser caríssimo mesmo os apartamentos pequenos. Fomos pesquisar e não deu outra, e lá se foi o sonho de morar na ilha e ter na esquina de casa todas as cenas dos filmes novaiorquinos que mais amei.

Que bom que esse era o tipo de sonho adaptável e totalmente negociável, e foi assim que acabamos descobrindo Williamsburg, bairro que está crescendo a olhos vistos, cheios de restaurantes legais, lojas bacanas, parques deliciosos e Smorgasburg. Não to na ilha mas estou em um bairro muito bom de se morar, cheio de crianças e cachorros e ainda tenho um dos skylines mais famosos do mundo da minha janela. E o melhor? A uma distância de Manhattan de 2 minutos e meio por metrô (e mais ou menos 15 indo de barca). Hoje não sei se gostaria de morar do outro lado do East River, acho barulhento e caótico e apesar de amar passear por lá, passei a enxergar pela ótica de uma mãe que ficaria genuinamente desesperada se ambulâncias e carros de polícia ou bombeiros resolvessem passar gritando pela minha janela na hora que o Arthur estivesse dormindo. #desesperos

Outra desromantização que tive: “primeiro mundo tudo funciona e as pessoas são civilizadas”. De fato é verdade em vários casos. O consumidor é extremamente respeitado, o delivery é muito eficiente e não nego que é uma liberdade maravilhosa você poder andar na rua com o celular sem medo de ser roubada, ou abrir seu laptop em uma mesa na rua ou no parque e trabalhar em um ambiente mais agradável (meu sonho a ser realizado assim que o Arthur começar a escolinha rs).

Mas metrô quebra, atrasa, grávidas, pessoas com bebês de colo, idosos e deficientes não têm preferencial, uber cancela corrida e se você passar mal durante a noite, tem que esperar até de manhã para ir em um Urgent Care, porque emergência de hospital o plano não cobre. E não é porque não botarão uma arma na sua cabeça que você está imune de furtos. E atentados terroristas? Eu, que nunca pensei em ter medo disso quando morava no Brasil, hoje tenho pavor. Aliás, devo culpar os filmes por isso, afinal toda cena de fim do mundo a primeira cidade a ser atacada é justamente Nova York.

Já cruzei com gente solícita e simpática, mas já cruzei com gente que olhou para a cara do meu filho como se fosse proibido crianças no local (não era). Já vi uma mulher passar de short mega curto em frente a uma obra, todos os peões olharem e ninguém proferiu uma gracinha ou “fiufiu” sequer, mas já fui abordada por uma pessoa esquisita que botou o dedo na minha cara e gritou palavras incompreensíveis. Já pedi ajuda porque a roda do carrinho do Arthur caiu no trilho do metrô e, por estar atordoada e não saber dizer a localização exata de onde a rodinha caiu, recebi de volta gritos nervosos exigindo que eu soubesse o lugar que a roda caiu – e se não fosse um policial pra me ajudar, provavelmente teria voltado pra casa chorando e com um carrinho com 3 rodas. Já fui ajudada quando o Arthur jogou um brinquedo pra fora do carrinho, assim como já fui xingada por ter parado no meio da rua por causa da mesma situação. Tem de tudo.

Fico com desejo de várias comidas brasileiras (alô pão de queijo, queijo coalho, açaí, pastel) e ainda não me acostumei com o jeito de fazer unhas aqui, quase sempre caro e mal feito. Inclusive estou tentando aprender a fazer a unha em casa, mas ainda sai um desastre. Tem dias que eu não ligo e fico com unhas mal pintadas, outros dias morro de raiva porque não consigo fazer direito. A depilação vence diversas vezes depois do verão porque falta coragem de tirar os pelos em uma temperatura próxima a 0 e sem perspectiva de biquini. Tem sido um verdadeiro exercício para a minha autoestima lidar com isso tudo, inclusive.

E aquela sensação de chegar em casa depois de um dia cansativo e encontrar tudo limpo e arrumado? Esquece. Serviço doméstico é caro e pesa demais no orçamento, então ou você mete a mão na massa ou você deixa a casa bagunçada. Acho que esse é o tipo de incômodo que afeta mais diretamente os brasileiros, já que sempre fomos acostumados à diaristas e domésticas. Olhando pelo lado bom, você se torna uma pessoa menos dependente, mais prática e organizada também.

E as saudades? Não é fácil ver sua família fazendo aniversário, comemorando dia das mães, dos pais, Natal e outras datas importantes e você não poder estar junto fisicamente. Você entra no whatsapp e vê seu grupo de pós combinando encontros e você só fica com vontade, vê suas amigas comemorando conquistas que você terá que brindar à distância, filhos de um casal que você ama nascendo, reuniões e eventos do blog acontecendo que eu fico sabendo pela Joana. Enfim…é uma eterna vontade de querer se teletransportar ou de virar duas. Até da comida tenho saudades.

Morar em Nova York é incrível mas tá longe de ser o cenário chic e glamouroso que tanta gente imagina quando eu falo onde moro. Inclusive, parando pra pensar, se tem uma cena que descreve a vida em NY é a entrada de Sex and The City, quando a Carrie está passeando pela cidade toda sonhadora e leva um banho do ônibus. rs

Lembro que assim que eu me mudei, eu olhei para a cidade e prometi a mim mesma manter a inquietação e a curiosidade que eu sempre tive quando vinha como turista. Não é sempre que eu estou conseguindo manter essa promessa porque acabei aprendendo na marra que morar e ter uma rotina na cidade é bem diferente de passar alguns dias de férias. Eu tive que aprender a desromantizar tudo que estava na minha cabeça. Mas a verdade é que eu estou amando cada segundo que estou passando aqui, inclusive aqueles que eu estou com o coração doendo de saudades ou chorando porque estou aprendendo na marra e na experiência a amadurecer como mãe e também como mulher em uma cidade que não é a que eu cresci ou a que eu aprendi a viver, tampouco as pessoas falam minha língua natal (por mais que não seja difícil cruzar com brasileiros).

Como minha mãe fala, é aprender a lidar que cada escolha que fazemos, fazemos também uma renúncia, ou muitas. E aceitar a lidar com elas para aproveitar a vida nova, no novo lugar. E estou aprendendo cada dia mais um pouquinho. :)

Outro post nesse estilo muito bom foi o que a Laura Peruchi fez sobre coisas que ela escuta quando diz que mora aqui, tem parte 1 e parte 2.