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0 em Autoconhecimento no dia 12.09.2018

À “não lista” dos 30

Acredito que todo mundo, em algum momento da vida, já fez uma lista, ainda que imaginária, de coisas que gostaria de fazer até X anos. Não fugi à regra e, há alguns anos, junto com uma amiga, enumerei 30 coisas para realizar antes dos 30.

A dois meses de completar essa idade representativa, posso dizer que não fiz metade do que listei. E isso é algo ruim? Definitivamente não!

Posso não ter voado de balão na Capadócia (ainda!) e nem ter tirado carteira de condução (isso não quis de jeito algum, mesmo com todas as cobranças). Mas quantas coisas mais eu fiz e que sequer pensei em colocar em uma folha de papel porque jamais cheguei a sonhar com elas?

Eu, por exemplo, quando escrevi aquela lista, não poderia imaginar que estaria hoje elaborando esse texto da mesa da minha nova casa, em um novo país. Tampouco que aprenderia a aceitar e até amar as minhas fraquezas (nada como uma década de terapia também, devo confessar).

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O ser humano tem uma mania, algo ainda mais forte nessa nossa geração, de projetar cenários ideais. Isso, inevitavelmente, gera frustração e é um dos motivos da ansiedade que toma conta da nossa cabeça. Tudo bem não sermos os mais bem sucedidos do nosso círculo de amigos, tudo bem sequer saber o que fazer da vida, tudo bem também querer recomeçar sempre.

Realizar metas que nos propusemos a fazer é ótimo, não há como negar. No meu caso, foi emocionante – e divertido – fazer topless no Mediterrâneo, algo que havia deixado registrado naquela tal lista. Mas sabe o que é ainda melhor? Ser surpreendido pelo inesperado!

Nem sempre o caminho é fácil e admitir fraquezas e fracassos é ainda mais difícil. Mas se tem algo que os 30 trazem também é a coragem de poder lidar com isso. Já nos conhecemos melhor, há uma maior autoconfiança, e não temos aquela sede incontrolável – e muitas vezes inconsequente – dos 20 e poucos.

Em uma hora, devemos desacelerar para escolher o caminho mais seguro. Em outras, podemos nos arriscar naquela estrada que nunca antes percorremos. Em cada uma dessas andanças, a paisagem nunca será a mesma, nem mesmo as histórias ali vividas. Mas uma coisa elas sempre terão em comum: o fato de trazerem novas experiências para nós.

Se fosse criar uma nova lista de “Coisas a fazer durante os 30 e tals”, apenas um item faria parte dela: “me permitir”. Com isso, me abro para novas vivências, para descobrir uma nova eu, mantendo, claro, a minha essência.

Posso garantir que nunca estive mais segura de mim e, só por isso, os 30 já são incríveis! Que essa nova década seja mais do que bem-vinda, porque tem uma mulher aqui dentro de mim louca para vivenciá-la e aprender com ela!

0 em Autoconhecimento/ Autoestima no dia 11.09.2018

O 11 de setembro e o espírito inquebrável que me inspirou

11 de setembro. Tenho certeza que todo mundo que está lendo lembra dessa data, lembra do que estava fazendo na hora que recebeu a notícia do ataque às torres gêmeas.

Eu lembro. Estava com 15 anos, saindo do colégio e vi um aglomerado de gente em frente ao barbeiro do lado, que até hoje está de pé, por mais que a maior parte de lojas e estabelecimentos ao seu redor tenham se transformado em outras coisas. Bem na televisãozinha de tubo de 29 polegadas que estava ligada dentro do barbeiro, lembro como se fosse ontem da imagem de um avião entrando em uma das torres do World Trade Center, e dos repórteres da Globo com um semblante serio. Não dava para ouvir, nem consegui ver direito, mas sabia que o que estava diante dos meus olhos era algo marcante.

Corri para casa (que era na mesma rua do colegio) a tempo de ver o segundo avião se chocando contra a segunda torre. Dos dois prédios caindo. Todo mundo acompanhava estarrecido, sem entender direito o que estava acontecendo. As imagens em looping passando em todos os canais da televisão.

A vida seguiu, e apesar de eu sempre ter lembrado do atentado quando chega essa data, desde que vim morar aqui em NY ela ficou ainda mais marcante. Da minha sala e do meu quarto eu consigo ver o One World Trade Center, o prédio que foi construído no mesmo lugar das Torres Gêmeas e que até hoje tem serias dificuldades de vender suas salas comerciais. Na verdade, enquanto eu escrevo esse texto, eu olho para frente e o vejo, imponente, angulado e cheio de significados e história. E não consigo parar para pensar que se eu estivesse aqui em 2001, eu teria visto tudo da janela da minha casa.

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Porque a verdade é que até visitar o Museu do 11 de setembro e até mesmo o Museu do Trânsito – que tem uma área inteira dedicada a nos mostrar cada instante e cada tomada de decisão do MTA no dia do atentado, com direito a fotos, vídeos, depoimentos de pessoas que trabalharam no dia e até mesmo aúdios – uma parte de mim preferia acreditar que tudo não passava de um filme. Algo que marcou mas que não aconteceu de fato. Essas duas experiências que eu citei têm um poder de imersão enorme, tanto que é impossível não andar pelas ruas do Financial District ou entrar na Igreja ao lado do WTC e que sobreviveu aos escombros e não imaginar como deve ter sido no fatídico 11 de setembro de 2001. Aeroportos fechados. Todas as linhas de metrô paradas. Nenhuma linha de telefone funcionando. Pessoas andando meio sem rumo pelas pontes, porque andar à pé era a única forma de evacuar a vizinhança. Crianças tiveram que ficar nas escolas porque seus pais não conseguiam chegar para busca-las. Ninguém conseguindo falar com seus entes queridos. Eu não conseguia dimensionar o tamanho do caos até vir morar aqui de fato (apesar de achar que quem visitar o Museu do Trânsito vai conseguir ter essa dimensão).

Mas não só é isso. Nesse dia os moradores ficam mais introspectivos. Os cumprimentos saem menos felizes, os papos casuais são mais curtos, as bandeiras americanas ficam mais presentes, as pessoas relembram nas redes sociais, a televisão e os jornais não nos deixam esquecer o dia de hoje, e dependendo do lugar, rir é até sinal de desrespeito. Não dá para ter uma história dessas na memória e agir como se esse fosse um dia qualquer.

Hoje à noite, se o tempo permitir, conseguirei ver de camarote o Tribute in Light, uma obra de arte onde dois feixes de luz saem do lugar onde eram os prédios e se estendem aos céus por cerca de 6 quilômetros, podendo ser vistas de um raio de 100 quilometros. Praticamente um holograma das Torres Gêmeas. O objetivo é honrar os mortos e celebrar o espírito inquebrável de Nova York. Espirito inquebrável. Até o momento eu não sabia muito bem por quê estava escrevendo esse post, acho que olhar a minha vista me deixa nostálgica e quis aproveitar a data, mas na verdade acabei de achar um outro motivo.

Desde que me mudei desconstruí muitos conceitos românticos que eu tinha da cidade. “Concrete Jungle were dreams were made of, there’s nothing you can’t do” (selva de pedras onde os sonhos são criados, não tem nada que você não possa fazer) me parecia um pouco distante quando olhava no espelho depois de um dia inteiro cuidando de tudo menos de mim. Quando queria aproveitar mais a cidade mas não conseguia. Quando via tantas coisas de trabalho acontecendo no Brasil e eu não podendo participar. Por um momento, inclusive, não queria me permitir sofrer por todas essas expectativas quebradas porque, afinal, estava sofrendo em Nova York. Onde já se viu, não é mesmo? 

Mas não posso negar, a cidade de fato tem um espirito inquebrável, e acho que ela passa um pouco dessa resiliência pra gente. Desde que eu me mudei eu amadureci, eu conheci lados meus que eu nem sabia que tinha, eu cresci. Muitas coisas que um dia eu sonhei em fazer aqui eu ainda não fiz, mas fiz tantas outras que eu nem imaginava, que o saldo é muito positivo no final. Eu ainda estou no meio do caminho da minha reconstrução. Sei que ainda vai demorar, mas eu não estou com pressa. E um dia, quando eu menos esperar, conseguirei criar meu próprio feixe de luz que ilumina tudo ao meu redor.

2 em Autoconhecimento/ Comportamento/ Destaque/ Futi em NYC/ NYC no dia 15.02.2018

NY com o pé no chão (literalmente)

Antes de começar, queria fazer uma pergunta: qual a primeira imagem que vem na sua cabeça quando você associa a palavra fashion à Nova York? Se você, assim como eu, pensou em um repertório de fotos de mulheres super estilosas andando em saltos vertiginosos com os prédios de tijolos e escadas externas desfocados ao fundo, então estamos no mesmo caminho. Mais ou menos isso aqui:

Essa é a Luisa Accorsi, e eu piro nesse look dela toda vez que eu vejo.

Essa é a Luisa Accorsi, e eu piro nesse look dela toda vez que eu vejo | Foto: Michelle Cadari

A Nova York da NYFW até permite essas “””extravagâncias”””. Há exatos 4 anos, inclusive, eu realizei esse meu sonho de princesa de fazer uma foto fashion em plena Times Square, com uma bota salto 10. Hoje vejo a Carla daquele dia e falo: “onde você estava com a cabeça de andar em cima da neve com uma bota desse tamanho, sua irresponsável? Você podia ter levado um tombo, maluca!” Mas olho para esse dia com carinho, afinal, se tinha um momento para eu experimentar a Nova York glamourosa que eu fantasiava, era esse. E eu aproveitei, ô se aproveitei.

Sabem que NY é essa? Aquela que O Diabo Veste Prada retratou e Gossip Girl ou Sex & the City reafirmaram o status. E em tempos de NYFW, quando as timelines pipocam de pessoas cheias de estilo cruzando ruas, paradas em frente a taxis amarelos e muitas ainda andando por aí em cima de saltos 10+ (to dando graças a Deus que tenho visto tênis, rasteiras e afins com muito mais frequência) como se isso fosse a coisa mais confortável do mundo, é normal que essa fantasia volte a aparecer.

Só que a NY do dia a dia não é uma cidade para saltos. Muito menos para sapatos desconfortáveis. Sabe, aqueles que a gente bota porque sabe que vai sair do carro, sentar e entrar no carro de novo? Aqui, a não ser que você viva de Uber ou tenha um motorista, eles viram peso morto no armário, assim como scarpins, sandálias de salto agulha e peep toes que te deixam 12 cm (ou até mesmo 8, pelo menos para mim já fica desconfortável a partir daí) mais alta.

Em uma cidade onde andar 20 blocos não é considerado uma distância grande, em uma metrópole com escadas de metrô a cada metro quadrado e com uma população apressada que parece estar sempre atrasada (inclusive nos finais de semana!), tentar se equilibrar em cima de sapatos altíssimos é um verdadeiro desafio – e uma oportunidade de irritar os novaiorquinos apressados, que provavelmente passarão por você te xingando mentalmente por estar atravancando o caminho.

Nessas horas me pergunto por que não aprendi mais com o estilo de Seinfeld, Friends ou até mesmo Girls.  Claro, essas séries nunca foram voltadas para o lado glamouroso da vida novaiorquina, mas acho que eu só tive a plena noção que a realidade deles faz muito mais sentido para a maior parte da população que mora aqui do que qualquer cena de SATC ou GG, depois que passei a encarar a rotina da cidade.

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Nesse tempo que estou aqui, deixei meus saltões para lá, encostados, quase sem uso e sem função, na esperança que um dia surja algum evento que faça sentido tirá-los do armário e encarar a dor na panturrilha que desencadeia depois de meia hora em cima deles. Enquanto isso, abri espaço para oxfords, mocassins, rasteiras, mules, botas e tênis, muitos tênis. E sendo muito sincera? A oportunidade de tirar poeira de algum salto até já surgiu, mas se existia a possibilidade de ficar o mais confortável possível, eu a agarrei.

Inveja do closet da Carrie Bradshaw? Não tenho mais. Acho que depois que a gente bota os pés no chão (literalmente e figurativamente), fica difícil querer outra coisa.