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morar fora

5 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Destaque/ Estados Unidos no dia 01.12.2017

Sobre se perder… e (ainda) não se encontrar

Você já se deparou com algum texto ou depoimento de superação? Sabe, aqueles que a pessoa descreve algum período complicado na sua vida, como essa fase foi difícil, mas como hoje, após todo esse acontecimento, a pessoa está mais forte, mais preparada, e muito mais feliz?

Eu mesma já fiz esse discurso inúmeras vezes: como me mudar para os EUA foi difícil, como largar meu emprego, minha família, meus amigos, meu cachorro foi complicado, mas que, graças a Deus, eu estou bem agora.

Mas percebi que não é verdade. Eu me perdi…. e ainda estou perdida. Me perdi e estou levando um ano e meio    e contando –  para me encontrar de novo.

Me perdi com relação às minhas amizades – Eu amo meus amigos, não se engane. Mas  sempre fui a amiga que ia atrás, que morava na Zona Leste e não se incomodava – para facilitar a vida de todos os envolvidos – de ir no Bar na Paulista ou no restaurante no Itaim, que não se importava de, depois de 16h horas de trabalho, passar na casa dos amigos e conversar por mais algumas horas, mesmo numa terça-feira chuvosa. Mas quando você está há 9,271 km de distância e com 5h de fuso horário a menos, não é tão fácil assim ir atrás. Mas difícil mesmo é, esperançosamente, aguardar que venham atrás de você, já que  – agora vc percebeu – que quase nunca foi assim.

Me perdi com relação ao meu trabalho – como já descrito no texto anterior sempre fui extremamente workaholic e sempre tive muito orgulho disso. Sem contar que, mesmo trabalhando uma média de 16h por dia e ganhando bem mal para uma advogada pós-graduada em São Paulo, eu REALMENTE amava meu trabalho. Poderia ser advogada aqui? Sim – bastaria uma adaptação de currículo de mais de 3 anos e prestar o BAR exam (OAB daqui dos EUA) em cada estado que fosse exercer a profissão (só nesse 1 ano e meio que estou aqui já morei em 3 estados diferentes).

Mas vamos nos reinventar, não é mesmo? VAMOS! Comecei um pequeno instagram vendendo itens de papelaria, os quais levo para o Brasil de 6 em 6 meses. Paralelamente, ainda fazia alguns trabalhos pontuais para escritórios de advocacia em SP e, por fim, como fico em casa, passei esse ano fazendo trabalho como Pet Sitter. Juntei um dinheirinho… mas não é isso que eu queria fazer. Não sei o que quero fazer.  Não sei o que quero fazer. 

Me perdi com relação à coisas que me inspiram – quando fui apresentada à esse blog e convidada a escrever sobre minha experiência nos EUA, eu fiquei MUITO animada. Escrevi o primeiro texto em 1 hora e amei quando foi publicado. Escrevi mais alguns e, como num passe de mágica, não vi mais sentido em enviá-los afinal, quem é que se interessaria no que euzinha tenho para falar?

Me perdi com relação à quem eu sou – afinal, meu nome é Mariana, e sou advogada. Não é isso? Nós somos o que nós fazemos, não é? E eu não tenho feito nada demais.

Queria deixar uma coisa bem clara: eu AMO morar aqui, com todas as dificuldades e belezas que incluem morar fora. Eu não me arrependo um minuto da decisão que tomei de vir para cá e todo dia acordo e agradeço a Deus essa oportunidade.

Mas muito embora eu esteja sim feliz, ame o lugar que eu moro e agradeça sempre… eu tenho que ser honesta e reconhecer que sim, eu estou perdida.

E não importa o quanto eu tente explicar ou desabafar, as coisas ainda não estão melhorando…por enquanto.

Mas o que quero trazer com esse texto é: não tem problema eu estar perdida. E não tem problema admitir que estou perdida. Todo mundo que posta textão falando como superou suas dificuldades estava nesse mesmo momento que eu estou agora… só não queria escrever textão sobre isso.

Pois hoje eu quis. Eu quis porque hoje eu precisei muito das pessoas que eu amo perto de mim e não tinha ninguém para me ajudar – não porque as pessoas são ruins, e sim simplesmente porque ninguém vive em minha função. Então eu resolvi escrever…  escrever quase um ano depois do meu primeiro texto (sorry again, Cá e Jô) porque hoje isso fez sentido para mim.

Então é isso – a gente se perde, cai, chora, sofre… para depois um dia se encontrar, se reencontrar. Eu tenho muita fé e vontade de fazer tudo isso dar certo. E espero escrever em breve o meu textão de superação.

1 em Autoconhecimento/ Comportamento/ Destaque/ Futi em NYC no dia 28.11.2017

O dia que meu olho voltou a brilhar

Já contei por aqui o quanto a vida novaiorquina não tem nada daquilo que romantizamos ao vermos filmes, séries e músicas sobre a cidade. Contei também como eu levei um tombo ao entender que a minha realidade era bem diferente do que eu sonhava.

Um dos meus principais tombos se deu por causa dela, a moda. Lembro muito bem quando eu decidi focar nessa área quase no final do meu curso de Design. Meus olhos brilharam como nunca antes. Um ano antes de me formar comecei a mudar escolhas de cursos na faculdade e decidi fazer do meu projeto final uma coleção de estampas.

Assim que me formei, tracei um plano de vir para Nova York fazer uma pós graduação no FIT. Achei o curso que queria fazer, preenchi todos os formulários, fiz o Toefl, consegui a nota para entrar no curso, fui para Nova York só para pegar a papelada, fui na palestra agendada para falar sobre as inscrições mas….não aconteceu. Outros planos se tornaram prioridade e deixei essa ideia de lado.

Aquele momento que você realmente respira moda e arte quando anda pela rua e se depara com esses outdoors pintados à mão. Quem não conhece o trabalho da Colossal, que fez esse da Gucci que eu tirei a foto, precisa dar uma olhada! Eu sempre fico fascinada.

Um ano depois de formada, já trabalhando com design de estampas, o Futi nasceu com um propósito: nos botar em contato com a galera da moda para ver se a gente conseguia se inserir no mercado. Trabalhamos com marcas que sempre admiramos, fomos à incontáveis desfiles (inclusive internacionais, inclusive aqui em Nova York!), festas, vimos de perto sapatos serem feitos, bolsas serem criadas, conhecemos pessoas incríveis que nem nos nossos sonhos pensamos que cruzaríamos. E o olho brilhando continuou lá, mas um brilho um pouco mais cansado. Alguns anos vivendo diretamente os bastidores e descobrindo verdades inconvenientes pode dar uma desanimada mesmo, é normal.

Cheguei em NY e não nego que a primeira coisa que pensei foi, novamente, MODA. Essa é uma cidade onde tendências são criadas, coleções são lançadas, as vitrines mais exuberantes do mundo são montadas, exposições acontecem, os principais nomes moram (ou têm um apartamento) aqui. É óbvio que eu seria engolida por ela sem nem pensar.

Mas não.

Eu não me atentei que a vida de mãe me engoliria de uma tal forma que eu me perderia de mim mesma. Foi 1 ano dedicado integralmente ao Arthur, dividindo todo o trabalho que é cuidar de criança e casa apenas com o pai. 1 ano onde eu morei em Nova York e contei nos dedos os momentos que me trouxeram a verdadeira empolgação de morar aqui. 1 ano onde o brilho nos olhos que eu tinha em relação à moda sumiu porque eu não tinha tempo de apreciá-la, estudá-la e até mesmo admirá-la. Logo onde, né? Que ironia.

Até que semana passada eu fui convidada para participar de um passeio guiado pelo Soho (obrigada, @dig_ny). Aceitei o convite porque eu achei que um dia diferente me faria bem, mas confesso que achei que ia ser aqueles passeios clichês, com lojas que todo mundo já conhece.

A proposta da tour, conduzida pela personal stylist Marcia Crivorot, era justamente nos levar em lugares menos convencionais cuja experiência de compra fosse diferenciada (se vocês quiserem, posso contar melhor sobre isso em outro post). Entrar em contato com aquele cenário pulsante, cheio de novidades e inovações foi uma das melhores coisas que eu fiz por mim nesse 1 ano e meio aqui. Ver que as coisas estavam acontecendo apesar da minha ausência e sentir a paixão dela ao contar das marcas, mostrar detalhes, contar curiosidades e nos apresentar tanta coisa bacana foi acalentador.

Terminei o dia leve, feliz, me sentindo eu novamente e com os olhos cheios daquele mesmo brilho forte e reluzente que eu tinha em 2008. Com a criatividade pulsando e a cabeça à mil (mas de um jeito bom). Foi um fôlego necessário para poder voltar à vida normal de mãe/blogueira/dona de casa – que foi intensamente caótica nos dias que se seguiram, já que teve feriado (ou seja, filho sem aulas) e marido viajando, tudo de uma vez só. As vezes a gente tem que fazer isso para voltar aos eixos, e eu agradeço por não ter negado esse convite.

Dá para notar a minha cara de “aqui é o meu lugar”? Porque para mim transpareceu nessa foto hahaha

Eu não sou mais a Carla com os mesmos sonhos de 10 anos atrás, nem com os mesmos objetivos, mas ter reencontrado a Nova York que eu imaginava desde que cheguei aqui – nem que fosse apenas por 1 dia – foi maravilhoso.

5 em Autoconhecimento/ Comportamento/ Estados Unidos/ Futi em NYC no dia 06.11.2017

Uma Nova York desromantizada

Faz um tempo que eu tenho notado que toda vez que eu falo que moro em Nova York, já vejo as engrenagens da cabeça da pessoa girarem, pensando em tudo aquilo que imaginamos quando o nome da cidade surge.

Nova York é romantizada, inclusive, diria que é mais romantizada até do que a maternidade, assunto que eu falo tanto por aqui. É a selva de pedras onde os sonhos se tornam realidade, onde “se você consegue se dar bem aqui, consegue se dar bem em qualquer lugar”. A cidade das comédias românticas, dos filmes de heróis, do luxo da moda, a cidade que nunca dorme (mentira, e vai dormir cedo ainda por cima), onde tudo pode acontecer. É glamour, é chic, é um sonho.

Eu caí nessa armadilha. Eu me apaixonei e caí de joelhos pela ideia que eu tinha da cidade, tirada de tantos lugares e tantas outras visitas que eu fiz à Big Apple. Quando meu marido recebeu a proposta de trabalhar aqui, quando o Arthur estava prestes a nascer, o coração bateu mais forte. Imagina que incrível? N-O-V-A Y-O-R-K.

A diferença é que, assim como a maternidade, descobri que toda a expectativa que eu tinha fez com que eu levasse um baita tombo. Logo eu, que tento sempre evitar as malditas expectativas.

Consegui me reerguer desse tombo quando admiti para mim mesma que a cidade é incrível, mas ainda não é minha casa. Descobri nessa minha última estadia em SP que meu coração ainda é muito apegado à Terra da Garoa e à vida que eu construí lá. Me vi percorrendo ruas tão familiares, vendo pessoas tão queridas e por um segundo achei que nunca tinha ido embora, que iria sair do restaurante e voltar para o aconchego do meu apartamento. E para vocês verem que NY é romantizada, fui comentar isso assim que cheguei em terras paulistanas e tive que ouvir: “nossa, que pobreza, você mora em NY e tá sentindo falta de SP?”

Não vou dizer que Nova York não é incrível. É. Cidade rica culturalmente, pulsante, inspiradora em diversos sentidos. O senso de comunidade é grande, de um jeito que eu nunca tinha visto morando no Brasil. Até hoje eu olho para a minha janela, dou de cara com o skyline mais famoso do mundo e penso: “eu to aqui mesmo?” Reconheço meu privilégio, agradeço todos os dias essa oportunidade que só tem me feito crescer, um crescimento que eu sei que nem em 15 anos morando no Brasil eu não teria.

Só que as pessoas não falam a minha língua, elas são mais apressadas e menos calorosas. As ruas são mais barulhentas, é muita luz, muito som, muito movimento, vindo de todo lugar. É lindo quando você está de passagem, mas cansativo quando os meses vão passando. A primeira neve é linda, mas ficar mais da metade do ano sem poder botar as pernas de fora ou uma sandália é difícil para quem cresceu no inverno quase verão do Rio de Janeiro. Os amigos existem (e são minha salvação) mas eu sinto falta de todos os outros que eu deixei pra trás. Quando eles combinam algo pelo whatsapp, então, dá vontade de criar um teletransporte urgente para estar com eles em 2 minutos. Saber que os avós e a única bisavó do Arthur estão acompanhando seu crescimento à distância dói o coração mesmo.

Se sentir falta de tudo isso é pobreza, prefiro continuar com esse espírito então. Nunca trocaria esses sentimentos por uma cidade que inspira um glamour que, para a grande maioria da população que vive aqui, não condiz com sua vida real.

De pouquinho em pouquinho vou me recuperando do tombo, botando meus pés realmente no chão e vendo a cidade com olhos mais carinhosos e verdadeiros. Esquecendo comédias românticas e ignorando Franks Sinatras para realmente escrever a minha história dentro desse lugar.