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3 em Autoestima/ maternidade/ Moda no dia 07.06.2018

A maternidade é culpada pela mudança de estilo?

Cada vez mais eu evito me comparar. Como sempre falamos por aqui, cada pessoa tem sua realidade, seu processo de amadurecimento e seu tempo diferentes, então ficar se medindo pela régua alheia é quase sempre uma receita para o fracasso.

O fato de sermos duas aqui no Futi, as vezes faz com que a gente se compare – ou que nos comparem. Mas já são 8 anos dessa estrada e tanto eu como a Jo estamos muito certas de quem somos e quais papéis ocupamos nesse nosso trabalho, então isso não nos afeta.

Mas recentemente não pude deixar de comparar, mas não em um sentido ruim. Comparei achando engraçado – e bonito – essas voltas que a vida dá. Lembro que lá no começo do blog, a Jo botava a responsabilidade fashion toda em cima de mim porque, segundo ela, seu estilo era muito clássico e feminino enquanto o meu era mais fashionista e alinhado nas tendências que as pessoas provavelmente gostariam de ver por aqui.

Para mim sempre foi super fácil ocupar esse papel porque moda é algo que me interessou a vida inteira. Porque a maior parte da minha vida eu fui mais consumista (e eu jurava que eu precisava consumir para ocupar meu cargo de blogueira, ai que besteira). Porque era natural olhar para o meu armário e pensar nas peças com carinho e nos looks com cuidado. Exercer minha criatividade ali, pensar em combinar tudo, até mesmo quando eu queria descombinar.

Até o dia que deixou de ser. Não sei bem que dia foi esse, mas sei que foi depois que me mudei para cá. O que é irônico, pois NY é A cidade para se estar quando o assunto é adquirir informação de moda. Não é mentira que você sai na rua e respira moda. As pessoas aqui têm uma liberdade de se expressar com as roupas que eu vejo em pouquíssimos lugares do mundo. Mas de alguma forma, o turbilhão de mudanças fez com que eu não conseguisse absorver todo esse conteúdo gratuito e diário que a cidade me oferece.

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Dizem que os interesses mudam depois que você vira mãe, e apesar de eu olhar com rabo de olho para quase todos os clichês sobre maternidade, tendo a acreditar nesse toda vez que vou para a rua no intuito de fazer compras e escolher algo para mim – e saio com alguma sacola para o Arthur.

Eu queria não culpar a maternidade por isso, mas a verdade é que quando eu leio o post que a Carol fez aqui sobre roupa de mãe, eu me enxergo na mulher que só quer saber de conforto e calças de moletom. Quando eu vejo o post da Adriana e leio sobre o exercício de desenhar quem eu vejo como mulher e quem eu vejo como mãe, eu imagino exatamente o desenho que está no post – e eu só me vejo ali, no segundo caso.

Olho para os looks das amigas e acho tudo lindo, ver a Joana entendendo que a moda pode servir para externar tudo o que ela tem de bom e ousando pela primeira vez na vida (e se achando nessa ousadia, o que é mais importante) me dá um orgulho daqueles. Mas nada disso sou eu. Não mais.

Logo eu, que falei para não perdermos nossa identidade, hoje não acho mais quem eu era no meu armário. Mas ao contrário do que parece, não estou falando isso como uma reclamação ou como um desabafo, a verdade é que eu não me vejo mais quando abro o meu armário porque eu não sou mais a mesma pessoa. Nem quero ser. Não mais.

Sim, eu acho que a maternidade tem sua parcela de responsabilidade (nem acho mais que é culpa) em toda essa mudança, mas hoje acho que a mudança no estilo em geral (do clima a meio de transporte) foi o que mais impactou no meu armário.

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Saltos e sapatos desconfortáveis foram perdendo a vez para mules, rasteiras e tênis. Até mesmo UGG, que eu jurava que nunca iria botar uma no pé, apareceu na minha sapateira (a bicha realmente é maravilhosa para o frio, fazer o quê). Blusas que amassam ou que são muito delicadas deram lugar a camisetas e peças que lavam com facilidade. Saias são raras, mas na verdade, tirando alguns períodos da minha vida, elas sempre existiram em menos quantidade entre meus cabides. Calças e shorts jeans sempre estiveram ali e continuam, mas hoje eles dividem o espaço com calças de moletom, algodão e até linho.

Boa parte do que eu trouxe para cá em 2016 foi para caridade e doações. Hoje não consigo comprar metade do que comprava antes, mas em compensação, o que eu compro atualmente faz muito mais sentido para quem eu sou hoje. Mesmo assim, a criatividade que vinha fácil e com boa vontade, não existe mais.

Tenho feito um esforço criativo em pequenas saídas, tipo pegar o Arthur na escola, por exemplo. Tem funcionado na tarefa de me ajudar a conectar com assuntos que eu sempre gostei, mas mais do que isso, tem me ajudado a sair desse limbo. E evito olhar para diversas mães que aparentemente não perderam o jeito para a coisa e me fazem sentir desleixada e preguiçosa.

Tem dias que eu acho que acerto e consigo criar combinações criativas. Outros dias me olho no espelho e detesto a falta de criatividade e paciência que são responsáveis por um look sem graça e sem razão de existir. E ainda tem algumas situações que nem criativa eu consigo ser, e aí desisto de tentar e saio com a roupa que fui para a academia mesmo. Nesses dias eu nem entro no instagram que é para não ver a mãe perfeita das redes sociais. 

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Ainda acho que devemos manter nossa identidade – porque é ela que nos segura e nos dá um eixo quando o turbilhão da maternidade chega – mas hoje vejo que mais importante que isso é mantê-la, mas respeitando quem nos tornamos e nossa realidade. Sem comparações com o que éramos antes, sem comparações com amigas e, principalmente, sem comparações com outras mães. Espero que eu absorva isso logo.

Fotos: Barbara – Babi.Studio

4 em Sem categoria no dia 05.06.2018

A mãe que não está sozinha

Estar em um lugar com seu filho ao mesmo tempo que você está rodeada de gente sem filhos, é um verdadeiro desafio. Socializar com uma criança que precisa de supervisão constante em um lugar pequeno e ambiente controlado é fácil, só que ninguém te prepara para o desafio que é estar em um lugar onde a diversão dos adultos não é a mesma que a das crianças.

A primeira vez que isso aconteceu comigo, eu tive vários sentimentos. De início fiquei feliz de vê-lo brincando com outras crianças, com outros brinquedos, se divertindo. Só que não demorou muito para eu querer voltar para a mesa, sentar e comer alguma coisa sem precisar ficar naquele ambiente onde a música da Galinha Pintadinha quase estourava meus tímpanos. E tirá-lo dali para irmos juntos para a mesa se tornou uma tarefa impossível, afinal, que criança em sã consciência iria querer sair da brincadeira para sentar numa mesa cheia de adultos, não é mesmo?

Resumindo: para ele, a noite foi maravilhosa. Para mim, foi um saco. Nunca imaginei que queria tanto socializar até entender que essa opção não existia.

A segunda vez foi até um pouco mais fácil, mas não menos maçante. Estava em um aniversário do amigo do meu marido, em um ambiente enorme e com muitos outros atrativos que não a mesa dos adultos. O lugar, inclusive, foi escolhido com cuidado pensando nos amigos com crianças. O único negócio é que foi pensado por alguém sem filhos que não imaginava que nessas situações existe esse isolamento natural de um dos pais, que fica com o cargo de correr atrás da criança. Nessa situação seria eu, afinal, queria que meu marido aproveitasse o aniversário do amigo dele.

Eu estava preparada para isso, e achei que o fato de não conhecer muito bem os outros convidados me faria sentir menos sozinha, mas não foi isso que aconteceu. Como únicos pais de crianças dessa faixa etária na mesa, não demorou muito para eu me ver ali, no meio da área onde a criançada brincava, parada perto do Arthur e tomando cuidado para ele não jogar as pedrinhas do chão para o alto e atingir outras pessoas e separando eventuais brigas por compartilhamento de brinquedos. Olhava para outras mesas e literalmente invejava cada pessoa que estava na sua roda de amigos, conversando despreocupada sobre qualquer amenidade, comendo e bebendo à vontade. Ao redor, outras mães com as mesmas caras de que preferiam estar em qualquer outro lugar do mundo do que ali.

Eu jurava que não seria a mãe que evitava certos programas, eu jurava que estava sabendo equilibrar muito bem meus mundos, eu jurava que estava tirando tudo de letra. Mas toda vez que tenho um programa desses eu entendo toda mulher que diz que se afastou de amigos sem filhos. Eu entendo a amiga que prefere mal sair de casa só para evitar a função de não ter vida social em um lugar cheio de vida social. Porque para a maior parte das mães esse tipo de programa é difícil, entediante e solitário, e para os amigos é preciso ter uma dose extra de empatia para perceber que a amiga sozinha ali no parquinho do restaurante pode fazer um bom uso da sua companhia, por mais que o lugar não seja tão confortável quanto a mesa da galera.

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Lembro de uma frase em um post da Ju Ali que me impactou. Ela dizia que se sentia amada quando seus amigos brincavam com seus filhos. Eu também, mas digo mais, me sinto muito amada quando vejo alguém disposta a pegar na minha mão nessa caminhada tantas vezes solitária chamada maternidade. Então, fiz esse texto para você, amiga sem filhos (poderia ser amigo sem filhos para o marido também, mas vou focar no feminino por esse blog ter 98% do público feminino).

Se você estiver em um lugar e notar uma amiga com filhos sozinha cuidando das crianças enquanto todo mundo está conversando, bebendo e comendo, vai lá. Leva algo para comer, para beber, mas principalmente, leva um papo qualquer, só para tirá-la por alguns minutos da função, distrair a cabeça. Você pode ter certeza que essa vai ser a melhor coisa que você irá fazer por sua amiga.

2 em Comportamento/ Convidadas/ maternidade/ Sem categoria no dia 31.05.2018

Sobre ser mãe, ser mulher e ser tudo o que você quiser.

Durante os anos de prática que tenho em atendimento de puérperas, uma das frases mais frequentes que escuto se assemelha a frase citada pela Carla na campanha Como se amar mais, feita pela Unimed-Rio: Porque ninguém me falou sobre isso antes? Eu não sabia que ser mãe era assim.

Costumo usar como um método de avaliação psicológica uma técnica de desenho. Peço para que as puérperas desenhem uma mulher e uma mãe e me contem uma história sobre cada uma delas. Dentro desse contexto, é muito comum que esses papéis apareçam completamente diferentes. A mulher é vista como alguém com independência financeira, uma mulher que viaja, solteira e, principalmente, sem filhos. Em pleno turbilhão do puerpério, o ideal de mulher daquela pessoa é algo totalmente oposto do que ela vivencia naquele momento. Quando peço para me contarem uma história da mãe, elas logo dizem: “essa sou eu” e choram. E me contam o quanto a maternidade é difícil, o quanto o bebê demanda, o quanto estão cansadas. Me falam sobre o sentimento de culpa e sobre a falta de autonomia para exercer inclusive as funções básicas, como comer e fazer xixi.

E eu me questiono: quando foi que ser mãe se tornou algo tão distante daquilo que temos como o ideal da figura feminina na sociedade atual? Quando é que uma mãe deixa de ser e se sentir mulher para se tornar única e exclusivamente mãe? Isso é mesmo necessário? O que podemos fazer para mudar essa realidade?

Acontece que a maternidade causa muitos sentimentos ambivalentes desde o momento em que fazemos o teste e lá aparecem os dois risquinhos. Uma mistura de alegria com medo, ansiedade, a ficha demora a cair, demoramos para acreditar. É real, e agora? Qual é o próximo passo? E esses sentimentos ambivalentes independem de ser ou não uma gestação planejada e desejada.

E ai você pode estar se perguntando: Tá bom, Adriana, mas e o que isso tem a ver com o (f)utilidades ou com o #paposobreautoestima ? E eu respondo: TUDO!

Se a gente engravida na adolescência: não é um bom momento, pois atrapalha os estudos; aos 20 e poucos: logo agora que acabou de terminar a faculdade? Aos 30: poxa, mas você acabou de ser promovida no trabalho! Quando bate os 35: já está passando da hora, hein? Aos 40: você não vai ter disposição e tempo o suficiente para ver seu filho crescer. Aí você decide não engravidar e a sociedade te diz que você tem defeito, como é possível uma mulher que não quer ser mãe? “Mãe é instinto, maternidade é inata e não-existe-nada-no-mundo-igual-amor-de-mãe”.

A Joana e a Carla sempre debatem aqui com a gente sobre padrões ideais. Quando as puérperas me contam a história de uma mulher, elas me falam desses padrões. Elas me contam daquilo que a sociedade espera dela enquanto mulher. E elas me contam que não conseguiram atingir nenhum deles antes da maternidade chegar.

Falamos bastante aqui no futi sobre os aspectos de emagrecimento de “quando eu for magra, vou cortar o cabelo” ou fazer x, y, z. Com o planejamento da maternidade não é diferente: “antes de ser mãe quero casar; antes de ser mãe quero viajar; antes de ser mãe quero terminar a faculdade, me estabelecer financeiramente, (adicione aqui a sua condição). E a gente nunca consegue cumprir todas as metas quando a maternidade acontece.

E é aí que muitas vezes os sentimentos de culpa, impotência e inadequação tomam conta. Muitas vezes temos a sensação de que não estamos sendo 100% em nenhum dos papéis que ocupamos: mulher, profissional, esposa, filha, mãe… Você não se reconhece mais na mulher que vinha sendo até então e essa nova mulher não cabe mais nos planos que você havia feito antes.

No relacionamento, vocês não são mais “só um casal”, agora vocês “são uma família”, que se desfaz e se refaz com a chegada de um filho, que é cheia de vulnerabilidade e necessidades de cuidados. É necessário que os papéis se movimentem para encontrar um novo lugar o qual possam se sentir como parte de algo maior. E assim, a instabilidade e a impermanência são desafiadoras quando esses papéis já estão sólidos e definidos ao longo do tempo.

E aí, no meio desse turbilhão de não saber quem sou e qual o meu lugar no mundo, com frequência ouvimos de gerações passadas que “eu dava conta de tudo”, que as mães de hoje são “cheias de frescura”. Porém, a sociedade mudou, os papéis que hoje a mulher ocupa são outros, o acesso à informação é diferente e não temos mais o conceito de criar nossos filhos em tribos, em grupos, rodeadas por uma rede de suporte sólida e presente. Maternar se tornou, em geral, um ato solitário, com pouco ou nenhum apoio e vida social limitada. Para muitas de nós, há a possibilidade de grupos de apoios virtuais ou presenciais, que acabam sendo tudo que temos, sempre em contextos exclusivos para mães com os bebês. Mas e a vida além do bebê?

Acontece que a maternidade e o amor materno não são processos instintivos e inatos da mulher. Esse é um padrão que nos foi imposto em meados do século 19 (vejam bem, dois séculos atrás), com o patriarcado e a entrada medicina higienista, que depositou na mulher a responsabilidade pelos cuidados com o filho, tirando essa responsabilidade do estado, sacralizando a figura materna e tirando a sua autonomia social. Por outro lado, muitos autores da Psicologia Obstétrica e Perinatal nos dizem que a maternidade, assim como qualquer outra função, é uma construção social. Você não nasce sabendo ser profissional, você não nasce sabendo ser esposa, você não nasce sabendo ser mulher e você não nasce sabendo ser mãe.

Ao mesmo tempo que a maternidade é um processo de nascimento, é também um período de morte e de luto. Algumas coisas em nós morrem, para renascerem em outro lugar. Ali morreu tudo que você era até então e as coisas não serão mais como antes. Mas renascemos. Somos recém-nascidas para uma nova vida cheia de possibilidades de novos futuros, de novos papéis, de novos contextos. É um momento de realinhar o que fomos, o que somos, o que não conseguimos e o que ainda queremos ser. O nascimento de um filho é um convite para renascer para si mesma.

É uma transformação de identidade e pode ser vivida como um grande processo de empoderamento. O cuidado com o bebê é projetivo: quando cuidamos de um filho, também cuidamos de nós, da nossa nova identidade, das novas possibilidades que esse caminho nos apresenta. E isso também dói, pois o quanto de amor, cuidado e carinho que você dedica para si? É extremamente difícil cuidar de um filho quando não cuidamos primeiro de nós, das nossas dores, da nossa criança interior que vem à tona quando estamos com o bebê no colo. Encontramos em nós defeitos e qualidades que imaginávamos terem sido perdidos há tempos e com isso, podemos nos dar a opção de quebrar padrões, nos damos o direito de questionar a qualidade das relações familiares que estão em nossa volta e que tínhamos como corretas até então.

E isso tudo gera medo e insegurança, que fazem parte do processo, e está tudo bem. Você não é melhor ou pior por precisar (ou não) de ajuda. Você não é melhor ou pior por, em alguns momentos, se arrepender ou se perguntar o que é que você fez da vida. O importante é reconhecer os seus limites e saber que você pode até cair, mas você consegue levantar. E, quando não tiver forças o suficiente e por algum motivo não conseguir, estenda a mão e peça ajuda. Não precisa ter medo do tombo: vamos errar. Várias vezes. Não conseguimos ser perfeitas o tempo inteiro, mas temos o poder de nos transformar e de tentar de novo amanhã.

Precisamos aprender a respeitar as diferenças. As maternidades são muitas, as possibilidades são infinitas. Não existe uma única forma de ser mãe, de ser mulher. Qual é a sua?