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maternidade

1 em Convidadas/ maternidade no dia 26.04.2017

Sobre ser mãe de menina

Nunca sonhei em ser mãe. Adorava Barbie, detestava boneca que me chamava de mamãe e ficava no colo, coisa sem graça! Sempre adorei crianças, mas a dos outros. No fundo, me sentia incapaz de cuidar de um ser tão frágil e dependente. Acho que não confiava 100% em mim pra cuidar de mim mesma! E, se cogitava a maternidade, pedia um menino. 

Aos 34 anos, tive uma gravidez não planejada. Momento tão desorganizado na vida… mas decidi ter meu bebê, ainda que aquilo parecesse muito surreal na cabeça. Foi uma gravidez muito complicada, quase perdi o bebê e quase morri. Mas, com sete meses de gestação, em uma consulta de pré natal, me avisaram que teria que fazer uma cesariana. Ali, no susto! Tremia alucinadamente na hora de tomar a anestesia. Não tava pronta. Mas ela tava. E, quando a médica levantou minha neném e nos olhamos pela primeira vez, foi a sensação mais louca do mundo. Ela nasceu e eu nasci com ela.

Desde então, cuidei sozinha de uma neném extremamente frágil fisicamente, mas de uma força interna que me modificou por completo. A gente se sente meio leoa, né? De repente eu, que nunca tinha trocado fralda, virei mãe 24hs. E haver uma mulher em formação, totalmente dependente de você, te faz SER a mulher que você quer que ela se torne. Você precisa ser o espelho. E passa a não aceitar pra si tudo que não deseja pra ela. Passa a ter com você mesma as atitudes que quer que ela tenha no futuro. Passa a se amar como quer que ela se ame.

Você quer tanto que ela seja feliz, que entende que pra isso precisa ser feliz também, ou ela jamais entenderá o exemplo! Precisa se cuidar, se respeitar, se compreender. Precisa ter um relacionamento saudável ou mostrar pra ela que também pode ser feliz sozinha. Precisa conquistar e manter seu lugar e cobrar seus direitos pra que ela jamais aceite ser submetida a nada diferente disso.

Eu não me preocupava tanto com certas pautas e achava outras coisas exageradas. Hoje entendo que isso era não me amar o bastante. Mas quando você ama tanto um serzinho que você fez, esse amor acaba se estendendo também pra si mesma. Transborda.

Instintivamente, me vi criando a mim mesma. Me transformando na mulher que quero que minha Helena seja. Brigando pelo que quero que ela brigue. Me aceitando como quero que ela se aceite.

Hoje entendo o que Simone de Beauvoir disse. Não se nasce mulher. Se torna! E, tentando criar a minha, acabei dando à luz também à mulher que nunca tinha nascido em mim. 

6 em Comportamento/ Destaque/ maternidade no dia 25.04.2017

Eu preciso mesmo ser mãe? Isso tem que ser meu sonho?

Dizem que ser mãe é padecer no paraíso, com todo respeito eu duvido. Acho que isso é uma frase romantizada para “dizer que vai valer a pena” no final. Admiro para caramba uma mulher que se propõe a ser mãe e a dar seu melhor na criação de uma criança.  Ser mãe ou pai é um desafio, sempre foi, mas recentemente esse desafio me parece ainda maior. Talvez eu ache isso porque estou entrando na idade onde muitas pessoas próximas a mim estão engravidando e tendo filhos, não sei. Só sei que mesmo ninguém me cobrando, eu acabo sentindo essa pressão de alguma forma e esse assunto me fez pensar sobre algumas coisas.

Eu admiro muito mulheres que têm o dom visceral de ser mãe, ou encontram nesse caminho a maior missão e propósito que existe no seu coração. Eu posso vir a ser mãe um dia, ou não, mas duvido muito que eu tenha esse conteúdo vibrando tanto na minha essência, de forma tão visceral e preenchedora. Sei que daria meu melhor e que tudo se transforma à nossa volta, mas ter isso pulsando tanto dentro de si, sem a sensação de estar perdendo nada, genuinamente completa, é diferente. Eu não me vejo assim e está tudo bem, muitas mulheres são mães e não se veem assim também.

Enquanto essa parte da minha vida permanece uma incógnita, eu vou satisfazendo o provável “instinto materno” com meu afilhado gostoso….

Acho que se eu fosse mãe minha carreira iria continuar sendo importante, minha vontade de viajar também, alguns ajustes teriam de ser feitos, mas não viraria do dia pra noite a pessoa mais altruísta do mundo. Essa expectativa viria seguida de frustração no meu caso. Minha mãe é de um jeito, eu de outro, a Carla é de outro (e inclusive passou e ainda passa por essas questões que eu penso que teria) e todas somos ótimas, cada uma a sua maneira. Eu olho a minha mãe e vejo que ela encarou a maternidade como missão e propósito. Eu vejo a Carla e percebo que ela sempre quis que a maternidade fosse um acréscimo na sua vida, sem se anular na medida do possível. E eu me vejo no meio do caminho: será mesmo que eu preciso ter esse sonho que claramente me demandará tanto? 

De vez em quando num acesso de fofura minha mãe me diz que o dia em que eu nasci foi um dos dias mais felizes da vida dela. Ela queria muito me ter, então eu imagino que tenha sido mágico mesmo. Curioso que quando ela tinha minha idade o sonho dela era esse: me ter um dia. O meu não é. Meus sonhos envolvem meu trabalho, destinos diferentes ou até mesmo um grande amor. Para ela foi mágico, era pura expectativa, pra mim é assustador. Definitivamente não acho que tenha que ser mágico pra toda mulher. Precisamos parar de colocar todo mundo no mesmo saco. 

A verdade é que mesmo não sonhando em ter filhos eu não estou fechada para nada. Sei que posso mudar de ideia, inclusive quero cuidar de preservar minha fertilidade por isso, mas independente de sonhar ou não com a maternidade, ver a Carla e seus posts me faz acreditar que mesmo eu não tendo nascido com essa vocação eu posso querer fazer isso. Sem me anular, sem mudar meus sonhos e deixar de ser quem eu sou. Porque existem variados tipos de boas mães e independente de quais forem os meus sonhos, eu não precisarei deixar de ser eu mesma.

Sem dúvida, pra mim que nunca tive na maternidade um objetivo de vida, sempre foi difícil pensar que se um dia eu escolhesse viver isso, eu teria que abrir mão de tudo que eu desejo fazer, plantar, colher e realizar ainda nessa vida.

….ou com a minha sobrinha fofa demais!

A maternidade poderá vir a ser um desejo na minha vida, mas acho que ser em mãe tempo integral jamais vai ser uma vocação pra mim, por mais que eu ache bonito e respeite as mulheres que escolhem esse caminho. Tudo tem a ver com os sonhos de cada uma, precisamos parar para refletir e respeitar quem pensa diferente da gente. Sem diminuir a outra mulher que fez escolhas distintas ou pensa diferente da gente. Não existe um tipo certo de mulher e nem um tipo certo de mãe, por isso não julgar é tão importante. Agora eu mesma vou responder a pergunta que me fiz no título: não, eu não preciso ser e nem sonhar em ser mãe. E nem você. E tá tudo bem.

5 em Comportamento/ entretenimento/ maternidade/ séries no dia 14.04.2017

Não diria todo mundo, mas quem tem filhos deveria assistir 13 Reasons Why

Não, esse não é um post onde eu digo empolgada que todo mundo precisa ver a série do momento, 13 Reasons Why (ou 13 Porquês). Aliás, por causa de todo auê em torno, quando eu dei play no primeiro episódio eu jurava que estaria aqui escrevendo algo do tipo, mas a medida que eu fui chegando mais perto do final, vi que não dava para fazer uma indicação tão leviana sobre a série.

Ela não é pra todo mundo. MESMO. Diria que quem tem um histórico de depressão e traumas de abuso sexual, bullying e slut shaming deveria passar longe. Não é pra ver só porque está na modinha, mas eu diria que muita gente precisa assistir, conversar, debater ou simplesmente parar pra pensar.

De semana passada pra cá eu li muitos textos e opiniões sobre a série. Ouvi críticos de tv dizerem que ela é péssima (não concordei), ouvi psicólogos chamando os idealizadores de 13 Reasons de irresponsáveis (concordei), li muita gente comentando que se sentiu mal (eu fui uma delas) e mais gente ainda alertando sobre os gatilhos – que são avisados antes dos episódios, mas não atenuam o desconforto na hora que as cenas acontecem.

Independente de tudo isso que está sendo dito, a única coisa que ficou na minha cabeça enquanto eu assistia os episódios foi: quem tem filho adolescente ou que passará pela adolescência precisa assistir.

Atenção, spoilers à frente.

Para quem, assim como eu, tem filho pequeno, provavelmente várias fichas vão cair enquanto você acompanha o fim da vida de Hannah Baker. Pelo menos comigo caíram várias muito difíceis. Eu me toquei que em algum momento o Arthur vai sofrer e não vai querer a minha ajuda. Ele vai esconder coisas de mim, talvez até mentir, não sei. Provavelmente ele vai cruzar com colegas que vão tentar convencê-lo a tomar atitudes que não são as ensinadas em casa – e ele precisará ter uma personalidade muito forte para não cair nessas armadilhas ou aceitar esse tipo de amizade. Que ele poderá magoar alguém e ser um porquê na vida de uma pessoa.

Doeu pra caramba assimilar isso tudo, deu até um certo medo do futuro, de não conseguir educá-lo do jeito que eu imagino. Tanto que o que mais mexeu comigo na série toda foi ver a relação dos adolescentes com os pais. Fiquei tentando analisar os erros e acertos de cada família, tentando aprender e pegar dicas do que fazer e do que não fazer também. Doido isso, né?

– o que aconteceu? / – já disse bicicleta, galho, pele / – só isso? / – Mãe, eu falo tudo sobre a minha vida porque é tão fascinante, eu prometo

Em algum momento, confesso que fiquei um pouco obcecada com o Clay. Eu fiquei impressionada com o seu jeito pouco influenciável, confiante e determinado. Depois fiquei feliz por ver que ele também era respeitador quando ele soube dar espaço à Hannah. Sei que ele fez o mínimo que uma pessoa decente deveria fazer, mas é tanto relato de homem que não sabe o significado da palavra NÃO e a série mostra tantos ângulos dessa falta de respeito, que acabei me contentando com esse pouco. Talvez só tenha ficado um pouco frustrada com a falta de iniciativa dele enquanto via a Hannah sofrendo na mão dos outros, iniciativa essa que ele só foi ter depois que começou a ouvir as fitas, mas acho que não dá para exigir tudo isso de um adolescente.

Se eu pudesse me espelhar em alguém da série, seria a mãe do Clay, personagem que mereceu minha atenção especial. Só sei que mesmo sendo uma pessoa legal, lá estava ele, tão cheio de segredos e mistérios, por mais que seus pais tentassem tirar alguma coisa dele e estivessem prestando atenção às suas mudanças de comportamento.

Outra familia que me abalou foi a da Hannah com seus pais, um casal amoroso e dedicado à filha, mas que estavam passando por problemas profissionais, o que deixou a relação familiar em segundo plano. Para mim, uma das cenas mais comoventes foi quando Olivia Baker disse que não entendia porquê a filha tinha feito aquilo, afinal, a imagem que ela tinha da menina não era essa.

E se vocês querem saber por quê, eu sugiro perguntarem para seus próprios filhos

Aquilo me fez cair a ficha como a relação com adolescentes precisa ser construída incansavelmente através do diálogo, apesar de nem sempre ser fácil, pois os pais também precisam respeitar o espaço dos seus filhos. E também fez com que eu valorizasse ainda mais meus pais. Mesmo eu não tendo sido uma adolescente cheia de questões e que raramente fazia algo errado ou escondido, não deve ter sido fácil para eles passar por essa fase em que eu passava horas trancada no meu quarto, entrando na internet para ver coisas que eles não tinham acesso e até mesmo sofrendo por boys que eles não tinham noção que existiam.

E por fim, também prestei muita atenção na família do Bryce, ou melhor na ausência dos seus pais e em como ela foi parcialmente responsável pelas atitudes do personagem ao longo da série. Porque ele não é apenas machista e mau caráter, ele tem a arrogância e a prepotência de uma pessoa extremamente privilegiada criada sem nenhum limite. Que acha que por ser popular, tem direito a tudo – e todas. Será que ele seria repugnante desse jeito se tivesse pais presentes e não pais que dão tudo de mão beijada para compensar a ausência? Eu acredito que não (e eu espero que esteja certa),

Não indico 13 Reasons Why para qualquer pessoa, mas se você é mãe (ou pai) de adolescentes ou futuros adolescentes, que tal usar a série para começar (ou aprofundar) a troca de ideias?