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1 em Comportamento/ maternidade no dia 03.05.2018

A mãe da sorveteria & um pensamento sobre liberdades

Tem gente que passa na sua vida só para te trazer um ensinamento, né? Nem sempre é necessário anos de convivência. Tem umas que passam assim, bem rápido, tão rápido que se não estivermos abertas para aprender com aquela experiência, é provável que ela passe e a gente nem perceba. Foi isso que aconteceu na sorveteria, e que bom que eu tirei uma lição de tudo que aconteceu.

Era uma tarde como qualquer outra. Peguei o filho na escola, o dia estava lindo, sol brilhando, primeira vez com termômetros acima de 27 graus depois de meses de um inverno teimoso, um belo dia para tomar um sorvete. Entramos na sorveteria, pedi dois (porque o dia realmente estava pedindo um sorvete para cada). O meu pedi na casquinha, o dele no copo – mas com uma casquinha, justamente para não ter nenhum escândalo porque ele queria a minha. Isso já aconteceu e a cena foi meio desesperadora, envolveu gritaria, choro e um sorvete servindo como cabo de guerra, enquanto eu tentava todos os métodos que eu aprendi, desde ensinar a dividir a ameaçar nunca mais entrar na sorveteria se ele continuasse com aquele comportamento. 

Como conviver com uma criança de 2 anos e meio é uma caixinha de surpresas, é claro que fui surpreendida por uma nova crise, mesmo que eu tivesse feito tudo para que o último escândalo não acontecesse. Veja bem, ele domina a arte de comer de colher mas ainda não entende que se demorar para comer o sorvete na casquinha, ele derrete e faz uma lambança de proporções épicas. Por isso, nem pensei em pedir duas casquinhas. Vocês já conseguem imaginar o que aconteceu depois disso?

Não, não foi essa foto. Foto: Adriana Carolina

Não, não foi essa foto.
Foto: Adriana Carolina

Claro, ele me viu comendo com casquinha e não entendeu porque a casquinha dele estava de cabeça pra baixo. Imediatamente ele quis a minha, que tinha um sabor que ele não gostava. Resultado. Foi uma gritaria sem fim. Eu tentando convencê-lo a comer a casquinha dele, depois trocando pela minha casquinha e ele chorando mais ainda porque ele não gostava daquele sabor, eu sem saber o que fazer enquanto os gritos ecoavam pelo ambiente. E foi aí que ela surgiu.

A mãe da sorveteria apareceu como um anjo. Ela estava lá do outro lado, mas acho que os gritos estavam tão altos que ela veio ver o que estava acontecendo. “Oi, essa é a Ruby, ela me pediu para ver o amiguinho”. Sei lá se foi a menina que pediu, se ela veio porque estava querendo me ajudar, mas só sei que ao ver a garota, Arthur imediatamente parou de chorar e ficou prestando atenção na nova amiga. Nesse momento, eu pensei que queria ser mais esse tipo de mãe. A que tem a sensibilidade de ver outra mãe em algum perrengue e vai tentar dar um jeito de aliviar a barra. Até sou assim com quem eu conheço, mas dificilmente faço esse tipo de coisa com desconhecidos. Esse foi o primeiro ensinamento que eu tive, mas pera que tem o segundo.

A menininha estava comendo um sorvete. Na casquinha. Eu elogiei dizendo que ela sabia comer sorvete direitinho, até que a mãe da sorveteria – também conhecida como anjo – me chamou a atenção para a cena ao redor, que por mais que estivesse na minha frente, eu não percebi. A cara da menina estava toda suja de chocolate, tinha sorvete até na sobrancelha. O vestido todo sujo.

Perguntei a idade da filha para a minha anja e descobri que ela tinha praticamente a idade do Arthur, 1 mês mais velha. E foi aí que a segunda ficha me caiu. As vezes a gente tem certas dificuldades de saber quando soltar a corda, de entender a hora de tentar dar mais liberdades. Eu sempre falo “acolha a bagunça”, mas nessa situação eu nem pensei em fazer esse tipo de coisa, nem cogitei, resolvi assumir que ele não tinha a maturidade para tal ação e nem tentei experimentar para ver o que acontecia.

Não acho que temos que dar liberdades a mais só para evitar escândalos e gritarias. Isso não é educar, eu sei. Mas fiquei repensando a minha rigidez para certas situações, ou como eu mesmo falei para ela, a minha dificuldade de soltar. Por fim, dei um jeito de botar o sorvete na casquinha e dei para ele comer. Tudo bem que não era uma bola em cima de uma casquinha, o que facilitou a vida dele, mas foi o suficiente para deixá-lo satisfeito com sua mais recente independência adquirida. Enquanto a paz se restabelecia na nossa mesa, olhei para a porta a tempo de ver a mãe/anja saindo com a sua filha. A tarefa dela ali estava cumprida, e mal sabe ela o quanto eu fiquei agradecida por esse encontro.

3 em Comportamento/ Destaque/ entretenimento/ maternidade no dia 29.01.2018

Jane the Virgin e a maternidade desromantizada

Não sei por quê demorei tanto tempo para começar Jane The Virgin. Acho que estava com algumas séries engatilhadas e sem mais espaço para me viciar em outras coisas, então fui postergando, postergando, postergando, até que comecei a ver há umas duas semanas. Eu sabia que ia me viciar, afinal, ela tem todas as características que eu sei que amo em uma série, mas não sabia que seria por um motivo que ainda não tinha cruzado por aí.

Óbvio que eu fui imediatamente cativada por Jane, achei sensacional a sátira com as novelas mexicanas, amo o narrador que se mete no meio da história, acho o momento extremamente oportuno e fico feliz que ela está fazendo sucesso mesmo em tempos de era Trump (ufa). Só que eu não sabia que eu poderia ficar mais fã da série depois que Jane teve seu filho. 

Toda a fantasia e exagero que ronda os personagens em Jane the Virgin não acontecem quando a série trata de maternidade. E é aí que a série fica mais genial ainda, pois ela acha um equilíbrio entre a fantasia e a realidade que deixa tudo mais interessante. Eu não precisei me identificar com nenhum personagem para gostar de assistir cada episódio, mas a partir do momento que eu me identifiquei de verdade, tudo ficou um pouco mais especial.

Em poucos capítulos da segunda temporada somos expostas a situações que toda mãe já viveu. Leite manchando a roupa? Temos. Ela toda suja de papinha enquanto tenta fazer tudo ao mesmo tempo? Também temos. Aliás, ela toda suja porque passou dias sem conseguir nem tomar banho? Temos, claro. Escrevendo um texto no celular porque não tinha como pegar o computador? Temos – e eu, blogueira, me identifiquei bastante. hahaha Eu poderia citar várias outras situações corriqueiras, mas a melhor parte acontece quando a série aborda em pontos mais profundos. Posso começar os spoilers aqui, apesar de estar prestando atenção para focar apenas na maternidade?

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Você está prestes a deixar a maternidade sequestrar seus objetivos

Por exemplo, quando ela vive a dualidade que toda mãe passa quando se vê entre a vontade de não deixar a maternidade mudar muita coisa e a ficha que cai ao vermos que tudo muda. Acho que até as mães mais bem preparadas passam por isso, mesmo que em menor intensidade. Inclusive, achei sensacional a forma que ilustraram essa questão, onde ela tenta fazer algo com a certeza que vai ser como se o bebê nem estivesse ali – mas obviamente ele está.

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Outra coisa legal que eu vi ser abordada foi a relação com as amigas sem filhos. Em um primeiro momento pode ser que role um estranhamento pela mudança radical de prioridades, as vezes a separação realmente acontece, mas é maravilhoso quando achamos o equilíbrio disso tudo. Eu amo minhas amigas mães, mas valorizo demais as amigas que ainda não chegaram nessa fase pois é com elas que eu me lembro um pouco da Carla antiga, e isso me faz muito bem.

A culpa é quase um personagem à parte depois que o filho de Jane nasce. Ela se culpa por pensar em focar na oportunidade de estudos, se culpa porque teve que abandonar o peito, se culpa porque ele teve que usar capacete, se culpa de tudo basicamente. E atire a primeira pedra a mãe que nunca sentiu culpa na vida. Acho que essa pessoa, inclusive, nem existe. 

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A relação com a mãe muda, da mesma forma que mostra como a relação de sua mãe com sua avó mudou. Eu achei tão importante ver isso sendo abordado de forma tão clara, porque isso de fato acontece. Talvez não de forma tão romântica porque não é toda família que é tão próxima quanto a de Jane, mas a verdade é que muitas coisas que reclamávamos ou que não entendíamos acabam fazendo sentido quando viramos mães, e essa troca de experiências pode ser enriquecedora na relação.

Aliás, uma coisa está sempre presente é a importância da rede de apoio. Mãe, avó, pai e até mesmo babá. Saber que temos pessoas que irão aliviar nossa barra quando ela fica pesada é essencial para a sanidade. E amo ver que isso fica muito claro.

Eu sei que Jane the Virgin faz sucesso com todos os públicos, mas quem assistiu a série e teve filhos depois disso (ou ainda está grávida), eu sugiro rever a segunda temporada com outros olhos. Ou começar a ver Jane the Virgin sabendo filtrar essa parte de realidade que eles conseguem retratar ao falar de maternidade. Porque ali está muitas questões que, se bem digeridas, podem deixar tudo um pouco mais leve.

0 em Comportamento/ Destaque/ maternidade/ Reflexões no dia 16.01.2018

“Vai passar” é o c$#@lho

Se teve uma coisa que eu realmente odiei durante toda a minha gravidez e os primeiros meses de vida do Arthur foi a história do “ah, vai passar”. Lá estava eu, uma pessoa ansiosa por natureza e uma recém mãe nervosa, com medo, sem nenhuma experiência e muitas dúvidas, só querendo desabafar. E recebia em troca apenas uma promessa de quem em algum momento indefinido toda a angústia que eu estava sentindo iria embora.

Eu sei que muita gente que fala isso o faz para acalmar os ânimos. Eu sei que é uma frase apaziguadora, que tenta imprimir uma esperança que dias melhores virão (e eles realmente vêm, mais rápido do que a gente acha). Muito recentemente eu me peguei escrevendo justamente essa frase para uma amiga que está grávida. Quando me dei conta – um pouco em choque, confesso – apaguei antes de enviar e mudei o discurso. Nesses poucos segundos entre o escrever, quase enviar e apagar, eu entendi o efeito do “vai passar”. O único problema é que o efeito acontece só na cabeça de quem fala, e não de quem recebe.

“Vai passar” não é por mal, eu sei, mas é o tipo de resposta que faz com que eu converse diariamente com tantas mães que vêm me dizer o quanto se identificam com meus textos, porque elas passaram justamente por coisas muito parecidas mas não tiveram com quem desabafar. Porque o “vai passar” simplesmente encerra a conversa. Que argumento alguém pode dar depois disso?

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Para quem é ansiosa como eu, por exemplo, o “vai passar” é o fim. Porque pessoas ansiosas estão esperando que passe mesmo, e saber que existe uma linha de chegada e você simplesmente não ter ideia de quanto falta para chegar nela é um tanto desesperador. Repetir isso como um mantra mais angustia do que ajuda.

Sempre enxergo o “vai passar” como tentar subir em um navio sem que joguem cordas ou boias. É um pouco desesperador, por tantas vezes solitário. O “vai passar” tem boas intenções mas é alienado, não permite que mães troquem experiências, que falem sobre a tal maternidade desromantizada, que tenham um espaço para falar também dos momentos difíceis.

A gente aprende muito mais com histórias reais do que com abstrações, só que parar para ouvir e ceder seu tempo para escutar e conversar nem sempre é nossa prioridade. Então o “vai passar” acaba sendo o caminho mais fácil. Sem julgamento nenhum, muitas vezes a minha vida corrida me impede de fazer isso também. Não que eu goste de admitir esse fato.

E sim, vai passar. Felizmente e infelizmente. Porque o perrengue passa, mas também passa tanta coisa boa. Só que isso tudo a gente já sabe, então, desculpem o palavrão do início do texto, mas adoraria abolir essa frase do dicionário do mundo. Acho que a maternidade – e muitas outras coisas na vida – seria muito mais fácil e leve se tivesse mais “tamo junta” e menos “vai passar”.