Browsing Tag

maternidade desromantizada

5 em Comportamento/ Destaque/ maternidade no dia 12.04.2018

Você já teve seu momento “alguém me tira daqui” essa semana?

Para as mães que estão vivendo no olho do furacão – isso é, no auge do terrible twoqueria perguntar se vocês também têm o “momento do me tira daqui” com uma certa frequência. Sei lá se esse é o melhor nome para definir tal situação, mas foi assim que resolvi apelidar depois que eu me vi quase sentando no chão do supermercado e torcendo para que alguma força do universo me teletransportasse para qualquer canto da galáxia só para me tirar – sozinha, preciso frisar – daquela cena.

Essa cena, inclusive, foi hoje. Uns 40 minutos atrás.

Tudo começou porque eu pedi para ele entregar um brinquedo que era da escola na mão da professora. Ele entregou, mas foi sair porta afora para ele se arrepender de ter entregado. E aí, minhas amigas, eu virei quem eu mais temia: a mãe com a criança que esperneia e grita a tiracolo. 

Eu fiz de tudo que minha experiência como mãe e como pessoa que gosta de ler sobre o assunto me ensinou. Até que em um certo momento, o motivo do choro não era mais por causa do brinquedo da escola, era porque ele não queria ficar de casaco, era porque ele queria colo, mesmo eu não tendo mão (nem coluna) para dar o colo.

mil crianças em uma, esse é o terrible two

mil crianças em uma, esse é o terrible two

Tive o momento de parar e olhar no olho – parei no meio da rua umas 5 vezes em 1 km de percurso. Tentei o método de contar até 3. O método de soprar no rosto para ver se distraía. Tentei mudar o assunto. Lembrar de tudo aquilo que ele gosta para mudar o foco da atenção. Tentei sair andando, ignorar e deixar ele chorando (foi pior, óbvio). Tentei levar pelo braço. Nada adiantou.

A essa altura, eu estava tentando manter o semblante calmo de mãe que sabe o que tá fazendo, que não está sofrendo com o filho aos prantos, mas a verdade é que eu só queria me descabelar, chorar e gritar junto.

Até que uma hora ele acalmou, e eu comecei a ver o sol brilhando novamente. Quando estávamos chegando perto do supermercado ele topou ir no carrinho, só que uma nova confusão se instaurou quando ele decidiu que queria levar a cesta de compras, mas ela estava pesada demais para ele carregar. Fui tentar ajudar e toda aquela gritaria voltou. Só que como tudo que tá ruim dá para piorar, ele foi subir no carrinho para pegar a cesta da minha mão e o carrinho virou no meio do corredor de sucos e cereais. Resultado, ele caiu junto, e o grito foi tanto que eu tive meu momento do “me tira daqui”.

No meio da gritaria, me vi com as orelhas queimando, os olhos ardendo e o choro entalado na garganta, torcendo para ser engolida por um buraco, entrar em uma fenda temporal ou simplesmente sumir. Queria largar tudo – por tudo leia-se, compras e criança – no chão, pegar uma reta e ir embora. Só para que eu pudesse sentar, chorar e gritar sem ter uma placa de péssima mãe em cima da minha cabeça. 

O que eu fiz? Desabafei para a caixa do supermercado. Falei inclusive que queria ter sentado no chão e sumido. Tudo isso que falei para vocês, falei mais ou menos para ela, na medida que meu inglês atordoado permitiu. Ela riu. Descobri que ela também é mãe, de um menino de 6 anos, e que ela já teve essa vontade milhares de vezes. Enquanto ela terminava de efetuar minha compra, ela disse para eu aguentar firme porque melhorava. Acreditei, afinal, precisava me apegar em algo que me desse conforto, e guardei as compras me sentindo um pouco melhor.

E quando olhei para a frente, lá estava o Arthur, brincando de “bate aqui” e respondendo direitinho para um dos funcionários do mercado qual era seu nome e sua idade, algo que nunca tinha visto ele fazer antes. Meu coração derreteu e a vontade de sumir? Ela sim que sumiu.

 

3 em Comportamento/ maternidade no dia 06.03.2018

A TV morreu – ainda bem?? Acho que sim!

Acho que toda mãe de crianças com mais ou menos 2 anos conhece o que eu chamo de “a hora do terror”. A minha costuma acontecer no final do dia, lá pelas 6, 7 da noite. É aquela hora que já está todo mundo cansado, quase fim do dia, quase hora de botar a criança para dormir mas com jantar pra fazer, comida da escola do dia seguinte para organizar e louças de um dia todo acumuladas na pia – e a pessoinha dá um jeito de achar uma energia extra.

E aí, para gastar essa energia toda, a criança grita, pula, joga coisa pro alto e basicamente ganha um filtro que aponta diretamente para tudo aquilo que ela poderia fazer de errado em um ambiente. Nem sempre os pais conseguem dar conta, mesmo dividindo para conquistar. E foi numa dessas horas que um acidente de proporções catastróficas aconteceu. Um brinquedo jogado em cima da TV em um momento de distração nossa e, quando olhamos para a tela, a constatação: quebrada.

TV novinha, passamos mais tempo sonhando com ela e economizando para um dia comprá-la do que usando-a. Ligamos para o SAC três vezes, meio incrédulos, crente que alguma daquelas pessoas iria nos dizer que a garantia cobria (não cobria, as 3 afirmaram sem dúvidas), ligamos para a autorizada e constatamos que o preço que queriam cobrar para trocar a parte interna danificada era quase o preço de uma nova. Depois de explicar para o Arthur o que ele tinha feito e, bem, tentar educá-lo para que ele entendesse a gravidade da situação que ele causou, sentamos no sofá, derrotados, olhando aquela TV com uma mancha gigante que cobria uns 40% da tela. Parecia que a gente estava em uma situação onde o médico diz que precisamos desligar os aparelhos de alguém muito querido. E desligamos.

Jogamos ela fora com o coração doendo pelos dólares jogados no lixo mas não só por causa disso. Nem precisamos falar em voz alta. Quando olhei para o meu marido, a pergunta que não queria calar era a mesma para nós dois: o que vai ser da gente com uma criança em casa e sem TV?

não mais momentos de calmaria?

não teremos mais momentos de calmaria?

Não sei vocês, mas aqui em casa a televisão quase sempre exercia o papel de uma babá, ou de alguma ajuda para cuidar da criança. Era só ligar nos desenhos que ele pedia para garantir uma horinha de sossego para fazer alguma tarefa doméstica sem sermos atrapalhados. Só que em algum momento ela começou a servir de bengala para que a gente ficasse no sofá, olhando o celular sem fazer nada enquanto o Arthur se encontrava ali, hipnotizado pelas imagens e músicas.

No primeiro dia com aquele espaço em branco no meio da sala, descobrimos que ele até sentiu falta da TV, mas não ficou mais agitado com a falta de desenho. Tampouco pediu Ipad ou celular (coisa que ele finalmente entendeu que não terá acesso em casa). Ao contrário, ele brincou com quase todos os brinquedos do quarto dele, desenhou, ouviu música, dançou, e nós ficamos muito mais presentes. A distribuição das tarefas ficou mais bem dividida entre nós, já que estávamos dependendo apenas de nós mesmos para cuidar do nosso filho, e não mais de um eletrodoméstico. Tivemos mais risadas, mais atenção e, não acho que seja uma coincidência, mas pela primeira vez em meses ele só foi para nossa cama quando já era de manhã. Ah, e eu falei que eu consegui ler no meio da tarde – e não antes de dormir, como eu sempre faço? Pois é, consegui ler pelo menos uns 2 capítulos do meu livro enquanto ele se distraía brincando sozinho. Foi pouco, mas foi uma vitória.

No segundo dia, mais surpresa. Consegui sair no horário certo para levá-lo para escola, fazer tudo com mais calma, não precisei me estressar para tirá-lo da frente da TV nem para sairmos de casa. Não teve gritos com o dedo apontado para a televisão porque ele queria algum desenho específico. Ele até pediu baixinho e educado, mas quando eu lembrei o que aconteceu, já esperando aquele drama típico das crianças de 2 anos que ainda não entendem direito que não é não, ele se resignou e voltou a tomar seu café da manhã quieto. Ele novamente brincou com brinquedos que ele nunca tinha brincado direito. Me fez deixar de preguiça para levá-lo no playroom um pouco antes da hora do terror, assim ele pôde brincar bastante e socializar com outras crianças. Desse jeito ele chegou em casa sem tanta energia assim para gastar jogando coisas para o ar. Brincamos, usamos nosso tempo livre para ficarmos mais com ele do que de olho em telas de TV ou celular. Foi outro dia bom. Que bom.

Hoje chega a TV nova. Não tão bacana quanto o nosso breve sonho de consumo, porque 1) não tínhamos como comprar outra igual 2) não tem condições de ter coisa muito boa que quebra tão fácil com uma criança em casa. E sinceramente, estamos felizes. Não porque ela vai chegar, mas porque no fim das contas, essa experiência serviu para a gente repensar nossa relação com a TV. Ela pode ser um momento de reunião da família, mas não precisa servir de boia salva vidas para ficarmos educando do sofá.

Quando minha amiga fez um texto falando sobre sua decisão de tirar a televisão, eu amei os benefícios que ela disse ter tido, mas achei altamente utópico para a minha realidade. Nunca pensei que fosse experimentar isso na marra e provar que existe, sim, vida após a televisão quebrada.

Não digo que eu não vá usá-la mais para me salvar em momentos nem tão necessários assim, não digo que eu não vou ceder à facilidade de ter um hipnotizador de criança à minha mão, talvez até tenha uma recaída ou outra, mas acho que essa experiência serviu para eu re-equilibrar as coisas aqui em casa. E acho que enquanto a TV estiver funcionando mais para meu alívio do que para o entretenimento dele, eu estarei bem inclinada a deixá-la mais tempo desligada.

2 em maternidade no dia 26.02.2018

Mãe com a testa cuspida

Não existe uma pessoa na face dessa Terra que tenha planejado um cenário maravilhoso e pleno para os filhos hipotéticos e, quando se deparou com a realidade, resolveu fazer um remanejamento de percurso. O famoso “não cospe para cima que o cuspe cai na testa”. Pois bem, sou bem mãe com a testa cuspida, como a maioria aqui, tenho certeza.

Um dos meus maiores exemplos de cuspes na testa tem a ver com dormir na cama. Na gravidez eu estava certa que ele iria usar o quarto dele desde o dia 01. Não comprei moisés, berço portátil e muito menos cogitei cama compartilhada. Sim, eu acordava diversas vezes durante a noite para amamentar, mas era questão de honra ter a cama só para a gente.

Isso deu certo por exatos 2 anos, quando a criança que dormia com uma facilidade que deixava todo mundo de queixo caído, começou a acordar todo dia de madrugada e ir para a nossa cama. Na primeira noite, a questão de honra ainda estava lá, então fomos tentar botá-lo de volta em sua cama. Depois de uma hora e meia de berros, choros e resistência, ele dormiu. Ou melhor, fingiu, pois 15 minutos depois lá estava ele se aninhando no meio da gente novamente. Com mais três horas de sono até o despertador tocar e muito, muito sono, vocês acham mesmo que a honra ainda estava lá? Acho que ela pulou do 16o. andar, e nunca mais voltou. Foi assim que, desde então, toda madrugada somos acordados com portas batendo, passinhos, cama afundada e um Arthur no meio da gente.

Outra saliva que se alojou em cima dos olhos foi em relação a brinquedos. Tive – e ainda tenho – o maior cuidado na seleção de brinquedos que dei/dou para ele. Enquanto ele não tinha poder de decisão, evitei dar carrinhos, super heróis ou outros brinquedos voltados especificamente para meninos. Também evitei coisas voltadas para meninas (que obviamente, graças ao machismo, sempre são brinquedos para cuidar de uma casa, né?). Preferi apostar em brinquedos mais educativos, brinquedos musicais, livros, sem uma definição de gênero específica.

também comprei um carrinho de bebê, que faz sucesso até hoje e transporta de bichos de pelúcia a instrumentos musicais.

também comprei um carrinho de bebê, que ele amou do dia que ganhou até hoje, que é usado para transportar de bichos de pelúcia a instrumentos musicais.

Na escola, tem de tudo. Desde cozinha e berço cheio de bonecas de todas as cores até blocos, veículos, animais e afins.

Até que ele começou a se interessar por carrinhos, trens, ônibus, motos e todos os meios de transporte basicamente. Ele quer montar trens, pegar o caminhão de bombeiros e brincar de carrinho. Eu, que pensei que conseguiria moldar seus interesses e ensiná-lo a soltar a imaginação com brinquedos de todos os tipos, me vi no meio de uma loja com todo tipo de opção junta e misturada (não eram essas que tem um lado para meninos com heróis, transportes e bolas e um lado todo rosa com brinquedos para meninas) na sessão de meios de transporte e ele sem saber o que escolher – porque provavelmente queria todos, já que em casa não tinha nenhum para contar história.

Quase perto dos 2 anos ele passou por uma fase de personagens de desenhos. Moana, Mickey e Trolls, mais especificamente, esse último ele ganhou dos avós uma coleção de praticamente todas as cores, inclusive a princesa Poppy, uma das personagens favoritas dele mas também uma das mais difíceis de comprar, pois a vendedora quis convencer minha mãe até o fim da compra que esse era um presente para meninas.

Agora ele está super interessado nos Super Heróis. E dinossauros. E vamos ver qual vai ser o próximo interesse.

Nem todo cuspe que cai na testa é bom. Eu não me orgulho de falar que cedi minha cama, pelo menos da madrugada em diante. Não tem nada a ver com “vai acostumar mal”, mas continuo achando que delimitar o espaço do quarto do casal é essencial para que os dois não se olhem no fim do dia e não se reconheçam como companheiros, apenas como pais da criança que está ali no meio. Eu ainda tenho problemas para aceitar essa nova disposição que criamos, mas estávamos ficando tão cansados e sem energia que ficar mais ou menos em paz com essa decisão foi a maneira que encontrei para aceitar essa situação temporária.

Mas fiquei bem feliz e orgulhosa de ter ficado com a testa cuspida na situação dos brinquedos, porque entendi que meu papel como mãe é justamente mostrar as opções e estimular o que ele gosta, sem impor minhas vontades ou idealizações em cima dele e deixá-lo ser livre para fazer as escolhas que fazem sentido para a sua faixa etária.

Tenho certeza que cada vez mais a testa vai se tornando um lugar pequeno para abrigar tanta saliva, mas e daí?