Browsing Tag

gordofobia

1 em Autoestima/ Relacionamento no dia 13.06.2018

Você merece ser bem comida

Esses dias lembrei de uma história que me deu um estalo. Um momento de 10 anos atrás. Eu e mais 4 amigas de faculdade conversando sobre amenidades na mesa do bar. Uma coisa meio Sexy and the City em solos cariocas, a gente gostava de fantasiar. E como estávamos imitando o sitcom, em um dado momento, a pauta virou sexo. Duas das amigas ali eram virgens, uma por escolha e a outra por nunca ter sido escolhida.

Uma delas tem aquele corpo que você pensa que só existe em revista. A outra, tinha feito uma cirurgia bariátrica uns meses atrás e estava chegando na faixa de quase 60 quilos a menos na balança. Acho que nem preciso dizer quem era a virgem por escolha nessas duas descrições. Na época, eu pensava que a que nunca tinha sido escolhida, estava nessa situação porque era gorda. Imagina…há 10 anos mal falávamos de gordofobia, autoestima, feminismo ou empoderamento. Nicole e Rafaela são seus nomes respectivamente, para facilitar a história.

uma das fotos dela, que ainda estão por aí graças à internet. <3

uma das fotos dela, que ainda estão por aí graças à internet. <3

De repente, a conversa paralela parou e o foco ficou nas duas, quando percebemos que Rafaela estava completamente indignada com a virgindade da Nicole. Imaginem só…Rafaela tinha acabado de descobrir todo o potencial que nós, como amigas, já sabíamos que estava ali fazia tempo. Ela precisou mudar muita coisa nela para diminuir suas inseguranças, e ela não conseguia enxergar que todas as suas versões tinham beleza. Depois que ela se permitiu tirar a máscara de menina tímida e quieta (que não combinava nada com ela, seja com 120 ou com 60kg), ela descobriu que exalava uma sensualidade que era naturalmente dela e que provavelmente esteve sua vida toda querendo sair. Nicole, por sua vez, sempre foi o tipo de mulher que chega em qualquer ambiente e chama a atenção dos caras. Nunca teve nenhuma questão com o corpo além das inseguranças que toda mulher tem. Poderia perder a virgindade com quem quisesse, mas ela não queria que fosse com qualquer pessoa. E aí, me lembro como se fosse ontem, a Rafa soltou uma frase que virou ícone da nossa turma: “NICOLE, VOCÊ NÃO MERECE SER COMIDA”.

Na época, nós choramos de rir. Até dois anos atrás, toda vez que a gente relembrava disso, chorávamos de rir. Só que essa semana, depois de tudo que o #paposobreautoestima e os relatos diários que recebemos, eu só consegui lembrar com saudade desse dia. Mas não consegui rir. A inocência, a ausência de problematização e, obvio, a falta de conhecimento no assunto, me faziam achar esse episódio engraçadíssimo. Dessa vez o riso saiu forçado, sem graça.

Finalmente caiu a ficha que o “ você não merece ser comida” tinha milhões de coisas implícitas ali que eu nunca tinha percebido. Tinha toda uma questão com a sua autoestima, quase inexistente durante toda a sua vida, e que deu uma melhorada depois da cirurgia. Tinha toda a a indignação de uma sociedade que enxerga mulheres gordas como repulsivas, desleixadas e as verdadeiras pessoas que não merecem ser comidas. Invisíveis e assexuadas, e ela inconscientemente acreditava nisso, mesmo sendo uma pessoa super sexual e cheia de desejos. A bariátrica foi uma tentativa de sair desse padrão que a encaixaram, e emagrecer de fato fez com que ela conseguisse se enxergar de forma menos cruel, mas ela não sabia que teria que enfrentar outro tipo de insegurança com o corpo – insegurança essa que a bloqueava só em pensar em tirar a roupa na frente das amigas, que dirá de um cara. A solidão da mulher gorda é real, como a Alexandra Gurgel bem pontuou, e apesar de eu já ter visto esse vídeo antes e sido impactada por ele, eu nunca tinha imaginado que eu tinha vivenciado isso de perto. 

Quase 10 anos se passaram e muitas das questões que ela tinha lá em 2008 continuam acontecendo com mulheres por todo o mundo, mas agora sinto que existe uma fresta de esperança. Hoje existem mulheres gordas nas redes sociais passando diariamente a mensagem que o número na balança não quer dizer nada, e que ele tampouco define seu valor, beleza ou até mesmo caráter. São mulheres que combatem diariamente – e incansavelmente – a gordofobia e tentam fazer sua parte para um mundo menos opressor. Gordas na praia, na academia, namorando, casando, tendo vidas sexuais ativas e sendo amadas.* Talvez com essa representatividade toda, ela não precisaria ter passado uma vida se sentindo inadequada, inclusive depois de ter perdido 60 quilos e adentrado o padrão de beleza socialmente aceitável. A sensação que ela não era suficiente nunca a deixou. 

Infelizmente ela não está mais aqui e hoje, o que me resta além da saudade é o sentimento de impotência por não ter podido entender lá atrás isso tudo que eu entendi apenas agora. Queria ter dito muitas coisas para ela, mas acima de tudo, queria ter dito para ela que ela merecia ser comida, sim. Aliás, comida não, porque detesto essa palavra empregada dessa forma. Ela merecia ter o melhor sexo da vida dela, independente do peso ou de qual versão de corpo ela tivesse.

perfis para seguir: @cindereladementira @ju_romano @marianaxavieroficial @alexandrismos @luizajunquerida @thaiiscarla – em inglês: @scarrednotscared @bodyposipanda

8 em Autoestima/ Destaque/ Saúde no dia 23.05.2018

A sociedade que me desculpe, mas beleza não é fundamental

Era uma vez, em um reino muito, muito próximo, duas jovens donzelas. Seus nomes eram Dielly e Nara. As duas tinham algo em comum: viviam tristes, separadas desse reino.

Dielly porque foi expulsa devido á doença de todo um povo, e Nara porque, infelizmente, tinha uma doença que era dela. O sonho das duas era poder pertencer áquele mundo, porém nenhuma das duas conseguiu e ambas morreram. Fim.

Credo, mas isso é conto de fadas que se preze? Cadê final feliz? Não tem, porque não é conto de fadas, é vida real mesmo.

IMG_1420

Dielly Santos, 17 anos, cometeu suicído semana passada. Gorda, não aguentava mais viver em uma sociedade que abomina um corpo fora do padrão.

Nara Almeida, 24 anos, morreu essa semana de um câncer de estômago contra o qual lutava bravamente há um ano. Muito magrinha, recebia (contrariada) elogios pela sua forma física, mesmo deixando claro que estava mortalmente doente. Dizia que seu sonho era poder comer um prato de arroz e feijão de novo.

Não é irônico, tudo isso? Duas meninas que tinham uma vida pela frente, injustamente levadas por doenças implacáveis: o câncer e a gordofobia.

E esta última é tão séria que nem após a morte Dielly conseguiu o respeito que merecia: as piadas continuaram. Continuam. Como pode?

Veja. Temos “musas fitness” mandando adolescente cuspir comida (alô bulimia). Temos nutricionistas chamando galera de VACA no instagram porque a pessoa deu uma fugidinha do regime. Temos gente rindo de vídeo de criança de oito anos chorando porque se sente barriguda. Temos celebridade com fama mundial vendendo pirulito inibidor de apetite. Tudo em prol daquela beleza fundamental, sabe, que Vinícius de Moraes – o lindo – já cantava há anos e anos?

Pois é, engana-se quem pensa que essa pressão em ser magra é atual, é de hoje. É nada, vem do tempo da tua mãe, da tua avó e da tua bisavó. Mulher tem que sofrer pra ser bonita, lembra?

Meu conto de fadas não tem final feliz, mas tem moral da história:

Enquanto fizermos uma piadinha “de leve” com a mina gorda, enquanto acharmos que tudo bem a grade das lojas venderem peças que chegam só até o 42 (e daí, meu manequim é 40, certo?), enquanto escondermos nossa gordofobia atrás da velha justificativa “estou pensando na sua saúde”, somos parte da morte de Dielly. Enquanto acreditarmos que beleza e magreza estão ligadas, estamos ostracizando as gordas.

Pior: enquanto acharmos que ser magra é ser feliz, estaremos perseguindo uma felicidade imaginária. Acredite em mim, pois sou magra: ser magra não é ser feliz. Nara não era feliz. Ela seria, se pudesse, novamente, comer um prato de arroz e feijão.

Descansem em paz, lindas Dielly e Nara. <3

3 em #paposobremulheres/ Autoestima/ Comportamento no dia 29.03.2018

Papo Sobre Mulheres: Pelo meu direito de ser feliz como eu sou

Viver sendo diferente do que a sociedade considera padrão é uma árdua tarefa. Todo momento alguém vai te lembrar dos motivos pelos quais você é diferente. Todo dia alguém vai te dizer que você não é suficiente. Lutar contra isso é uma batalha diária. Não é fácil encontrar o caminho da aceitação, mas quando conseguimos nos entender e ficar bem com nós mesmos, não existe nada mais libertador.

Eu praticamente não tenho nenhuma memória da minha vida em que eu não tenha sido uma menina gorda. Desde muito pequena eu tive que aprender o que é ser mulher em uma sociedade machista, mas se já não é fácil saber lidar com toda opressão que as mulheres sofrem, eu também aprendi muito cedo o que era o preconceito: a gordofobia.

Quando se torna difícil conseguir comprar uma simples roupa para trabalhar, como também pegar um transporte público, você se dá conta que o mundo em que vivemos não foi feito para as pessoas gordas. Consequentemente você está à margem, e vai ter que buscar um jeito de se adaptar.

stella-ravalhia

Não são as mulheres gordas que estão em destaque na TV, no cinema, nas revistas, nas passarelas, nos palcos. É no conceito de magreza que está depositado “segredo da felicidade” e a “beleza”. A mídia condena o tempo todo os corpos gordos, nos bombardeia com dietas malucas, com tratamentos estéticos caríssimos, com remédios que colocam nossa saúde em risco. Ser uma mulher gorda é muitas vezes considerado uma sentença de infelicidade eterna, o pior que pode te acontecer.

A gordofobia está até nos menores detalhes, no comentário de um parente quando fala a clássica frase que toda menina gorda já ouviu: você é tão bonita de rosto, pena que é gorda. Ou alguém que sem você perguntar absolutamente nada já vem te sugerir uma dieta da moda. Aquela vendedora da loja que diz “aqui não tem roupa para você”. Tem também aquele carinha que te curte, mas não assume para galera, porque pega mal namorar uma gorda.

Mas como lutar contra tudo isso? O que fazer para mudar essa situação? Nós precisamos nos empoderar, bater de frente com as verdades absolutas que nos foram impostas, entender que o padrão que impera, foi socialmente construído por uma sociedade que só valoriza o homem, os corpos das mulheres são reduzidos a meros objetos descartáveis. Nós não somos simplesmente gordas, isso não pode ser a única coisa que sabem sobre você, isso não pode te definir. Nós somos infinitas coisas mais. Muito mais.

Ter problema com autoestima não é exclusivo da mulheres gordas, todas as mulheres em algum momento da sua vida já se sentiram desconfortáveis em sua própria pele, afinal a pressão estética se faz presente desde o nosso primeiro dia de vida.

O amor próprio é uma verdadeira jornada de autoconhecimento. Ele não aparece de um dia para o outro, é um processo interno e externo. É se respeitar, entender quem você realmente é, ter um olhar de carinho para si próprio, não desejar ser mais ninguém além de você mesma.

O feminismo me libertou de todas as amarras que a sociedade quis me colocar, me ensinou a me amar ainda mais, me direcionou a ajudar todas as mulheres que cruzarem meu caminho, me despertou a vontade de tentar fazer a diferença. Sabe aqueles comentários ali em cima que toda menina gorda provavelmente já escutou? Não tenha medo de respondê-los, aproveite esse momento e mostre que você é maior do que isso. Você não tem que ter vergonha de ser quem é, e sim a sociedade tem que ter vergonha de reproduzir tanto preconceito e intolerância.

Eu joguei fora todos os rótulos que me colocaram. Ninguém nunca mais poderá me dizer o que vestir, como falar, o que comer, como andar, o que pensar. A maior beleza está em se amar por inteiro e entender o que isso significa. Eu sou linda, e não vai ser seu olhar preconceituoso que vai me convencer de que eu não sou.

Precisamos ocupar todos espaços, estar em todos os lugares, inspirarmos umas as outras. Sei que ainda temos um longo caminho para percorrer, mas se estamos juntas, somos mais fortes. Ser feliz exatamente do jeito que somos já é um ato de revolução.