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gordofobia

2 em casamento/ Comportamento no dia 03.10.2018

As noivas que não comiam macarrons – ou a gordofobia no mercado de casamentos

Quando comecei a trabalhar com casamentos, os macarrons – deliciosos doces de amêndoas de confeitaria francesa – eram o último grito da moda casamenteira.

Meu coraçãozinho de jovem empreendedora não resistia ao encanto daqueles disquinhos coloridos – porém caros e difíceis de achar – e vez ou outra eu me permitia ao luxo de encomendar alguns para servir às minhas clientes do cerimonial, afinal, toda noiva estava apaixonada por macarrons nessa época.

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Realmente faziam sucesso: elas queriam tirar fotos, saber onde encomendar, quanto custavam, como servir. Mas para a minha surpresa, poucas delas chegavam a prová-los. Ou quando provavam, logo se autocriticavam por aquilo que consideravam uma pequena transgressão.“Preciso caber no vestido”, “Se eu não perder peso vou adiar o casamento”, “Não estou comendo nada” eram algumas das frases que eu ouvia constantemente no meu escritório.

>>>>> Veja também: Não faça loucuras para caber em um vestido de noiva <<<<<

Quando a Carla postou um texto sobre emagrecer para caber no vestido de noiva, os relatos me doeram. Por mais que eu saiba que essa pressão estética é fruto de uma construção que permeia toda a sociedade e não só o mercado de casamentos, eu não poderia ficar calada sobre a responsabilidade dos profissionais dessa área na manutenção dessa cobrança que vêm adoecendo várias mulheres em um momento que deveria ser de alegria.

E de fato, os casos mais comentados de pressão estética e gordofobia no mercado de casamentos estão relacionados à escolha do vestido. Frequentemente, as visitas aos estilistas ou lojas de vestidos se tornam uma longa sessão de comentários sobre o corpo da noiva. “Quantos quilos você deseja perder até o grande dia?”, “Você não pode usar esse modelo porque vai ficar vulgar no seu corpo”, “Vamos esconder essa gordurinha debaixo do braço” “Vou criar um vestido com corselet que vai remodelar todo o seu corpo” foram alguns dos comentários que presenciei ao acompanhar minhas clientes. Diante disso eu sempre precisava reafirmar o que parecia óbvio: É o estilista que deve criar um vestido para o corpo que você tem e não você que deve criar um corpo para se adaptar ao vestido do estilista.

Tenho consciência de que algumas noivas chegam ao profissional com muitas questões sobre o próprio corpo, mas não isso não autoriza comentários sobre emagrecimento ou ganho de peso sobre determinado corpo ser ideal para “arrasar” no altar ou o comentário mais cruel de todos: “Não se preocupe, toda noiva emagrece durante os preparativos”.

Essa frase é repetida cotidianamente e sem muito pudor por fornecedores de todas as frentes: estilistas, fotógrafos, maquiadoras, cerimonialistas, confeiteiras como uma espécie de alento. Além de não ser uma afirmação real, não consigo compreender de que maneira um emagrecimento por ansiedade deva ser comentado, celebrado e até mesmo romantizado por aqueles que foram contratados para cooperar com a tranquilidade de um casal.

Tudo isso, agravado pela ausência de representação de corpos de outros tamanhos nas revistas, desfiles e até mesmo nos portfólios dos profissionais. Mulheres gordas casam, são produzidas, fotografadas e filmadas, mas eu não tive a oportunidade de ver uma noiva gorda como capa do portfólio de nenhum dos muitos profissionais que visitei ao longo de seis anos de profissão.

Mas o que eu mais preciso dizer é: O casamento não é sobre o corpo da noiva.

Não é nem mesmo sobre a figura da noiva; é um evento que faz parte de uma tradição maior que o mercado de casamentos, que envolve um casal que tem uma história e compartilha uma série de significados e promessas diante das pessoas mais importantes das vidas deles.

Reconhecer isso e conduzir a noiva de volta a esse contexto não apenas é um gesto de empatia, mas algo que pode fazer o trabalho do fornecedor brilhar no mercado.

Já não trabalho como cerimonialista, mas sigo na torcida por casamentos com mais macarrons e menos julgamentos.

2 em Autoestima/ Camilla Estima/ Saúde no dia 06.09.2018

“Não posso correr o risco de ser gorda”

Sei que a frase do título é impactante, mas é assim que pensa a pessoa gordofóbica. E não to falando em gordofobia com preconceito explícito, não.

Nos últimos dias, durante consultas com alguns pacientes onde a tônica sempre acabava no medo de engordar ou de tornar-se gordo, tive alguns insights que fiquei com vontade de dividir aqui no Futi. Quando, já estava enumerando os motivos que fui reunindo nessas consultas que me dessem uma ideia do que a sociedade acha das pessoas gordas.

As respostas foram das mais diversas, mas ao mesmo tempo bem homogêneas:

– gordos são fracassados
– gordos não têm força de vontade
– gordos são acomodados
– gordos não prezam pela sua saúde
– gordos não tem apreço pelo seu corpo
– gordos são gordos porque querem
– gordos são desleixados
– gordos são sem vergonha
– gordos não têm foco
– gordos não querem mudar seu comportamento

E aí,  já que a sociedade pensa isso dos gordos e muitas pessoas – com todos os tipos de peso – foram criadas em cima dessas verdades gordofóbicas, qual a linha de raciocínio mais comum? “Eu não posso correr o risco de que pensem isso de mim, pois se eu for gorda eu entro nesse pacote todo e tudo que eu não quero é ser incluída nesse grupo.” Para evitar esse risco, recebo no meu consultório regularmente pessoas que morrem de medo – e alguns casos, até mesmo pavor – de engordar, e por causa disso entram em uma espiral de dietas. Qualquer uma que seja.

A revista está dizendo que celebridade X emagreceu 20 quilos fazendo a dieta da água? Experimentam. A musa fitness do instagram está dizendo que passou a tomar um chá desintoxicante que fez ela desinchar e emagrecer 5 quilos em 3 dias? Opa, no dia seguinte o chá está na casa delas. Um site disse que a nova dieta que promete fazer você emagrecer sem riscos de efeito sanfona anunciou uma nova forma de se alimentar? Por quê não tentar, né?

Por conta dessa ótica, a perda de peso passa a ser considerada uma conquista justamente porque na cabeça de muita gente, emagrecer – 100g que seja – significa se afastar da ideia de ser vista como alguém preguiçoso, desinteressado, relaxado, sem força de vontade, perdedor, doente.

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Agora pensando friamente, de tudo acima que listamos sobre pessoas gordas, isso efetivamente acontece? Quando saiu a matéria de capa da Tess Holiday na Cosmopolitan – revista internacional de impacto global – a própria revista publicou uma matéria sobre a repercussão de sua capa e começa com uma frase espetacular: “ninguém está mais ciente do seu corpo do que uma pessoa gorda”. É isso.

Não, não estamos fazendo apologia à obesidade, não estamos glamourizando a obesidade (que sinceramente, nunca entendo quando tentam usar esse argumento), tampouco estamos pedindo para as pessoas serem gordas. Com esse papo, estou tentando estimular a EMPATIA com as pessoas, especialmente com as gordas que tanto sofrem esse bando de estigma e preconceito que fiz questão de enumerar no começo do texto.

Vira e mexe quando falamos isso vem a galera da higienização do corpo gordo: “Ah, mas estão doentes!” “Ah, mas achando essa gorda na capa, estamos propaganda doença”. E aí eu penso, caramba, se eles por acaso estiverem doentes, seria mais um motivo que deveria me fazer acolhê-los, não? De que adianta apontar o dedo a alguém doente? E mais, se a Tess Holiday está doente na capa da Cosmopolitan, ela não teria direito ao espaço por isso? Pessoas doentes devem ser marginalizadas? Que tipo de pensamento é esse, gente?

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Enquanto não falarmos abertamente sobre gordofobia e ela não incomodar as pessoas, inclusive a você que está lendo esse texto e se identificou de alguma forma com ele, o mundo vai continuar do jeito que está.

Temos que ter EMPATIA e temos que ACOLHER as pessoas, qualquer que seja o seu corpo, peso ou aparência. Estando elas saudáveis ou não. Isso não é propagação de doença e sim de RESPEITO.

0 em Autoestima/ Convidadas/ Destaque no dia 16.07.2018

Pressão estética x gordofobia

Quando começamos a desbravar o universo relacionado à autoestima, conhecemos alguns novos termos para atitudes antigas que acabaram ganhando força no cenário atual. Inclusive, graças a Deus ganharam essa força. Dentre os temas que eu mais busquei quando me entendi mulher, gorda e feminista, os que eu mais quis entender foram a pressão estética e a gordofobia. Demorou pra que eu entendesse a peculiaridade e importância de discutirmos esses dois em específico, especialmente pela minha condição de mulher, gorda e feminista. Mas antes de mais nada, precisamos definir o que é pressão estética e o que é gordofobia, para então conversarmos sobre o porquê desses temas serem tão importantes.

A pressão estética, como o próprio nome sugere, é aquela pressão social difundida, em suma, pela mídia. Ela nos leva a nos sentirmos insatisfeitas com nossa imagem, com nosso corpo, com nosso rosto e com nossas diferenças, nos fazendo procurar nos encaixar em um padrão. É tão sutil e presente nas nossas vidas que muita gente nem acha que sofre. Todo mundo sofre pressa estética, homens e mulheres, cada um com seu grau de cobrança, claro. Vivemos em um tempo onde nossa imagem é cada vez mais valorizada, antes mesmo de nos conhecermos. Essa imagem, segundo o que nos é imposto, precisa atingir padrões irreais e quase inatingíveis para nos causar insatisfação e nos levar a um consumo excessivo para tentar nos enquadrar.

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Por sua vez, a gordofobia está dentro da pressão estética, mas o buraco é mais embaixo. A gordofobia é um tipo de preconceito enraizado e estruturado dentro da sociedade, sendo ela disseminada em diversos contextos. É como se fosse uma grande perda de direitos de uma pessoa só por ela ser gorda. O gordo, nesse caso, é julgado como incapaz, como doente, como fracassado, como alguém que não tem o direito de freqüentar lugares públicos. A gordofobia vai além de não se sentir bonito, de não se encaixar no padrão. É uma pressão que afeta a forma como a sociedade funciona. Até porque essa sociedade foi arquitetada para pessoas magras. Não rodamos em catracas, não cabemos em bancos de aviões, não podemos frequentar certos ambientes.

Quando comecei a estudar esses temas, enxerguei muitas vezes comentários de pessoas que sofriam pressão estética relativizando quem sofre gordofobia. “Mas eu era chamada de magrela no colégio”, “sempre me zoavam por ser muito magra”, “minha família sempre me fala que estou doente por estar muito magra”. Aos ouvidos de quem sofre gordofobia, esses comentários podem soar como um grande silenciamento de uma dor já enraizada. Calma, eu posso explicar! A questão aqui é a gente pensar na sociedade, não apenas no indivíduo.

Eu entendo que o bullying que magras sofreram é real, machucou, deixou traumas. Nunca irei diminuir a dor de ninguém, todas as dores são legítimas. Mas não ouvi muitas histórias de pessoas magras que perderam o emprego ou uma oportunidade de emprego por serem magras. Também nunca vi histórias sobre não caber em lugares ou ser barrada em entrada de locais privados por serem magras. A discriminação de pessoas magras, ou não, acontece pela pressão estética, mas não é tirado delas o direito de ser ou estar apenas pelo tipo de corpo. Quando pensamos em uma pessoa gorda, acontece uma desumanização por meio da consideração do corpo gordo como automaticamente doente e incapaz de fazer parte da sociedade.

Eu entendo, por exemplo, que por ser uma gorda tamanho 50, é muito mais fácil para uma marca de moda plus size me contratar do que contratar uma mulher manequim 54. Entendo que eu tenho uma série de privilégios que me levam a estar presente em locais que pessoas maiores do que eu não podem, simplesmente pela diferença de tamanho de corpo. Por isso a importância de uma palavra: empatia! Sei que tem gente que não aguenta mais ouvir essa palavra, que acha que ela virou uma palavra da moda e que é impossível trazer essa palavra para nossos atos no dia a dia. Mas dá, acho que a gente só precisa entender algumas coisinhas. 

1]

A nossa vivência não mede a vivência de toda uma sociedade. Nós podemos ser regra ou ser exceção e isso não diminui a dor do outro. Por isso, independente do nosso tipo de corpo, é importante ouvir o que outra pessoa passou como experiência sem relativizar o caso, sem levar para o pessoal ou sem se colocar como pessoa digna de sofrimento maior ou menor. Assim nós conseguiremos seguir adiante, deixando cada vez mais a gordofobia e a pressão estética pra trás e nos sentindo melhor com nossa imagem pessoal.