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feminismo asiático

6 em Autoestima/ Convidadas/ Destaque no dia 06.12.2017

Nasci assim ou fiquei assim?

Eu acompanho o Futi há muito tempo e outro dia rolou um papo bem interessante no stories sobre racismo. A Jô pediu algumas sugestões de movimentos contra o preconceito e eu mencionei que eu tinha me encontrado no movimento de feminismo asiático e representatividade amarela.

Quando fui convidada para escrever um texto fiquei nervosa, ansiosa e feliz. Escrever sobre preconceito sempre é complicado e delicado porque eu pessoalmente tenho muito o que aprender e não quero soar pedante ou arrogante. Em geral, mulheres amarelas no Brasil gozam de muitos privilégios, mas infelizmente não estão livres de preconceito.

Há algumas semanas eu fiz uma pergunta no grupo #paposobreautoestima do Facebook sobre mulheres asiáticas, em particular de descendência japonesa. As respostas foram bem parecidas: delicada, inteligente, discreta, sempre feliz, prestativa, paciente e submissa.

Agora imagina você já nascer com a obrigação de ser assim? Tudo isso é esperado da mulher descendente de japoneses. Essa é a imagem que a mídia vende e a sociedade espera. Claro que sempre vai existir aquela discussão. Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha? Mas na minha vivência posso assegurar que essas características não são genéticas e nem inerentes à cultura. Isso é uma imposição invisível que com o tempo começa a se transformar em características levadas para a vida adulta.

ilustra: Yuschav Arly

Historicamente falando, os japoneses brasileiros durante e após a 2a guerra mundial tiveram que se esconder e até mudar de nome para evitar represálias, já que o Japão era inimigo do Brasil. Claro que com os olhos puxados, mesmo mudando o nome de Yoshi para Paulo ficava bem difícil se esconder. Então a única maneira que os japoneses encontraram de passar desapercebidos foi criar uma reputação de pessoas calmas, discretas e submissas.

Eu fui criada com avós que chegaram no Brasil antes da guerra, então eles viveram na pele essa situação. Sempre fui lembrada que se destacar na escola não era legal. O importante era ser bom aluno, mas não se mostrar. Sempre ser humilde e discreto. Mas e se você nasce diferente? Se você quer se mostrar?

Eu quando criança adorava brincar de chacrete com a minha prima (quem tem mais de 30 anos vai lembrar #anos80feelings). Amava dançar. Mas com o tempo isso começou a ser tolhido. Não de uma maneira direta. Minha família nunca me proibiu de dançar nas festas da família, mas com o tempo eu via que isso não era esperado de mim e até criava um certo desconforto por sermos crianças desinibidas. E com o tempo paramos de ser chacretes. Nos tornamos mais introspectivas, mais estudiosas, mais discretas e mais submissas. E assim, conseguimos nos encaixar no modelo japonesa padrão.

Hoje, com 43 anos e depois de ter conhecido o feminismo asiático, eu olho para trás e vejo que muitas escolhas que fiz foram por causa da minha etnia. No colégio fui fazer Exatas, mesmo sendo de Humanas. Na faculdade, a mesma coisa. Até que com 22 anos, depois de um intercâmbio, resolvi estudar o que realmente eu amava. Tenho muita sorte que a minha família sempre me apoiou.

O que eu acho mais doido é que eu sou mestiça com português. Meu pai nasceu em Portugal e nunca eu tive nenhuma característica imposta por ser portuguesa – ok, tive que aprender músicas do Roberto Leal e dançar o vira :) Minhas primas do lado do meu pai nunca foram cobradas. Tiveram livre arbítrio na sociedade para serem engenheiras, advogadas, atrizes, designers, professoras ou médicas. Não tiveram a cobrança de serem inteligentes, discretas, delicadas e pacientes.

Por isso o feminismo asiático é tão importante. Para quebrar esses paradigmas. Para quebrar esses pré conceitos. Para as mulheres serem livres. Para sempre.