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5 em Autoestima/ Camilla Estima/ Convidadas/ Destaque/ Saúde no dia 07.05.2018

Quando eu for magra…..

Eu não consigo nem de longe imaginar como dever ser a vida de uma pessoa famosa, daquelas que arrasta multidões em shows, cinema, televisão. Fico de longe acompanhado e imaginando a pressão que essas pessoas devem sofrer com isso. Não, não vamos começar com o discurso “mas ela que quis ser cantora”, “ah mas vida de atriz é isso mesmo” pois eu sei que em algumas profissões, isso é inerente. Ok.

Mas voltando à história da pressão, imagina o quanto palpitam na vida dessas chamadas celebridades? Estado civil, a roupa que está usando, o restaurante que foi, e o que costumamos discutir muito por aqui, o corpo. E todas suas vertentes como peso, forma, cabelos, pele e por aí vai.

Rolou esses dias no grupo do #paposobreautoestima no Facebook uma matéria sobre o emagrecimento da cantora Marilia Mendonça. Paralelamente, muita gente estava lá nas minhas redes sociais compartilhando a mesma questão. Fui me informar mais sobre o assunto.

Quando coloquei no Google apenas “Mari…” a busca já completou com “Marilia Mendonça magra”. Pois é….respira fundo e segue o baile.

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O emagrecimento “relâmpago” dela não me chamou atenção, pois isso é bem comum no mundo das pessoas famosas e influenciadoras. Não posso opinar sobre as estratégias que ela fez pois não é do meu conhecimento. Se ela fez reeducação alimentar, cirurgia, procedimento estético ou qualquer coisa do tipo, também não sei, mas algumas coisas me chamaram atenção no post em questão, então é disso que vamos falar.

É a velha história do “quando eu for magra eu vou” e aí complete a frase com qualquer outra ação: conseguir um emprego melhor, fazer a viagem dos meus sonhos, arrumar um namorado, usar aquela roupa, fazer tatuagem e, no caso da Marília Mendonça, cortar o cabelo.

Nesse caso do cabelo, esse assunto ainda vem com a carga de uma vida ouvindo que “pessoas gordas não combinam cabelo curto”. Sim, cabelos são a moldura do rosto, mas ainda assim não consigo estabelecer a tal relação. Inclusive acho de uma maldade absurda reproduzir esse tipo de pensamento, porque só é mais uma forma de gerar insatisfação.

Mas vamos voltar ao problema do “quando eu for magra”? Por que pensar assim é complicado? Porque a gente está sempre condicionando magreza à felicidade, sucesso, conquistas. A Jô falou sobre isso no seu vídeo com a Daiana Garbin, para quem ainda não viu:

E o outro problema que encontramos ao falar essa frase é que caímos na inverdade que pessoas gordas não são felizes. Essa convenção social, que infelizmente já virou uma crença, é um dos grandes problemas dos dias atuais. A ideia de que perda de peso virou sinônimo de sucesso e conquista e ganho de peso sinônimo de fracasso gera uma das maiores prisões que podemos reproduzir.

Além do problema do “quando eu for magra”, me deparei com uma outra coisa que eu considero problemática nesse meio. Uma resposta que ela deu para um seguidor, com uma outra frase que a gente já está cansada de ouvir e saber, mas que mesmo assim vale a pena conversar sobre:

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Essa resposta sempre me assusta. Não foi ela que inventou esse termo, isso é outro discurso totalmente enraizado no mundo das dietas. E qual o problema dele? O preconceito que traz acerca dos obesos. Vira uma relação direta de que a pessoa só é gorda porque quer, porque não tem força de vontade, porque não se cuida, porque é relaxado (a). Como disse brilhantemente uma nutricionista colega Fernanda Pisciolaro no vídeo que também gravou com a Daiana Garbin, se você tentou um método por muitas vezes e ele não funcionou, falta de vontade é tudo que você não tem, senão você não teria tentado tantas vezes. Como sempre falamos, talvez seja o método que esteja equivocado, não você.

Então, da próxima vez que você tiver um pensamento no estilo “quando eu emagrecer”, repense os motivos dessa crença, se questione, porque por mais que tentem te fazer acreditar no contrário, a verdade é que FELICIDADE E EMAGRECIMENTO não são sinônimos.  Será que você precisa atingir um objetivo de emagrecimento para fazer coisas que você tem vontade de fazer agora? Será que você precisa atingir um peso ideal para ser feliz? Um spoiler – e uma boa notícia – não. 

E quanto à Marília? Vamos continuar curtindo as músicas dela que a gente sai ganhando mais.

2 em Autoestima/ Camilla Estima/ Comportamento/ Destaque/ Saúde no dia 22.03.2018

E a gente achava que eram só as blogueiras fitness

Há pouco mais de um ano escrevi para o Futi sobre a influência das blogueiras fitness no comportamento alimentar das mulheres. Havia um nicho nessa história: mulheres de diferentes carreiras que passaram a compartilhar nas suas redes sociais os seus treinos, sua alimentação, seus suplementos, tratamentos estéticos e receitas para atingir esse conceito de “corpo perfeito” vendido como algo sustentável, saudável e inofensivo. A verdade é que não era bem assim.

Seus corpos viraram sonho de consumo e um novo padrão de beleza foi criado nas redes sociais. Descobri pouco tempo depois, no meu próprio consultório, que o preço a se pagar por se deixar influenciar por elas ia muito além dos altos custos de consultas, remédios e comidas fit. O que era vendido como “bom e saudável” muitas vezes desorganizava todo o comportamento alimentar de quem tentava replicar o modelo por si só, sem falar na eterna busca de um corpo difícil de manter em uma vida equilibrada sem muitos sacrifícios. A insatisfação se tornou um sentimento comum para os viciados em Instagram.

Aquele comportamento nocivo era um problema? Sim, mas era um nicho! De “musa fitness” pra pessoas interessadas em levar esse estilo de vida, ainda que inconsciente dos riscos. Quem não se sentia pertencente ao “meio fitness” provavelmente nem seguia essas pessoas ou não prestava tanta atenção.

Há pouco mais de um ano criei a minha conta profissional no Instagram e todo um novo mundo apareceu pra mim. Comecei a seguir alguns perfis de mulheres cheias de seguidores com as mais variadas profissões: blogueira, cantora, atriz, empresárias, herdeiras, fenômenos do youtube….nenhuma blogueira fitness. E o que elas têm  comum? Compartilham diversas facetas de suas vidas nas postagens do feed ou nos stories. Até ai tudo bem. Falam super bem de produtos de beleza, moda, do seu estilo de vida, viagem de férias, semanas de moda, e por aí vai.

O que estava me parecendo divertido, curioso, no máximo um pouco ostentatório em alguns momentos, aos poucos foi se mostrando tão potencialmente perigoso quanto o nicho das musas fitness. Seguidoras e pacientes começaram a me encaminhar posts e stories DIARIAMENTE perguntando do perigo de alguns posts inofensivos dessas influenciadoras.

Nenhuma delas blogueira fitness, nenhuma delas profissional da área de saúde. Se ficasse nisso estaria tudo certo, seriam apenas mais algumas mulheres famosas, ou as chamadas “influenciadoras digitais” exaltando o corpo magro, difícil de ser mantido por mulheres em uma rotina mais convencional ou que não podem ter todo o acompanhamento profissional que elas têm, mas infelizmente não vamos parar por aqui. O problema começa quando elas começam a falar de sua alimentação, comentam todo e qualquer ganho de peso (ainda que imperceptível para quem as segue), pedem desculpas para a nutricionista por simplesmente terem sentido prazer ao comer, dividem uma relação conturbada com a comida ou então avisam que vão ter que encarar seu personal trainer para compensar o que comeram.

Algumas das postagens que recebi:

1) “Tá pago”, umas dizem após o treino na academia. Só que exercício não é boleto e compensar comida com alimentação é um mecanismo arriscado. Exercício físico é, sim, uma forma de estimular o corpo a gastar energia, talvez a excedente, e promover perda de peso. Mas exercício físico não serve só para isso! É uma forma de adquirir consciência corporal, bem estar, descarregar energia, trabalhar emoções.

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2) Hoje temos atrizes que passam da marca do milhões de seguidores que se justificam por TUDO que comem no stories, praticamente pedindo desculpa para o personal trainer. Normalmente os alimentos que povoam a lista do “não pode” são um milk-shake no fim de semana ou um hamburguer depois de uma rotina puxada de gravações. Esse é um gatilho importante para demonização da comida, pra todo mundo ver, ou melhor, para uma porcentagem nem tão pequena assim do mundo

3) Tem atriz adolescente com mais de 13 milhões de seguidores que passou a fazer dieta para perda de peso acompanhada de ex participante de reality show que nem nutricionista é. Qual o problema disso? A adolescência é uma fase de inúmeras mudanças corporais, acompanhada por insatisfação corporal que leva tantas meninas para o início da prática de dietas. Salvo raras exceções, dieta restritiva não é indicada a adolescentes que queiram perder peso, e sim para a modificação dos hábitos alimentares de forma saudável. A partir do momento que uma adolescente famosa mostra-se insatisfeita e começa a falar sobre dieta restritiva abertamente, mesmo tendo um corpo que já era considerado bonito e dentro do padrão por suas seguidoras, existe a chance de gerar um gatilho de insatisfação corporal em meninas que deveriam estar se preocupando apenas em comer de forma saudável, nunca em associar comida à sacrifícios. 

4) Muitas influenciadoras dividem suas porções de alimentos congelados que chegam em suas casas – acompanhada de um código de desconto para o seguidor, claro – o que demoniza ainda mais o ato de cozinhar ou desenvolver habilidades culinárias. Para algumas pessoas isso pode parecer besteira, mas me entristece ver o tanto que o hábito de cozinhar é exaltado como sendo uma perda de tempo, sendo que é uma das estratégias mais certeiras para quem deseja conquistar uma alimentação realmente saudável, comendo comida de verdade.

5) E a profusão de snacks “saudáveis” sem gluten e lactose que se tornaram modismos absolutos? Pessoas que não precisam excluir todos esses grupos alimentares começam a fazer isso indiscriminadamente. Será que TODAS que excluíram esses itens de sua dieta são intolerantes ou celíacas real? Isso acaba gerando um gatilho para restrição alimentar infundada. Esse é mais um dos modismos perigosos que elimina da alimentação das pessoas pelo menos 3 grupos alimentares que fazem parte de uma alimentação de fato saudável.

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6) A coisa fica mais complicada ainda, porque ao mesmo tempo que a despensa dessas moças é lotada de alimentos “saudáveis”, elas se pegam recebendo caixas e mais caixas de comidas calóricas também. E o que elas dizem sobre eles? “Gordice”, “vai gordinha”, “baleia”, “isso é um crime premeditado”, “coisa do capeta”, entre outras piadinhas que ou demonizam (nesse caso, literalmente) ou são inundadas de termos gordofóbicos. Nessa hora podemos pensar como seguidoras gordas ou aquelas que estão na luta para comer essas coisas sem culpa se sentem. Elas estão sendo bombardeadas com assuntos que não estão relacionados com batom ou jaqueta, é saúde!

7) No meio dessa incongruência toda parece que elas precisam se justificar para suas nutricionistas ou personal trainers sobre a rotina alimentar, sempre falando em castigo e compensação. Seja em Paris ou em São Paulo, frequentemente tem uma desculpa ou justificativa para o profissional de saúde que as acompanham. “@fulano vai ver meu stories e me castigar amanhã no treino”, “@drafulana, 2ª feira eu volto pro foco”. E aí vemos vários profissionais atuando também como fiscal do paciente, e a prestação de contas sobre o que se come e de como isso deverá ser compensado depois gera mais e mais ansiedade e sentimento de culpa. 

8) Isso que eu ainda não falei de quem compartilha dieta liquida pela manhã para devorar uma panela inteira de brigadeiro à noite. Ou seja, discurso de restrição que leva à compulsão, carregado de culpa. Já recebi tantas mensagens me alertando sobre esse tipo de prática entre influenciadoras que perdi a conta. E onde está a vida saudável aí? Esse tipo de comportamento é tudo, menos saudável.

E sabe o que é mais triste? Descobrir que a grande maioria dessas meninas sempre teve um corpo relativamente dentro do padrão, mas em algum momento sofreu body shaming (seja dos seus próprios seguidores ou de algum instagram feito para gongar famosos) e mudou radicalmente o discurso, e o corpo.

Será que o mercado criou uma demanda para essas moças emagrecerem e, dessa forma, estamparem capas de revistas, comerciais de TV e usarem as roupas dos acervos de produção de moda? Pelo que ouço de histórias dos bastidores no Futi, acredito que muitas mulheres optaram por começar dietas altamente restritivas para trabalhar com mais clientes e marcas, que escolhiam as mais magras e mais dentro do padrão de beleza. Muitas vezes as influenciadoras digitais são usadas como modelos…mas elas não deveriam estar ali por serem quem elas são?


Será que são os seguidores que as pressionam sobre seus corpos faz com que elas se sintam na necessidade de se restringir? São pedidos de vídeos para conhecer as dietas, a série da malhação e parece que o milagre do corpo é o comentário mais pedido. A insatisfação é tanta que todo mundo só foca nisso? 

Será que as pessoas estão tão desconectadas de si que elas querem o corpo do outro? Lembro que uma vez uma delas postou seu plano alimentar no stories e no dia seguinte comentou ter ficado impressionada pois mais de 10 mil pessoas deram prints. 10 mil pessoas que não iriam procurar profissionais pra um plano personalizado pro seu caso!

Acho que essas perguntas podem nem ter resposta mas o que vejo são moças lindas, em seus diferentes corpos, tendo que se justificar continuamente! Se justificar porque saiu da dieta, ou porque comeu salada; porque não malhou hoje, ou porque malhou pesado. Hoje muitas se encontram em uma relação paradoxal com a comida e de quem é a culpa? Dela ou de todo mundo que exigiu um dia um corpo perfeito dela? Nada anula a irresponsabilidade, mas tem muito mais fatores envolvidos nesse ciclo onde mulheres que trabalham com a imagem PRECISAM chegar a tal ponto. E quando chegam, conquistam uma audiência que só está li porque quer saber qual o “milagre” para conquistar o corpo da influenciadora.

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No fim, acho que devemos parar pra pensar sobre nosso papel nisso tudo. Por quê o cliente de moda ou a revista precisou que a blogueira ficasse mais magra? Por quê vende mais? Por quê quando uma mulher conquista algo incrível, focamos na beleza ou na magreza na hora de comentar a foto? Será que nós não temos parte nesse processo de oprimir quem nos oprime?

Ainda que não venhamos a concluir nada, independente de quem vem primeiro – o ovo ou a galinha – precisamos ir contra o sistema e lembrar que essas rotinas inofensivas estão diariamente ensinando uma relação pouco saudável com o corpo e a comida, muitas vezes com exemplos clássicos que estão em todos os livros sobre transtornos alimentares. Com sinais de risco para anorexia nervosa, bulimia, compulsão e outras doenças psiquiátricas que se alastram como praga pelos nossos consultórios, escondidas em muita insatisfação e inadequação!

Parece que a influenciadora não tem a mínima ideia do risco do que está acontecendo, assim como as seguidoras também não. Então a melhor forma para continuar consumindo todo esse conteúdo que chega para a gente nas redes sociais é saber filtrar, ter um olhar crítico nas mensagens que estão sendo passadas, entender quais perfis têm mais pontos positivos do que negativos e quais são aqueles que nos geram algum tipo de insatisfação e se perguntar: vale continuar seguindo ou não?