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0 em Autoestima/ Book do dia/ Comportamento/ Convidadas no dia 07.02.2018

Book do dia: Dias de abandono (e um papo sobre autoestima)

“Dias de abandono” retrata, com a riqueza de detalhes que os leitores de Elena Ferrante já conhecem, o abismo no qual Olga, 38 anos, é arremessada assim que Mario, seu então marido há 15, comunica que a está deixando. Assim mesmo, sem que ela tenha sido consultada ou questionada antes. Uma infeliz e arrebatadora surpresa.

A partir daí desencadeia-se um dia-a-dia de luta pela sobrevivência e adequação em um cenário totalmente inesperado, desorganizado. Olga, que tinha deixado a carreira de escritora para cuidar dos dois filhos Gianni e Illaria, da casa, da família, agora se vê sozinha para continuar cuidando de tudo, incluindo Otto – o cão da família pelo qual não demonstra morrer de paixão -, e todas as outras questões que envolvem as vidas que continuam com ela, sob o mesmo teto. Ao mesmo tempo em que lida com a dor de ter sido deixada, sem tempo para compreender o que está acontecendo, sem se quer se reconhecer.

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Olga, que comanda a narração nos aproximando de suas angústias e sentimentos, revisita essa década e meia de sua vida em busca de respostas. Convive ainda com um fantasma de sua infância, a vizinha que foi abandonada pelo marido e passou a perambular pela cidade,  descuidada de si até o fim, tornando-se a personificação – vinda também de comentários e julgamentos – do que seria a maior fraqueza de uma mulher… tudo o que Olga não queria para ela naquele momento.

O que ela precisa é conduzir seu presente latente como um equilibrista iniciante que é testada a cada novo fato, em geral envolvendo os filhos. A vida tem que seguir assim. Olga tem que se reconstruir. Ela deseja isso, por mais que em vários momentos a sensação que nos dá é a de que essa mulher apenas gira em círculos, como se não quisesse sair do lugar.

Pessoalmente, confesso, tive momentos de olhar para aquela mulher “nua” diante de mim e agradecer por eu ser eu e não ela. Em outros, a necessidade de vê-la sair do emaranhado em que sua vida estava presa me dava a necessidade de colocar a minha casa em ordem, literalmente. Cheguei a lavar a roupa do cesto que, em outras situações, até poderia esperar o acúmulo de mais peças, como se assim, eu pudesse, de alguma forma, garantir que aquela Olga e sua realidade nunca chegasse perto de mim. Como se, de alguma forma, arrumar parte da minha rotina colocaria ordem na vida da personagem. Sim, o livro mexeu comigo dessa forma.

Impossível não pensar no Papo sobre Autoestima do F-utilidades e em tantos exemplos de como são reais os abismos nos quais somos arremessadas hora ou outra; de como pode parecer simples e fácil pra mim que outra pessoa saia de uma situação, mas para ela não é tão simples assim; de como compartilhar histórias e angústias reais pode nos mover, mesmo que não estejamos diretamente ligadas a elas; e como a sororidade e o apoio são essenciais na vida de todos nós. 

A boa noticia vem com SPOILER: a medida que Olga retoma o comando de sua vida, libertando-se do que a prendia aos personagens e enredos do passado, a vida recomeça a fluir. Ela tem esse poder. Todas nós temos. As vezes, só precisamos reorganizar a casa.

PS. Comecei a ler Elena Ferrante pela trilogia anterior à famosa tetralogia, sem querer. Li “A Filha Perdida”; “Um Amor Incômodo” e “Dias de Abandono”, e entre os dois últimos li “Uma noite na praia”, que eu considero um ‘conto’ relacionado ao primeiro livro. Pelo que li e ouvi sobre as quatro recentes obras da autora, eu comecei pelos mais pesados. O que pode ser bom. Veremos!