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deu o que falar

8 em Autoestima/ Deu o Que Falar no dia 30.01.2017

Miss Canadá, você me representa

Ontem rolou o Miss Universo, e estava eu assistindo de boas quando vejo cruzar a minha TV a Miss Canadá, Siera Bearchell. Não vou negar que o corpo dela chamou a minha atenção de cara, peitos maiores do que as outras candidatas, curvas e um porte super atlético. Achei linda!

Qual não foi minha surpresa ao ver os comentaristas no intervalo debatendo sobre ela, mas de forma pejorativa! Um comentou que ela estava fora do padrão, e por isso, era feia. Também rolaram alguns comentários bem gordofóbicos dizendo que só pode usar cropped quem não tem uma gordurinha. Ah, e toda hora faziam questão de dizer que ela não tem corpo de miss. Um indivíduo, que não quero citar o nome, chegou a dizer que ela entrou por cotas. Eu fiquei em choque com tamanha grosseria. Cotas??

A Camilla Estima, nossa colunista nutricionista, levantou a questão no nosso grupo e todas as meninas estavam abismadas com a deselegância. Ela fez questão de lembrar como a comparação é tão ruim que faz com que uma mulher magra em um ambiente de corpos excessivamente magros se torne…gorda! O quão louco é isso??

Toda vez que me pego ouvindo que uma mulher do tipo físico da Siera é gorda, eu fico me perguntando seriamente o que a pessoa acha de mim. Aliás, se esse comentário é feito na minha frente, eu pergunto sem pudor e sempre ficam sem graça ao me responder “ah, mas você não é gorda..” Preferia que assumissem a régua que estão medindo logo de uma vez, mas isso dificilmente acontece. Pelo menos consigo pausar esse tipo de comentário e quem sabe faço a pessoa pensar sobre isso? Só acho muito triste eu confirmar em rede nacional e horário nobre que a régua continua sendo tão exclusiva (no sentido de excluir mesmo, não de ser algo único).

Os apresentadores não foram os únicos a deixarem claro que o corpo de Siera não estava dentro dos padrões para miss. Infelizmente ela tem ouvido isso há algum tempo nas redes sociais e também nas entrevistas para a imprensa, que fazem questão de frisar que ela é mais larga que as outras concorrentes. Tanto que recentemente Siera resolveu escrever em seu instagram sobre o assunto, e deu um banho de autoaceitação, virei fã!

Legenda: “Como você se sente sendo tão mais…..larga que as outras candidatas?” Um membro da mídia me fez essa pergunta em uma coletiva de imprensa. Eu fiquei quase sem palavras. Eu pensei “Como eu me sinto por ser eu mesma? Como eu me sinto por estar segura comigo mesma? Como eu me sinto por estar seguindo meu sonho de representar o Canadá no palco do Miss Universo? Como eu me sinto por ser um modelo para tantas meninas jovens que têm dificuldades de achar alguém que representem elas? Como eu me sinto por redefinir beleza?”- Minha resposta: Eu me sinto ótima. 

O Miss Universo existe desde 1952 e de lá pra cá, tem sido palco de diversas mudanças de padrões tanto de corpo quanto de cabelo e de moda. Vendo a Miss Canadá chegar até o top 9, eu fiquei pensando que talvez a gente esteja presenciando mais uma dessas mudanças, fiquei esperançosa de verdade. Até me deparar com comentários deselegantes de pessoas que estão ali falando sobre o concurso e de certa forma passando informação para os telespectadores.

Como assim a informação passada é de bullying, body shaming e desmerecimento por ela ser maior, mais larga ou mais curvilínea que as outras concorrentes? Se ela chegou ao ponto que chegou, estava claro que ela tinha corpo de miss e estava dentro dos padrões do concurso, não é mesmo? Por um momento fiquei achando tudo uma vergonha, um retrocesso.

Mas aí parei pra pensar melhor e resolvi olhar por um outro lado. Sei que é pedir muito de um Miss Universo ao desejar que ele traga discussões de empoderamento, amor próprio e autoaceitação, mas sabem que no fim das contas eu fiquei feliz? Feliz de ver uma mulher como a Siera ganhando voz e dando entrevistas contando como a vida dela mudou quando ela parou de tentar se adequar aos padrões. Feliz de ver muita gente questionando a emissora e criticando a postura preconceituosa dos apresentadores. Talvez, quem sabe, essa sementinha já esteja dando frutos?

5 em Autoestima no dia 19.10.2016

Uma carta para Mara Wilson

Querida Mara Wilson,

Antes de mais nada, queria dizer que quando eu tinha 7 anos eu queria ser você. Queria ter os mesmos olhos azuis, o mesmo cabelo liso e a franja perfeitinha. Também queria ter os poderes da Matilda e conhecer o Papai Noel que fez milagre de Natal para a Susan na Rua 34. Só não queria ter um pai que virasse uma babá quase perfeita porque isso significaria um possível divórcio, e isso é algo que nenhuma criança quer, né?

Resumindo, eu te idolatrava, te achava linda e…fofa. Qual não foi a minha surpresa, vinte e tantos anos depois, me deparar com uma parte do seu livro (que aliás, quero ler já para botar no #bookdodia aqui) onde você contava a dificuldade que foi ter sido a criança fofa de Hollywood e como você ficou perdida depois que virou pré adolescente e já não se encaixava nos padrões de beleza ou fofura da indústria do cinema.

Foto do blog Paper Trail Diary

Foto do blog Paper Trail Diary

Fiquei triste, sabe. Fiquei chateada com a frieza que te apresentaram seu primeiro sutiã, com as crueldades que você teve que ler sobre você na internet, com a tristeza de você ter perdido sua mãe tão nova e em uma época tão decisiva. Mas o que mais me marcou foi quando você começou a ver que outras meninas que você conheceu na pré adolescência estavam despontando em papéis de mulheres, enquanto você permanecia naquele limbo, crente que um dia a sua mudança iria acontecer naturalmente. E uma dessas meninas por um acaso ser a Scarlett Johansson não ajuda muito, né?

Acho que me marcou porque quando eu era mais nova, lá pelos 15, eu jurava que seria igual às meninas da classe acima da minha, ou então às populares da minha série. Que eu teria um cabelo lindo, corpão e namoraria o garoto mais lindo do bairro. Isso porque eu amava meu cabelo e namorei um menino muito legal (e que eu achava lindo) nessa época. Mas não estava satisfeita e continuava me comparando.

Isso continuou no ensino médio, faculdade, inclusive depois que entrei no mundo dos blogs. Aliás, diria que o mundo dos blogs ferrou minha cabeça um pouquinho e eu pude experimentar 1/1000000 do que você passou em uma fase muito mais difícil da vida. Ao meu lado, 1282928120 blogueiras mais bonitas, com babyliss perfeito, bem maquiadas, com corpos maravilhosos, postando as fotos mais lindas, com clientes super legais e sendo convidadas para os eventos mais incríveis do mundo. E a pressão para tentar me adequar à elas não partia só de mim.

Até que me deparei com uma frase que me ajudou muito:

capa-facebook

Pode parecer besteira, mas depois que passei a repetir ela como um mantra, eu diminuí a comparação, e não só no quesito beleza. Quando eu vi que até você, meu ídolo da infância, passou por um momento em que tentou se comparar com outras atrizes, vi que isso é algo que acontece com todo mundo, todos os dias. Só sei que depois que eu resolvi usar essa frase para me tranquilizar, parei de querer ser o que eu nunca seria e aprendi a admirar as qualidades das outras pessoas sem me pressionar a ter algo parecido. Se der para ter, ótimo. Se não der, não farei loucuras para conseguir nem me considerarei pior por isso.

Na verdade só queria escrever para te agradecer por ter se aberto, por ter escrito todas as dificuldades que você passou para chegar até aqui, por ter extravasado suas vulnerabilidades e permitido que a gente soubesse um pouco das dificuldades dos bastidores de uma das atrizes mirins mais famosas da minha infância. Se a Carla de 7 era sua fã, a Carla de 30 te admira mais ainda. :)

Beijos

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5 em Deu o Que Falar no dia 08.09.2016

Somos todas gordas?

Como vocês sabem, a gente deu uma parada no DQF. Primeiro porque eu não estou mais conseguindo me organizar para deixar o post pronto toda segunda feira. Acho que dá para perceber aqui que estou tentando fazer post sempre, mas as vezes dou uma falhada. Normal para quem teve a rotina totalmente modificada, né? :) Segundo porque muitas vezes os assuntos que abordávamos toda segunda feira tinham acontecido há quase uma semana e quando postávamos, já tinham virado notícia velha. Mas ontem surgiu um assunto que me fez morrer de vontade de ressuscitar essa coluna aqui.

Ontem foi divulgada a campanha da C&A promovendo seus jeans querendo passar a ideia de que com eles você pode expressar toda a sua individualidade e identidade. Vendo as outras peças da campanha eu achei a ideia no geral bem interessante e de acordo com aquele papo que vem sendo tão discutido sobre a representação da diversidade. 

O único problema é que uma das peças tem uma modelo plus size com os dizeres: “sou gorda & sou sexy”. Só que a modelo é alta, curvilínea e veste 44/46, ou seja, tá longe de ser gorda e passar pelas dificuldades e preconceitos que uma gorda sofre. Como cereja do bolo muitas consumidoras reclamaram que a C&A também não vende roupas acima de 48, ou seja, gorda mesmo não tem nem como se sentir sexy com as peças da marca porque elas simplesmente não cabem nessas mulheres. Como a Ju Romano bem apontou, faltou inclusão e sobrou reafirmação de que uma gorda aceitável e sensual não é realmente gorda. O tiro no pé maior é que não afetou apenas quem veste 48 para cima.

gorda

Vejam bem, eu visto 42 e não tenho como objetivo de vida fazer loucuras para caber num 38. Sou bem resolvida na hora de pedir G e até mesmo GG nas lojas, quero mais é que a peça fique boa no meu corpo, independente do número da etiqueta. Mas me incomodei porque sei que se um dia eu pular para o 44, eu poderei até me achar acima do peso, mas eu não vou ser gorda. Eu não vou ter dificuldade de passar em certos lugares, as pessoas não vão me olhar torto porque estou comendo, eu não vou ter tanta dificuldade de achar roupas legais em uma ida ao shopping.

Não, gente. O mundo não tá chato, as pessoas não estão vendo pelo em ovo, ninguém está exagerando ao reclamar disso. São mensagens como essa de que uma mulher que veste 44 ou 46 é gorda que precisam ser desconstruídas, caso contrário continuaremos na ditadura da magreza que agora vai continuar tentando nos convencer que quem usa 42 está acima do peso e quem veste 48 virou obesa mórbida. Como se a gente já não estivesse cansada de ouvir que você só é magra mesmo quando usar uma calça 36, no máximo 38. Ou seja, essa imagem nada mais é que o velho discurso com uma roupagem supostamente inclusiva. Somos todas gordas? Não, somos todas lindas, independente do número do nosso manequim.

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