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desromantização da maternidade

11 em Comportamento/ maternidade no dia 07.02.2018

A vida antes de ter filhos

Estava aqui olhando um texto do ano passado que eu fiz, me deparei com um comentário interessante, sobre uma daquelas frases clichês de maternidade: “ah, eu não lembro mais da minha vida sem meus filhos”. 

Sei lá vocês, mas eu me lembro. Me lembro muito bem. E lembro, inclusive, que minha vida antes do Arthur era muito boa. Eu saía sem hora para voltar, eu dormia até tarde, eu focava mais no trabalho quando precisava, eu maratonava Netflix em sábados de preguiça (e não estou falando em sessões ininterruptas de Moana), eu saía quando queria sem prestar grandes satisfações, eu chegava em casa depois de um dia cansativo e não precisava me importar se precisava dar jantar, dar banho ou botar para dormir. Era me jogar no sofá com uma pipoca e ver filme até dormir. Eu tinha mais tempo para aproveitar a vida de casada, para aproveitar as amigas, eu conseguia dizer sim a convites de última hora, eu conseguia fazer tudo sem precisar de grandes planejamentos.

maternidade

Enfim, era uma vida bem boa. E lembro como se fosse ontem.

O problema é que assumir isso muitas vezes é lido como uma prova de que a mãe deve estar odiando a vida pós maternidade. Quer coisa mais cruel que isso? E lá vamos nós para mais um capítulo sobre desromantização, até porque eu duvido que exista uma mãe que tenha se arrependido de ter filhos, independente da maravilha que era sua vida antes deles. Até botaria minha mão no fogo, se eu botasse a mão no fogo por alguém (coisa que não faço).

Minha vida hoje é bem diferente. É bem mais desgastante, é mais desafiadora, é mais cansativa sem nem precisar sair de casa. Tem dias que quero sumir, ir para a ilha deserta, ficar lá 1 mês (e torcer para que quando eu volte esteja tudo organizado). Mas é inegável que essa mesma vida também tem espaço para ser mais amorosa, mais curiosa, mais interessada, com mais tempo offline (por incrível que pareça), mais tempo de qualidade, mais descobertas, mais produtividade e mais maturidade – muito mais maturidade, posso acrescentar.

As vezes eu consigo unir as duas vidas, e nessas vezes eu consigo sentir um gostinho do que era ser eu antes do Arthur. Esse gostinho já é o suficiente para eu ter minha sanidade de volta, para eu confirmar mais uma vez que tudo está em seu lugar e, principalmente, que eu gostava muito de quem eu era antes de ser mãe, mas me gosto mais ainda agora. 

Não, ninguém vai ganhar o prêmio de pior mãe do ano por admitir que sua vida antes dos filhos era boa. Aliás, quem olha para trás e vê a sua história com orgulho, felicidade e saudade deve ficar feliz pelo privilégio de ter tido uma vida feliz sem depender de ninguém para isso. Porque é assim que relações saudáveis são construídas, sem bengalas emocionais, no máximo um corrimão para andarem juntos e subirem juntos os degraus da vida.