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2 em Autoestima/ Comportamento/ Convidadas/ Destaque no dia 23.11.2017

Mulata tipo exportação? Morena da cor do pecado? Não, obrigada! – por Anne Ribeiro

Mulata tipo exportação, morena da cor do pecado, globeleza…já perdi a conta de quantas vezes escutei essas expressões ao longo da vida. Algumas vezes até consigo perceber a intenção da pessoa em me elogiar, porém demorou muito tempo pra eu entender porque não me sentia lisonjeada ou sequer confortável em ouvir esses “elogios”.

A história não é simples, mas continuem comigo que prometo tentar resumir!

Ao longo da vida acumulei privilégios. O primeiro deles foi nascer em uma família de classe média – o que em nosso país é um privilégio e tanto!!! Estávamos longe de ser ricos, mas meus pais puderam proporcionar a mim e meus irmãos acesso à boa educação, brinquedos, roupas, uma infância preservada de ter que trabalhar e foi possível desfrutar de várias experiências que centenas de crianças infelizmente não experimentam. Só que tinha um “detalhe”: esse privilégio social me tornaria uma exceção no mundo que eu viria frequentar. O motivo: havia melanina demais na minha pele!

Nascer negra em uma família de classe média me tornava uma das poucas crianças negras, muitas vezes a única, na sala de aula da escola particular, no transporte escolar e no play do condomínio. A situação não mudou na adolescência, nem na universidade, tampouco hoje em dia aos quase quarenta anos e trabalhando como psicóloga em uma grande empresa. É muito raro encontrar outros negros nos cursos e viagens que faço, nos restaurantes que frequento, nos grupos que faço parte, usufruindo dos serviços que eu consumo e não somente prestando esses serviços. Cresci e vivo em um mundo de brancos num País onde os negros representam mais de cinquenta por cento da população!

Mas Anne, o que isso tem a ver com autoestima?

Absolutamente tudo! Ou pra começar, zero! Essa era a nota que eu poderia atribuir pra minha autoestima até poucos anos atrás.

A falta de referências foi sem dúvida uma questão que interferiu muito na minha baixa autoestima, mas quando falamos em racismo o buraco é bem mais embaixo. O pior passa a ser justamente o contrário: lidar com as referências mentais que todos nós, negros e brancos, temos associadas à cor da pele. São quase quatrocentos anos de história – e uma história mal contada – enraizada no consciente e no inconsciente de uma sociedade inteira. A questão é complexa e não é o foco desse post, por isso não vou me alongar no que é ou deixa de ser coisa de preto, mas digo que não foi fácil pra eu entender que o racismo é tão estrutural e arraigado que não está somente fora, mas também dentro de mim. Cada vez que segurei a minha bolsa ou apressei o passo quando vi um homem negro se aproximar na rua; cada vez que julguei a minha beleza ou falta dela baseada num padrão que é mais europeu que qualquer outra coisa; cada vez que…bom, eu poderia passar o resto do texto citando exemplos de atitudes minhas, no mínimo, preconceituosas.

Mas como assim? Uma pessoa negra pode ser racista? Pois é, minha gente, aí está um dos pontos de perversidade e complexidade da questão. Demorou pra eu me admitir nesse lugar, como imagino que muitas mulheres que reproduzem discursos machistas ou homossexuais homofóbicos não se vejam como tal. Mas admitir é o ponto fundamental pra mudança. Lembro de como fiquei impactada quando li pela primeira vez a frase de Paulo Freire: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor.” Tudo que não temos no Brasil é uma educação libertadora. Imaginem que há muita gente que acredita até hoje que abolir a escravidão foi vontade e generosidade da Princesa Isabel!!!

E no meio desse caldeirão tem a galera que acredita que tudo é mimimi e vitimização. Sem ironia alguma, eu adoraria fazer coro com essa galera! Isso significaria assumir que vivemos em uma sociedade tão justa, igualitária e respeitosa que alguém aventar que sofreu qualquer tipo de preconceito ou discriminação não poderia passar de ilusão da cabeça desse pobre cidadão. Até rimou, rs! Infelizmente eu não posso fazer parte desse coro por um motivo muito simples: racismo pra mim não é uma teoria abstrata ou algo cuja existência dependa da minha fé. É uma experiência, vivenciada quase que diariamente.

Mas voltemos ao resultado de tudo isso na minha história com a autoestima: uma criança absurdamente tímida! A sensação era que não tinha o direito de ocupar aqueles espaços. A todo tempo algo acontecia pra me lembrar que “aquele não era o meu lugar”. Eu praticamente pedia desculpas por existir e tinha pavor em desagradar qualquer pessoa: da professora mais sem noção ao coleguinha mais insuportável – eu bajulava todos! Me tornei a menina boazinha (o pior que pode acontecer a uma mulher, diga-se de passagem) e me adaptava a qualquer grupo que me acolhesse. Fui nerd, descolada, patricinha. Fui de goleira de handball a bailarina de dança do ventre.

Eis que veio o final da adolescência e foi nessa época, já com os cabelos completamente alisados e tendo na vaidade física quase uma obsessão, que eu descobri um outro “privilégio”: eu era uma mulata tipo exportação! Não vou aqui explicar a origem dessa expressão mas pra resumir o que habita o imaginário de muitos, conscientemente ou não, é que mulheres negras com certas características físicas pertencem a uma categoria que as torna mais “aceitáveis” – na verdade, mais desejáveis – do que outras mulheres negras, já que esses termos estão sempre ligados a uma hipersexualização e objetificação do corpo. Naquela época, cansada de inventar namorados imaginários para lidar com a rejeição, pertencer a esse grupo era como sair do exílio e eu investi nesse papel durante anos. Teve um período que achei que tinha que parar de ler Nietzsche e aprender a sambar. Não que uma coisa seja melhor ou pior que a outra, afinal o samba é uma expressão cultural que eu admiro e respeito muito! A questão aqui é o direito de escolha. O lugar que era esperado de mim e o que me fez acreditar que ocupá-lo era a única chance de ser amada e aceita.

A menina boazinha deu lugar a uma mulher sensual mas me trouxe de brinde uma agressividade e frieza gigantescas. Provavelmente para eu conseguir me manter em segurança – física, inclusive – e sobreviver a tantos conflitos internos e externos que eu não entendia direito. Mais tarde, já cansada de lidar com o título de globeleza, eu preferia ser encarada como séria e durona.

Foi somente de uns cinco anos pra cá, completamente desconectada da minha sensibilidade e sufocada por uma armadura moldada por medos, inseguranças e rancores que começou meu caminho de volta pra casa, de volta pra minha essência.

Entender a minha história e a história do meu povo foram os primeiros passos nessa estrada de autoconhecimento que incluiu terapias, estudos e principalmente, muito amor. Mais um privilégio! Sem dúvidas, o melhor deles. Estive cercada de pessoas muito especiais ao longo da vida e que foram fundamentais pra eu descobrir o amor-próprio e me reconectar com o meu afeto, minha doçura e minha alegria.

Não. Eu não sou a mulata globeleza ou do tipo exportação. Nem sambar direito eu aprendi, meu irmão! Eu sou apenas uma pessoa que como tantas outras, negras ou não, é cortada por defeitos e qualidades, sucessos e frustrações, amores e rejeições, mas com muito talento pra ser feliz!

Hoje sei que o “meu lugar” é onde eu quiser e faço questão de ocupar todos os espaços sem precisar me endurecer, agredir minha essência ou ser tão bélica quanto o mundo que habito já é. Parafraseando Martin Luther King: “Eu decidi ficar com o amor, o ódio é um fardo muito grande pra carregar!”

3 em Autoestima/ Comportamento/ Convidadas/ Destaque no dia 20.11.2017

Um recorte neste dia da Consciência Negra – por Maraisa Fidelis

Oi, prazer! Meu nome é Maraisa Fidelis, tenho 28 anos, marketóloga por formação e blogueira como profissão. Mulher negra.

Quando as meninas me convidaram para escrever em um dia com tanto significado (ainda mais no Brasil que muitas pessoas JURAM não existir racismo), fiquei pensando “Mas sobre o que abordarei no Futi? Como vou começar um assunto num blog que não é o meu e que preciso ter cuidado com minhas palavras?”

Eis que lembrei de algo que sempre paira em alguns momentos da minha vida. Quando saio para jantar, quando vou em determinados shoppings, quando visto determinadas roupas, nos meus vídeos, nas minhas postagens e até mesmo em olhares.

Mas Maraisa, do que você está falando? Do racismo sofrido todos os dias? Do que as pessoas te falam? De palavras agressivas? Não! Eu estou falando de algo que nem todos percebem mas incomoda: PESSOAS NEGRAS COM ASCENSÃO FINANCEIRA.

Comecemos do início (de maneira beeeem resumida). No Brasil, logo após a abolição da escravatura, os negros não tinham para onde ir. Sim, não eram mais escravos porém onde morariam? Do que viveriam? Foram libertos porém sem suporte algum. Sendo assim, muitos continuaram trabalhando para seus “senhores” em troca de apenas comida e lar; enquanto outros se afastaram dos centros urbanos. Por que se afastaram? Porque não eram bem quistos! Foram para as periferias. Dito isso, quem não entende porque a grande maioria dos negros moram em periferias, começa a elucidar a mente.

Os anos passaram e como nunca o Brasil fez algum plano para igualar essa dívida, para fazer com que os negros que herdaram essa exclusão da sociedade fossem incluídos novamente; a população cresceu acostumada. Acostumada com o fato de negro ser pobre, ser de periferia, não ter estudo e sempre trabalhar em empregos que não geram grande renda.

Porém, a história não se repete com TODAS as pessoas. Mesmo porque pessoas são diferentes e pessoas lutam para o melhor. Negros lutam e PRECISAM provar 2, 3, 10x mais que são melhores. Sim, creia, não basta eu ser formada, eu preciso provar muito mais do que uma mulher branca com a mesma idade e mesma formação simplesmente porque sou NEGRA. E a sociedade já parte do pressuposto que sou inferior.

Vou focar na minha vida agora tá? Acontece que nem todo negro é pobre, nem todo negro tem uma história de superação mostrando que saiu de uma comunidade, estudou e cresceu na vida. (O que eu admiro pra caramba e acho maravilhoso!).
Existem negros que desde pequenos estudam em colégios particulares sim. Eu e minha irmã. Nossos pais (também negros), trabalharam muito, mas MUITO para nos dar todo o suporte possível. Estudei 15 anos em colégio católico aqui em São Paulo e depois fiz a minha faculdade com meus pais pagando. Minha vida não foi de luxos, mas nunca me faltou NADA. Se eu queria o tênis da moda, eu tinha. Se eu queria comprar uma roupa na loja que todo mundo do colégio comprava, meus pais realizavam. E assim eu cresci sabendo que eu sempre posso mais e que a minha base foi boa o suficiente para eu ver que o céu é o limite.

Pois eu volto no começo do post e digo: negros quando consomem luxo incomodam. MARAISA VOCÊ TÁ LOUCA? Não, eu não estou. Incomoda por diversos motivos! Ao entrar em uma loja para comprar carteira a gente escuta “Vocês são daqui?”. Porque né? Para estar no Cidade Jardim comprando uma carteira em loja de luxo não pode ser uma família brasileira. Ao postar uma foto com a minha bolsa da Gucci um dos primeiros comentários que recebo “Essa bolsa é original?”. Mas Mara! Muitas pessoas usam bolsas falsas, não foi pessoal…. Ah para! Primeira bolsa mais cara que posto e as pessoas vem com essa? O pior que foi uma mulher negra. Falo de alguns livros que estou lendo e escrevem “Você tem faculdade?” Porque NOSSA COMO ELA FEZ UMA FACULDADE PAGA SEM SOFRIMENTO ALGUM?

Triste ver que algo a ser comemorado, algo que as pessoas deveriam ficar felizes, se torna um ponto questionável. Por que toda mulher negra tem que contar uma história de vida sofrida para sua luta ser validada? Por que o consumo de luxo por uma mulher negra passa a ser julgado e ela tida como “PRETA METIDA”? Por que ao invés de nos inspirarmos, apontamos o dedo e falamos “Ai, você usa muita coisa cara, as pessoas negras não tem dinheiro para isso, você deveria saber”

E VOCÊS ACHAM QUE EU NÃO SEI? É óbvio que eu sei! Não nasci ontem e sou muito lúcida do que acontece ao meu redor. Porém, quero que TODAS as mulheres negras se sintam capazes;  que todas as mulheres negras olhem e pensem “EU POSSO CHEGAR LÁ”. Eu quero viver num mundo onde, com o tempo, as políticas igualitárias melhorem e eu consiga ver muitas pessoas negras em centros de compras de luxo sem questionamentos ou pessoas apontando o dedo.

Essa é uma das minhas lutas e eu achei interessante comentar por aqui. Que passemos a admirar as pessoas negras que “chegaram lá”; que nos inspiremos e não duvidemos de sua capacidade intelectual. Que entendamos, de uma vez por todas, que negro consome luxo sim. Obviamente em menor quantidade do que os brancos (devido a herança histórica que é assunto para outro post), mas estamos aqui. E estaremos em todos os lugares.

Beijos
Maraisa Fidelis

1 em Autoconhecimento/ Convidadas/ maternidade no dia 13.11.2017

Ser mãe é se perder no paraíso

Não, você não leu o título errado e não, eu não fiz a Magda no ditado popular (#entendedoresentenderao, rs, acho que quem tem menos de 30 anos vai ter de dar um Google pra entender essa piadinha).

A verdade é que a maternidade é um baita de um choque. Isso porque não sou daquelas que acredita que mães são seres superiores de sabedoria onipotente, mas só entendi o tamanho das renúncias e a tamanho da repercussão das nossas decisões quando me tornei responsável por outro ser humano – no caso, mini seres humanos que não são capazes (ainda) de comer, beber, andar, se divertir, se acalmar.

Fora isso, de uma hora pra outra você passa a ser a mãe do fulano ou da fulana. No meu caso, eu deixei de ser a Carol pra ser a mãe do Rafael (e depois da Marina). Ou seja, nada mais natural que a sua identidade, no meio desse turbilhão todo, se perca.

E aí, a mulher que não vivia sem fazer as unhas toda semana conta nos dedos de uma mão quantas vezes conseguiu tomar banho na última semana. E aquela que não perdia um episódio da sua série preferida não sabe dizer nem o nome do apresentador do Jornal Nacional (ainda é o William Bonner, né? Hahahahahaha!!!!).

Tudo isso porque essas coisas que faziam parte das suas prioridades no passado, foram lá pro final da lista. E você meio que se obriga a renascer, a encontrar um novo jeito de ser você no meio desse turbilhão todo. Afinal, dizem que é na crise que a gente cresce, certo?

Vejam bem: estou exagerando um pouco (ser mãe é maravilhoso, tá?), mas as mães que estão lendo isso vão me entender: é um pouco assim que a gente se sente, uma versão meio rascunhada da gente mesma quando dedicamos tanto tempo assim a outra pessoa que não nós mesmas.

Enfim, a verdade é que esse descompasso foi, pra mim, uma oportunidade de me reencontrar. De reencontrar minha nova identidade como mulher – e até de me aceitar melhor. Veja: meu corpo está longe do que um dia eu considerei ideal. E mesmo assim, hoje me acho muito mais bonita do que eu me achava há uns 5 anos, antes de engravidar pela primeira vez. Parece que eu descobri o que eu realmente mais gosto em mim e aprendi a trabalhar com esse jogo de equilíbrio fino.

Dizem que é nos momentos de limitações de recursos (grana e tempo, pra citar os mais valiosos no geral) que a nossa criatividade aflora. E parece que ter menos tempo (e menos grana, claaaaaro – ou alguém aí já ouviu alguém dizer que ficou mais rycah depois de ter filhos? hahahaha) pra mim me ajudou a focar no que realmente importava.

E no que isso resultou? Na minha melhor versão em 36 anos de existência sobre a terra, sem a menor sombra de dúvida!

Mas ó, vale lembrar que isso só aconteceu com muito autoconhecimento, muita reflexão, muita cara no chão… afinal, se é na crise que a gente cresce, crescer tem lá suas dores. E as suas delícias, claro! :-)