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Cinema

0 em Autoestima/ Comportamento/ entretenimento no dia 13.11.2018

Aparência e talento não estão interligados. Ou melhor, não deveriam estar.

Você já foi assistir “Nasce uma Estrela?” Caso a resposta seja não, então preciso avisar antes de você começar a ler esse texto que ele contém alguns spoilers do filme. Se você já assistiu, vamos conversar sobre uma parte do filme?

Para quem não assistiu mas não se importa em ler sobre o filme, ele é sobre uma história de amor entre o Jack (Bradley Cooper), rock star super famoso, e Ally (Lady Gaga), uma cantora iniciante cheia de talento. Jack se encanta por Ally de primeira, quando a vê interpretando uma versão de La Vie en Rose em um bar de drag queens. A noite se estende e ele passa a conhecer um pouco mais de sua história e de sua música, depois disso ele passa a convidá-la para diversas participações em seus shows. É uma história de parceria musical, amor, cumplicidade e dor. O filme é lindo e super emocionante. Mas esse texto não tem a pretensão de ser um review do filme. Quero mesmo é falar da tal cena que me chamou a atenção logo no começo, quando eles se conheceram.

Logo no início, assim que eles se conhecem, Jack fica curioso sobre a carreira artística de Ally. É aí que ela diz que já havia mostrado o seu trabalho a diversas gravadoras e que eles até gostaram dela, disseram que ela tinha talento, mas que ela não estouraria por conta de sua aparência, mais especificamente o seu nariz. Jack na hora revidou a crítica das gravadoras elogiando sua beleza e seu nariz. O nariz vira, inclusive, uma piada carinhosa entre eles e aparece em diversos momentos importantes do filme. 

aparencia

Você pode achar que essa história de não ter feito sucesso por causa de um nariz é balela. Que foi posta ali no filme só para trazer um elemento que os telespectadores possam se identificar. Mas a verdade é que isso existe, muito mais do que a gente imagina. Saí do filme imaginando o tanto de gente talentosa que deve existir por aí que pode perder a chance de brilhar e encantar as pessoas com o seu talento por causa de sua aparência física…Quantos produtores, empresários, casting, gravadoras devem cortar pessoas por isso? 

Nem precisei fazer muito esforço para lembrar de exemplos que foram notícia. Ou vocês não lembram da Susan Boyle? Que ao entrar no palco de um show de talentos inglês foi vista pelos jurados com um certo olhar de deboche? Que ao falar que tinha 47 anos recebeu um olhar de “o que essa mulher está fazendo aqui” de Simon Cowell? E que durante sua apresentação fez toda a plateia – e os jurados – chorarem? Todo mundo ali naquele auditório duvidou de seu talento unicamente por causa de sua aparência. Talvez, se ela não tivesse se apresentado em um auditório com milhões de pessoas assistindo, ela nunca conseguisse um contrato.

Aparência não tem nada a ver com talento. Nem mesmo nas modelos de passarela ou de capa de revista. Não se esqueçam que nem Gisele Bundchen escapou disso. “Eu me lembro de algumas pessoas me dizendo que meu nariz era grande demais ou meus olhos pequenos demais, que eu nunca poderia estampar a capa de uma revista. Não foi fácil ouvir esse tipo de crítica aos 14 anos. Isso fez com que eu me sentisse insegura.” 

Voltando ao filme, Ally claramente acreditou que seu nariz era um problema de verdade. Que ele eclipsava seu talento. Seu pai, por exemplo, passou o filme dizendo que não virou Frank Sinatra por causa de sua aparência. Se não fosse Jack mostrando para Ally que isso era uma crença infundada, talvez nada acontecesse em sua vida. E aí eu penso: quantas pessoas super talentosas acham imediatamente que aparência e talento estão interligados?

0 em Autoestima/ Comportamento/ Destaque/ entretenimento no dia 05.07.2018

Sexy por Acidente, aquele filme que não poderia ser mais #paposobreautoestima

Em 8 anos de blog, nós nunca tínhamos sido lembradas e associadas à algo que tivesse a cara do nosso trabalho. Normal, por muito tempo esse blog era feito com muito amor mas não tinha nenhuma característica forte definida. Mesmo depois de termos criado o #paposobreautoestima e esse movimento ter ganhado vida própria, começamos a ser associadas com muitas histórias, frases e matérias, mas ainda não tínhamos vivido esse movimento da forma e intensidade que vimos quando o filme Sexy por Acidente foi lançado.

Amigas nossas que trabalham com imprensa e viram o filme em primeira mão já haviam falado com a gente há alguns meses. Quem mora aqui nos Estados Unidos – onde o filme foi lançado antes mas infelizmente eu não consegui ver – começou a nos mandar mensagens. Uma agência inclusive nos procurou para fazer uma ação para o lançamento desse filme e até sugerimos uma ação diferente, mas não fomos respondidas. Aí o filme lançou, e quando isso aconteceu, nosso direct simplesmente explodiu: “É a cara do papo!”, “é tudo o que vocês falam!” “é incrível!”. Bem, e daí que não rolou nenhuma ação, né? Não dava para não falar desse filme que, de fato, era a nossa cara.

Quando vi o trailer pela primeira vez confesso que fiquei um pouco desanimada. Ele lembra muito aquele filme “O Amor é Cego”, onde o cara é hipnotizado para ver apenas a beleza interior das mulheres e se apaixona por uma mulher gorda, que só ele tem certeza que tem a cara e o corpo da Gwyneth Paltrow. Durante quase 2 horas vemos aquele show de gordofobia que há quase 17 anos, infelizmente, era visto como piada.

A ideia de Sexy por Acidente parece a mesma, mas só parece (atenção, spoilers a seguir!): Amy Schumer interpreta Renné Bennett, uma mulher insegura e que tem como maior sonho ser bela, bate a cabeça e quando acorda, passa a se enxergar bonita. Em alguns momentos confesso que fiquei meio cabreira. Por exemplo, quando ela acorda ela pergunta para a mulher da academia se ela está vendo seus braços tonificados, sua barriga dura e afins, e eu só consegui pensar “putz, lá vai ela achar que virou padrão e só enxergar sua beleza por causa disso, nada de novo sob o sol dos filmes de Hollywood, não é mesmo?”.

Só que não. Achei maravilhoso que, por mais que ela passe a se enxergar de outra forma, em nenhum momento ela muda algo em seu corpo ou passa a mensagem que precisamos ser diferentes para sermos bonitas ou, mais importante, nos sentirmos bonitas. A autoconfiança, muito mais que a beleza, realmente vem de dentro e acaba refletindo fora.

Fica claro no filme que a insegurança que ela tinha vinha sempre da comparação que ela fazia com mulheres que ela considerava bonitas, e no momento que ela se botou em primeiro lugar e parou de olhar para o que as outras mulheres tinham (e consequentemente o que ela não tinha), tudo fluiu. Ela arrumou o emprego dos sonhos, parou de se importar com a opinião alheia e até arrumou um cara bacana, mesmo que esse não seja o objetivo do filme. Só que aí vamos para outro momento de tensão (e mais um spoiler): ela começa a exagerar na dose.

Me peguei tensa novamente porque fiquei com medo da mensagem que o filme poderia passar, afinal, ainda vivemos em um mundo onde a mulher que se ama demais e reconhece seus pontos fortes é vista como arrogante. E no filme, quando ela se vê bonita e passa a se sentir segura em sua própria pele pela primeira vez, ela começa a ter atitudes exageradas a ponto de suas amigas se afastarem, por exemplo. A arrogância até pode existir, mas ela não é uma característica inerente de uma boa autoestima, e fiquei realmente com medo do filme incentivar isso de uma forma. Mais uma vez fui surpreendida e não foi isso que aconteceu.

O slogan do filme é: "mude tudo sem mudar nada". E faz todo sentido!

O slogan do filme é: “mude tudo sem mudar nada”. E faz todo sentido!

A mensagem final me tirou algumas lágrimas dos olhos. Engraçado um filme bobinho e despretensioso ter feito isso comigo, mas fez. Em diversas partes eu me vi representada e me senti de certa forma vingada. É libertador ter sido criada em uma geração que endeusa O Diabo Veste Prada (e eu faço parte desse time) e poder ver um filme onde a personagem principal é ela mesma do começo ao fim e consegue tudo que ela quer sem precisar se adequar, se hipnotizar e, como Renné descobre no final, também não precisava ter batido a cabeça. Como eu falei no post de outro dia, não é um processo fácil chegar no ponto de equilíbrio, não se constrói uma autoestima boa e sólida no passe de mágica, e sim no olhar amoroso, que é o que acontece quando ela percebe que sempre foi a mesma pessoa. 

A autoconfiança e o amor próprio é algo que vem de dentro, e esse filme deixa isso muito claro. Quem estava na dúvida, pode ver sem medo. Vale a pena. :)

3 em Autoestima/ Destaque no dia 17.07.2017

Moana, seus cabelos e mais um exemplo da importância da representatividade

Como eu já mostrei algumas vezes no stories do Futi, Arthur está numa fase apaixonado por Moana. Não tinha ideia que na idade dele já existiria essa preferência por filmes de animação, mas desde que ele viu pela primeira vez na casa de uma amiga, ele fica louco toda vez que eu boto.

Recentemente ele começou com um truque novo, diariamente ele me leva para a frente da TV, aponta para cima e fica falando “Mô Mô”. Nem reclamo e boto sempre, afinal, Moana é aquele tipo de filme que só tem coisa boa para ensinar, as músicas são lindas e é uma delícia de ver. Acabei aprendendo todas as canções e acho que fico mais empolgada quando começa do que ele.

Até que depois de passar uma semana vendo Moana todo santo dia, eu resolvi dar uma olhada nos extras que estão disponíveis para quem comprou o filme. Nem sabia que era possível, mas eu fiquei mais apaixonada por essa personagem.

Eu não vi como foi o processo dos outros filmes recentes como Valente ou até mesmo Frozen, mas eu facilmente diria que de todas as produções da Disney dos últimos anos, o que mais me deu a sensação de imersão em outra cultura foi Moana. Pelo o que eu pude ver nos extras, foram aproximadamente 6 anos de pesquisas nas ilhas Pacíficas, com consultores locais dando os toques culturais em cada detalhe do filme, desde vestuário, coreografias e danças, o cabelo do Maui (durante muito tempo ele estava sendo feito careca!) até a forma errada que eles animaram uma Moana revoltada e jogando um coco longe (os consultores explicaram que na cultura deles o coco é um alimento que você divide com as outras pessoas da comunidade, por isso eles nunca fariam isso com uma comida). E apesar de ter muito pano para a manga, hoje quero falar sobre os cabelos.

Vamos começar por Fiona Collins. Ela é uma atriz neozelandesa que foi a responsável por emprestar seus fios para a criação da personagem. A equipe da Disney fez mais de 20 horas de filmagem com essa atriz, com todos os movimentos possíveis e texturas diferentes no cabelo, o que foi possível trazer tanta realidade para a animação. No fim do documentário extra, ela se emociona ao dizer que é gratificante saber que sua neta vai crescer e poderá se enxergar na tela do cinema.

Mas sabe, Moana é polinésia mas é uma inspiração para meninas do mundo todo. Desculpem o palavreado, mas Moana é um mulherão da porra – por mais que seja apenas uma adolescente – e seu cabelo faz parte do empoderamento de quem assiste, sim.

Vou inclusive me pegar como exemplo. Meus cabelos sempre foram ondulados, mas eu não tinha essas referências enquanto eu crescia. As princesas da minha época eram Branca de Neve, Aurora, Pocahontas, Cinderela, e a que eu mais me identificava, a Bela. Todas de cabelos lisos. Eu nunca quis alisar meus cabelos mas é inevitável que essa enxurrada de referências lisas me faziam ter certeza que, por mais que eu não reclamasse dos meus cabelos, eu sabia que eles não eram os mais bonitos que existiam.

“Seu cabelo é tão legal!” – Moana, não faça essa cara, é lindo mesmo!!

Eu fico imaginando como não seria maravilhoso ter 8 anos e crescer com uma heroína maravilhosa que nem ela com cabelos parecidos com os meus. Acho que nunca precisaria depender de secador e só aprender a me ver livre dele quando eu já tivesse meus 30 anos. Acho que nunca torceria para um belo dia meu cabelo alisar magicamente só para eu poder me sentir um pouco mais parecida com as princesas que eu gostava – ou cantoras e atrizes que eu admirava, todas lisas também.

Não dá para voltar no tempo, mas eu fico feliz ao ver que as meninas de hoje têm cada vez mais possibilidades de trabalharem suas autoestimas com personagens tão importantes e tão cheios de representatividade. E que continue assim, não é, mesmo Disney?